Mostrando postagens com marcador Voz do pastor. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Voz do pastor. Mostrar todas as postagens

Deus não é um patrão arrogante

SENHOR, não é soberbo o meu coração, nem altivo o meu olhar; não ando à procura de grandes coisas, nem de coisas maravilhosas demais para mim. Pelo contrário, fiz calar e sossegar a minha alma. Leia Salmos 131
Um apóstolo, Jacob Jordaens em 1623
Texto do Rev. Jonas Rezende 
Vejo o filósofo Roger Garaudy como um símbolo de busca e de mudança. Depois de ser durante anos secretário executivo do Partido Comunista francês, torna-se cristão e, mais tarde, muçulmano. Garaudy pode ser visto como o resultado de uma curiosa, mas compreensível síntese de Marx, Cristo e Maomé. Pois bem, para Roger Garaudy, colocar uma coroa na cabeça de Jesus não tem base no Evangelho. O Cristo seria rei apenas em sentido simbólico e final. Sua realeza se encontra no fato de que ele se faz servo de todos, como vemos no lava-pés e na morte de cruz.

Neste pequeno salmo de Davi, o rei confessa que não é soberbo nem está procurando grandes coisas. Pelo contrário. O salmista se vê como uma criança dependente nos braços da mãe. Suas palavras me lembram um episódio ligado a Albert Schweitzer, teólogo e filósofo, o maior intérprete de Bach, e médico. O gênio se fez, movimentado por amor e compaixão, missionário para servir os leprosos de Lambarene, na África. Um dia, quando desembarcava material pesado para o seu hospital, pediu auxílio a um nativo e recebeu uma categórica negativa, seguida da justificação: não posso fazer esse tipo de trabalho, porque sou um intelectual. O genial Schweitzer apenas retrucou em um tom conciliador: eu também quis ser intelectual e não consegui...

Admiro a corajosa e inovadora filosofia de Nietzsche, mas discordo quando ele diz que o cristianismo preconiza uma verdadeira moral de escravos. O filósofo alemão, em seu livro Assim falou Zaratustra, conta uma parábola sobre mudanças e metamorfoses: o espírito carrega pesados fardos, como o camelo; quer conquistar a liberdade, como o leão; e tem, como criança, a possibilidade de um novo começo.

Davi passou, em sua vida, por essas mudanças. Fez, como o camelo, trabalhos pesados e sacrificiais. Lutou com a bravura do leão, pela sua liberdade pessoal e pela libertação do seu povo. E aqui, neste poema marcado por uma comovente humildade, ele mesmo se compara a uma criança desmamada, calma e aquietada nos braços de sua mãe. Na retomada de tudo, o salmista quer apenas paz para Israel. Despojado como uma criança poderá servir melhor ao seu povo. Este não é o resumo da vida de Jesus, o menino eterno? O Cristo do lava-pés?

Com o espírito do presente salmo, experimente fazer esta oração:

Jesus, o teu desafio
é a vida de compaixão.
Quero ter teus olhos ternos,
tua boca abençoada,
mãos prontas para servir;
quero ter teu coração.
Ajuda-me, bom Jesus,
a tornar-me como és:
não fugir dos sacrifícios,
perdoar a cada irmão,
despojar-me do egoísmo
e viver teu lava-pés.

Repita novamente, com a força do coração, essa prece final.



  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

Um salmista que desejava fugir

Então, disse eu: quem me dera asas como de pomba! Voaria e acharia pouso. Eis que fugiria para longe e ficaria no deserto. Leia Salmos 55
Davi e Samuel, Raffaello em 1517
Texto do rev. Jonas Rezende.
Grande parte da humanidade parece compor uma verdadeira legião em fuga desesperada. De fato, quando a nossa vida se torna como uma panela de pressão sem válvula de escape, somos tentados a experimentar o doloroso desejo de evasão. Aí estão as drogas, o sexo sem amor, a velocidade vertiginosa, os estudos, o fascínio do computador, os negócios, a trágica saída do suicídio... e mesmo - é preciso que se diga - um tipo alienante de religião.

Davi, quando escreveu este salmo, vivia um momento muito deli­cado de sua vida. Ele diz: estremece-me no peito o coração, terro­res de morte me salteiam; o horror se apodera de mim.

Parece a descrição da síndrome do pânico.

O salmista não usa nenhuma das formas de fuga mencionadas. Nem drogas, nem sexo desbragado, nem negócios, nem uma religião de escape.

Mas leia o seu texto com atenção e você vai perceber que o sonho do rei está marcado pela fuga. Ele quer asas. Exilar-se no deserto. Esconder-se dos traidores que o cercavam. Em uma palavra, em vez de enfrentar, como governante, a banda podre do seu povo, o salmista se concede o desejo de fugir. Afinal, ele não era feito de ferro. Um homem excepcional, mas um homem. E um homem em crise. Especialmente um homem amargurado, sem saber em quem confiar. Seu lamento é comovente: com efeito, não é inimigo que me afronta; se o fosse eu o suportaria; nem é o que me odeia quem se exalta sobre mim, pois dele me afastaria, mas és tu, homem meu igual, meu companheiro e meu íntimo amigo. Juntos andávamos e juntos nos entretínhamos, e íamos com a multidão à casa de Deus.

Muitas vezes não é essa também a nossa situação? Verdadeira ilha cercada de ameaças e desespero por todos os lados... Vicente Celestino cantava: cada parente e cada amigo era um ladrão. E você percebe que tudo o que aconteceu com o salmista também pode nos suceder, e assim empurrar-nos para algum tipo de fuga.

Mas, se somos uma geração que, em grande parte, busca fugir, a verdade é que não conseguimos escapar.

Não podemos nos evadir de Deus. Caim bem que tentou, mas teve de confrontar-se com a pergunta divina: onde está o seu irmão? O próprio salmista, em outro poema, pergunta: Para onde fugirei da tua face? Para onde me ausentarei do teu Espírito? Se subir até aos céus, eis que tu aí estás; se no Sheol fizer a minha cama, eis que tu estás aí também; se eu tomar as asas da alvorada e me deter nos confins dos mares, ainda lá haverá de alcançar a tua mão.

Fugir não é possível. Precisamos enfrentar os nossos problemas com coragem. Até porque estamos emparedados. Sem escapatória. Fugir de Deus, por outro lado, representaria, se fosse possível, perder o rumo de nossa vida, embaralhar o nosso destino. O mesmo Davi que se mostra tão sofrido e confuso neste salmo encontrou a saída, que partilha conosco, em outro de seus belos poemas: Entrega o teu caminho ao Senhor, confia nele e o mais ele fará.

Por que não seguir a luminosa trilha da sua experiência?



  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

E a Mir já era...

Certa vez jurei por minha santidade (e serei eu falso a Deus?): a sua posteridade durará pra sempre, e o seu trono será como o sol para mim. Leia Salmos 89
Explosão da nave MIR em 1986
Especialmente na Rússia, o fim da estação orbital Mir causou muita emoção. Toda a glória de Yuri Gagarin, que acenou com a supremacia da extinta União Soviética na corrida espacial, veio à tona, com aquele toque de melancolia que sentimos diante do que foi e que mais não é.


