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A fé infantil

Crescia o menino e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele. Lucas 2.40
A visitação, el Greco
Quando perguntado sobre a partir de que idade deveriam ser as crianças batizadas, o meu velho pai sempre respondia com outra pergunta: Desde quando uma criança começa a crer em Jesus Cristo? Depois de comprovada a natural e consequente dúvida ele mesmo respondia: João Batista começou a crer no ventre materno, logicamente fazendo alusão à visitação de Isabel por Maria, quando ambas estavam milagrosamente grávidas.


Mais uma vez me recuso a entrar na milenar discussão sobre o batismo infantil, porém não posso deixar de verificar a pobreza da literatura cristã que para elas é produzida. Não falo apenas do repetitivo ciclo das lições doutrinárias da Escola Dominical, que parece não considerar a necessária evolução dos cristãos em todos os períodos da sua vida religiosa, mas também do nivelamento sempre abaixo da capacidade que as nossas crianças têm demonstrado em outros segmentos da vida.

Simplesmente lendo este texto acima, o qual foi sugerido pelo Calendário Litúrgico para hoje, não consigo sequer imaginar que Jesus tenha recebido de Maria e de José uma educação semelhante aos parâmetros daquela que administramos nas igrejas às crianças de hoje. Não consigo ver Jesus crescendo desta maneira com as lições das revistas atuais. Por outo lado fica pensando também sobre qual o quesito nos propiciaria ser possível fazer uma avaliação tão positiva como a que o evangelho fez da infância de Jesus: Crescia o menino e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele.

Em uma recomendação que tem por finalidade precípua orientar o comportamento de pessoas quase que estritamente não adultas, o evangelista João na sua primeira carta sugere: I Jo 2.12-14 - Filhinhos, eu vos escrevo, porque vossos pecados vos foram perdoados pelo seu nome. Jovens, eu vos escrevo, porque vencestes o Maligno. Crianças, eu vos escrevo, porque conheceis o Pai. Sem querer parecer tendencioso, mas tenho para mim que João enfatizou a atitude da criança como a mais importante, e a classificou como a geradora das demais. Para ele, as crianças tiveram a única atitude que poderia servir de caminho para que as duas também citadas e tantas outras pudessem ser levadas a cabo: Crianças, eu vos escrevo, porque conheceis o Pai. 

Tudo parte daquilo que ensinamos às crianças sobre Deus. Tudo parte do Deus que as apresentamos. Tudo parte do conhecimento que começa a se formar em suas mentes ávidas e curiosas sobre este ser que vai ser definitivo em suas vidas.
É exclusivamente por essa razão que a Bíblia se preocupou tanto em deixar parâmetros para a educação religiosa dos nossos filhos. Não é a toa que ela responde antecipadamente muitas perguntas que os nossos filhos fatalmente nos farão, e uma delas é sobre o conhecimento de Deus. Quem é Deus? Diz o Deuteronômio que quando os filhos dos hebreus faziam aos seus pais essa pergunta, eles respondiam algo assim: Olhe para nós, para a nossa família, veja como somos felizes. Mas antigamente não era assim. Nós éramos muito tristes porque éramos escravos no Egito. Mas Deus , o nosso Deus, nos tirou de lá com mão poderosa e braço estendido para o espanto de todos os povos. Esse é Deus, meu filho. Esse é o nosso Deus.

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A função do templo

Depois, entrando no templo, expulsou os que ali vendiam, dizendo-lhes: Está escrito: A minha casa será casa de oração. Mas vós a transformastes em covil de salteadores.Lucas 19.45s

Cristo expulsa os vendilhões, Jacob Jordaens
A História narra que pelo menos por duas vezes o Templo de Jerusalém foi profanado, não contando, é claro, as vezes em que ele foi completamente destruído pelos babilônicos e pelos romanos. Embora seu uso mais comum diga respeito ao trato indevido aos objetos de culto, a palavra profanar tem um sentido mais amplo que abrange também os elementos que fazem parte da estima coletiva. A punição para quem profanar uma sepultura é de 2 a 3 anos no Código Penal Brasileiro.


É interessante que se observe que na primeira profanação do templo, em 15 de dezembro de 157 a.C., quando Antíoco Epifanes colocou uma estátua de Zeus no santo dos santos, a população se indignou profundamente. Mais tarde, quando o templo estava sendo profanado pelos cambistas e vendilhões, o povo não mostrou qualquer sinal de indignação. Apenas Jesus se manifestou.

Já paramos para pensar quais seriam os fatores que determinaram condutas diferentes para as duas situações? Fatores como a época, os costumes e a própria condição financeira do templo poderiam explicar e até justificar. Contudo, eu me atreveria dizer que a grande distinção foi simplesmente o fato da profanação de Antíoco acontecer de fora para dentro, enquanto que a dos vendilhões e cambistas aconteceu de dentro para fora, e me atrevo a dizer que foi isso que fez e ainda hoje faz toda a diferença.

Ninguém precisa ser bom observador para constatar que nós, os cristãos, estamos sempre prontos para rechaçar qualquer investida de alguém que adentre os nossos templos em alto grau de entorpecimento seja por bebida ou drogas, impedir a entrada de alguém que esteja vestido inadequadamente ou mesmo portando objetos de cultos estranhos ao nosso. Estamos mais do que preparados para rebater qualquer crítica que seja endereçada às nossas igrejas e denominações, bem como nos sentimos totalmente aptos a defender com unhas e dentes todas as afrontas as nossas doutrinas. Mas não esboçamos a menor reação quando a profanação vem de dentro, quando vem dos engodos heréticos que nos são lançados diariamente ou através daqueles que nascem da nossa ignorância do evangelho e da verdadeira função do templo.

Chamamos as autoridades competentes para que o profanador seja levado a julgamento pelos seus atos, e nos alegremos muito ao ver a lei ser cumprida. Mas que chamará a polícia para nos prender? Quem dentre nós terá coragem de pegar no chicote para expulsar os mercenário e expurgar as heresias que definitivamente tomaram conta de nossas igrejas e que profanam cotidianamente os nossos templos? Parece que temos duas leis: uma severíssima e implacável para profanação por parte de estranhos, e outra bem mais complacente e permissiva para as nossas profanações particulares.

A minha casa será chamada casa de oração e será para todos os povos. A culpa por muitas das nossas atitudes passa justamente por aí: pelo total desconhecimento da função do templo. Casa é o lugar onde os filhos se abrigam, onde prevalece a fraternidade e tratamento igual. Casa é o local de descanso para onde se dirigem todos aqueles que estão cansados após um dia de trabalho extenuante. A casa de Deus, casa dos filhos de Deus. Lugar sem bandeiras, sem divisões de território, dirigida e guardada pelo Pai de todos nós. Oração é a oportunidade de restauração do espírito, do diálogo franco e aberto com Deus. É a hora da descontaminação de todos os maus pensamentos que nos deviam do nosso real propósito.

Uma vez que a casa se encontre limpa das profanações, torna-se o lugar propício para Jesus exercer o seu papel de mestre e nos ensinar coisas mais elevadas que ainda não conhecemos. 

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Retribuir com o quê?

Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Romanos 11.33-35
Sacrifício de Abraão, Andrea del Sarto em 1527
Por mais que se escorem em um versículo ou outro, logicamente interpretados tendenciosamente fora dos seus contextos, algumas doutrinas vigentes na igreja hoje são profundamente contrárias pensamento bíblico como num todo. Talvez a doutrina da retribuição que contempla um sacrifício seja a mais escandalosa delas.

O princípio desta doutrina, adotado em várias igrejas neopentecostais, a grosso modo diz o seguinte: Jesus fez o seu sacrifício para garantir ao mundo os bens da eternidade, você deve fazer o seu sacrifício para garantir os bens terrenos. Ou seja, se a sua única preocupação se encontra no mundo que está por vir, apegue-se ao sacrifício de Cristo, mas se os seus problemas estão presentes na sua vida atual, você tem que sacrificar e resolvê-los por si mesmo.

