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A tua palavra escondi

Guardo no coração as tuas palavras, para não pecar contra ti.  Salmos 119.11
Criança no Ramadan, Vincent Kessler-Reuters
A meditação do Rev. Jonas Rezende, que hoje à noite lança o seu 30º livro baseada neste versículo do maior salmo da Bíblia, me fez relembrar uma “musiquinha”, antigamente chamado de corinho, que cantei muito quando criança. Até onde a minha lembrança alcança, ele era mais ou menos assim:
A tua Palavra escondi
No meu coração escondi
Pra não pecar contra ti, não pecar
A tua Palavra escondi

Não será necessário dizer que o verbo esconder tinha para mim, naquela época, um sentido bem diferente do que tem hoje. Pena que já não consigo mais resgatar o que de fato eu entendia quando cantava esse "corinho". Não posso também perguntar a uma criança de hoje o que passa pela sua cabeça quando se depara com essa letra, mesmo as novas traduções já traduzem por guardar e não mais por esconder, e as crianças já não o cantam mais na Escola Dominical. Mas de uma coisa vocês podem estar certos: não pensem que as crianças de antigamente entendiam menos o sentido do versículo do que muito adulto que o lê hoje.

Logicamente que a ênfase do texto não prioriza nenhuma e nem outra tradução. Se o sentido de esconder, como entendemos hoje esse verbo, tornou-se inadequado, guardar também não repercute totalmente a ideia inicial do autor do salmo, cujo contexto é uma tentativa de buscar o socorro de Deus contra os seus perseguidores, que o perseguem justamente pela sua fidelidade à Palavra de Deus que condena a opressão e a injustiça deles. O salmista está querendo dizer que ele está disposto a sustentar o seu testemunho em favor da integridade dessa Palavra, mas que para isso conta com a ajuda de Deus para livrá-lo dos inimigos que fez por conta desta sua atitude. Isso torna a sua decisão mais afeita ao terreno do entendimento do que a Palavra determina, ou seja, ele compreendeu perfeitamente qual era a vontade de Deus para ele. Mas também, de uma forma toda especial, ele apreendeu esse ensinamento em seu coração, pois não queria que ele fosse mais uma, das tantas coisas que tem aprendido. Um ensino que somente o coração pode reter, e porque não esconder?

Tudo isso é bem mais complexo do que simplesmente guardar em alguma parte do córtex cerebral. É bem mais desafiador do que ter uma lembrança, ainda que precisa, do que foi prescrito para ser cumprido. Para o salmista isso está mais do que claro, pois o seu salmo já se inicia com este pressuposto: Tu ordenaste os teus mandamentos, para que os cumpramos à risca. É a partir daí que sua poesia toma forma de uma petição de um salmo imprecatório: Tomara sejam firmes os meus passos, para que eu observe os teus preceitos. Então, não terei de que me envergonhar, quando considerar em todos os teus mandamentos. Abrindo um parêntese, aqui temos mais uma idiotice dos tradutores atuais da Bíblia. Em lugar de “tomara seja firme os meus passos”, traduzia-se assim: oxalá sejam firmes os meus passos. Por questões comerciais trocaram o termo para não identificá-lo com a entidade cultuada nas religiões de origem afro. Se o termo fosse mantido as igrejas neopentecostais e os detectores oficiais de demônios comprariam mais essas Bíblias. Vejam vocês que autoridade têm esses senhores para alterar o meu salmo. Fecho parêntese.

O ponto decisivo em favor da minha interpretação quando criança, fosse ela qual fosse, é fato do salmista apresentar a Deus o seu problema partindo do ponto vista de alguém que tem pouca idade. Se não propriamente uma criança, alguém que ainda não tem suficiente maturidade para fazer escolhas sensatas com firmeza, daí a sua pergunta: De que maneira poderá o jovem guardar puro o seu caminho? O xeque mate nas interpretações adultas é justamente esse: mesmo para quem ainda não tem a capacidade de entender completamente o sentido exato do que a palavra de Deus determina, a intenção de guardá-la inalterada em seu coração serve como justificativa. Aí sim vamos ver o quanto o sentido antigo de esconder é mais elevado do que o atual que é guardar. Sinceramente, depois de tudo que tenho lido e aprendido dessa Palavra, prefiro algumas muitas vezes guardá-la em meu coração do que barateá-la em discussões com os neoreformadores da Bíblia.

Rev. Jonas Rezende lança o seu livro Teclado na Alma, hoje, a partir de 19h30min, na Igreja Cristã de Ipanema, rua Joana Angélica, 203 – Ipanema. Tel: 2287-8144 

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Gemidos inexprimíveis III

Mãos orando, extraído de www.godsbreath.net
Precisamos orar. A oração eficaz busca a vontade de Deus, tal como o Espírito também busca. Nossa luta é para conhecer a vontade de Deus. Tente manter o seu coração sem vontade própria em um determinado assunto. Peça a Deus para revelar sua vontade para você. Resolva não confiar em sentimentos sozinho.


Nossos sentimentos são míopes, muitas vezes egoístas e inconstantes.  Baseando-se neles você pode se tornar sujeito a ilusões. Peça a orientação do Espírito Santo ao estudar as Escrituras. O Espírito e a Palavra devem andar juntos. Se o Espírito Santo lhe guiar, ele vai fazê-lo de acordo com as Escrituras e nunca contrário a elas. Olhe para as circunstâncias de sua vida. Há portas que nós precisam ser abertas e caminhos que precisam ser  percorridos. Há também alguns outros sinais circunstanciais que podem nos levar na direção de Deus. Considere todas estas coisas e tome a melhor decisão possível. 

Estes versos de Romanos 8.26-27 são promessas maravilhosas para aqueles que confiam em Cristo. A Bíblia nos diz que há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem, que se deu em resgate por todos os homens, o testemunho dado em seu próprio tempo. Deus ouve as orações daqueles mantem de alguma forma um relacionamento com Cristo. Isso é o que significa orar "em nome de Jesus". O primeiro passo para uma vida de oração é admitir seu pecado, reconhecer a provisão de Deus e receber o Espírito transformador de Deus na sua vida.

Devemos entender que Deus não quer que fiquemos sem orar. Ele não está preocupado com as palavras que usamos, a fluência do nosso discurso, ou mesmo se vamos entender a Sua vontade em uma situação particular. Ele quer que falemos com ele. O Espírito Santo dentro de nós e o Salvador nos céus farão o resto.

Você vê de quanta tensão nos livra a nossa vida de oração? Em vez de termos medo de dizer a coisa errada, podemos orar honesta e corajosamente. Em vez de estarmos preocupados com as palavras que usamos, podemos nos concentrar em Deus, que entende nosso coração. Em vez de fazermos oração ao problema, falemos ao Pai do problema. Eu não estou dizendo que não devemos aprender mais sobre a oração. Deveríamos. A criança que balbucia deve aprender a falar claramente, o adolescente deve aprender a melhorar o seu vocabulário. Da mesma forma, devemos amadurecer a nossa comunicação com o Pai. 

Devemos ter cuidado ao julgar as orações dos outros. A oração sincera de uma criança que ora por seu cachorro, o adulto que tem dificuldade para falar em público, o pastor que ora por muito tempo, ou o cristão experiente que fala palavras cheias de intimidade, e coloca um sentido diferente no poder do Espírito em cada uma das suas orações. Precisamos, como ele, pensar de forma diferente sobre a oração. É como um aprendizado. Somos tentados a concluir que a pessoa com as melhores notas é a mais educada. Não é sempre o caso. Algumas pessoas não se dão bem com os testes,  mas aprendem mais com a experiência do que com os livros. Algumas pessoas têm um estilo diferente de aprendizado. Não devemos julgar a educação ou a capacidade de uma pessoa simplesmente por seus certificados na parede. Da mesma forma, não devemos julgar uma oração pelas palavras.

A questão não é colocar nosso foco sobre o que ou como podemos orar a Deus, e sim sabermos que ele quer se concentrar sobre quem estamos orando. Quando focarmos exclusivamente nele seremos capazes de deixar de nos concentrarmos em nossas palavras para simplesmente desfrutar da nossa conversa com o Pai Nosso.