A Mir foi um dos mais expressivos símbolos da conquista, pelos russos, do espaço sideral. Planificada para ter uma vida útil de cinco anos, durou quinze, se bem que de maneira precária, em sua fase final. Por ela passaram inúmeros astronautas estrangeiros, em um programa fraternal de troca de experiências e tecnologias.

Pois bem. Esse fantástico engenho tornou-se fogo e cinza ao entrar na atmosfera da Terra, em uma sexta-feira, 23 de março de 2001, antes que seus fragmentos caíssem, sem danos, no oceano Pacífico. A bonita odisseia da Mir durou mais de 5 mil dias.

Seu fim, pela importância internacional da estação, se fez verdadei­ra parábola da transitoriedade de tudo que existe. Do ser humano, que é descrito frágil como uma flor no salmo de Moisés, até os mais duradouros impérios, que também conheceram a decadência, de­pois de viver seu apogeu.

O salmo que temos diante de nós foi escrito por Etã. E o salmista nos garante, no mundo onde tudo é precário, que o reinado messiânico de Davi será permanente: a sua posteridade durará para sempre. Etã dedica boa parte do seu belo poema à grandeza de Deus, utilizando uma linguagem cósmica: celebram os céus as tuas maravilhas, ó Senhor, e, na assembleia dos santos, a tua fidelidade... Dominas a fúria do mar; quando as suas ondas se levantam, tu a; amainas. Teus são os céus, tua a terra; o mundo e a sua plenitude, tu s fundaste... O teu braço é armado de poder, forte é a tua mão, e elevada a tua destra.

Fala ainda o salmista das limitações da própria vida, a um passo da morte. Cobra de Deus sua prometida fidelidade a Davi e sua descendência. E termina o seu longo poema com a postura piedosa do homem de fé: bendito seja o Senhor para sempre. Amém e amém. Pela franqueza absoluta com que fala de si mesmo e o jeito um tanto desabrido de dizer as coisas, o salmista nos ensina a não escamotear filho não conhecesse o lado sofrido da existência. Mas foi a visão que o jovem príncipe teve da pobreza, da velhice, da morte e da mística que iniciou dentro dele o processo espiritual que terminaria por levá-lo a ser Buda, o iluminado. Neste mundo do terceiro milênio, quando pessoas mais amargas chegam a desvalorizar a paixão de Madre Teresa de Calcutá, o salmista vê, passo a passo, a ação salvadora de Deus, utilizando em especial a linhagem de Davi.

Millôr Fernandes, no livro A bíblia do caos, afirma com seu humor aguçado e inteligente: Deus existe, mas não é full time. Sinto que, por seu turno, é natural como a respiração, para o salmista, perceber as impressões digitais do Senhor, tanto no Universo como em todo o processo da História humana. Não resta assim a Etã outro caminho que não seja bendizer o Deus Eterno, responsável por um sentido permanente na vida de seu povo.

O salmo é comovente. Mas não basta ler o poema.
E preciso vivê-lo.



  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

Quem julga, se expõe

Concede ao rei, ó Deus, os teus juízos e a tua justiça, ao filho do rei. Julgue ele com justiça o teu povo e os teus aflitos, com equidade. Leia Salmos 72
O julgamento de Salomão, Nicolas Poussin em 1649
Texto do rev. Jonas Rezende.
Poucas vezes Jesus de Nazaré disse tanto em uma frase tão curta. Em seu principal depoimento, conhecido como o Sermão da Montanha, o mestre provocou um forte impacto em seus ouvintes, quando advertiu: não julguem. Imagino que ele fez uma pequena pausa para que todos digerissem seu imperativo calcado no absoluto bem senso. E aí completou seu pensamento: não julguem, para que não sejam julgados. Com o mesmo critério que vocês julgarem os outros, também serão julgados, e com a mesma medida que usarem, também medirão vocês.

A partir desse ponto, o seu discurso se dirige a uma única pessoa e atinge toda a força quando ele encerra essa parte do sermão dizendo: hipócrita, tire primeiro a trave do seu olho para depois retirar o cisco que está no olho de seu irmão.

O salmo que agora merece a nossa atenção foi escrito pelo rei Salomão, filho de Davi. E já na sua abertura o poeta parece sobrecarregado com a necessária tarefa de ser juiz do seu povo, e busca a força de Deus em oração: concede ao rei que julgue com justiça... Julgue ele os aflitos do povo, salve os filhos dos necessitados e esmague ao opressor.

A preocupação do salmista é fruto da sua sensibilidade e tem linhas convergentes com a advertência de Jesus, tantos anos depois. Ao contrário de nossas inevitáveis impressões, o julgamento impiedoso é sempre um autojulgamento. Quem julga, se julga, se expõe. Porque, como estabelece o povo em sua sabedoria de vida, as aparências enganam. Há palavrões que são ditos afetivamente, e confissões de amor que não passam de um escárnio. Basta lembrar o beijo de Judas. Poe esta razão, a teoria de Lombroso não prosperou. Há dignidade e beleza por trás do rosto carrancudo de Beethoven. E quanta maldade não está camuflada pela beleza de Dorian Grau, de Oscar Wilde?

O salmista estava coberto de razão para pedir a sabedoria em seus julgamentos, porque os nossos conceitos também são falhos. Saindo do âmbito das verdades que consideramos reveladas, tudo é relativo e cultural. Conceitos de amor, de beleza, de pudor mudam no tempo e no espaço, isto é, nas diferentes épocas e lugares. E não convém mencionar aqui a perspectiva pessoal, na elaboração dos nossos conceitos.

Como não reconhecer também as falhas do próprio ato de julgar? Como avaliar a liberdade dos seres humanos e a sua consequente responsabilidade; o que escapa dos condicionamentos sociais e da nossa herança biológica hereditária?

Na antiga China, os juízes eram tão escrupulosos como o nosso sábio salmista. Purificavam-se com jejuns e outras práticas, vários dias antes do julgamento. Às vezes pediam novos prazos, e com frequência absolviam o réu, se sobrasse alguma dúvida, porque era inadmissível condenar um inocente.

Salomão, falando de si mesmo, diz que o juiz acode o necessitado que clama, também ao aflito e ao desvalido. Tem piedade dos fracos e necessitados e salva a alma dos indigentes.

E nós? Evitamos julgar? Seguimos a advertência de Jesus e buscamos a sabedoria do salmista?

Não podemos ser levianos. Apenas Deus sabe a
Relação correta entre liberdade e responsabilidade.
Deixemos então o julgamento do mundo e do outro nas
mãos de Deus. São boas mãos. É terrível ser chamado
de hipócrita por Jesus, você não acha?

  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

Será possível inquisição em nossos dias?