Ao procurar entender um pouco desta teologia, lembrei-me de Abraão quando decidiu ir ao monte Moriah sacrificar Isaac. Vejam se não é o mesmo princípio pagão básico. Eu tenho as dádivas que o meu deus pagão se sacrificou para me dar. Esse sacrifício exauriu as suas forças a ponto de não poder me conceder mais dádivas. O que eu tenho que fazer senão fortalecer o meu deus através do sacrifício do melhor que eu possuo? Somente fortalecendo-o eu posso garantir que meu deus continue me conceder dádivas ainda maiores. Posso até estar exagerando quando ofereço a vida do meu filho único, mas o que espero em troca coisas tão grandiosas que compensariam tamanha perda.

Pode ser que eu tenha exagerado na comparação, mas, com certeza, não exagerei ao expor o princípio do que rege essa doutrina. Quando sou desafiado a dar todo o meu salário, meu carro, minha única casa para garantir saúde, prosperidade e projeção pessoal; quando sou intimado a dar parte ou mesmo tudo do que exauri a minha vida trabalhando para conquistar; quando me vejo obrigado a escolher entre os meus problemas atuais e a pretensa vontade de Deus para a minha vida, posso penetrar um pouco no coração do pai Abraão quando se viu tentado a seguir um Deus diferente, ainda com as velhas exigências dos deuses antigos de seu povo.

Dá para perceber imediatamente que a diferença não está na consciência humana, ainda que alguns milênios nos separem de Abraão. Dá para perceber imediatamente que a diferença está nos deuses que povoam a mente dos homens desde os primórdios da humanidade e o Deus de Jesus Cristo. O salmista no salmo 50 já dizia: Eu não preciso dos touros das suas fazendas nem dos bodes dos seus rebanhos. Pois os animais da floresta são meus e também os milhares de cabeças de gado espalhados nas montanhas. Que a gratidão de vocês seja o sacrifício que oferecem a Deus. Ou seja, fica descartada de antemão qualquer necessidade que Deus porventura pudesse ter, que nós, seres humanos, pudéssemos suprir.

Porém, Paulo vai um pouco além. Suas palavras no texto supracitado evocam um princípio ainda mais remoto do que a necessidade imediata que qualquer sacrifício venha a suprir. Paulo fala da mente de Deus e do quanto os seus juízos estão acima dos nossos. Ele fala que não temos conhecimento de Deus suficiente para oferecer-lhe um sacrifício básico aceitável, e, por conta disso, nós não estamos aptos a fazê-lo. Fala também que ainda que estejamos imbuídos da falsa pretensão de que realizamos algo impactante que faça Deus mudar a sua mente, estaremos atrasados no nosso propósito, pois ele, antes de nós já antecipou a sua bênção.

Ainda bem que Abraão foi sensível ao toque de Deus segundos antes de cometer o maior erro da sua vida. É muito provável que se ele tivesse levado adiante o seu propósito, em vez de o Pai da Fé, como é conhecido hoje, Abraão seria chamado o Pai da Retribuição. Teria por isso o seu nome exaltado em vários outros livros da antiguidade, menos na Bíblia. Serviria de modelo a ser seguido para muitos líderes religiosos em todos os tempos, nunca por Jesus Cristo.

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Meu Deus que fez

Elevo os olhos para os montes: de onde me virá o socorro? O meu socorro vem do SENHOR, que fez o céu e a terra. Salmos 121.1s
Estátua de William Tell em Altdorf
Muito mais do que uma doutrina fundamentalista ou mesmo do que uma teoria inculta, como os adeptos do evolucionismo de Darwin costumam qualificar, a teologia bíblica da criação é um gênero literário que possui profundidade e coerência impressionantes. Ela não pretende simplesmente fazer uma exaltação tendenciosa do poder do Deus a quem adora, o que é comumente encontrado nas narrativas da criação que floresceram nas civilizações da antiguidade. Ela é antes de tudo um grito de liberdade e um suspiro de esperança diante da opressão que se mostra iminente e infinda. Ela é a resposta da fé que desafia as circunstâncias mais reais. O salmo 121 é o retrato mais fiel do que está sendo declarado agora, e uma análise rápida do texto vai confirmar este argumento.

Em primeiro lugar, este texto só faz sentido quando entendido a partir de um lamento por uma decepção de abrangência nacional e muito dolorosa. Ele deve ser entendido tendo como referência outro salmo, o 125, que diz: Os que confiam no SENHOR são como o monte Sião, que não se abala, firme para sempre. Este outro salmo resume o espírito de confiança que Israel tinha nas suas estratégicas defesas naturais, que eram os montes que circundavam Jerusalém, daí a usarem o monte de Sião como parâmetro. Mas Nabucodonosor transpôs os montes com seus elefantes, Jerusalém foi destruída e a nação arrasada e humilhada. É exatamente por isso que o salmista do salmo 121 começa o seu canto perguntando de onde viria o seu socorro, uma vez que os montes o decepcionaram grandemente.

A sua pergunta na situação em que se achava derrotado e oprimido, não tem como encontrar resposta em uma reviravolta no poder, como era comum naquele tempo e o foi em toda a história da humanidade. Os judeus nunca tiveram um passado de glória para se lembrarem com saudade. Seu apogeu, se é que assim podemos chamar, aconteceu em um breve intervalo de tempo em que o equilíbrio entre as grandes potências, do norte e do sul, era notório. Aconteceu em parcos e contestáveis oitenta anos, durante os reinados de Davi e Salomão, e ficou circunscrito à Palestina apenas. Isso não era nada diante do poder avassalador do Egito, Assíria e Babilônia que periodicamente arrasavam todo o mundo civilizado.

O salmista precisava manter viva a chama essencial de Israel como nação soberana, ainda que fosse apenas na consciência. Por isso que em primeiro lugar esse tipo de literatura é uma forma de afirmação política. Israel não era mais um país, seu povo não era livre, seu Deus não tinha mais templo e a consequência natural era a sua extinção. O salmista vem reafirmar o poder do seu Deus diante das divindades desses povos. Ele veio declarar que os deuses adorados nas figuras de animais ou através dos fenômenos naturais não passavam de criaturas do seu Deus. Que esse Deus estava consciente e insatisfeito com a situação e que em breve viria em socorro do povo. Seria preciso, no entanto, que esse se mantivesse fiel.

Em segundo lugar ele precisava manter viva a esperança do seu povo. Israel era herdeiro da promessa de ser reconhecida e reverenciada por todas as nações, e não seria mais uma das situações adversas que iria extinguir a chama dessa esperança. Israel tinha um propósito como povo de Deus que sobrepujava os fatores que constituíam a grandeza de uma nação. Era justamente nos tempos de opressão que a consciência da dependência de Deus emergia do caos. Não temos exército, não temos terras, não temos escravos, mas temos uma promessa de quem nunca falhou e nunca irá falhar, ainda que tardiamente se manifeste.

O que nos entristece hoje é ver o esforço do salmista se tronar vão, quando se vê o povo que se diz ser de Deus procurando lugares para tê-los como referência da sua fé. O poeta de Deus, como o chama o rev. Jonas, desde um passado longínquo está tentando nos dizer que o nosso socorro não está nos lugares que frequentamos, nas atitudes que tomamos, nos feitos que realizamos, mas exclusivamente em Deus. Não no Deus que se anuncia pelos falsos poderes das aparências, mas no Deus que estava no princípio assim como também estará no fim do céu e da terra. Contudo, tem algo também que nos surpreende alegremente. É ver que doutrinas e teorias vêm e vão, que os lugares santos aparecem e desaparecem, mas a confiança nas mais simples promessas de Deus permanece inabalável no coração do que crê.

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O que é CONVERSÃO?

A conversão de Paulo, Michelangelo em 1545
Para dar uma resposta sintética segundo a Bíblia, diríamos que conversão é procurar o bem em vez do mal. O profeta Amós dizia: Buscai o bem e não o mal, para que vivais; e, assim, o SENHOR, o Deus dos Exércitos, estará convosco, como dizeisO pensamento hebraico, porém, conhece além desta noção de conversão, a ideia de transformação moral, na qual o homem renuncia a sua conduta individualista anterior, para aderir a um plano nacional de salvação. Como Israel era uma nação teocrática, a intensidade desta mudança dependia de um lado do ideal religioso que é proposto, e do outro do grau de afastamento desse ideal.