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Gemidos inexprimíveis II

Mãos postas em oração,
Antônio Diogo Parreiras em 1913
Paulo nos diz que o Espírito Santo intercede por nós. Quando uma pessoa intercede por outra, ela vai em nome da pessoa por quem está intercedendo a fim de conciliar as duas partes. Neste sentido, o Espírito Santo é dito para ir para o Pai em nosso nome para interpretar e dar voz às orações de nosso coração.

O Espírito Santo intercede com gemidos que as palavras não podem expressar. Algumas pessoas acreditam que este versículo está falando sobre o que é muitas vezes chamado de "linguagem de oração" ou uma forma de falar em línguas. Esse não é o caso, porque somos informados de que o gemido é de tal natureza que as palavras, em qualquer idioma, não podem expressar. O Espírito Santo se comunica com o Pai em uma linguagem profunda, íntima e sem palavras que não podemos compreender ou expressar.

Paulo também nos diz que o Espírito Santo ora eficazmente em nosso favor, porque o Espírito ora em conformidade com a vontade de Deus. O Espírito Santo sabe o que é melhor para nossa vida. Ele sabe que o plano de Deus para nós. Ele sabe que o objetivo de cada evento e da situação em nossa vida. O Espírito Santo ora por Deus para realizar a Sua obra em nós.

No versículo 34 observa-se outra coisa. Não só é o Espírito Santo intercede por nós aqui na terra, mas Cristo Jesus, que morreu, mais do que isso, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós. Temos assistência terrena e assistência celestial! Deus entende nossas fraquezas em oração e forneceu todos os tipos de ajuda! Vamos tentar fazer uma analogia da obra do Espírito Santo. Eu imagino o Espírito Santo trabalhando muito parecido com um editor faz para um escritor. O escritor coloca suas palavras em uma página com a intenção de transmitir uma verdade ou conceito particular. O editor leva o trabalho do escritor, corrige gramaticalmente, e faz alterações, cortes e revisões que ajudarão a verdadeira mensagem surgir em meio à pilha de palavras. Parece-me que de uma forma semelhante, o Espírito Santo edições nossas orações e torna-los mais eficazes. O Espírito Santo da um brilho no nosso trabalho antes de envia-lo para o Pai em perfeita forma.

Vamos ver agora alguns princípios sobre a oração que podemos tirar dessa passagem. Primeiro, precisamos crer que Deus quer que oremos. Depois de tudo que acabamos de dizer, é tentador concluir que a oração é algo realmente supérfluo. Se o Espírito está orando por nós, e o faz de forma mais eficaz do que nós mesmos, então parece que não precisamos orar. Lembre-se que é dito o Espírito nos ajuda em nossa fraqueza. O Espírito Santo não elimina a necessidade de oração, Ele nos ajuda quando oramos. Não importa quão bom um editor é ele não pode fazer nada sem as palavras originais do autor. Da mesma maneira, o Espírito Santo não pode aumentar nossas orações se não há oração alguma. De acordo com o plano soberano de Deus, Ele nos chamou para orar. Deus conhece a nossa fraqueza. Ele entende a nossa perspectiva limitada. Apesar de tudo isso, ele ainda nos chama para conversar com ele.

Você realmente já se perguntou por quê? A criança pequena às vezes começa uma conversa que não faz qualquer sentido. Você não vai lhe dizer para parar de falar com você? Claro que não! Deus quer que você fale com Ele, porque Ele ama você. E nesse processo ele não está classificando as suas orações, ele está ouvindo o seu coração. Precisamos entender o propósito da oração. Às vezes ficamos frustrados porque não compreendemos o que é a oração. Nós pensamos que na oração que podemos fazer Deus mudar sua mente. Isso é ridículo. Seu caminho é sempre perfeito, e mudar a sua mente seria a afastar-se o que é certo e bom.

Nós não podemos coagir ou persuadir Deus a responder favoravelmente às nossas orações. Ele tem prazer em responder as orações de seus filhos, assim como você para atender as solicitações de seu filho. A oração não muda a mente de Deus, mas pode mudar a nossa. A oração nos dá a oportunidade de falar sobre todas as coisas com o Todo-Poderoso.  A oração acalma nossos corações, nos dá novas perspectivas, e nos aponta a direção certa.

A oração também pode mudar as circunstâncias. Deus, em Sua soberania optou por usar as nossas orações como um meio para realizar a sua vontade. A oração é a maneira pela qual nós podemos trazer a bênção de Deus para a nossa vida e para a vida dos que nos rodeiam. Quando oramos por alguém, nós nos tornamos parte da solução do seu problema. Quando oramos sobre as circunstâncias difíceis de nossas vidas, Deus nos transforma para que possamos nos beneficiar das circunstâncias. 

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Gemidos inexprimíveis I

Virgem em oração, Abraham Bloemaert (1564-1651)
Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque segundo a vontade de Deus é que ele intercede pelos santos. Romanos 8.26s

Se existe um aspecto da nossa vida cristã em que hesitamos sempre é a oração. Muitos acham que a oração existe para ser influenciar o inconsistente. Entendemos a importância da oração? Confiamos no poder da oração? Normalmente dizemos que sim, no entanto, muitas vezes vacilamos na prática e na forma. No nosso texto bíblico parece evidente que somos assim mesmo e Deus está bem ciente do nosso problema: Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque segundo a vontade de Deus é que ele intercede pelos santos.

Essa passagem começa com a palavra “semelhantemente”, que é uma referência ao versículo 22 que fala do gemido da criação: Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora. E não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito. Paulo ressalta que o Espírito Santo está gemendo dessa mesma forma, anseio pelo dia em que o mundo será purificado e curado.

Paulo nos diz também que o Espírito Santo nos ajuda em nossa fraqueza. Há muitas áreas em que somos fracos. Nós somos fracos, por vezes, fisicamente. Ficamos exaustos e sentimos que não podemos continuar. Estamos enfraquecidos pelos restos do pecado em nossa vida. Nós somos fracos emocionalmente quando nos encontramos oprimidos. Muitas vezes somos fracos espiritualmente porque nos falta a fé na bondade e sabedoria da Palavra de Deus. Mas a fraqueza que Paulo aponta aqui é a fraqueza intelectual. Nós temos uma incapacidade nata de saber o que pedir a Deus em oração. 

Esses nosso tempos servem bem de exemplo. Não sabemos quando orar pela cura de uma pessoa ou para Deus prepará-la, a ela e nós, para a viagem de volta, mesmo sabendo que as pessoas não estão destinadas a viver para sempre. Não sabemos quando orar para que Deus prover nossas necessidades financeiras ou para pedir-lhe que nos ajude a viver de forma mais simples dentro de nossos recursos. Não sabemos quando orar por um relacionamento em desenvolvimento ou para pedir a Deus que nos ajude a esperar por algo mais apropriado. Estamos diante de uma encruzilhada da vida e nós não sabemos orar para saber que caminho tomar. Estamos diante de uma oportunidade e nós não sabemos quando orar para que Deus nos dê coragem para um passo de fé, ou a paciência de esperar nele. A realidade é que não sabemos o que orar, porque não sabemos o que o futuro nos reserva. Como vamos enfrentá-lo? Se soubesse que tinha apenas um ano de vida deveria orar de forma diferente se soubesse que tinha 25 anos de vida pela frente?

Pensemos agora sobre a nossa situação atual como igreja. Estamos planejando uma nova construção. Seria mais fácil saber o que fazer e como orar se soubéssemos o que a economia vai fazer e se a igreja vai continuar com a sua taxa atual de crescimento e contribuição. Porque não sabemos o futuro, não temos certeza de que o caminho certo para orar. Nós também não sabemos o que orar, porque, em determinado momento, não sabemos o que é melhor para nós. Nós sabemos o que nós preferimos a qualquer momento, mas não sabemos o que é melhor para o nosso bem supremo. Se você oferecer a maioria das crianças escolher entre um hambúrguer, batata frita e sorvete ou um prato de legumes e frutas, a maioria das crianças vai escolher o primeiro. Da mesma forma a gente sempre vai escolher o caminho que evita as dificuldades, embora sabendo que a fé e a paciência são desenvolvidas nas provações. Deus vê a cena inteira e nós não.