Ouve, SENHOR, a minha súplica, e cheguem a ti os meus clamores. Não me ocultes o rosto no dia da minha angústia; inclina-me os ouvidos; no dia em que eu clamar, dá-te pressa em acudir-me. Leia Salmos 102
Execução dos condenados, anônimo século XVIII
Texto do rev. Jonas Rezende
Pastores anglicanos serão expulsos porque não creem em Deus - dizia a notícia. E acrescentava: a verdade é que eles acreditam que Deus existe no coração do homem. Depois da leitura, fiquei pensando se é importante dizer que Deus está no Céu. Qual o erro de conceber que ele está em nosso coração? Até que dizer Céu fica mais vago, não é mesmo? E triste a esclerose do ser humano, mas é trágico quando são nossas instituições que caducam.


A intolerância denuncia a nossa falta de amor, e até mesmo a ausência de um certo jogo de cintura. No caso dos padres anglicanos, não entendo por que acender as fogueiras da Inquisição em nossos dias. Afinal, há tão pouco tempo, os chamados teólogos da morte de Deus prestaram um serviço positivo à Teologia e ao pensamento religioso. Levantaram um saudável debate que deveria ter sido feito desde a filosofia provocativa de Nietzsche.

Mas, veja bem. O salmo, aberto diante de nós, fala de arrependimento e esperança, mas também nos mostra o poeta do Eterno atormentado por inimigos que desejam destruí-lo, com fúria ainda maior do que a da hierarquia anglicana. As imagens que ele utiliza são belas, mas passam um sofrimento atroz. Veja só o seu clamor: os meus ossos se apegam à pele, por causa do meu doloroso gemer. Sou como o pelicano no deserto, como a coruja das ruínas. Não durmo e sou como o passarinho solitário nos telhados. Os meus inimigos me insultam a toda hora; furiosos contra mim praguejam com o meu próprio nome. Por pão tenho comido cinza e misturado com lágrimas a minha bebida.

Os violentos, agressores e intolerantes não percebem o que para o salmista tem a força da certeza: tu, porém, Senhor, permaneces para sempre e a memória do teu nome de geração em geração.
Em meados do ano 1994, os jornais noticiaram que a escritora Talisma Nasrin fora obrigada a fugir de Bangladesh porque acusou os muçulmanos fundamentalistas de terem mentalidade machista. E apregoou a necessidade de revisar ou compreender melhor o Corão.

A escritora só disse a verdade e ficou com a vida em risco. Tal como Salman Rushdie, que está escondido, há anos, em algum lugar da Inglaterra, fugindo da sentença de morte do aiatolá Khomeiny. Apenas porque em seu livro Os versículos satânicos teria desrespeitado o profeta Maomé.

É possível então imaginar a angústia do salmista, vítima de intolerância semelhante. Some-se a essa perseguição o arrependimento do poeta e teremos a imagem de um homem atormentado e aflito. Mas, uma vigorosa esperança anima esse homem e ele registra no fim de seu salmo: os filhos dos teus servos habitarão seguros, e diante de ti se estabelecerá a sua descendência.

Quero dizer, à luz do salmo, da Bíblia e da experiência, que precisamos sempre ousar, sem medo do ridículo nem de possíveis quedas. Quase sempre a queda é motivo de reflexão, insight, e o início do nosso verdadeiro crescimento. Ninguém deve temer incompreensões e críticas. Jesus Cristo continua a dizer: ai de você quando todos disserem bem a seu respeito.

E Oscar Wilde nos adverte:
a cada bela impressão que causamos,
conquistamos um inimigo.
Para ser popular, é indispensável ser medíocre.



  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

O velho é mesmo um traste?

O justo florescerá como a palmeira, crescerá como o cedro no Líbano. Plantados na Casa do SENHOR, florescerão nos átrios do nosso Deus. Na velhice darão ainda frutos, serão cheios de seiva e de verdor, para anunciar que o SENHOR é reto. Leia Salmos 92
Simeão e Ana, Aert de Gelder (1645-1727)
Texto do rev. Jonas Rezende.
Diante da escalada de morte que extermina nossos velhos nas casas de repouso, verdadeiros depósitos de condenados, também pelo descaso das famílias; numa sociedade em que o velho é traste, a começar da própria palavra, camuflada por uma expressão um tanto tola, como é terceira idade; acredito que este salmo, de autoria desconhecida, é muito oportuno.

O cenário é semelhante ao de tantos outros: a comparação entre aqueles que temem a Deus e os que só praticam a iniquidade. Os perversos serão punidos, mas os justos florescerão como a palmeira. E o salmista destaca que, ainda na velhice, eles darão frutos.

Não apenas entre os antigos hebreus, mas em diversas culturas, o papel dos velhos era de reconhecida importância social. Nas chamadas gerontocracias, o velho chegava mesmo a exercer o poder de governante. É interessante que o presbítero, figura central na organização da Igreja cristã, era o velho que colaborava com a sua experiência, como indica o próprio significado da palavra grega. E aí estão os estudiosos de diferentes áreas defendendo o ponto de vista de que muito se perdeu com a ausência dos avós, dentro da família atual.

E lamentável, mas com apenas quarenta anos aqueles que ainda irão viver uma outra metade de vida já estão alijados dos concursos e de grande parte das funções sociais. E a marginalização dos nossos velhos derruba seu autoconceito, de tal modo que eles próprios terminam acreditando na mentira de que só lhes resta morrer. Ser velho deixou de ser uma bela estação da vida - quando ainda s pode exercer a sexualidade, ter papel positivo dentro da família e em muitas outras esferas da sociedade - para ser alvo de verdadeira punição. A aposentadoria vil, na esmagadora maioria das vezes, s transforma em condenação injusta e cruel; perspectiva de miséria no fim da vida.

Mas o salmista, em nome de Deus, continua apregoando que o ser humano é capaz de frutificar na velhice, cheio de seiva e de verdor.

Agora, veja bem. Em muitas áreas sociais, nossos velhos aposentados estão sendo convocados de novo para ocupar suas funções, uma vez que não foram encontrados substitutos à altura deles. E há famílias que revisam a atitude de condenar os seus velhos aos asilos, quando a ternura dos vovôs pode ser um fator aglutinante na constelação familiar. Mas a mentalidade de criminosa discriminação da velhice está longe de ser banida. Aguardo o dia em que a poesia de Coelho Neto volte a ser verdadeira. E não mais pareça um cinismo repetir:

Não choremos, amigo, a mocidade, envelheçamos rindo,
envelheçamos como as árvores fortes envelhecem.
Na glória da alegria e da bondade,
agasalhando os pássaros nos ramos,
dando sombra e consolo aos que padecem.

Onde vamos deixar nossos avós?