Na pregação dos profetas a conversão é um acontecimento universal, que abrange tanto a moral quanto a religiosidade, pois significa abandonar a relação com os ídolos, que fazia com que os homens se descuidassem das coisas de Deus. Tanto Oséias quanto Amós pregavam que a conversão deveria ser urgente, posto que o juízo de Deus aproximava-se inexoravelmente na forma de uma catástrofe nacional. Oséias e Jeremias enxergavam a infidelidade da Israel para com seu Deus, como a de uma esposa adúltera, para com a qual Deus ainda insistia em preservá-la pelo seu amor, o que não faria por muito tempo. Ainda assim, estes profetas frisavam que a conversão de Israel não poderia ser uma obra humana, mas que dependia da interferência de Deus.

O julgamento e o castigo que se aproximavam, porém, não eram as palavras finais de Deus. Depois deles viria conversão e salvação: Dar-lhes-ei coração para que me conheçam que eu sou o SENHOR; eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus; porque se voltarão para mim de todo o seu coração. (Jr 24.7)

Após o exílio nota-se a mudança para uma piedade mais individualista e legalista. A conversão passa a ser de responsabilidade pessoal, não importando tanto as atitudes alheias. Já se encontra também as primeiras noções de livre arbítrio e um conceito mais pessoal do pecado, diante dos quais o homem é soberano para optar e responsável direto pelas consequências.

Tanto João Batista quanto Jesus começaram as suas pregações com exortações à conversão motivadas pela proximidade do Reino de Deus. Os exegetas dizem que o verbo empregado por eles não tem o sentido de arrepender-se ou de fazer penitência, mas de uma reviravolta interna em todos os aspectos da ação humana. Era o fim da religiosidade externa em que importava apenas a obediência a um código de regras, e o início da consciência de que Deus exige um ideal de vida e compromisso muito mais elevado do que um cumprimento de leis pode alcançar.

A pregação apostólica, valendo-se da morte e ressurreição de Cristo, como também da missão do Espírito Santo em nosso meio, estendeu os limites da ação de Deus a todas as criaturas, e não mais se restringindo aos perdidos de Israel. A conversão deixa de ser uma mudança de atitude para ser um ato de fé, em que não somente sobre as coisas que intelecto compreende, mas aceita o sobrenatural como manifestação possível e esperada de Deus. A fé é demonstrada pela aceitação do evangelho, onde o homem passa do mundo das trevas para o Reino da verdadeira luz.


Os favores da conversão não são alcançados plenamente neste mundo. Existe uma realidade maior e mais plena do que o estado de coisas pela qual vale a pena todos os riscos e perdas. Não que necessariamente ocorram estas perdas ou que elas alcancem o limiar do suportável, mas a conversão exige que o homem esteja pronto para enfrentá-las pelo poder da fé. Paulo dizia que as perdas não tem parâmetros de comparação com aquilo que aguarda o fiel no Reino de Deus. E dizia mais: qualquer sofrimento era pequeno para quem já estava condenado, como uma ovelha, ao matadouro. Mas que em todas as coisas ele era mais do que vencedor, não pelos méritos da sua conversão, mas pelo amor de Deus que o amou quando ele ainda era um não convertido pecador.

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O que é HUMILDADE? II

O caminho da cruz, Domenico Zampieri (1581-1641)
O Segundo Testamento vem anunciar que Jesus é o Messias humilde, mas que é também o Messias dos humildes, aos quais anuncia as boas notícias e sobre quem lança as bem aventuranças. Como modelo de humildade e confiança Jesus apresenta uma criança para, a partir dela, descrever o praüs, aquela pessoa que é totalmente submissa e dependente de Deus. Jesus não somente qualifica as crianças para o Reino de seu Pai, como diz que o Reino é delas e de quem se tornar como elas. Para tornar-se como uma criança é preciso entrar na escola de Jesus, o Mestre por excelência: Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. (Mt 11.29)

O Mestre não é simplesmente um homem que passa bons ensinamentos. É o Deus encarnado que veio redimir os pecadores assumindo a sua forma e semelhança. Não veio procurar a sua própria glória, mas se humilhar a ponto de lavar os pés daqueles que o traíram e o abandonaram. Jesus abre mão de todos os seus atributos divinos para morrer a infamante morte de cruz pela nossa redenção. Paulo na Carta aos Filipenses entoa um hino que era bem conhecido da comunidade e que retrata fielmente o processo da salvação levado a cabo por Jesus: Pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. (Fp 2.6ss)

Em Jesus se revela não somente o poder divino sem o qual não teríamos sido criados, mas o amor divino sem o qual estaríamos perdidos. Santo Agostinho dizia que a humildade é o sinal de Cristo que deve ser seguido, pois somente no caminho da humildade o amor subsiste. Onde está a humildade aí está amor, dizia o grande teólogo. Os que se revestem de humildade em suas relações mútuas buscam antes o interesse dos outros, deixando os próprios em último lugar: Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros. (Fp 2.4)

Na série Fruto do Espírito de Gálatas 5,22, Paulo coloca a humildade ao lado da fé, que, segundo Sabedoria 45.4, são as duas características fundamentais de Moisés e do Servo Sofredor. Elas estão de fatos ligadas, sendo ambas atitudes de abertura para Deus, de submissão confiante na sua graça e de fidelidade à sua Palavra.

Deus olha os humildes e a eles se inclina, pois eles não se gloriam senão da própria fraqueza e se abrem para que a graça aja plena e eficazmente neles. O humilde não alcança unicamente o perdão dos pecados, mas é nele que se revela a sabedoria do Deus Onipotente, a sabedoria que o mundo despreza. A humildade e o despojamento daquele que veio preparar o seu caminho; a humildade e submissão da virgem que lhe serviu de mãe; a humildade e realização das promessas nos idosos que o reconheceram no templo; a humildade e solidão dos pastores na noite escura, são a marca da chegada daquele a quem, pela entrega humilde de si, Deus o fez Senhor e Cristo.

Aquele que comunga as humilhações de Cristo e que se coloca ao lado e em favor dos humildes de Deus, será exaltado e participará da glória do Filho de Deus. Com todos os humildes ele há de cantar eternamente a Santidade e o amor do Deus que neles fez grandes coisas: Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder, porque todas as coisas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas. (Ap 4.11)


No Primeiro Testamento a Palavra de Deus conduz o homem à glória pelo caminho da humilde submissão a Deus, seu criador e mantenedor. No Segundo Testamento esta palavra se fez carne para levar o homem à perfeita humildade, que consiste em servir a Deus através do serviço às pessoas, em se humilhar por amor para glorificar a Deus, que continua até agora o seu trabalho de salvar os homens.

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O que é HUMILDADE? I

O sepultamento, Carl Heinrich Bloch em 1873
A humildade bíblica é em primeiro lugar a modéstia que se opõe à vaidade. Livre da insensatez da pretensão, o humilde não confia na sua própria sabedoria: Não sejas sábio aos teus próprios olhos; teme ao SENHOR e aparta-te do mal. (Pv 3.7)
A humildade que se coloca em oposição à soberba está em alta conta, pois ela espelha a atitude correta da criatura pecadora diante do seu Criador. O humilde reconhece que recebeu de Deus tudo que possui: Pois quem é que te faz sobressair? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te vanglorias, como se o não tiveras recebido?  (I Co 4.7); que é um servo inútil e sem valor: Assim também vós, depois de haverdes feito quanto vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos fazer.(Lc 17.10); que ele não é nada a mais do que um pecador: Porque, se alguém julga ser alguma coisa, não sendo nada, a si mesmo se engana. (Gl 6.3); e que sempre aberto à graça de Deus. Este é o servo bom e fiel a quem Deus irá glorificar: Certamente, ele escarnece dos escarnecedores, mas dá graça aos humildes. (PV 3.34) Sem qualquer parâmetro é a humildade de Cristo, que por sua humilhação salva e desafia os seus discípulos a servirem em humildade por amor, para que toda a glória seja dada a Deus: Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus. (Mt 5.16)

Israel aprende a ser humilde experimentando um Deus Onipotente, que o liberta da escravidão sem que este possua qualquer mérito ou valor: O SENHOR Deus os amou e escolheu, não porque vocês são mais numerosos do que outros povos; de fato, vocês são menos numerosos do que qualquer outro povo. (Dt 7.7) Em seus cultos, Israel tentava conservar viva esta lembrança, celebrando e rememorando os feitos de Deus. Louvores e ações de graças são devidos ao Deus único, a quem se deve todas as coisas. Israel experimentou também a humilhação na provação coletiva do exílio babilônico. Apesar de alertado pelos profetas, escolheu o caminho da soberba, e da autoconfiança. Sua história é o padrão registrado da natureza humana, que dá as costas ao Criador para exaltar a si e as coisas visíveis que não consegue explicar. Mas Deus a convida a voltar-se para ele com coração humilde e contrito. Mostra que no serviço ao próximo está o valor da confiança em um Deus justo, e da dependência em um Deus de misericórdia.