Paulo nos diz que Deus nos deu o Seu Espírito Santo para nos assistir na nossa fraqueza. A palavra "assistência" é uma palavra rica que traz consigo a ideia de uma pessoa que vem ao nosso lado para carregar parte da carga pesada e ajudar-nos a suportá-la. Deus nos deu o Seu Espírito Santo para nos ajudar em nossa vida de oração. (continua na sexta feira)

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Comentários a uma parábola

Fariseu e o publicano,  Barent Fabritius em 1661
A verdadeira oração 
Texto extraído do livro "O avesso é o lado certo: círculos bíblicos sobre o Evangelho de Lucas". Autores: Pe. Carlos Mesters e Mercedes Lopes.

No texto de hoje, Jesus fala sobre uma parábola, na qual o avesso é o lado certo. Ela mostra que Jesus tinha outra maneira de ver a vida. Jesus conseguia enxergar uma revelação de Deus lá onde todo o mundo só enxergava coisa ruim. Por exemplo, ele via algo de positivo no publicano, de quem todo mundo dizia: "Ele nem sabe rezar". Jesus vivia tão unido ao Pai pela oração, que tudo se tornava expressão de oração para ele. Acompanhe o texto.

SITUANDO
Neste texto, Jesus trata da oração. É a segunda vez que Lucas traz palavras de Jesus para ensinar como rezar. Na primeira vez (Lucas 11,1-13), ensinou o Pai-Nosso e, por meio de comparações e parábolas, ensinou que devemos rezar com insistência, sem esmorecer (cf. Lucas 18,1-8). Agora, nesta segunda vez, ele recorre à parábola tirada da vida para ensinar sobre a humildade. A maneira de apresentar a parábola é muito didática. Primeiro Jesus faz uma breve introdução que serve de chave de leitura. Em seguida, conta a parábola. No fim, o próprio Jesus faz a aplicação, mostrando que o avesso é o lado certo.

COMENTANDO
Lucas 18,9-14: o fariseu e o publicano
Lucas 18,9: A introdução
A parábola é introduzida com a seguinte frase: "Contou ainda esta parábola para alguns que, convencidos de serem justos, desprezavam os outros!" A frase é de Lucas e se refere, simultaneamente, ao tempo de Jesus e ao tempo do próprio Lucas, em que as comunidades da tradição antiga desprezavam as que vinham do paganismo.

Lucas 18,10-13: A parábola
Dois homens sobem ao Templo para rezar: um fariseu e um publicano. Na opinião do povo daquela época, um publicano não prestava para nada e não podia dirigir-se a Deus, pois era uma pessoa impura. Na parábola, o fariseu agradece a Deus por ser melhor do que os outros. A sua oração nada mais é do que um elogio de si mesmo, uma autoexaltação das suas boas qualidades, um desprezo pelos outros. O publicano nem sequer levanta os olhos, bate no peito e apenas diz: "Meu Deus, tem dó de mim que sou um pecador!" Ele se coloca no seu lugar diante de Deus.

Lucas 18,14: A aplicação
Se Jesus tivesse deixado o povo dizer quem voltou justificado para casa, todos teriam dito: "É o fariseu". Jesus, no entanto, pensa diferente. Quem voltou justificado, isto é, em boas relações com Deus, não é o fariseu, mas sim o publicano. Novamente, Jesus virou tudo pelo avesso. Muita gente não deve ter gostado da aplicação que Jesus fez desta parábola.


Quem se exaltar será humilhado
Pe. Marcel Domergue
Os dois homens ocupam lugares diametralmente opostos no decorrer da parábola. A primeira oposição é quanto ao status social, como vimos. O fariseu introduz uma segunda oposição, no domínio da moralidade e da credibilidade. Uma terceira oposição é a oração do publicano que não tem nada a ver com a do fariseu. Por fim, tudo termina na antinomia do par justificado-não justificado, reforçada pela do par humilhado-elevado.

Ora, qual é o fruto da vinda do Cristo entre nós? A constituição de um Corpo no qual cada um é solidário com todos os outros, um corpo que se mantém unido pelo amor. Quando falamos em "comunhão dos santos", queremos dizer que o valor da vida vivida por Pedro pertence a Paulo, que tudo é comum, que ninguém pode apropriar-se do "bem" que pratica. A ação de graças do fariseu era falaciosa: apropriava-se do bem praticado, enquanto a verdadeira ação de graças consiste em desapropriar-se. Assim, em vez de se fazer um só com os "outros homens", o fariseu distinguiu-se deles, pôs-se à parte, fora do Corpo dos "justificados".

Por querer guardar para si os próprios méritos, tornou-se incapaz de fazer seus, os "méritos" de um outro: o Cristo. O que vai ainda mais longe: ao comparar-se com os outros, com o publicano particularmente, o fariseu fez um julgamento, pronunciou-se sobre o seu próprio valor e o valor dos outros. E ao fazer isto tomou o lugar do juiz, ocupou o lugar de Deus. Deus, no entanto, é o único que poderia justificá-lo.


A piedade correta
Pe. Jaldemir Vitório

A parábola do fariseu e do publicano aponta para dois diferentes tipos de piedade, representando posições extremas. O discípulo do Reino deve decidir-se pela maneira correta de agradar a Deus, evitando os caminhos enganosos. 

A piedade farisaica, baseada na prática cotidiana da Lei, em seus mínimos detalhes, tinha seus defeitos: era cheia de orgulho, uma vez que levava a pessoa a olhar com desprezo para os considerados pecadores e incapazes de perfeição; pregava a segregação das outras pessoas, por temor de contaminação. Os fariseus julgavam-se com direito de exigir de Deus a salvação, em vista dos méritos adquiridos com sua vida piedosa. 

A piedade do povo simples e desprezado, como o cobrador de impostos, tem outros fundamentos: a humildade e a consciência das próprias limitações e da necessidade de Deus para salvá-lo, a certeza de que a salvação resulta da misericórdia divina, sem méritos humanos, o espírito solidário com os demais pecadores que esperam a manifestação da bondade de Deus.

A oração do fariseu prepotente e egoísta dificilmente será atendida. É uma oração formal, da boca para fora. Já a oração do publicano é totalmente humilde, porque ele reconhece que sua salvação vem de Deus. Só a oração sem estardalhaço é ouvida! 



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Sou justo, e você tem fé?

Digo-vos que, depressa, lhes fará justiça. Contudo, quando vier o Filho do Homem, achará, porventura, fé na terra? Lucas 18.8
Parábola do juiz iníquo, John Everett Millais
Tem-se observado nas igrejas cristãs uma crescente e preocupante crise de adimplência. Quase todo mundo se acha no direito de ter as suas orações atendidas a tempo e a hora. Esse é um assunto recorrente aqui nesse blog. Por algumas vezes temos expressado a opinião de alguns teólogos sérios, e alertado sobre elas, no que diz respeito a esse falta de noção que a grande maioria dos cristãos, principalmente brasileiros, se encontra com relação ao evangelho. 


Mas neste dia em que o Calendário Litúrgico sugere que reflitamos sobre a parábola do juiz iníquo, contada por Jesus, tentaremos fazer uma abordagem um pouco diferente do que já temos feito. Passemos um tempo a meditar sobre os requisitos mínimos da oração, tenha ela o objetivo que tiver.

A parábola realmente fala que a oração deve ser insistente e sem esmorecimento. O clamor dos filhos de Deus ao Pai deveria versar sobre tantos assuntos e propósitos que realmente faltaria tempo para que a oração fosse completa na sua estrutura. Contudo, o desfecho da parábola aponta para uma direção bem diferente da proposição do tema de abertura. Jesus não quer saber se os discípulos doravante seguirão a risca a sua orientação. Também não quer determinar o tempo que se deve despender com as orações diárias. Ele quer mesmo saber se estamos preparados para receber e aceitar as respostas que serão dadas aos nossos pedidos de oração. Ele quer saber se temos fé suficiente para arcar com a responsabilidade sobre aquilo que estamos pedindo: quando vier o Filho do Homem, achará, porventura, fé na terra?