  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

Não seja excessivamente justo

Não te lembres dos meus pecados da mocidade, nem das minhas transgressões.
Leia Salmos 25
Jael e Sicera, James Northcote em 1787
Texto do rev. Jonas Rezende
Se você ler sobre o doutor Fausto, em Goethe ou Thomas Mann; ou romance O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, ou ainda a novela O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson, que, para muitos estudiosos, antecipou em uma década os estudos de Freud - se você ler esses ou outros trabalhos semelhantes, entrará contato com o lado menos visível da personalidade humana. Mesmo as pessoas mais puras, e até os santos e místicos, têm impulsos destrutivos e agressões, apenas sob controle. Talvez, seja isso que os mais diferentes salmistas, que tornaram possível  Saltério à disposição de todos, eles mesmos, de modo franco e transparente, sempre mencionam suas faltas e seus pecados.

No presente poema de Davi, além do pedido, colocado no início da meditação, para que Deus se esquecesse dos pecados que cometera na mocidade, o salmista está como que esmagado pelo sentimento culpa. Veja só o que ele diz: Bom e reto é o Senhor, por isso ta o caminho aos pecadores... Volta-te para mim e tem compaixão, porque estou sozinho e aflito... considera as minhas aflições e a sofrimento, e perdoa todos os meus pecados.

Repare também que Davi diz: a intimidade do Senhor é para os que em. Creio que seria mais natural se ele falasse: a intimidade Senhor é para os que o amam, você não acha? Afinal o salmo começa tão belo: Faze-me, Senhor, conhecer os teus caminhos, ensina-me as tuas veredas... tu és o Deus da minha salvação, em quem eu espero todo o dia. Lembra-te, Senhor, da tua misericórdia e da tua bondade... De repente, a culpa desponta, e o salmista, como podemos também ver em outras páginas, de sua autoria ou não, parece tornar-se vítima do sentimento de pecado, do medo e da punição.

O pastor e psicanalista junguiano John Sanford enfrenta corajosamente o problema da sombra que existe em nossa mente. Diz-nos que não adianta negá-la, porque ela é parte importante de não acha? nós mesmos. A sabedoria está em desenvolver mecanismos de controle e aprender a administrar as pulsões que atuam em nosso comportamento. Para Sanford, é desse lado desconhecido que surge o humor, a fantasia, os atos falhos - realidades que estão longe de ser apenas negativas. E o pastor-psicanalista compara Paulo de Tarso e Jesus. Paulo se atormenta como o salmista diante de seus impulsos sombrios, e clama: miserável homem que sou! Jesus não se constrange de usar o chicote para expulsar os vendilhões do templo, não quer ser chamado bom, e enfrenta com serenidade as tentações do deserto. Jesus chega mesmo a nos ensinar: sejam espertos como as cobras e sem maldade como as pombas.

O salmista era fruto da sua época, mas nós podemos ter uma vida mais equilibrada e mais feliz diante de Deus, diante do outro e diante dos impulsos da nossa mente, que precisam ser controlados sem culpa ou medo. Sem temor e tremor. É só vivermos mais pacificados com a nossa sombra. Lembrar que a Bíblia adverte: não seja excessivamente justo, uma frase tão parecida com o ditado romano: direito em excesso, injustiça excessiva. E não deixar de fazer o último pedido do salmista:

Ó Deus, redime Israel de todas as suas tribulações.

  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

Reconheça que é pequeno. E cresça!

Não entres em juízo com o teu servo, porque à tua vista não há justo nenhum vivente. Leia Salmos 143

Jesus diante de Caifás, Mathias Storm
Texto do rev. Jonas Rezende
O Peer Gynt, de Ibsen, descreve uma cena que me emociona. De­epoisde tanta busca e desencontros, de equívocos e de saudade, Peer Gynt volta à sua terra, ao ponto de partida, bem mais velho e sofrido. E, ao desmanchar uma cebola vagarosamente, confessa: minha vida é como esta cebola; só cascas, sem conteúdo. Coloquem isso em meu epitáfio.

Sinto que por fim, ao tomar consciência de que é casca, Peer Gynt começa a descobrir seu verdadeiro núcleo, o cerne da sua existência.

Neste poema, o salmista me passa a mesma impressão. Suplica mais uma vez por libertação, como também acontece conosco: responde-me segundo a tua fidelidade, segundo a tua justiça. Queixa-se da impiedade de seus inimigos: arrojam por terra a minha vida; têm- me feito habitar na escuridão, como aqueles que morreram há muito. Confessa que está abalado: dentro em mim esmorece o meu coração. Tem saudade do passado: lembro-me dos dias de outrora. Pede urgência na punição dos que infernizam sua vida: a ti levanto a minha mão; minha alma anseia por ti, como a terra sedenta. Dá-te pressa, Senhor, em responder-me... Livra-me, Senhor, dos meus inimigos.

Mas, em nenhum momento, Davi se esquece de que não há, aos olhos divinos, nenhum justo. Assim, ele também não o é. Abre-se então com honestidade diante do Senhor: ensina-me a fazer a tua vontade, pois tu és o meu Deus; guie-me o teu bom Espírito por terreno plano. Vivifica-me, Senhor, por amor do teu nome.

Sempre tive e ainda tenho uma profunda admiração por Bertolt Brecht. Vivo a citar seu pensamento desde a minha juventude. En­canta-me a genialidade dos seus aforismos; a sensibilidade de suas peças teatrais; a maneira, até pedagógica, de ensinar o oprimido a se organizar e conquistar os seus direitos, como fica claro em Mãe coragem; a oportuna descoberta de uma técnica teatral conhecida como distanciamento, que nos leva a refletir melhor sobre as ideias veiculadas no palco.

Por causa dessa grande admiração, fiquei assustado com a sua bio­grafia escrita por John Fuegi, A vida e as mentiras de Bertold Brecht.

O autor, que estuda o dramaturgo há anos, é fundador da Sociedade Internacional de Brecht. E, com essas credenciais, revela que o escritor não era correto com os colaboradores, mas os manipulava. Sua postura poderia ser identificada como a de um antissemita que justificava o extermínio dos judeus. Teria assinado trabalhos escri­tos quase completamente por suas amantes... E vai por aí.

Espero que tudo não passe de uma confusão ou de sensacionalismo para vender livros, marketing. Caso, porém, se confirmem as de­núncias, eu pergunto: de que adianta a aura de gênio socialista, se a vida se faz um engodo; se o homem que defende os destituídos, e até quer aparecer como pobre, tem dinheiro na Suíça, onde preten­de construir uma verdadeira mansão? Jesus Cristo diria com dure­za: túmulo caiado. E o nosso povo criou um ditado de profunda sabedoria: por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento...

O salmista Davi assume a posição correta. Ele sabe que só quem se reconhece pequeno pode crescer. Só existe progresso espiritual com base na verdade.
Jesus disse em uma de suas caminhadas: vocês conhecerão a verda­de e a verdade libertará vocês.



Por que não acreditar?