O homem que se inclina a voltar-se para ele recebe um coração novo, não mais empedernido pelo pecado, mas humilde e dócil. Aqueles que lhe são dependentes muitas vezes são chamados de pobres na Bíblia: Porque o SENHOR responde aos necessitados e não despreza os seus prisioneiros. (Sl 69.33), mas esta palavra, em vez do seu sentido clássico que designava a classe social dos infelizes, é ressignificada, porque procurar a Deus é investigar na pobreza e cavar na humildade, porque após o grande Dia do Senhor restará no meio do povo apenas o humilde e o pobre: Mas deixarei, no meio de ti, um povo modesto e humilde, que confia em o nome do SENHOR. (Sf 3.12)

Não é sem causa que os modelos de humildade do Primeiro Testamento foram Moisés, a antítese do herói, e o Servo Sofredor de Isaías, que é submisso até a morte. Assim o Deus Altíssimo pode habitar livremente em seus corações. Em suas próprias vidas e ministérios preconizaram a vida e o ministério do Messias prometido.

Conhecimento e temor são frutos da humildade. Somente essa humildade conduz o homem à riqueza de espírito, à glória da imagem de Deus e à vida abundante. O Espírito do Deus Altíssimo habita naquele que é humilde e cujo coração é contrito. O próprio Deus se encarrega de defendê-lo contra toda a arrogância e injustiça: Não tire vantagem do pobre só porque ele é pobre, nem se aproveite daqueles que não tiverem quem os defenda no tribunal. Pois o SENHOR defenderá a causa deles e ameaçará a vida de quem os ameaçar. (Pv 22.22s)

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O que é MÁRTIR?

Martirio de cristãos, Konstantin Flavitsky  em 1862
Embora para nós este termo designe aquele que é morto por uma causa, na sua raiz etimológica ele significa aquele que presta testemunho nos planos histórico, jurídico ou religioso. No contexto judaico cristão a tradição fez uma aglutinação dos dois sentidos e fixou a ideia de mártir como aquela pessoa que dá exclusivamente um testemunho de sangue, dispondo-se a sofrer a mesma penalidade que aquele a quem defende com o seu testemunho está prestes a receber. O uso do termo aparece no Segundo Testamento designando aquele que dá a sua vida por fidelidade ao testemunho de Jesus Cristo: Conheço o lugar em que habitas, onde está o trono de Satanás, e que conservas o meu nome e não negaste a minha fé, ainda nos dias de Antipas, minha testemunha, meu fiel, o qual foi morto entre vós, onde Satanás habita. (Ap 2.13)


O próprio Jesus se identifica como o mártir de Deus. No seu sacrifício voluntariamente aceito, ele dá efetivamente o testemunho supremo da sua fidelidade à missão que o Pai lhe confiou. Segundo o evangelista João, Jesus não somente conheceu de antemão como também livremente aceitou a sua morte como a perfeita homenagem que deveria ser prestada ao seu Pai: Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la. Este mandato recebi de meu Pai. (Jo 10.18) Para que não pairasse dúvidas quanto à finalidade da sua missão ele igualmente a confirma diante de Pilatos, que era quem detinha o poder de promulgar a sentença de morte: Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. (Jo 18.37)

Para Lucas, é a Paixão de Jesus que sublinha os traços que o definirão para sempre como o mártir por excelência da fé cristã: conforto da graça divina na hora da angústia; silêncio e paciência diante das acusações e dos ultrajes; inocência reconhecida por Pilatos e por Herodes; esquecimento dos próprios sofrimentos; acolhida prestada ao ladrão arrependido; perdão concedido a todos os que os traíram, o martirizaram e o abandonaram.

Com profundidade mais acentuada, o Segundo Testamente reconhece Jesus como o Servo Sofredor anunciado por Isaías. Nesta perspectiva, a Paixão de Jesus aparece como essencial à sua missão. Do mesmo modo que o Servo deve sofrer e morrer para justificar multidões, –Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará satisfeito; o meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento, justificará a muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si. (Is 53.11) – Jesus deve passar pela morte para trazer ao mundo a redenção dos pecados: Tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos. (Mt 20.28) Este é o sentido do “é preciso” que Jesus repetidas vezes reitera em suas pregações. O desígnio da salvação de Deus passa pelo sofrimento e pela morte da sua testemunha maior.

Não foi assim com os profetas? As testemunhas de Deus anteriores a Jesus não foram perseguidas e condenadas à morte? Não é uma coincidência acidental. Jesus se reconhece como a testemunha que consuma o plano divino fielmente testemunhado pela tradição profética. Mostrando também fiel a esta tradição, marcha para Jerusalém, porque: não convém que um profeta pereça fora de Jerusalém. Esta paixão faz de Jesus a vítima expiatória que substitui todas as vítimas de sacrifício até então, pois sem derramamento de sangue não pode haver redenção. (Hb 13.33 e 9.22)

O martírio de Cristo fundou a igreja. A igreja, por sua vez, é chamada para dar testemunho de que aquele martírio é a salvação de todos. Esse testemunho deve assegurar que Jesus não foi simplesmente alguém que morreu por testemunhar a sua fé, como passariam a ser aqueles que mais tarde seriam suas testemunhas. Jesus veio para ser a plenificação do Messias, aquele que veio definitivamente salvar o Israel de Deus e restaurar a filiação que havia se perdido com o pecado. Nesse sentido ele adverte que os que se propusessem a segui-lo sofreriam perseguições, torturas e até morreriam, pois foi exatamente isso que fizeram com ele.

Não é sem razão que o martírio de Estevão provocou, além da expansão da igreja para fora dos muros de Jerusalém, o que muitos teólogos afirmam ser a principal motivação da conversão de Paulo. O livro do Apocalipse, em vez de ser lido como meras previsões de futuro, deveria ser considerado o livro dos mártires. Aquelas fiéis testemunhas que deram à Igreja o ao mundo a prova cabal de que vale a pena morrer por um Senhor que deu a sua própria vida para que tanto a nossa vida quanto a nossa morte não fossem em vão. 

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Sermão também faz tipo

A pregação de Noé, Harry Anderson (1906-1996)
Certa vez, ao pregar em uma pequena igreja, percebi que a congregação era composta apenas de membros e que não havia entre os presentes visitantes ou pessoas estranhas ao culto cristão. Disse que ia aproveitar aquela oportunidade para fazer um “sermão para crentes”, referindo-me ao tipo de pregação que eu ia praticar naquela hora. Ao terminar fui interpelado por uma jovem com a seguinte pergunta: Existe mais de um tipo de sermão? Minha vontade era dizer um enfático sim, mas dado aos sermões que podem ser observados com frequência nas televisões e na maioria das igrejas que fizeram opção pelo sistema neopentecostal de culto, tive que me conter, dar algumas explicações, para finalmente poder responder positivamente aquela pergunta.

O fato é que, por incrível que pareça, há uma variedade apropriada de sermões, e que deveria ser utilizada em toda a sua extensão durante os cultos dominicais. Sem querer dar uma aula sobre o assunto, mesmo porque fui aluno de monstros da homilética, como Amir dos Santos, Nathanael Inocêncio e Jonas Rezende, dos quais não sou digno sequer de desatar as sandálias quanto mais me colocar em seus lugares, passo a fazer aqui um breve resumo do que aprendi sobre esta bendita variedade de tipos de sermão.

Os compêndios de homilética, ou a arte de falar em público, afirmam que há três tipos de sermão: sermões tópicos, sermões expositivos e sermões textuais.