Essa pergunta de Jesus não é um fato isolado nas Escrituras Sagradas. Os profetas de Israel foram unânimes em questionar o povo quanto ao seu relacionamento com Deus. Sem sombra de dúvida, Amós foi o mais contundente de todos, quando propôs a seguinte questão: Am 5.18ss - Ai de vós que desejais o Dia do SENHOR! Para que desejais vós o Dia do SENHOR? É dia de trevas e não de luz. Como se um homem fugisse de diante do leão, e se encontrasse com ele o urso; ou como se, entrando em casa, encostando a mão à parede, fosse mordido de uma cobra. Não será, pois, o Dia do SENHOR trevas e não luz? Não será completa escuridão, sem nenhuma claridade?

O patrono desse blog bate com força e sem piedade naqueles que insistentemente repetem em suas orações a parusia, o urgente retorno de Jesus. Bate também naqueles que fazem coro com o cantor Roberto Carlos na sua canção Todos estão surdos, em que ele pede:
Meu Amigo volte logo
Venha ensinar meu povo
Que o amor é importante
Vem dizer tudo de novo

Em uma ocasião, diante de um pedido absurdo dos discípulos, Jesus falou: Mt 20.22 -Vocês não sabem o que estão pedindo. Analisando uma situação bem parecida o apóstolo Tiago disse também algo neste sentido: Tg 4.3- Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres.

Trazendo agora a questão para uma realidade mais abrangente e mais consciente, podemos verificar que esse contraste entre o Deus justo e o homem pecador pode ser vivido com toda intensidade nas páginas do livro de Jó, e aí passa a ser um problema de todos nós. Quando o escritor revela toda a tensão que existe no ponto em que a justiça humana bate de frente com a perfeição de Deus, podemos sentir todo o drama desse nosso antepassado, que, em última análise, não está distante do drama real do cristão diante das orações que dirige a Deus. Essa mistura quase sempre desproporcional de necessidade, desejo, justiça, mérito e graça presente nas nossas orações, precisam nos levar a uma postura mais séria e mais consequente.

Uma das grandes colaborações que Vinicius de Moraes nos deixou, ficou escrita na letra de um samba o qual chamou de samba da bênção. Nessas linhas, o poeta que teria completado 100 anos, se fosse vivo, fala claramente da responsabilidade do homem diante de Deus. Uma lição com um toque de humor, mas profundamente evangélica, e escrita, para o espanto de muitos, fora das páginas da Bíblia, em que ensina:

Feito essa gente que anda por aí
Brincando com a vida
Cuidado, companheiro!
A vida é pra valer
E não se engane não, tem uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinado embaixo: Deus
E com firma reconhecida!

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O rico não ouvia Lázaro

Então, replicou: Pai, eu te imploro que mandes Lázaro à minha casa paterna, porque tenho cinco irmãos; para que lhes dê testemunho, a fim de não virem também para este lugar de tormento. Respondeu Abraão: Eles tem Moisés e os Profetas; ouçam-nos. Mas ele insistiu: Não, pai Abraão; se alguém dentre os mortos for ter com eles, arrepender-se-ão. Leia Lucas 16.19-31

Morte de Lázaro e do homem rico, 
iluminura dos Sermões de Maurice de Sully (1320)
Enquanto os povos vizinhos tinham seus magos e encantadores que assombravam a todos com seus feitos sobrenaturais, a Israel foi enviado profetas, munidos tão somente da Palavra de Deus sem qualquer poder místico ou sobre humano. Enquanto as nações se curvavam diante de visões extraordinárias, Israel era desafiada a ouvir apenas.

Alguns teólogos afirmam serem três e não dois os principais mandamentos. Dizem também que este terceiro mandamento é crucial para que se cumpram plenamente os outros dois. Diz o Deuteronômio 6.5: Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força. Este é o primeiro grande mandamento, e o segundo pode ser encontrado no Levítico 19.18b: Mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Antes, porém, de promulgar estes dois mandamentos e colocá-los como os principais, Deus dá uma ordem definitiva: Ouve, Israel. Sem antes ouvir o que Deus tem a dizer, nada mais pode ser feito depois.

O mandamento que determina que Deus seja ouvido antes era fundamental também na educação das novas gerações. O que Deus tem a dizer é sempre atual e sempre pertinente: Dt 6.6 - Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te. Quando Israel não obedecia a voz de Deus e declinava da bênção de ouvir, se perdia enganada pelos encantamentos e superstições dos outros povos.

Era exatamente essa a posição em que se encontrava o homem rico da história de Lázaro.  A despeito da narrativa indicar que o caminho da salvação passava pelo simples ato de ouvir, ele ainda preferia continuar confiando nas visões do extraordinário. Esta é uma realidade bastante presente entre nós, inclusive na igreja. Parece que os púlpitos das igrejas cristãs se transformaram em grandes palcos de apresentação de milagres e prodígios, sem o que, nada do que se diz dali de cima tem valor. As pessoas até se dispõem a ouvir, mas não sem antes ver coisas milagrosas acontecerem. O home rico tinha Moisés e os profetas, nós além deles temos Jesus e os apóstolos, mas ainda assim permanecemos no ranço que querer ver antes de ouvir.

Por que as pessoas sempre preferem acreditar no sobrenatural? Por que motivo o homem rico imaginava que Lázaro, depois de morto, se apresentasse diante dos seus cinco irmãos com a sugestão de ouvir a voz de Deus, seria suficiente para que eles obedecessem, se convertessem e fossem salvos? Uma coisa é certa: ele conhecia bem os irmãos que tinha. O homem rico sabia que, assim como ele, os irmãos não ouviriam a voz de Deus proferida por Moisés e pelos profetas. Ou seja, ele conhecia o caminho da salvação, apenas achava que este caminho poderia ser encurtado ou mesmo aplainado, caso fosse precedido de um milagre ou feito sobrenatural.

Lázaro gritava por socorro à sua porta. Seus gemidos chegaram ao trono de Deus nos céus. Mas isso não foi suficiente para chegar aos olhos e ouvidos do rico. Não foi o bastante para que ele convertesse o seu coração. O rico insistia por manter as suas esperanças depositadas na boa vontade de um morto que surgiria de algum lugar imaginário e viria para refrescar a sua alma sedenta. Acreditava que um milagre pudesse apagar a omissão de uma vida inteira.

Os Lázaros continuam gemendo e, sem atendimento, continuam morrendo à nossa porta. Porém, insistimos em não vê-los e em não ouvi-los. Por tudo isso é que “O rico e Lázaro” é mais do que uma antiga narrativa cuja origem ficou perdida no tempo, é uma história atual e universal. Mais do que se tornar um santo de uma igreja; mais do que se tornar uma lamentável vítima do descaso; mais do que ser uma denúncia contra a desigualdade humana, Lázaro foi, é e sempre será o ponto de cisão entre aqueles que ouvem a voz de Deus e aqueles que preferem acreditar antes no sobrenatural. A história do rico e Lázaro é tênue linha que nos separa da obediência a uma voz profética, dos apelos enganosos dos tantos encantadores e magos que proliferam em nosso tempo e, infelizmente, também em em nossos templos.

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O rico não via Lázaro

Ora, havia certo homem rico que se vestia de púrpura e de linho finíssimo e que, todos os dias, se regalava esplendidamente. Havia também certo mendigo, chamado Lázaro, coberto de chagas, que jazia à porta daquele; e desejava alimentar-se das migalhas que caíam da mesa do rico; e até os cães vinham lamber-lhe as úlceras. Leia Lucas 16.19-31
Rico e Lázaro, Leandro Bassano em 1590
Pelo simples fato de ouvirmos narrativas do inferno tão minuciosas e tão precisas que parecem que as pessoas as fazem chegaram de lá na semana passada, não podemos considerar que neste texto Jesus também faz a sua narrativa. O hebraísmo nela contido, diferente de tudo o que de Jesus se tem registrado, nos dá a certeza de que é uma história que era conhecida no seu tempo, e da qual ele faz uso para confrontar o público hostil que o ouvia: Lc 16.14s - Os fariseus, que eram avarentos, ouviam tudo isto e o ridicularizavam. Mas Jesus lhes disse: Vós sois os que vos justificais a vós mesmos diante dos homens, mas Deus conhece o vosso coração; pois aquilo que é elevado entre homens é abominação diante de Deus.