  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

Salmos para o coração e o Espírito

Guardo no coração as tuas palavras, para não pecar contra ti. Leia Salmos 119.1-16
A tua Palavra escondi, www.tribarte.blogspot.com.br
Texto do livro Salmos para o Espírito do Rev. Jonas Rezende
Fasciite necrosante é o nome de um processo infeccioso provocado por um estreptococo do grupo A. Deu para entender? Vou então usar a nossa linguagem corrente no dia-a-dia. Trata-se de uma bactéria que começou a ser detectada, segundo me parece, em 1994, na Inglaterra, e logo foi batizada popularmente de bactéria devoradora de carne, porque devora três centímetros de tecido humano por hora, provocando a morte em 24 horas. Sempre que se fala desse assunto, a notícia provoca pânico. Se o problema não for resolvido cientificamente, essa doença é mais grave que a AIDS.


Mas eu queria usar a ação terrível da bactéria como uma parábola da nossa época, em que o ser humano é vítima de uma antropofagia, mais feroz do que a retratada por Mário de Andrade, depois de 1922. Vivemos a crise da nossa civilização e a misteriosa doença torna-se símbolo de nos­sa sociedade que mói o ser humano na maquinaria implacável do cotidiano.

É claro que o presente salmo não fala de bactérias. Mas celebra com alegria a salvação do povo: rendei graças ao Senhor, porque ele é bom, porque a sua misericórdia dura para sempre... O Senhor está comigo, não temerei. Que me poderá fazer o homem?... Me­lhor é buscar refúgio no Senhor do que confiar no homem... O Senhor é a minha força e o meu cântico, pois ele me salvou... a destra do Senhor faz proezas... Este é o dia que o Senhor fez; regozijemo-nos e alegremo-nos nele... O Senhor é Deus, ele é a nossa luz. É belo o salmo. Agora, se espremermos todas essas expressões do salmista, o resultado é vida. Isto é, o amor divino faz com que a morte se renda diante da vida. Como não lembrar a visão de Ezequiel? O monturo de ossos secos volta à vida, conhece a ressur­reição, no vale sombrio. E, a meu ver, a visão profética fala da esperança de um eterno renascimento no mundo que atravessa cri­ses cíclicas, com dimensões pessoais, sociais e universais.

Uma pista para trabalharmos em comum está no livro O ocidente é um acidente - por um diálogo das civilizações, do filósofo francês Roger Garaudy. Embora julgue o livro muito severo e, em algumas passagens, injusto com o Ocidente, acredito que Garaudy nos ajuda a buscar saídas através da contribuição dos povos em geral, na proporção em que o nosso universo cristão ocidental se torna um tanto provinciano.

Mas o vale de ossos secos, da visão profética de Ezequiel, bem pode ser também o nosso coração, quando abandonamos os sonhos e a esperança sempre juvenil. Mas podemos celebrar com a alegria de nosso salmo, porque Deus nos faz participar do processo de res­surreição diária e da eterna ressurreição. Para o teólogo Bultmann, o importante não é se a ressurreição aconteceu, historicamente, na vida de Jesus, mas crer que a morte de Jesus é vida para o ser huma­no. Não é importante que tenha acontecido algo especial na vida de Jesus, mas saber que, historicamente, aconteceu algo na vida dos apóstolos. E verdade que, na pregação da Igreja tradicional, a ressurreição é um fato para a fé, um fato que precisa ser celebrado. Mas acho interessantes as observações de Bultmann.

O mais importante, porém, é que a nossa esperança está enraizada em Deus. Assim como o poeta do Eterno, também esperamos que a morte se renda diante da vida. E inspirados por Santo Agostinho, podemos também dizer: apesar de absurdo, nós cremos.

Você concorda?






  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

E a mula falou

Reinos da terra, cantai a Deus, salmodiai ao Senhor, àquele que encima os céus, os céus da antiguidade; eis que ele faz ouvir a sua voz, voz poderosa. Leia Salmos 68
Texto do rev. Jonas Rezende

A mula e o anjo, Gustav Jäger (1832-1917)
A irreverência de Stanislaw Ponte Preta fez com que ele alterasse um ditado popular, para dizer: de onde menos se espera, daí é que não sai nada mesmo.

Os que conhecem a Bíblia sabem que a voz de Deus fala ao homem de diversas maneiras. O escritor da carta aos hebreus nos informa que, havendo Deus falado aos pais, utilizando seus profetas, a nós nos fala, particularmente, pelo filho. E Jesus é apresentado no Evan­gelho como a palavra que se fez carne para viver entre nós. Já no salmo 19, Davi afirma que os céus falam do poder de Deus. Mas é verdade que a voz divina pode nos falar também através das tem­pestades, de um terremoto, do vulcão, dos profetas malditos, dos hereges, do povo, de um acidente, de um câncer, da própria morte. No Livro dos Números, Deus profetiza através de uma mula, a ju­menta de Balaão!

Não me pergunte como e por quê. Há quem diga que a cena foi uma alucinação de Balaão, o profeta. Que seja. Então Deus nos fala tam­bém através da loucura. E preciso, no entanto, corrigir Ponte Preta: de onde menos se espera, sempre pode vir alguma coisa boa.

O salmo que ora está diante de nossos olhos foi escrito por Davi, autor de metade dos poemas que compõem o Saltério bíblico. Nes­ta página, o rei canta a vitória de Deus sobre os que são inimigos da paz, da verdade e da justiça — uma tônica que percorre praticamente todos os salmos, que podem parecer variações sobre um mesmo tema. E é mesmo preciso falar o tempo todo sobre paz, verdade e justiça. Hoje, mais do que nunca.

A sensibilidade de Davi faz com que, além do conteúdo, suas poe­sias tenham também uma forma perfeita. Veja só como ele se dirige a Deus: pai dos órfãos e juiz das viúvas é o Senhor em sua santa morada. Deus faz que o solitário more em família; tira os cativos para a prosperidade... Bendito seja o Senhor que, dia a dia, leva o nosso fardo; Deus é a nossa salvação. O nosso Deus é o Deus liber­tador; com Deus, o Senhor, escapamos da morte.

E depois de afirmar que Deus faz ouvir a sua voz no mundo, o salmista convida toda a terra: tributem glória ao Senhor; a sua ma­jestade está sobre Israel, e a sua fortaleza nos espaços siderais.

E nesse contexto libertador e poderoso que Deus nos fala de dife­rentes maneiras, até mesmo através de uma jumenta.

Estou certo de que a Bíblia não é um livro destinado apenas à nossa razão. Creio mesmo que o silêncio da razão pode ser o espaço da fé. Afinal, diante dos mistérios do Universo, a força da razão huma­na não é muito diferente do que se passa na cabeça de um muar...

As vezes somos assaltados por uma dúvida: é mesmo a voz de Deus que está falando? Diante de porta-vozes tão estranhos ou desones­tos, a dúvida é mesmo salutar. Como no bizarro episódio de Balaão, há apregoadores que são menos confiáveis que um jumento. Como saber então se estamos senào alcançados pela voz divina?

Como Deus pode nos falar, a despeito das mais estranhas e até ab­surdas circunstâncias, proponho um tipo de prova,mais elucidativa do que a chamada prova real ou a prova dos nove,para saber quan­do ele realmente nos fala. Acima de tudo, minha prova é muito simples. Nas palavras de uma bela canção católica:

Onde há o amor, Deus aí está.