Sermões tópicos são aqueles que versam sobre um assunto ou tema específico e dele não se desviam. Podemos dar como exemplo os sermões que falam sobre santidade, oração, amor ou qualquer outro tema abordado isoladamente. É o tipo de sermão que exige um conhecimento razoável de Teologia Sistemática, uma vez que o pregador deve se valer de toda a Bíblia, pois os sermões tópicos precisam encontrar os seus argumentos nas várias etapas da história da salvação e conciliá-los satisfatória e convincentemente.

Sermões expositivos são aqueles que desenvolvem trechos das Escrituras em uma unidade de pensamento. O pregador pode e deve apresentar outros textos bíblicos, mas a sua referência sempre será o texto indicado para a meditação. É o tipo de sermão que exige uma boa quantidade de material auxiliar, pois o texto em questão deve ser aprofundado o quanto mais, para que ele revele a sua mensagem central, que na maioria das vezes está escondida por trás de palavras diametralmente opostas a ela. É o sermão que exige uma luta tão ferrenha como a de Jacó em Peniel.

Sermões textuais são aqueles que são desenvolvidos a partir de um único versículo da Bíblia. São geralmente usados para públicos que dispõem de pouca capacidade de atenção e abstração, como crianças e idosos. São muito utilizados também em cerimônias fúnebres, casamentos ou cultos de ação de graça. Esse é um sermão temático, cujos argumentos de maior relevância vem unicamente do versículo proposto. Alguns outros versículos podem ser citados, desde que estejam relacionados ao versículo central e ao tema abordado para que não haja divagações nem necessidade de elucubrações profundas devido à brevidade da pregação e ao público alvo.

Mas eu arriscaria dizer que há subdivisões nessas classes. Podemos citar sermões doutrinários, evangelísticos e até parenéticos. A variedade é grande, não razão alguma para que o pregador fique constantemente enaltecendo as suas virtudes, o valor de seus familiares ou mesmo a grandeza e operosidade da sua igreja. Importa que ele cresça e eu diminua, é a cláusula pétrea instituída por João Batista.

O bispo Almir dos Santos dizia que o sermão não é para agradar ninguém, e sim para converter. Para ele havia apenas duas maneiras de se sair uma pregação, cristã: chutando o balde ou convertido. Contudo, vou continuar fazendo sermões para crentes tantos quanto puder. Nada deveria dar mais prazer ao pregador sério do que falar para uma congregação composta de bereanos: aquelas pessoas da cidade de Bereia que receberam as palavras de Paulo com avidez, mas que ao mesmo tempo recorriam às Escrituras para comprovar a veracidade da sua pregação. (conf. At 17.10s)

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O que é PENTECOSTES?

Pentecostes, Emil Nolde em 1909
A palavra grega pentecostes significa que a festa celebrada neste dia tem lugar cinquenta dias depois da Páscoa. O seu objetivo, que anteriormente agrário, passou a celebrar o fato histórico da aliança, para no Cristianismo se tornar a festa do dom do Espírito que inaugura a nova aliança. Sua origem é a festa das Sete Semanas, que assinalava o início da colheita das primícias da terra. Era um dia de alegria e de ação de graças pelos primeiros feixes de alimento que estavam sendo colhidos. Nesta data, segundo Êxodo 19, foi firmada por Deus, através de Moisés, a aliança com seu povo. Contudo, esta comemoração passou a acontecer apenas no segundo século antes de Cristo.


A sua consumação para o mundo cristão se dá no derramamento do Espírito de Deus sobre todas as suas criaturas, ou, como disse Pedro, sobre toda carne. É uma teofania que segue de perto as revelações de Deus no Primeiro Testamento, antecedida de vento e fogo. Um duplo milagre realça o sentido do acontecimento: os apóstolos tomam coragem para falar das maravilhas de Deus, inclusive em outras línguas, e o carisma da oração com o qual a comunidade primitiva se caracteriza. O que no princípio foi considerado pelos não cristãos como palavras incompreensíveis, esse falar em línguas era plenamente compreendido por todos os que estavam assistindo, num sinal evidente de que a vocação universal da igreja é ter ouvintes de todas as partes do mundo.

Pela citação do profeta Joel, Pedro mostra que o Pentecostes cumpriu uma antiga promessa de Deus: que no final dos tempos o Espírito seria dado a todos. João Batista já havia anunciado que aquele que haveria de batizar com o Espírito, já havia chegado. Anuncio conformado por Jesus que assegura aos discípulos esse mesmo batismo se daria poucos dias após a sua ressurreição, não somente consumando a Páscoa, como também a levando à plenitude.

Os profetas já haviam anunciado que os dispersos seriam reunidos no monte Sião, assim a assembleia de Israel estaria finalmente unida em torno de seu Deus. O Pentecostes, realizado em Jerusalém, amplia esta proposta, agregando judeus, prosélitos e pessoas de todas as partes do mundo que comungam o amor fraterno. Todos são bem vindos à mesa eucarística. O Espírito é dado visando um testemunho que alcançará as extremidades da terra. O milagre da audição enfatiza que a comunidade inaugurada pelo Messias, extrapola os limites de Israel, inverte os acontecimentos de Babel e confirma o derramamento do Espírito, aguardado com anseio desde os profetas.

O Pentecostes também inaugura o início da missão. Muito diferente do que foi entendido na antiguidade, quando pessoas eram convertidas ao Cristianismo ou eram executas, a missão proposta por Jesus comissionava apenas testemunhas que estariam prontas, no dizer de Wesley: para pregar ou morrer. Antigos teólogos comparavam este novo batismo, uma espécie de investidura apostólica, ao batismo de Jesus, realizado por João no rio Jordão. No Pentecostes foi dada a igreja a confirmação de que os céus estão abertos para derramamento constante do Espírito sobre todos os filhos de Deus, no que se podia considerar uma nova criação.

Mas o Pentecostes também revelar o mistério da salvação. Se no passado o aspecto exterior das teofanias de Deus era passageiro, o dom da Igreja é definitivo. O Pentecostes inaugura o tempo em que a Igreja na sua peregrinação santa ao encontro de Deus, vai, com certeza absoluta, encontrá-lo, quer seja na fé, no amor ou na esperança. Porém, com a mesma certeza será enviada de volta ao mundo, onde a sua peregrinação será ratificada como santa.

Os Atos dos Apóstolos ou Evangelho do Espírito Santo revelam a atualidade permanente desse dom, tanto pelo papel que o Espírito tem na direção da atividade missionária da Igreja, como nas manifestações mais visíveis da sua presença entre nós. O Pentecostes anuncia que o Messias prometido veio, e estará sempre vindo ao encontro daquele que voluntária ou involuntariamente o anseia, através de um derramamento que é sem medida, sem acepção de pessoas e tão incondicional quanto a graça.

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O que é APOCALIPSE?

Arcanjo Miguel, Guido Reni em 1636
Muito mais abrangente do que o conhecido livro que sustenta este título, o Apocalipse faz parte de um segmento da literatura hebraica que é inconcebível a todas as outras culturas que já habitaram o nosso mundo. Sua origem vem do grego apocalotein, que significa desvendar, revelar ou simplesmente tirar o véu: Certamente, o SENHOR Deus não fará coisa alguma, sem primeiro revelar o seu segredo aos seus servos, os profetas. (Am 3.7) Apenas nas Escrituras encontramos esse verbo indicando que tais revelações são de origem divina, sentido que não é encontrado no grego clássico ou popular.


Portanto, baseando-se exclusivamente na etimologia não há como chegar ao significado que este tipo de literatura tem para o pensamento judaico-cristão, pois qualquer definição que leve em conta esses fatores, exprimiria apenas a forma característica, nunca o seu conteúdo.