A história não conta se o rico era uma pessoa má e nem se Lázaro era uma pessoa boa. Ela destaca apenas as desigualdades que havia entre eles. Enquanto um se regalava esplendidamente, o outro não recebia sequer migalhas. Um se vestia de púrpura e linho fino, ao passo que o outro estava coberto de úlceras. Um era extremamente rico, enquanto o outro jazia entre os cães. Alguém já disse: Deus criou as diferenças, o homem criou as desigualdades. Apesar de reconhecer a propriedade destas palavras e constatar que nesta história elas serem realmente absurdas, não penso que foi por elas que o homem rico foi sentenciado a uma eternidade de tormentos, mas pelo fato se permitir ser encontrado em um estado de luxúria tão elevado que não lhe permitia enxergar a necessidade do outro. Se o homem rico era bom ou mau não vem ao caso, a questão importante aqui é que ele não via Lázaro. Apesar da proximidade entre eles, o rico não sabia da existência de Lázaro, e tampouco das suas necessidades.

Não é sem razão que a primeira atitude que Jesus tinha para com as pessoas que curava era vê-las. Jesus viu o cego, viu o coxo, viu o paralítico, viu o homem que tinha a mão ressequida, viu o filho morto da viúva de Naim, viu a mulher com fluxo de sangue e viu que o povo era como ovelhas que não tinham pastor. O que mais enfatiza o Primeiro Testamento do milagre do Êxodo é o espanto, tanto dos Judeus quanto dos outros povos ao verem tão poderosa libertação: Dt 4.34 - Ou se um deus intentou ir tomar para si um povo do meio de outro povo, com provas, e com sinais, e com milagres, e com peleja, e com mão poderosa, e com braço estendido, e com grandes espantos, segundo tudo quanto o SENHOR, vosso Deus, vos fez no Egito, aos vossos olhos.

Também em uma parábola que tem sido frequentemente mal usada para destacar a necessidade da ação social, a parábola do bom samaritano, Jesus destaca que a diferença que se estabeleceu em primeiro lugar entre o levita, o sacerdote e o samaritano, é que este último viu o acidentado, enquanto que os outros passaram de largo.

Não teria Jesus usado esta história também para reafirmar que a urgência do atendimento ao necessitado é imperiosa? O homem rico da história só enxerga Lázaro quando não pode fazer mais nada por ele. Isso ainda não seria tão grave se ele só tivesse enxergado Lázaro, no momento em que ele enxergou que Lázaro podia fazer alguma coisa por ele. Ou seja, só enxergar o outro apenas quando nos interessa, ver o outro apenas dentro das nossas necessidades.

Este é o abismo contado na história. O abismo que a história humana criou para ser intransponível. O abismo que até o presente momento tem se mostrado sem volta. O abismo que é para nós o próprio inferno em vida. Não mais nos assustam as narrativas bizarras do inferno, pois a realidade das desigualdades entre nós supera qualquer ameaça das profundezas, mesmos as mais macabras.

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O rico e Lázaro

No inferno, estando em tormentos, levantou os olhos e viu ao longe a Abraão e Lázaro no seu seio. Então, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim! E manda a Lázaro que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama. Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro igualmente, os males; agora, porém, aqui, ele está consolado; tu, em tormentos. Leia Lucas 16.19-31
O Rico e Lázaro, Barent Fabritius (1624-1673)
A leitura dos evangelhos indicada pelo Calendário Litúrgico para hoje, Lucas 16.19-31, também um dos textos de difícil interpretação das Escrituras. Apesar de assim considerá-lo, eu gostaria de, antes de tentar entrar no seu contexto, trazer algumas considerações de estudiosos cristãos sobre o texto, que podem ajudar um pouco o seu esclarecimento para nós.

Alguns bons biblistas consideram que o texto seja uma autêntica parábola, outros já o veem como uma alegoria bem fundamentada, porém, a grande maioria dos leitores da Bíblia o considerem um fato histórico inquestionável. Para chamá-lo de parábola, teremos que observar algumas diferenças entre ele e as demais parábolas de Jesus. As parábolas usam personagens fictícios, já este texto cita os nomes das pessoas envolvidas. A parábola traz sempre uma verdade espiritual, utilizando-se de uma ilustração terrena. Já o texto do rico e Lázaro apresenta uma verdade espiritual sem qualquer metáfora. Seu cenário retrata a vida posmorte, enquanto que as parábolas são sempre desenvolvidas em contextos terrenos.

Os que dizem que o texto é uma parábola e não um acontecimento real baseiam-se no fato da narrativa responder em sentido e estrutura com bastante semelhança à prática padrão usada por Jesus nos seus ensinamentos. Fundamentam-se também na força dos argumentos, pois estes seriam suficientemente seguros para desclassificar o texto como uma história alegórica e enquadrá-lo de vez como uma autêntica parábola. Citam como exemplo, o fato das pessoas no inferno poderem ver abertamente o que as pessoas estão fazendo no céu, e vice versa, ao mesmo tempo que conseguem manter a comunicação uns com os outros. Esta, porém, é uma crença aceita e adotada por um sem número de cristãos, principalmente os de confissão católica. Inúmeras são as petições de proteção e segurança que são levadas aos mortos em oração. Particularmente eu penso que um céu em que os nossos queridos antepassados pudessem acompanhar a nossa trajetória de equívocos e idiotices, pareceria mais com um inferno.

Sem querer sugerir qualquer preferência por uma das duas correntes de pensamento, considero que mais importante que a sua classificação seja enquadrada nas parábolas ou nas alegorias bíblicas, é o ensinamento contido no texto. Parábola ou não Jesus está nos ensinando o quanto as injustiças nos levam para longe de Deus, o quanto nos deixa separados dele. Fala também que o uso que fazemos das riquezas, determina a nossa tendência entre colaboradores do Reino dos Céus e propagadores do reino das trevas.

Se nela Jesus fala claramente da existência de um inferno, se fala de um lugar para onde serão enviados os que rejeitaram o evangelho, se o céu é de fato o seio de Abraão, e se o próprio Abraão teria poder de influência no juízo das pessoas, é o assunto da meditação a seguir. Por enquanto meditemos sobre o texto: ele é de fato uma parábola ou narra um acontecimento real?


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O cântico de Ana

O Senhor desbarata os seus contrários, o Altíssimo troveja do céu, o Senhor julga até os confins da terra. Ele dá autoridade a seu rei, exalta o poder do seu Ungido. Leia I Samuel 2.1-10
Ana leva Samuel ao templo, Jan Victors em 1645
Colocado na boca de Ana, esposa idosa e infértil do sacerdote Alcana, após ela dar à luz o filho que empresta seu nome ao livro, este texto parece mais o cântico de um rei que volta vitorioso de uma batalha, depois de ter vencido um inimigo numericamente superior. Mas ainda assim, ele aborda temas que contém uma teologia bastante radical.

Mais do que simplesmente experimentar o sabor da vitória, o vencedor se vê unido a Deus pela alegria. Reconhece que o resultado favorável da batalha se deu unicamente pela intervenção de Deus diante de um inimigo que era apoiado por outras divindades. Ficou patente para ambos os lados da contenda que a santidade exclusiva de Deus, a sua superioridade transcendente, o seu governo justo e a sua presença forte e protetora pôde ser comprovada e experimentada nos mais preponderantes detalhes.

Na vitória do mais fraco, revelou-se a soberania de Deus que dirige eficazmente o curso da história com um balanço que ascensão e queda: os valentes se acovardam, os covardes se encorajam; os famintos são saciados, os saciados passam necessidade; a fecunda se torna estéril, e a estéril gera uma grande prole. Essa alternância não é a roda da fortuna que gira cegamente sem sentido, mas é a ação de Deus quando encontra eco na responsabilidade humana. Os que estão no alto se elevaram em sinal da arrogância, de maldade e de opressão que governa o mundo, enquanto que os humildes e oprimidos se enriquecem no amor de Deus.