  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

Sonhar mais um sonho impossível

Quando o SENHOR restaurou a sorte de Sião, ficamos como quem sonha. Então, a nossa boca se encheu de riso, e a nossa língua, de júbilo; então, entre as nações se dizia: Grandes coisas o SENHOR tem feito por eles. Com efeito, grandes coisas fez o SENHOR por nós; por isso, estamos alegres. Leia Salmos 126
Texto do rev. Jonas Rezende

Jesus no casamento em Marrocos
A palavra utopia é formada por dois pequenos vocábulos da língua grega, e significa, literalmente, lugar que não existe. Mas os vocábulos sofrem uma evolução semântica, e hoje, quando falamos em utopia, a etimologia desaparece. E pensamos em algo irrealizável, absurdo. Ou imaginamos um sonho ou esperança que serve como alavanca na construção de um mundo melhor, de um ser humano viável. Tenho preferência radical pelo segundo sentido: um sonho!


Volto novamente a esse salmo, porque ele expressa o sentido de utopia que me parece na direção mais criativa: ficamos como quem sonha.

O salmista sabe que o sonho prosseguirá, porque Deus age, e o ser humano é seu parceiro: restaura, Senhor, a nossa sorte como as correntes do Neguebe.

E vem a ênfase no papel desempenhado pelo trabalho humano: os que com lágrimas semeiam, com júbilo ceifarão.

É isso. Um sonho, um sonho acordado, como São Tomás de Aquino vê a esperança. Um sonho impossível? Tive um velho amigo a que muito respeitei. No seu dicionário de uso corrente, encontramos, após a sua morte, ao lado da palavra impossível, uma anotação com sua letra firme e culta: leia-se, difícil. Afinal, utopias foram superadas no desenrolar da História, como sonho e muito trabalho: quem sai andando e chorando enquanto semeia, voltará com júbilo trazendo seus feixes, registra o salmista. Miguel de Unamuno chega a dizer que o homem vive de razão e sobrevive de sonhos. E Chico Buarque de Holanda, traduzindo e adaptando o tema musical da peça O homem de La Mancha, escreve: sonhar mais um sonho impossível, lutar quando a regra é ceder, vencer o inimigo invencível...

Você sabe? Eu sonhei que o asfalto acariciava com calor os pneumáticos grávidos de ar. E houve melodia de amor nas ruas, avenidas e estradas: nunca mais um homem usou luz alta contar outro homem.

Sonhei que o imenso arranha-céu tronou-se um único quarto iluminado, onde estranhos falavam a mesma língua. E já sabiam dormir sem sedativos. E suas portas e trancas eram mãos dadas.

Sonhei com uma única mesa para todos, onde todos os homens tinham pão. E as crianças cantavam aleluias, no lugar onde outrora houve prisão.

Sonhei que o ser humano se esqueceu, finalmente, da mentira. De mentir-se. E já não soube mais buscar alegrias e conquistas pelos processos desumanizados ou pelos artificiais. E apenas conhecia através da História a história das guerras mundiais.

Sonhei que os véus dos templos, todos, se romperam, com a luz da religiosidade. O homem se esqueceu dos tolos ritualismos, e a fé no único Deus da vida foi verdade.

Sonhei que um dia, o mundo alcançou maioridade, sem religiões, sem trancas, sem mentiras, sem exércitos, sem bandeiras, sem o recurso subumano das fronteiras; sem anseio de céu ou medo de juízo:

A Cidade do Home era um sorriso...

  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

Um por todos e todos por um

Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos! É como o óleo precioso sobre a cabeça, o qual desce para a barba, a barba de Arão, e desce para a gola de suas vestes. É como o orvalho do Hermom, que desce sobre os montes de Sião. Ali, ordena o SENHOR a sua bênção e a vida para sempre. Salmo 133
Texto do rev. Jonas Rezende

Monte Hermon, http://looklex.com
Instituição comprometida com o lema da Revolução Francesa - li­berdade, igualdade e fraternidade a maçonaria, que no Brasil e no mundo participou de tantas e justas lutas, inicia seus encontros com a leitura deste pequeno e importante salmo de Davi. O poemeto utiliza imagens pertinentes da história e da geografia da Terra San­ta, para justificar seu verso de abertura: é bom e sobremodo agradá­vel viverem unidos os irmãos.

O povo de Israel foi plasmado por Moisés, que o dirigiu desde o Egito, fugindo da servidão, até a terra onde deitaram suas raízes e se estabeleceram como nação. Viver nessa comunidade era participar da sua memória, passada de pai para filho, ainda antes do seu registro escrito. Significava realizar celebrações que dramatizas­sem, com suas festas, a vida de escravidão no Egito; a grande liber­tação; a travessia do mar Vermelho; os 40 anos no deserto, quando viveram em tendas, o que sempre haveria de lembrar-lhes a provisoriedade de tudo; as sedições contra o líder; a Arca da Alian­ça, com as tábuas que registravam os dez mandamentos; o bezerro de ouro; a ação de Deus dia e noite; o maná; a água que jorrou da rocha; o sonho com o grande templo, que apenas seria construído por Salomão, filho de Davi.

Tão importantes são as tradições judaicas e tão arraigadas ficaram no coração do povo que, durante a longa diáspora ou dispersão dos judeus, do ano 70 d.C., quando se dá a queda de Jerusalém e a derrubada do templo por Tito, até 1948, com o reconhecimento do moderno Estado de Israel - embora esparramados pelo mundo in­teiro, os hebreus mantiveram a sua identidade como povo. E, desde a volta para a terra, ressuscitaram o hebraico como língua oficial, fato ainda mais importante que a hipótese de o latim voltar a ser falado em Roma.

Sem tomar partido nos intricados problemas atuais do Oriente Mé­dio, quero apenas reconhecer que a comunidade judaica cultivou as tradições surgidas nos tempos bíblicos, e foi isso que manteve a sua integridade nacional, como o rei Davi registra neste salmo.

O livro Ensaio sobre a cegueira, do grande escritor português José Saramago, lembra-me uma parábola bíblica. Porque apresenta a história de uma sociedade em que todos vão ficando cegos.
É neste mundo, em que se perde o contorno das coisas e o papel dos valores e conceitos, que a experiência de pequenas e grandes co­munidades, da família ao Estado, ganham uma importância ainda maior. Porque, na união decantada pelo salmista, podemos redescobrir e resgatar o que é de fato importante para os novos tem­pos que estamos vivendo. A sabedoria popular nos instrui: a união faz a força. E o lema dos três mosqueteiros que, por sinal, eram qua­tro, ajuda-nos como inspiração: um por todos e todos por um.

Um velho hino, baseado no salmo de Davi, suplica a Deus:

Envia-nos, Senhor, do teu monte Sião
aquela graça que produz a santa e doce união.

Se você concorda, diga apenas amém.