Os apocalipses da Bíblia formam um gênero literário à parte, que nasceu e floresceu no século II a.C. e se extinguiu por volta do século I d.C., um dos períodos mais angustiantes do Judaísmo. Eles começaram a aparecer durante a perseguição que Antíoco IV, o Epífanes, empreendeu sobre os judeus. Não havia mais profetas, então, debruçados sobre os oráculos de Deus contidos no Primeiro Testamento, o povo começou a buscar respostas que permitissem ver através das circunstâncias extremamente negativas, o caminho para o prometido futuro glorioso. Este modo de pensar encontrou respaldo nos textos canônicos dos profetas Isaías, Ezequiel, Zacarias e Joel, que já forneciam exemplos do gênero apocalíptico: O sol se converterá em trevas, e a lua, em sangue, antes que venha o grande e terrível Dia do SENHOR. (Jl 2.31)

Esta literatura caracterizava-se por uma fantasia exuberante, muitas vezes bizarra, que lançava mão de imagens antiquíssimas, de mitos da criação, e de fatos ocorridos com civilizações já extintas, para codificar uma mensagem, que para sua época era atual, mas que somente podia ser interpretada e entendida por aqueles que conheciam os elementos passados e presentes da sua história, e os confrontavam com as Escrituras Sagradas. Animais simbolizavam homens; as feras, os povos pagãos; os anjos foram divididos entre: os dignos de honra, que eram as pessoas que permaneceram fiéis, e os anjos caídos, as pessoas que haviam apostatado da fé. Usavam essas figuras para descreverem o futuro dentro de um esquema fixo, quase determinista, que fatalmente se consumaria no final da história humana.

Quase sempre o autor se transportava duzentos ou mais anos no passado, para falar do futuro recente deste tempo, que, tanto para ele quanto para a sua geração, já há muito havia se consumado. Nesta consumação, Israel tem um lugar de destaque, salvaguardado de todo o cataclismo resultante, considerando a si mesmo a razão primordial dessa avassaladora manifestação de Deus. Quem olha atentamente para certas manifestações dos cultos cristãos de hoje, pode ter uma ideia bem aproximada do que consistia a prepotência dessa exclusiva eleição, agravada pelo fato de não nos encontrarmos em situação de perigo real, como era exatamente o passado desses autores judeus.

Esses escritores devem o seu conhecimento às visões, que não eram acessíveis à maioria das pessoas. Valiam-se vez por outra de um angelus interpres, anjo intérprete, que acompanhava o vidente, e o consolava em suas crises com explicações mais complexas do que as próprias visões. Os autores também utilizavam a autoridade de uma personalidade do passado para respaldar os seus escritos. Abraão, Enoc, Adão entram como a pseudepigrafia do texto para sugerir que a obra esteve guardada por séculos, e que foi preservada justamente para aquele grupo, para ser divulgada somente naquele tempo.

Como se pode ver, a literatura apocalíptica em nada se assemelha à astrologia babilônica, à mitologia grega, ao Zoroastrismo ou a qualquer forma de oráculo revelador do futuro. Além disso, esta literatura do período intertestamentário é a ponte que associa definitivamente esses dois Testamentos, pois ela anuncia que o fim de todo tipo de opressão é chegado, e que a liberdade pode ser experimentada neste mundo, a despeito de qualquer situação que se pronuncie como contrária.

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O que é ADORAÇÃO?

Visões de Ezequiel, Francisco Collantes (1599-1656)
Ezequiel diante da glória de Deus, Saulo ante a aparição de Cristo ressuscitado se veem atirados por terra como que aniquilados. A santidade e a grandeza de Deus tem algo de esmagador para a criatura, fazendo-a mergulhar no seu nada. Se é excepcional o homem defrontar-se com Deus numa experiência direta, é normal que no universo e durante a sua existência que ele reconheça a presença, a ação de Deus, sua glória e sua santidade. A adoração é ao mesmo tempo espontânea e consciente, imposta e desejada, da reação complexa do homem arroubado pela proximidade de Deus: consciência aguda de sua insignificância e de seu pecado, confusão silenciosa e veneração trêmula e reconhecida, homenagem jubilosa de todo o seu ser.

A adoração de fato invade todo o ser, essa reação de fé se traduz em gestos exteriores. Não é verdadeira a adoração sem que o corpo empolgado e consciente exprima a soberania do Criador sobre a criatura. Mas o pecado faz com que o homem fuja da presença de Deus e reduza a adoração às manifestações exteriores programadas e gestos copiados.

O gesto de adoração é basicamente a prostração, mas assume no culto a forma de consagração, através da iniciativa de entrega da criatura dividida entre o pânico e a fascinação. A prostração antes de ser um gesto espontâneo é mais uma atitude imposta pela força de um oponente mais poderoso. Para evitar ser forçado pela violência, o fraco prefere ir por si mesmo, inclinar-se diante do forte e clamar por sua benevolência. Todos os gestos do culto, e não somente a prostração, são gestos de oferecimento de tudo que o homem tem, para serviço de Deus e do próximo. A única forma de agradá-lo.

Somente Deus tem esse direito. A Bíblia proíbe textualmente qualquer gesto capaz de atribuir valor a um possível rival. Tudo está contido nas palavras de Jesus ao tentador: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele prestarás culto.

Para escândalo dos judeus proclama-se que a adoração reservada ao Deus único é devida a Jesus crucificado, confessando-o como Senhor e Cristo. Ao seu nome deve se dobrar todo joelho no céu, na terra e nos infernos. Esse culto tem por objeto o Cristo ressuscitado e exaltado, que pela fé é reconhecido como Filho de Deus. A adoração a Jesus em nada fere a intransigência da adoração a Deus, mas recusa a dos anjos, dos apóstolos e dos líderes espirituais. Por declarar a sua adoração a um Deus feito homem, os cristãos são levados a desafiar abertamente o culto aos imperadores desse mundo, representados por João como bestas no seu Apocalipse.

Adorar em espírito e em verdade é a novidade da adoração cristã que não se limita à figura da Trindade que contempla, mas transforma a adoração simples em adoração perfeita, porque somente aqueles que nasceram do Espírito podem adorar deste jeito: em espírito e em verdade. Esta atitude não consiste de um procedimento puramente interior, sem gestos e sem formas. Mas provém de uma consagração do ser inteiro: espírito, alma e corpo. Os verdadeiros adoradores não precisam mais ir a Jerusalém nem a Gerezim, não precisam mais de uma religião nacional, porque do Senhor é a terra e a sua plenitude. Os cristãos são de Cristo, e Cristo de Deus. A adoração em espírito se faz no único templo agradável ao Pai, o corpo de Cristo ressuscitado. Os que nascem do espírito unem a sua adoração àquela única que o Pai tem complacência e repetem as palavras do Filho amado: Abba.

No céu não haverá templos, somente Deus e seu Cordeiro, mas nem por isso cessará a adoração. De dia e de noite os remidos pela sua graça renderão honras e glórias àquele que vive pelo século dos séculos.













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O que é ALELUIA?

Georg Friedrich Händel, por Thomas Hudson (1701-1779)
Na etimologia desta palavra estão presentes não só a sua origem e o seu significado, como também o seu propósito. O termo deriva da aglutinação das palavras hebraicas hilel ou hallel e Yah. A palavra hilel, um dos termos mais ricos do vocabulário hebraico, é frequentemente traduzida nos salmos por verbo louvar no modo imperativo: Louvai ao SENHOR, vós todos os gentios, louvai-o, todos os povos. (Sl 117.1) O termo Yah é o sufixo da palavra Yahweh, expressão pela qual Deus se identificou a Moisés quando se manifestou na sarça ardente. Sua influência no livro dos Salmos é tamanha que foi criada, inclusive, uma categoria própria para os salmos que contém esta expressão: eles são chamados de aleluiáticos.

O aleluia era usado pelos antigos como um acréscimo litúrgico que era entoado primeiramente pelo sacerdote ou pelo levita dirigente da cerimônia, e repetido pela congregação, em alguma ocasiões somente depois que uma doxologia forma fosse acrescentada à ordem do culto: Bendito seja o SENHOR, Deus de Israel, de eternidade a eternidade; e todo o povo diga: Amém! Aleluia! (Sl 106.48)

A expressão tinha por finalidade traduzir o pasmo e admiração da pessoa pela presença de Deus. Pressupunha uma alma tomada pelo arrebatamento, a qual somente restava um grito de ovação jubilosa, porém, inteligível para a comunidade, que entendendo a exclamação de louvor, respondia a este chamado à adoração da mesma forma: dizendo aleluia. Este recíproco chamado se desenrolava em outras formas de manifestações, como música instrumental, cânticos e danças: Louvai-o com adufes e danças; louvai-o com instrumentos de cordas e com flautas. Todo ser que respira louve ao SENHOR. Aleluia! (Sl 150.4 e 6)

Quase sempre o objeto ou o motivo do aleluia são explicitamente indicados nos salmos, fazendo com que todos conheçam o seu significado momentâneo. Quando não o é, se torna um louvor puro e simples, dentro de um contexto de adoração que é devida a Deus, não por algum dos seus maravilhosos feitos, mas simplesmente pelo que ele é. Louvai a Deus e aleluia são mais que sinônimos, são expressões que se completam para dar ao louvor um sentido intempestivo, atemporal e universal, pois é declarado em mais de uma língua.