A vitória ultrapassa os limites da realidade histórica e alcança outras esferas: transcende a cósmica, porque Deus firma e sustenta todo o universo, e transcende também o limite definitivo do homem, pois vai muito além da fronteira entra a vida e a morte. A vitória do rei foi apenas um pequeno ângulo de um colossal triângulo. Um ato breve e insignificante diante da grandeza de tudo mais a sua volta. Contudo, sobre ela também gravita a soberania transcendente de Deus. O rei se alegra pela sua vitória, mas canta louvores aos grandes triunfos de Deus.

Mas onde Ana se encaixa no seu próprio cântico? Ana, que era desprezada pelas mulheres férteis do seu clã, agora é mãe do homem que tem o governo do povo judeu em suas mãos. Mais do que famoso e mais do que o mais importante da sua nação, ele terá o poder de ungir reis. Na sua vitória se revela o prenúncio de que seu filho fará um governo justo e que terá a aprovação de Deus. A milagrosa inversão que transformou uma idosa infértil em mãe é apenas um pálido sinal das inenarráveis proezas que Deus realizará através do seu filho. A reviravolta dos extremos sinaliza que os efeitos das manifestações diretas de Deus no governo de Samuel serão sentidos por toda a eternidade.

O cântico está cheio de reminiscências dos salmos. Nele encontramos as pérolas do pensamento hebraico. O paralelo indisfarçável entre vitória e salvação acompanha todas as estrofes. Não se pode afirmar com exatidão, mas a glorificação do Ungido de Deus aparece como algo para além de uma esperança. Mas com certeza, não foi a toa que a força das suas palavras influenciaram decisivamente um outro cântico, em uma outra época. O cântico de Maria que declara a vitória definitiva do acordo de Deus com os homens. Esse acordo Deus não mais assegurado com vitórias passageiras, mas com o penhor do seu próprio sangue.


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O rei da floresta

Os 300 de Gedeão, Gustav Doré
Então todos os homens de Siquém e de Bete-Milo se reuniram na árvore sagrada de Siquém e ali fizeram de Abimeleque o seu rei. Quando Jotão soube disso, subiu até o alto do monte Gerizim e gritou para eles:
— Homens de Siquém, me escutem, e Deus escutará vocês!
Aí Jotão disse:
— Uma vez as árvores resolveram procurar um rei para elas. Então disseram à oliveira:
— “Seja o nosso rei.” E a oliveira respondeu:
— “Para governar vocês, eu teria de parar de dar o meu azeite, usado para honrar os deuses e os seres humanos.” Aí as árvores pediram à figueira:
­— “Venha ser o nosso rei.” Mas a figueira respondeu:
— “Para governar vocês, eu teria de parar de dar os meus figos tão doces.” Então as árvores disseram à parreira:
— “Venha ser o nosso rei.” Mas a parreira respondeu:
— “Para governar vocês, eu teria de parar de dar o meu vinho, que alegra os deuses e os seres humanos.” Aí todas as árvores pediram ao espinheiro:
— “Venha ser o nosso rei.” E o espinheiro respondeu:
— “Se vocês querem mesmo me fazer o seu rei, venham e fiquem debaixo da minha sombra. Se vocês não fizerem isso, sairá fogo do espinheiro e queimará os cedros do Líbano.” Juizes 9.6-15

Esta é uma parábola muito interessante, embora não seja de origem judaica, pois a simples utilização das palavras Deus e homem, lado a lado, já seria considerada, nesta fé, uma grande blasfêmia. Contudo, a sua aplicação na prática é de uma genialidade fantástica.

Gedeão, o grande juiz de Israel, havia morrido. O temor que a nação viesse a ser invadida novamente pelos povos vizinhos era visível. Seu filho Abimalec, após matar setenta de seus irmãos homens, tentou se fazer rei em Israel. Um dos irmãos que havia escapado era um meio irmão, cujo nome parece querer significar Deus é perfeito, Joatão, rapidamente tentou impedir esta que seria uma inominável tragédia. Joatão, aproveitando-se de uma reunião marcada junto ao carvalho de Siquém, árvore considerada sagrada por todos aqueles povos, inclusive os judeus, aos berros propõe a parábola das árvores que queriam um rei. E não é que ele consegue mostrar nessas breves palavras todos os aspectos negativos dessa escolha?

A oliveira, a figueira e a parreira são plantas básicas na economia daqueles países, e, de uma forma bastante evidente, contestam a soberania dos cedros Líbano, que produz madeira somente uma vez, posto que necessita ser cortado, e que se destacam das árvores daninhas e perigosas, como os espinheiros.

O radical kbd usado para qualificar o fruto da oliveira é a origem de palavras traduzidas por engordar, enriquecer e sustentar. Os figos são a base da alimentação e do comércio daquela região, um elemento vital que não pode sofrer alterações sem que o povo venha a se ressentir. E a uva é o símbolo da alegria da liberdade que pode ser perdida, caso aquele proponente seja ungido rei.

Na parábola, Abimalec é o espinheiro, que faz sangrar todos os que dele se aproximam, e que também é a causa de incêndios florestais, pois alguns deles, sob o sol escaldante, produzem combustão espontânea. 

A parábola é demais significativa para os nossos dias. Ela narra com detalhes precisos o conluio dos nobres do cedro de Siquém, que não contribuem com absolutamente nada para a economia da região, mas se reúnem a revelia do povo para escolher um governante sinistro, que por sua vez nada produz, apenas dor e prejuízo, para ser a ruína anunciada de todos os que trabalham e movimentam a economia que gera a vida e o bem estar das nações. Mais detalhe sórdido: o espinheiro, quando se vê contestado na sua autoridade, não faz outra coisa, a não ser ameaçar punir com extremo rigor, todos aqueles que a ele se opõem.

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Onde está Deus?

Evolução x Criação, by René Burkhardt 
A atual safra de alimentos produzida neste nosso planeta seria suficiente para alimentar 12 bilhões de pessoas, ou seja, quase o dobro da população mundial, que ultrapassa em pouco os 7 bilhões de pessoas. Mesmo assim, mais de 2 milhões de pessoas morrem de fome a cada dia. Mais do que pela malária, a aids e a tuberculose juntas, segundo o relator especial da ONU para o Direito à Alimentação, Jean Ziegler. Somente em 2004, 841 milhões de pessoas morrerem desse mal, e em 2004, quando se pensava que iria ter uma queda neste índice, ele subiu mais 11 milhões, ou seja, quase 1 bilhão de pessoas. A conta pode ser cruel mais é simples: se diminuirmos um 1 de pessoas que não comeram, do total de 7 bilhões, teríamos como resultado o valor exato que as commodities lucram quando converteram alimentos em investimentos.

E ainda se pergunta onde está Deus que não atenta para as pessoas que passam fome no mundo?

Estima-se que:
Mao Tse-Tung tenha mandado matar mais de 70 milhões de pessoas; 
que Hittler seja responsável por mais de 40 milhões de mortes; 
que Stalin, por mais de 20 milhões;
que Saddan Hussein, por mais de 2 milhões; 
que Pol Pot, por quase dois milhões.

Isso sem contar os menos famosos Bogosora em Ruanda, Suharto na Indonésia, Idi Amin em Uganda, que juntos ordenaram ou consentiram a morte de mais de 2 milhões. Indistintamente todos esses eram ateus.

Acidentes de trânsito, infecção por HIV e DST, abortos, guerras, suicídios, doenças cardiovasculares, câncer, doenças respiratórias e outras, matam mais de 20 milhões por anos. Poucas dessas mortes acontecem em mesquitas, sinagogas, igrejas católicos, igrejas protestantes, em templos e mosteiros espalhados pelo mundo, ou em cultos a qualquer divindade.

E ainda tem gente que diz que a religião é o que mais mata no mundo? A Bíblia, em seus mais de mil anos de registro histórico e folclórico, registra um total de 2,2 milhões de mortes. Considerando que em menos de 100 anos, 156 milhões de pessoas morreram por razões estranhas a fé, por que ainda se pergunta onde está Deus que não atenta para as pessoas que morrem por motivo torpe no mundo?