  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

Encontros que precisam ser marcados

O que me oferece sacrifício de ações de graça, esse me glorificará; e ao que me prepara o seu caminho, dar-lhe-ei que veja a salvação de Deus. Leia Salmos 50
Natan confronta Davi, Barão Henri de Triqueti (1803-1874)
Texto do rev. Jonas Rezende
Bruna Lombardi, esta excelente atriz que foi musa do poeta Mário Quintana, escreveu livros sensíveis, que li com muito agrado. Em Filmes proibidos, que me lembrou O encontro marcado, obra-prima de Fernando Sabino, Bruna fala do mal-estar do desencontro, como que a nos alertar para a necessidade de encontros verdadeiros. É um belo livro que recomendo com entusiasmo.

Neste salmo de Asafe encontramos uma promessa que procede do Senhor: ao que prepara o seu caminho, dar-lhe-ei que veja a salva­ção de Deus. O salmo fala da essência do culto a Deus. Nada tem do formalismo das liturgias pomposas: de que lhe serve repetir os meus preceitos e ter nos lábios a minha aliança, uma vez que você aborrece a disciplina e rejeita as minhas palavras?

O salmista Asafe sabe que o relacionamento com Deus é estimulante e libertador, mas traz também uma palavra de juízo com relação aos equívocos e erros do ser humano: você solta a sua boca para o mal e a sua língua trama enganos. Senta-se para falar contra o seu irmão e difama o filho de sua mãe.

E preciso urgentemente preparar o caminho da salvação, o que de­pende de alguns encontros essenciais na vida do ser humano.

O ser humano precisa encontrar-se consigo mesmo. É o cair em si, o necessário insight, como aconteceu na experiência do filho pródigo da parábola de Jesus. Esse encontro leva à descoberta de nossa identidade. Dá-nos uma noção clara dos nossos limites e ilimites, do nosso verdadeiro potencial. Leva-nos à avaliação das nossas máscarassociais. Desafia-nos a destruir as que são falsas ou perni­ciosas. E nos prepara o caminho da salvação, de que nos fala o salmista Asafe. Algumas pessoas utilizam também a psicanálise para atingir esse propósito, o que me parece legítimo e natural.

Mas o ser humano precisa também ter um encontro verdadeiro com o outro, o próximo. Até porque o homem é um animal político, um ser social, como Aristóteles avaliou muito antes da era cristã. Na verdade, como diz a Bíblia, não é bom que ele viva só. Artur Ra­mos chega a dizer que o ser humano isolado é um mito, uma impossibilidade, E. Park é ainda mais radical: o homem, diz ele, não nasce humano, mas faz-se humano em sociedade.

É importante, no entanto, que os vínculos sociais sejam calcados na justiça e no amor, como preconiza o Saltério, para que se estabele­ça o caminho da salvação.

Finalmente, tem de haver o encontro do ser humano com o seu Deus. É uma experiência tão profunda que, ao experimentá-la, o apóstolo Paulo confessou: já não sou eu mais que vivo, mas o Cristo vive dentro de mim... trago no meu corpo as marcas do Senhor Jesus. Está preparado o caminho da salvação. Deus nos lembra, através de Asafe, neste salmo: invoque-me no dia da angústia, eu o livrarei e você me glorificará.

Veja bem e anote. No encontro consigo mesmo o ser humano se descobre; no encontro com o outro, ele se comunica, mas é apenas no encontro com Deus que o ser humano plenamente se realiza.


Onde você se coloca nisso tudo?

  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

A festa dos foliões

Alegrei-me quando me disseram: vamos à casa do Senhor. Leia Salmos 122
Salmo 122, closedaybyday
Texto do rev. Jonas Rezende.
Não seria incorreto valorizar sobremaneira a casa dão Senhor? Isto é, localizar em templos e tabernáculos os lugares privilegiados para o cultivo do nosso encontro com Deus? Ao meditarmos sobre a mensagem de outros salmos, aprendemos que Deus não se aprisiona em nenhuma casa, nem mesmo no Universo. Jesus nos ensina que Deus é espírito e requer de nós um culto espiritual.


Jacó usa uma pedra como travesseiro, em momento de fuga, e chama o lugar de Betel, que significa casa de Deus. Porque o Senhor, que a tudo transcende, é também o Deus que está conosco, em nós, como a palavra Emanuel, um dos nomes atribuídos a Cristo, nos faz saber.

Nada impede que nos alegremos porque vamos a Jerusalém, Roma, Santiago de Compostela. Que cantemos de júbilo por estarmos na casa do Senhor, como chamamos os nossos templos. Os filhos de Coré chegaram a dizer, em outro salmo, que até o pardal encontrou casa, a andorinha, ninho para si, onde acolha seus filhotes, no templo de Deus.

Harvey Cox, notável teólogo e antropólogo norte americano, escreveu no seu livro A cidade do homem sobre a necessidade de viver, no dia a dia do mundo, a realidade da nossa fé. Mas é o mesmo Harvey Cox quem registra em outra de suas obras, A festa dos foliões, a legitimidade dos atos litúrgicos vibrantes como as celebrações do salmo 100 nos convida a viver: sirvam o Senhor com alegria e apresentem-se diante dele com cânticos. Não é a festa que acontece nas liturgias dos negros americanos? Até os seus ofícios fúnebres não abrem mão da música e de todas as expressões legítimas da nossa mais profunda esperança.

Antes de Harvey Cox, o pastor luterano Dietrich Bonhoeffer já desenvolvia ideias semelhantes. Por um lado, ele conhecia o preço do discipulado. O pastor sacrificado no regime arbitrário de Adolf Hitler disse uma vez: quando Cristo chama um homem, ordena que vá e que morra. Mas Bonhoeffer entende também o valor do cultivo espiritual, através de uma vida comunitária de comunhão com Deus e com o próximo.

Existem ordens religiosas que dividem seus membros em dois grupos: os oblatas, que realizam trabalhos em sociedade. E os contemplativos, que usam todo o seu tempo na vida de oração. Julgo apenas que essas dimensões da nossa fé podem ser vividas ao mesmo tempo. Você concorda?

Na primeira igreja que pastoreei, em Ribeirão Preto, inscrevemos no templo a nossa visão de culto e serviço: entrem para adorar e saiam para servir. Assim aconteceu na vida do jovem profeta Isaías. Busca a casa de Deus e do encontro fica a pergunta do Senhor: a quem enviarei? O profeta responde com absoluto desprendimento e coragem para enfrentar todos os riscos: eis-me aqui, envia-me.

Reflita sobre essas ideias.
E descubra o seu caminho devocional.
O salmo de Davi vai ajudá-lo a ver na vida de oração o
motor do nosso testemunho, nessa terra dos homens.
Aprenda a cantar também como o salmista:
alegrei-me quando me disseram:
-Vamos à casa do Senhor.