No Segundo Testamento o aleluia perdeu quase que completamente a sua importância. Nem mesmo na entrada triunfal de Jesus em Jerusalém ele é citado. Nem mesmo Jesus, que no momento da sua crucificação canta alguns salmos, faz uso desta expressão. Somente João do Apocalipse a emprega em um único capítulo, mas não como uma manifestação de louvor dos homens e sim dos anjos: Os vinte e quatro anciãos e os quatro seres viventes prostraram-se e adoraram a Deus, que se acha sentado no trono, dizendo: Amém! Aleluia! (Ap 19,4)

Foi pelo fato de João ter colocado esta palavra exclusivamente na boca dos anjos que ela herdou o status de ser considerada por muitos como uma das poucas palavras da linguagem destes seres a serem conhecidas pelos homens. Isso tem gerado um uso indiscriminado e impróprio de um termo que significou tanto para a fé dos nossos ancestrais. Logicamente que desassociado do seu significado original, e sendo verdadeiras agressões ao seu propósito, ela tem sido usada para “louvar” a Deus por razões completamente estranhas ao que nos ensina a Bíblia. Hoje se louva a Deus por situações declaradamente contrárias à sua palavra, ao ensino de Jesus e à própria tradição da igreja. Uma igreja que ao longo destes séculos tem sido agraciada pela fé pouco contemplativa, mas plenamente eficaz de homens e mulheres, que quase nunca louvavam a Deus com palavras, mas sempre com as atitudes que fizeram com que, não somente o povo de Deus, mas todo o mundo respondesse obrigatória e alegremente: Aleluia.  

Orátório final da peça O Messias 
conhecido do O Aleluia de Händel


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O que é REFEIÇÃO? II

Ilustração tirada de jesusmafa.com. Camarões
A alegria das refeições toma sentido e se torna verdadeira quando Deus está presente. Ele é o amigo que convida para a mesa íntima do lar, como Lázaro e para o banquete de núpcias, como em Caná. Mas ele também aceira o convite do fariseu Simão da mesma forma que aceita o silêncio como confissão da adúltera. Sem qualquer escrúpulo senta-se à mesa dos publicanos e come com as prostitutas. A sua presença é que confere às refeições o seu pleno valor. É a mesa o lugar de onde ele pronuncia a sua bênção, enfatiza a hospitalidade e recomenda a humildade e o cuidado para com os pobres.


Por si só, estes sinais já realizam os anúncios de alegria, perdão, salvação e abundância que se tornarão plenos nos tempos messiânicos. O mesmo Jesus que promoveu um banquete no deserto para mais de cinco mil esfomeados, anuncia a volta ao paraíso do Éden e a renovação dos milagres do êxodo. Através da Eucaristia, ele anuncia o maior banquete de todos os tempos, a festa eterna no Reino do seu Pai.

Nesta expectativa, repetimos o memorial da nova aliança selada no seu sangue. Em lugar do maná que deteriorava, ele serve o seu corpo como pão vivo que desceu dos céus como alimento para todo o mundo. Devemos repeti-lo sem, contudo, nos esquecermos do lavapés, que exprimiu simbolicamente a necessidade da humildade, do amor caridoso e da partilha como requisitos para que participemos dignamente da mesa do Senhor. Ainda é tempo de viver a Páscoa. No decurso até o Pentecostes, vamos nos lembrar de que o Ressuscitado está entre nós comendo peixe e partindo o pão na alegria da comunhão fraterna.

Paulo nos ensinou que a condição primordial para participarmos da Eucaristia é o exame da consciência, não para julgarmos a nós mesmos, mas para discernirmos o que Jesus fez para nos livrar deste julgamento. Paulo fala também da dupla dimensão da refeição sagrada: ela é uma refeição sacramental, pois o desejo ardente de tomá-la conosco parte unicamente da iniciativa de Jesus, mas quem quer que seja que coma deste pão e beba deste vinho se trona um com ele.

Por mais sacralizada que venha a ser, por mais que sintamos a presença de Jesus em nosso meio, e por maiores que sejam os benefícios com que ela nos agracia, ainda está onde se ser definitiva. Não passa de um pálido sinal de algo inconcebivelmente maior. Algo tão grande, que o próprio Jesus confessou desconhecer. Paulo, conhecedor profundo das limitações de Jesus quando encarnado, traz do passado a sentença final sobre o que há e sobre o que haverá: Como está escrito: Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam. (I Co 2.9)

Agora, neste mesmo instante, é ele quem está à porta e bate. Se o deixarmos entrar, agora mesmo faremos uma refeição com ele e ele conosco. Mas estejamos certos de que também ele está do outro lado de braços abertos. É ele quem convida, é ele quem nos força a entrar, é ele quem nos servirá o vinho para bebermos juntamente com Abraão, Isaque e Jacó, com todos os santos e com o noivo em trajes núpcias. A única condição é aceitar, porque o preço já foi pago, ela é de graça. Ah! Todos vós, os que tendes sede, vinde às águas; e vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite. Por que gastais o dinheiro naquilo que não é pão, e o vosso suor, naquilo que não satisfaz? Ouvi-me atentamente, comei o que é bom e vos deleitareis com finos manjares. Buscai o SENHOR enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto. (Is 55,1-2 e 6)

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O que é REFEIÇÃO? I

Páscoa judaica, iluminura ucraniana o século XIX
No conforto da família, na penúria ou nas orgias esse ato cria entre os homens uma comunhão de existência, mas ele também pode ter um significado litúrgico sagrado ou pagão.
Na Bíblia, as mais simples refeições são ações de graças a Deus, pois podem demonstrar de hospitalidade, reconhecimento da sua providência, alegria pela visita de um amigo ou pela volta de um filho perdido: Mas era preciso fazer esta festa para mostrar a nossa alegria. Pois este seu irmão estava morto e viveu de novo; estava perdido e foi achado. (Lc 15.32) Porém, se alegria da refeição deve ser plena e transbordante, a ostentação e o luxo são vistos como afronta. A abundância pode degenerar um desvio insensato, que por sua vez traz juízo.  Instruídos pela experiência, os antigos traçaram normas de conduta para as refeições. Conselhos sobre a temperança ou prudência, correção moral e compromisso para com o órfão, o estrangeiro e a viúva.
 
Os vizinhos pagãos de Israel promoviam banquetes sagrados em que era exigida a presença da vítima do sacrifício, pois criam que ela faria a divindade cultuada conhecer os desejos e necessidades do povo. Os antigos cultos em Israel não fugiam muito desta prática, pois toda a refeição que tinha carne era considerada um ato solene que incluía um sacrifício: Elas convidavam o povo para as festas em que eram feitos sacrifícios aos seus deuses. E os israelitas tomavam parte nos seus banquetes e adoravam os seus deuses. (Nm 25,2) O sentido desta prática cúltica não está claro e parece te escapado até aos escritores bíblicos, pois nem os profetas lhes fazem alusão. As diversas tradições da bíblia concordam num ponto: a refeição não servia para criar um vínculo com Deus, mas para confirmar a aliança entre as tribos, dos sacerdotes com o povo, com Deus e com o seu Ungido. Até mesmo a refeição mais sagrada do judaísmo, a páscoa que celebra a libertação do jugo egípcio era um memorial que remontava ao início da aliança, numa recordação persistente da providência de Deus que é contínua sobre todo o povo.

O Deuteronômio sistematiza esse memorial subordinando-o ao tema da expectativa da refeição eterna nos átrios do céu de Deus, a única refeição sagrada por excelência, pois contará tanto com a sua presença como com a sua anuência plenas. Será a refeição que unirá para sempre todo o povo de Deus no lugar por ele criado especificamente para este fim: Todos os anos levem esses animais para o lugar de adoração escolhido por Deus, o SENHOR, e ali, na presença de Deus, vocês e as suas famílias comam a carne deles. (Dt 15.20) A celebração cantada, falada ou dançada vai se tornando mais importante e criteriosa, pois é a parte que será desempenhada pelo homem neste inominável festim. 

Esta é uma evolução que deveria constar também nas liturgias cristãs. Embora se dê hoje especial atenção a esses atos litúrgicos, não se pode notar claramente uma evolução no que diz respeito ao crescimento da responsabilidade dos que a praticam, e nem com respeito à sacralidade com que ela é realizada. Este era o grande conflito entre os sacerdotes, que promoviam cada vez mais festas, e festas cada vez mais opulentas, com os profetas, que não viam nestas festas a base moral e nem a justiça, os principais requisitos para uma celebração se aceita por Deus e agradável aos seus olhos. Opostamente a isso, o povo comia, bebia, cantava e dançava celebrando a sua própria condenação. O SENHOR diz: “Eu não quero todos esses sacrifícios que vocês me oferecem. Estou farto de bodes e de animais gordos queimados no altar; estou enjoado do sangue de touros novos, não quero mais carneiros nem cabritos. Lavem-se e purifiquem-se! Não quero mais ver as suas maldades! Parem de fazer o que é mau e aprendam a fazer o que é bom. Tratem os outros com justiça; socorram os que são explorados, defendam os direitos dos órfãos e protejam as viúvas. (Is 1.11,16-17)

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O que é PAIXÃO? II

Evangelistas, Karolingoscher Buchmaler
 A igreja primitiva começou quase que imediatamente a utilizar a narrativa da paixão nos cultos, na catequese e na apologia da fé. Pelo que tudo indica, parece ter havido, em forma escrita, uma narrativa antes que Marcos a colocasse no seu evangelho. O próprio Marcos se serviu de uma tradição particular para desenvolver o seu texto, o que se pode observar também nos outros evangelistas.


Apesar da necessidade da igreja primitiva conservar uma pregação comum, cada um deles deu à narrativa da paixão um caráter pessoal. Mateus acentua a sua relação com o cumprimento das Escrituras, fazendo constantes citações dos salmos e dos profetas. Podemos ver que o seu evangelho é mais fiel ao texto original, traz informações novas sobre Judas e é implacável na denúncia dos chefes judeus.  

A narrativa da paixão de Lucas apresenta um interesse especial, porque além do que copiou de Marcos, fez investigações acuradas e independentes. Seu tom leva a sua comunidade a se comover e a se enternecer, pelo mártir que aceita tudo com humildade e paciência. É justamente esta narrativa que forma a base para meditações posteriores sobre a paixão inspirada pela compaixão.

João faz a sua narrativa mostrando que alguns bons anos depois a igreja continuava fiel aos relatos anteriores da paixão, embora isso não disfarce a sua genialidade como teólogo e narrador. Sua comunidade já havia se liberado do pânico da primeira perseguição e da comoção pela destruição do templo de Jerusalém. À morte de Jesus brutal e decepcionante ele dá um sentido mais essencial: aquela morte não é senão a passagem de um mundo instável e satânico para o Reino que é o centro de toda expectativa e esperança cristãs. Nele, o crente encontra a sua liberdade real e já sabe de antemão que Deus está no comando e estará até o fim dos tempos. Para João, Jesus enfrenta as cenas da sua paixão soberano da situação: ele mesmo carrega a sua cruz, não está prostrado quando os soldados chegam para prendê-lo, não dá sinais de agonia e nem depende da assistência de anjos. A morte de Jesus é por ele relacionada não com desânimo dos caminhantes de Emaús, mas com a sua ascensão gloriosa, a motivação que falta aos outros evangelhos para dar alegria e coragem aos cristãos.

Vários são os elementos que influenciaram as narrativas da paixão nos evangelhos, transformando um simples relatório na pregação da salvação, e é essa ênfase que ressalta na pregação o sentido soteriológico da paixão e morte de Jesus Cristo. As narrativas da paixão contidas nos evangelhos não são, de forma alguma, o trabalho exclusivo de um determinado autor ou comunidade. Elas são o testemunho de fé das igrejas primitivas. Isso não somente garante a sua fidedignidade como assegura a sua importância para os cristãos do passado. Foram tradições e mais tradições antigas que passaram pelo crivo da crítica, se eximiram das supertições e sobrepujaram a opinião e com etário dos intelectuais para se apresentarem como autênticos arautos daqueles que viram e viveram estes fatos. As narrativas da paixão não são depoimentos espontâneos de pessoas bem intencionadas, mas seguem integralmente a fórmula proposta e encarnada por todos os apóstolos na afirmação de João e Pedro: Julgai se é justo diante de Deus ouvir-vos antes a vós outros do que a Deus;  pois nós não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos. (At 4.19s)

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O que é PAIXÃO? I

O lava-pés Ford Madox (1821-1893)
A narrativa da paixão forma nos evangelhos uma seção bem delineada. Embora cada evangelista tenha obtido o seu material por meios próprios, todos parecem contar com um documento básico que abrange os seguintes episódios: a conspiração dos sacerdotes, a traição de Judas, a última ceia, o relato da prisão, o processo diante dos sacerdotes, o julgamento de Pilatos, a crucificação e o sepultamento. Alguns outros elementos, tais como a unção em Betânia, o Getsêmani e o escárnio dos soldados, são elementos compilados da memória dos mentores de cada evangelista, pois, sem qualquer tentativa de conciliação, podemos vê-los sendo citados desde as mais antigas pregações apostólicas, nos mais antigos credos e nas mais antigas orações litúrgicas.


A narrativa de Marcos, pelo fato de ser a mais antiga, narra a fuga dos apóstolos e a agonia no jardim como cenas que mostram Jesus em extremo abandono e dependência. As narrativas mais recentes, como a de Lucas e João, já mostram um Jesus mais autônomo e mais senhor da situação, inclusive perdoando os seus algozes. Basta que comparemos o encontro dele com os soldados que o prenderam. Marcos também faz mais do que um relatório resumido dos principais acontecimentos da paixão, ele os insere na história da salvação, creditando aos fatos seu valor, tal como a antiga pregação cristã os entendeu: uma provação que Jesus havia superado vitoriosamente. Essa provação era apresentada como uma pedra de escândalo para todos aqueles que esperavam um Messias dotado de armas que destruiriam de vez os inimigos de Israel. A isso a pregação cristã respondia confrontando a maneira como os judeus haviam tratado Jesus com a intervenção de Deus que o ressuscitou do sepulcro mostrando a origem da sua força e provando a sua inocência, para fazê-lo sentar no lugar do justo sofredor preconizado por Isaías como verdadeiro Messias. Embora Marcos cite frequentemente a ignorância dos judeus, não disfarça a sua culpa, seguindo os moldes das pregações antigas.

Os evangelhos não falam de maneira explícita de um plano salvífico de Deus, e nem mesmo que este estivesse sido completado com a paixão de Cristo. Mas são eles que fornecem elementos para a base dessa doutrina. Frisam sempre que Jesus já sabia de antemão o que o esperava, que ele sofreu como um inocente justo e que se entregou voluntariamente as essas provações. Porém, deixam claro que a luta entre o bem e o mal, entre Deus e Satanás foi decidida de vez para sempre ali. Contudo, para os evangelistas, Jesus não morreu simplesmente como mais uma vítima da violência brutal e do abuso de poder dos seus adversários, havia por trás de todos esses acontecimentos o propósito salvífico de Deus. E é próprio quem Deus confirma o valor desta paixão e morte, fazendo daquele crucificado não apenas mais um morto que por uma ato de misericórdia retornou à vida, mas alguém que ressuscito em um corpo glorioso que jamais antes visto por qualquer ser humano.

A narrativa da paixão não tem por finalidade comover ou explicar, mas convencer e fortalecer a fé os fiéis que por seguirem a Cristo estão sendo perseguidos e mortos, mas também tem o propósito de refutar as objeções dos adversários. Por outro lado, o Jesus que padece na sua justiça é o modelo a ser imitado por aqueles que se dispõem a seguir os seus passos. Embora os evangelistas não avaliassem a questão do valor da morte de Jesus para a salvação universal, pois esta é uma doutrina iminentemente paulina, já encontraram na paixão de Cristo os elementos para a resposta do por quê do sofrimento expiatório. Mais importante ainda, é por esta paixão que Jesus se torna a luz do mundo e o seu redentor. (continua)

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