Você sabia que a tão exaltada Teoria da Evolução atropela várias leis da Física, tais como: a lei de conservação de energia, que diz que diz que a energia não poder ser criada nem destruída, mas pode adquirir várias formas, inclusive massa; a lei de transformação de energia, que afirma que a energia se move em níveis mais organizados para níveis menos organizados; a Termo II que diz que a quantidade de energia "perdida", chamada de entropia, que acontece em todo e qualquer processo de transformação, é acumulada sob a forma de energia indisponível, e é com ela que se mede o grau de desordem de um sistema?

Que fere a lei da Biogênese, essa lei que é do francês Louis Pasteur, afirma que matéria inanimada não pode criar matéria animada, mas matéria animada pode criar ambos os tipos de matéria, então, que a vida não poderia surgir de uma explosão. Sabia que, segundo Pasteur, só algo vivo pode gerar outra vida?

Que fere a lei de Causa e Efeito, que diz que nenhum efeito é qualitativa ou quantitativamente superior à sua causa. Portanto, se uma ameba viva não pode produzir um ser humano, como então o "Big-Bang" poderia criar a complexidade do Universo?

E ainda tem gente que diz que somente o absurdo da fé poderia explicar algo tão idiota quanto o Criacionismo. Diante do exposto, vocês não acham que para se crer na Teoria da Evolução é preciso ter mais fé do que para crer na Teoria da Criação?


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A realidade é mais complexa

Os que com lágrimas semeiam com júbilo ceifarão. Quem sai andando e chorando, enquanto semeia, voltará com júbilo, trazendo os seus feixes. Salmo 126.5-6
O galho de ouro,  J M W Turner (1775-1851)
Está aí um salmo propício para alentar a esperança de quem passa por alguma aflição ou por quem aguarda uma resposta definitiva. Não somente os versículos citados, mas todo o salmo, porque ele fala justamente de uma mudança para melhor, e a julgar pela euforia do salmista, para muito melhor. Tão melhor que foi reconhecida e celebrada até mesmo por estranhos. Contudo, não são as sensações imediatas que determinam o contexto original do texto bíblico. Que a Bíblia toda serve para encorajar a nossa caminhada de fé, não há quem conteste, mas seria bom que entendêssemos as motivações dos seus escritores, para que nos chegássemos mais próximos do ela realmente quer comunicar.


Em rápidas palavras, eu gostaria de citar três das algumas linhas de interpretação dos versículos citados, como também abordar rapidamente os seus contextos.

A primeira e mais imediata interpretação nos dá conta de alguém que reconhece o valor de um favor divino, mas que este ainda não lhe é suficiente, por isso pede mais. Como é comum a todo pedinte, um semblante penitente pode fazer toda a diferença. Mostrar-se humilde, com cara de choro, ou até mesmo chegar aos prantos, pode ser um bom indicador da real necessidade do que está sendo pedido. Sei que é pedir muito hoje em dia, mas diante das cobranças que muitos fazem a Deus e diante das exigências de cumprimento de promessas que nunca foram prometidas, um pouco de solenidade e comedimento em nossas petições seria recomendável. Bem disse Billy Graham: Avivamento não é descer a rua batendo um grande tambor; é subir o calvário em grande pranto.

Sabemos bem que Deus nos trata como filhos, e não como empregados ou escravos, como queria ser tratado o filho pródigo. Por isso, esta interpretação, por mais piedosa que seja, escapa um pouco do que se entende de uma relação aceitável com Deus.

A segunda interpretação, um pouco mais comprometida, levaria em conta a escassez de alimento na região, causada principalmente pela aridez do solo. Daí o salmista clamar para que as torrentes alaguem o Negueb, que como o nome já sugere, são terras secas, cultiváveis apenas quando irrigadas pelas enchentes. Nesta circunstância, o lavrador precisa tirar da família parte das poucas sementes que lhe restaram para o seu sustento, e plantá-las na esperança de uma colheita futura.

Aqui o salmista estaria expressando a realidade angustiante daquele que semeia com fome, daquele que joga a semente ao chão com os olhos marejados, na esperança de sobreviver até o dia da colheita. Embora comprometida, esta exegese contrariaria princípios básicos do amor de Deus, que não exige de nós sacrifícios e sim misericórdia.

Talvez uma terceira visão a partir da condição humana fosse mais apropriada. Tanto o Israel de Deus antigo quanto o atual são suscetíveis a crer no resultado imediato, não importando muito os meios para obtê-los. Importante hoje é uma igreja cheia de gente que contribui e adora. Assim como o Israel antigo, o Israel atual vive cercado de atrativos pagãos, que seduzem irresistivelmente. Assim como o antigo, o atual tem se deixado levar pelos resultados imediatos.

Sabe-se bem que os povos pagãos adoravam deuses especializados. Não era por mero acaso que os deuses da fertilidade e da agricultura exigiam rituais de orgia e autoflagelação. Uma cena comum naquela região era ver um lavrador se autoflagelando em louvor a um deus enquanto semeava. Os judeus viam que isso estava dando resultado, e que lançar a semente com lágrimas ou com o sacrifício próprio, não estava. Por que não experimentar o chicote? Não custa nada! Eles nunca atentaram para o fato de que as terras dos pagãos eram mais próprias ao plantio do que a deles. Nunca reconheceram que o caminho bom é o estreito.

Particularmente, fico com essa interpretação. Fico com o salmo que é, antes de tudo, um alerta, mesmo servindo para nos dar esperança. A realidade do salmo é a nossa certeza de que uma colheita jubilosa não depende de lágrimas, de sacrifício ou do nosso sangue. Depende sim da nossa submissão em aceitar como boa qualquer dádiva que procede das mãos de Deus, e sermos sempre agradecidos por ela.



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O que é HOSANA?

Oh! Salva-nos, SENHOR, nós te pedimos; oh! SENHOR, concede-nos prosperidade!
Salmo 118.25

Entrada em Jerusalém, Pedro de Orrente em 1620
Quando o salmista balbuciou entre dentes essa oração no salmo 118, certamente não tinha como imaginar que suas breves palavras ecoariam por milhares de anos após a sua morte. Esse sintético pedido de socorro transformou-se rapidamente em um lema nacional, e passou a ser a aclamação principal do povo de Israel enquanto marchava alegremente ao redor da Arca da Aliança, celebrando uma de suas principais festas: o Sucot, festa das Cabanas ou festa dos Tabernáculos. Não era sem uma razão explícita que quase que a totalidade das orações proferidas nessa festa começavam justamente com a invocação Hosana. Além disso, esse festival não se encerrava enquanto não fosse realizada a esperada Hosana Raba, ou a grande Hosana, que era a tônica do sétimo e último dia dessa grande festa.

Hosana também é a síntese da síntese das orações preferidas daqueles que sinceramente oram a Deus, porque expressa com toda a intensidade os dois temas mais comuns e os mais frequentemente repetidos na grande maioria das orações que a ele são dirigidas: Salve e louvemos. Por isso é que ela passou a repercutir, com justa razão, em todos os salmos de socorro e livramento que foram compostos a partir deste, pois expressa também a necessidade da urgência do livramento: Deus, salve-nos agora.

Essa expressão ao se deparar com o movimento iniciado por Jesus, o Cristo, assentou-se-lhe como uma luva. Desde a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém ela passou a integrar os ritos que acompanhavam o Messias, porque ela não somente é a consumação da antiga profecia que foi profetizada por esse mesmo salmista nos versículos seguintes ao citado no alto da página, como também fez com que a exaltação da chegada e da presença do Messias fosse assinalada com festa e ramos de palmeiras até a entrada do Templo: Bendito o que vem em nome do SENHOR. A vós outros da Casa do SENHOR, nós vos abençoamos. O SENHOR é Deus, ele é a nossa luz; adornai a festa com ramos até às pontas do altar.

A palavra serviu, e ainda serve, como tema de uma infinidade de canções de louvor a Deus. John Wesley em seus sermões e cartas citava frequentemente os moravianos, um povo pelo qual nutria profunda admiração e respeito pela sua elevada conduta moral, pela sinceridade de suas orações e pela beleza de suas canções. Os moravianos tinham como regra cantar Hosana não apenas no Domingo de Ramos, como também no primeiro domingo do Advento. Harry Belafont, um cantor famoso dos anos de 1950, incluiu uma música com esse nome em Calypso, um dos seus mais aclamados álbuns. Serviu de tema para uma das canções da grande ópera rock Jesus Cristo Superstar. É, sem dúvida, um dos temas preferidos dos compositores de música gospel do nosso tempo, pelo seu apelo e tradição.

Mesmo com toda essa tradição que envolveu a palavra Hosana, o fiel a Deus ainda não se sentia plenamente à vontade em louvá-lo apenas repedindo-a em suas orações. Toda a pompa, toda a adoração, todo o respeito, toda a solenidade que acompanhavam essa oração ainda era pouco para ele. Na concepção do salmista, para que se dignifique Deus em sua glória, até mesmo a Hosana, que se admitia como a oração definitiva, ganha adjetivos e adornos. Para a fé singela de alguém que se depara com a grandiosidade de Deus, e com a simplicidade da sua presença na figura do seu Filho, a Hosana só não basta. Ela tem obrigatoriamente que ser elevada, não somente às alturas, mas ele vai fazer questão que seja nas maiores alturas. E as multidões, tanto as que o precediam como as que o seguiam, clamavam: Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores alturas! (Mt 21.9

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Perigos que nos leva a embriaguez? III

Os cânticos de Salomão, He Qi em 1999
A embriaguez e o Espírito
Embora em certas línguas e em certos costumes o espírito do álcool se confunda com manifestações extáticas, a Bíblia deixa esta distinção bastante clara. Quando as pessoas mostraram reações sob a ação do Espírito de Deus pelo primeiro sermão de Pedro, em Jerusalém, os menos informados julgaram ser resultado de embriaguez. Mas não pensaram isso simplesmente por acaso, mas sim porque era comum se ver nas religiões pagãs esse tipo de manifestação. Já não podemos dizer o mesmo daqueles que recriminaram Jesus na sua entrada nesta cidade, na ocasião da Páscoa. Os intransigentes ouviram de Jesus muito mais do que uma simples explicação, mas a advertência de que se eles se calassem as próprias pedras clamariam.

Na verdade, a embriaguez impede a livre ação do Espírito de Deus e é um obstáculo intransponível para a entrada no Reino. Mas, agora, vos escrevo que não vos associeis com alguém que, dizendo-se irmão, for impuro, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com esse tal, nem ainda comais. (I Co 5.11) Paulo fazia estas denúncias devido a grande confusão que aquela igreja fazia entre a ceia do Senhor e as orgias e bebedices doa banquetes. Quando, pois, vos reunis no mesmo lugar, não é a ceia do Senhor que comeis. Porque, ao comerdes, cada um toma, antecipadamente, a sua própria ceia; e há quem tenha fome, ao passo que há também quem se embriague. (I Co 11.20s)

O dia de Pentecostes celebra esta divisão: Estes homens não estão embriagados, como vindes pensando, sendo esta a terceira hora do dia. Mas o que ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta Joel: E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos; até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e profetizarão. (At 2.15ss) O que este êxtase provoca não é zombaria e nem desgraça, mas anuncia a visita e permanência do Espírito Santo de Deus. É essa linha de raciocínio que Paulo expõe à Igreja de Éfeso: E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito. (Ef 5.18) O cristão deve fugir da embriaguez para buscar a plenitude do Espírito, pois se engana o homem que busca na embriaguez desvencilhar-se daquilo que o atormenta.

A alegria que a ação do Espírito provoca não pode ser nunca comparada à da bebida, e talvez a única comparação cabível seja a do Cântico dos Cânticos, que a compara ao amor: Já entrei no meu jardim, minha irmã, noiva minha; colhi a minha mirra com a especiaria, comi o meu favo com o mel, bebi o meu vinho com o leite. Comei e bebei, amigos; bebei fartamente, ó amados. (Ct 5.1) Vivamos ma certeza de que somente o Espírito de Deus pode nos proporcionar a alegria plena e verdadeira.

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A que perigos nos leva a embriaguez? II

A queda dos anjos, Gerônimo  Bosch
A embriaguez e a vigilância
O que a embriaguez nos faz esquecer nas horas de laser, pode trazer graves consequências na realidade mais profunda do compromisso moral. A confirmação mais objetiva deste preceito nos vem através da mãe de um rei árabe que se chamava Lemuel. Sua mãe detectou que além do relacionamento promíscuo com várias mulheres, o vinho e as bebidas fortes eram também um meio pelo qual o direito dos aflitos era esquecido: Não dês às mulheres a tua força, nem os teus caminhos, às que destroem os reis. Não é próprio dos reis, ó Lemuel, não é próprio dos reis beber vinho, nem dos príncipes
desejar bebida forte. Para que não bebam, e se esqueçam da lei, e pervertam o direito de todos os aflitos. (Pv 31.3ss) Curiosamente, esta mesma senhora recomenda que se dê bebida forte aos amargurados de espírito, como um estímulo ao esquecimento das suas mazelas e sofrimentos.

Neste mesmo livro encontramos outra implicação grave da embriaguez. O descuido com a autopreservação. O autor deste provérbio enfatiza que dores e feridas injustificadas acompanham de sempre perto todo aquele que bebe além da conta: Para quem são os ais? Para quem, os pesares? Para quem, as rixas? Para quem, as queixas? Para quem, as feridas sem causa? E para quem, os olhos vermelhos? Para os que se demoram em beber vinho, para os que andam buscando bebida misturada. (Pv 23.29s) Ele até mesmo dá o limite do consumo de vinho: Não olhes para o vinho, quando se mostra vermelho, quando resplandece no copo e se escoa suavemente. Pois ao cabo morderá como a cobra e picará como o basilisco. (Pv 23.31s) E prediz as consequências: Os teus olhos verão coisas esquisitas, e o teu coração falará perversidades. Serás como o que se deita no meio do mar e como o que se deita no alto do mastro e dirás: Espancaram-me, e não me doeu; bateram-me, e não o senti; quando despertarei? Então, tornarei a beber.

Porém, nenhum nem outro foram tão enfáticos quanto o profeta Isaías quando pregava por toda nação que o embriagado esquece o desígnio de Deus: Liras e harpas, tamboris e flautas e vinho há nos seus banquetes; porém não consideram os feitos do SENHOR, nem olham para as obras das suas mãos. (Is 5.12) Dizia também que a embriaguez é sintoma e imagem de um espírito entorpecido e incoerente. Loucos se tornaram os príncipes de Zoã, enganados estão os príncipes de Mênfis; fazem errar o Egito os que são a pedra de esquina das suas tribos. O SENHOR derramou no coração deles um espírito estonteante; eles fizeram estontear o Egito em toda a sua obra, como o bêbado quando cambaleia no seu vômito. (Is 19.13s)

Nesta mesma linha de pensamento, o Segundo Testamento vê na embriaguez o abandono da vigilância pela qual o cristão se afirma na salvação que está acontecendo e que acontecerá na terra. Os evangelistas registraram palavras de Jesus que advertiam severamente aqueles que se embriagam por terem se deixado enganar por falsas profecias e por leitura errada dos sinais dos tempos, e agora se veem cansados de esperar pela sua volta: Mas, se aquele servo, sendo mau, disser consigo mesmo: Meu senhor demora-se, e passar a espancar os seus companheiros e a comer e beber com ébrios. (Mt 24.48s)

Para não ser insensível a constante vinda de Cristo através do Espírito Santo é preciso estar sóbrio e vigilante, pois vai alta a noite, e vem chegando o dia: Assim, pois, não durmamos como os demais; pelo contrário, vigiemos e sejamos sóbrios. Ora, os que dormem, dormem de noite, e os que se embriagam é de noite que se embriagam. Nós, porém, que somos do dia, sejamos sóbrios, revestindo-nos da couraça da fé e do amor e tomando como capacete a esperança da salvação. (I Ts 5.7ss) (continua)

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