  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

Apaixonado por Deus

A minha alma anseia pelo Senhor mais do que os guardas pelo romper da manhã. Mais do que os guardas pelo romper da manhã, espere Israel no SENHOR. Leia Salmos 130
O Sentinela de Hazor, foto de Ferrell Jenkins
Texto do rev. Jonas Rezende.
Em seu livro Terra dos homens, Exupéry fala de um pequeno lago que mantinha estranho namoro com o oceano, do qual se encontrava separado por muitos quilômetros. O lago acompanhava periodicamente as marés distantes, como se estivesse realmente apaixonado pelo mar...

Neste salmo, em que o poeta liberta o clamor que sai das suas profundezas, eu também percebo um enamoramento com Deus, que gera uma ansiedade tão intensa quanto a que sentem os guardas pelo romper da manhã, término de sua angustiante vigília.

A Bíblia doa que devemos amar a Deus com toda alma, com todo entendimento e com todo o coração. Aqui o salmista deixa falar as emoções do coração em primeiro lugar. E produz uma página imortal.

Daniel Goleman nos ajuda a entender o papel da emoção na vida humana, até como bases para o desenvolvimento da nossa inteligência. Somos um feixe de emoções. Há 40 mil anos, um nosso ancestral já fazia música usando uma flauta rudimentar feita com o osso de um urso. Homero criava poemas ainda antes de contar com a escrita. O ser humano busca, desenvolve a intuição, é místico. A razão termina sendo apenas uma das vias do conhecimento. Nem sei se é a mais nobre.

Quem sabe se ainda não é mais profundo do que o pensamento, o enigma do mundo? Pergunta Fernando Pessoa. Quem sabe se ainda não é mais profundo do que o enigma do mundo, o mistério do amor? Sou eu que agora pergunto, diante do salmista e sua declaração de ternura a Deus. Essa devoção completamente apaixonada me parece mais bela do que o zelo furioso dos profetas, sem discordar da sua importância e da sua oportunidade. João da Cruz, o grande místico cristão, declarou certa vez: no fim, seremos julgados respeito do amor.

Veja agora que coisa mais bela, apesar de sofrida. O nosso grande compositor Antônia Maria, a despeito da grandeza da sua alma, foi preso durante a ditadura e teve as suas mãos, delicadas e artísticas, pisoteadas pela brutalidade dos torturadores. Na ocasião ele comentou sobre seus algozes: que bobos! Eles pensam que eu escrevo com as mãos.

O Saltério nos ensina a usar mais os nossos sentimentos e as nossas emoções, no encontro com Deus, o outro, o povo, a Natureza. Não podemos perder de vista a magia do Universo, a sabedoria das flores, como entendia Maurice Maeterlinck, que o nosso Monteiro Lobato o poeta-filósofo do indizível. A energia que dorme nas pedras. A grandiosidade das esferas celestes.

Se quisermos salvar a Natureza, que geme esperando a redenção, como lembra o apóstolo Paulo, não bastam discursos ecológicos. Temos que conhecê-la e amá-la. Faz muito tempo que perdemos o contato direto com a terra, o mar, os animais. E perdemos, em consequência, a relação amorosa com Deus, e com nosso irmão; perdemos a nós mesmos.

É o momento de ter saudade do Senhor, de reatar o enamoramento. É a oportunidade de sentir novamente angústia em face do seu silêncio e anelar pelo Senhor, mais do que os guardas pelo romper da manhã. Ele certamente corresponderá ao nosso amor. E nos ajudará na apropriação correta de todas as outras coisas, que nos serão oferecidas como um presente, que não mais nos faria falta.

Você pode apostar?

  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

Deus ri da nossa arrogância

Os reis da terra se levantam, e os príncipes conspiram contra o SENHOR e contra o seu Ungido, dizendo: Rompamos os seus laços e sacudamos de nós as suas algemas. Ri-se aquele que habita nos céus; o Senhor zomba deles. Salmo 2
Rei Davi derrota seus inimigos, William Schaff 
Texto do rev. Jonas Rezende.
Um novo rei de Judá assume o poder. A transição de governo provoca e espírito de sedição nos descontentes, que se articulam para derrubar o monarca. Tudo indique que, nesse contexto histórico, um poeta da corte escreveu o presente poema que deveria ser lido pelo novo rei, investido como um ungido ou messias de Deus para conduzir o seu povo. Com a expressa condenação divina, a rebelião contra o soberano estava fadada ao absoluto fracasso, razão porque o Novo Testamento aplica a Jesus as palavras deste salmo.

Mas, veja bem. O mais importante é que essa bela poesia bíblica se ajusta, não apenas à pessoa de um rei do passado, mas a todos os seres humanos, que são igualmente ungidos pelo amor divino.

Os atos ou maquiavélicos contra aqueles que o Senhor protege são fatalmente abortados. E, para mostrar a fragilidade das forças do mal, o salmista lança mal de uma imagem muito interessante, ao afirmar que Deus ri e se diverte dos que respiram crueldade, mas que nada podem fazer contra o seu ungido. Porque o Senhor o ama e o adota, declarando com firmeza: você é meu filho, hoje eu o gerei.

Você sabe? Gosto muito desse bom humor divino. Ainda na correção, Deus não perde a ternura e fairplay. Jamais. Gosto também da alegria de Jesus, de suas palavras sempre oportunas, da maneira com ele enfrenta de peito aberto os inimigos. Gosto de suas frases espirituosas. Da sua graça, nos dois sentidos da palavra, como ressalta Fernando Sabino.

Qual é então o poder da maldade que às vezes nos cerca, se temos um Pai? O apóstolo Paulo chega a indagar, com um toque se desafio e até de atrevimento: se Deus é por nós, quem será contra nós? Nada conseguem as maquinações perversas contra os que se abrigam no escudo da proteção divina. De outra feita, afirmou, como o profeta Oséias, com absoluto destemor: tragada foi a morte pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó inferno, o teu agulhão? Graças a Deus, que nos dá a vitória por intermédio do Senhor Jesus Cristo.

Os surfistas, aqueles que enfrentam o espaço com suas asas delta sabem muito bem e nos ensinam, o que considero uma verdadeira e importante lição de vida: as forças adversas lançam para frente e para o alto quem não deixasse levar pela ação do desânimo e do medo, que pode e deve ser entendido como o contrário da fé. Mas resiste vence e cresce. Há um interessante ditado que diz: os ventos do norte fizeram os vickings. Alguém elogiava a oratória de Demóstenes, ressaltando: apesar de gago, alcançou a glória como o maior de todos os tribunos. Seu interlocutor, vendo mais longe, corrigiu: Demóstenes foi o maior orador de sua época porque era gago.

Aí está o segredo do ovo de Colombo. Thomas Alva Edison, o grande inventor, nos afirma que o gênio tem 1% de inspiração. Os 99% restantes são de transpiração.

Anote em sua agenda. Goethe, um dos homens mais sábios de todos os tempos, acreditava firmemente que o talento se consegue no berço; o caráter, no túmulo da vida.

Então, resista. Cresça. Vença.

  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS