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Gigantes que não morrem

Mas Davi retrucou ao filisteu: "Tu vens contra mim com espada, lança e escudo; eu, porém, venho a ti em nome de Iahweh dos Exércitos, o Deus dos exércitos de Israel que desafiaste. Toda a terra saberá que há um Deus em Israel, e toda esta assembleia conhecerá que não é pela espada nem pela lança que Iahweh concede a vitória, porque Iahweh é o senhor da batalha e ele vos entregará em nossas mãos." Davi pôs a mão no seu bornal, apanhou uma pedra que lançou com a funda. Desse modo Davi venceu o filisteu com a funda e a pedra: feriu o filisteu e o matou; Davi correu, pôs o pé sobre o filisteu, apanhou-lhe a espada, tirou-a da bainha e a cravou no filisteu e, com ela, decepou-lhe a cabeça. I Samuel 17.45,47,49 e 50
Davi e Golias, R Leinweber
A história da Bíblia mais conhecida e, talvez por isso, mais apreciada pelas crianças de todo o mundo é, sem dúvida, o duelo entre o jovem Davi e o gigante Golias. Por gerações, essa história que durante muito tempo foi contada literalmente através de um flanelógrafo, hoje é exibida em data show e com uma série de restrições para torná-la politicamente correta e acessível aos sensíveis ouvidos das gerações atuais. Já não se pode mais dizer que Davi matou Golias, da mesma forma que não pode mais cantar “atirei o pau no gato”. Sem querer contestar o desenvolvimento das ciências sociais que desembocou nesta conclusão, quero dizer que em termos doutrinários, para a igreja, isso é uma enorme baboseira.

Segundo este pensamento, daqui para frente vamos ter que contar às crianças que Jesus não morreu na cruz, que Estevão não foi apedrejado, que Paulo não foi decapitado e que não houve cristão sequer que tenha morrido nas arenas romanas. Se o intuito de tudo isso na vida secular é evitar que as crianças se tornem, mais tarde, adultos neuróticos com tendências criminosas, o que podemos projetar para o futuro das nossas crianças no contexto religioso a na vida da igreja? Será que iremos formar cristãos mais conscientes, amorosos e fiéis? Será que estamos criando uma geração de grandes pregadores e ativistas evangélicos?

Até onde posso perceber, nós criamos sim uma geração de levitas, de ministros de louvor, de apóstolos e de ungidos do Senhor, que além de constituírem a casta superior e privilegiada da igreja, são também intocáveis, inquestionáveis e irrepreensíveis, pois segundo eles mesmos apregoam: ai daquele que tocar no ungido do Senhor.

O que mais me entristece nisso tudo é ver que os citados Paulo, Estevão, o próprio Jesus, não tiveram a lucidez de tomar esse versículo devidamente engendrado por Saul, para ameaçar e repelir de vez os seus inimigos juntamente com as suas ameaças. Causa-me um sentimento profundo de derrota constatar que, por conta dessa inadmissível falha, esses incautos cristãos tivessem que passar por tantos tormentos e aflições, em nome de um evangelho que disponibiliza uma quantidade enorme de artefatos protetores e frases de efeito libertador.

Não sei onde isso começou, mas posso traçar um perfil da situação a que tudo isso está nos levando. Se não podemos mais contar as crianças o furor da batalha, também não vamos poder contar que de quem são os méritos da vitória, e assim, vamos dar mais crédito e mais louvor aos que se anunciam como guardiões da autêntica, única e aceitável forma de adoração. O versículo chave desse texto, e que orienta todo o desenrolar da situação é esse: não é pela espada nem pela lança que Iahweh concede a vitória. Foi exatamente isso que Israel aprendeu naquele dia. Que não são os nossos dons e atributos que fazem a diferença, que não é a beleza da voz que torna o louvor mais digno, que não são os títulos ou diplomas que traduzem mais fielmente a vontade de Deus.

Realmente estamos criando uma geração de cristãos iludidos. É por isso que as ciências sociais têm conseguido influenciar tanto a doutrina da igreja, quando a influência deveria ser exatamente ao contrário. É por isso também que estamos começando a tratar as histórias da Bíblia como contos de fadas, assim como são os contos de várias religiões pelo mundo. Por trás disso tudo há uma ameaça infinitamente maior, por isso bem nos advertiu Gilbert Cherteston sobre o perigo das ilusões que esses contos criam: Contos de fadas não fazem as crianças acreditarem que monstros existem. As crianças já sabem que eles existem. Contos de fadas fazem as crianças acreditarem que monstros podem ser mortos por nós.




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Primeiro a salvação dos outros

O SENHOR me disse: “Você não será apenas o meu servo que trará de volta os israelitas que ficaram vivos e criará de novo a nação de Israel. Eu farei também com que você seja uma luz para os outros povos a fim de levar a minha salvação ao mundo inteiro". Isaías 49.6
A paz de Isaías, William Strutt em 1896.
Como sabemos, este é um dos cânticos com que o profeta Isaías nos fez conhecer antecipadamente quais seriam os atributos do Messias, a quem, diferentemente de todos antes deles que esperavam um poderoso guerreiro, nos apresenta não apenas como um humilde servo, mas como um servo que tem sobre sim o estigma do sofrimento. De uma forma também adversa ao pensamento da época, em que se imaginava que a ação redentora de Deus viria exclusivamente para a nação israelita, Isaías veio para propagar a salvação universal.


De igual forma pensava a igreja primitiva, e se não fosse Paulo, o Cristianismo estaria fadado a ser uma seita judaica. É impressionante como esses dois, Paulo e Isaías, enxergaram um dom tão incomensurável grande que nem Elias, Eliseu, Amós e todos os doze apóstolos antes deles não enxergaram: o amor incondicional de Deus. Pode ser que uns poucos depois deles tenham também percebido isso de alguma forma, e que estejam ou que estiveram, a despeito da igreja, se empenhado nessa tarefa, mas com certeza o pioneirismo cabe a eles.

Eu já havia declarado, nas postagens anteriores, quando falei sobre o Cântico do Servo, que não saberia definir ao certo quem é quem. De fato até hoje ainda não sei se Isaías é o Paulo do Primeiro Testamento, ou se Paulo é o Isaías do Segundo Testamento, pois as semelhanças dos seus ministérios, bem como o tema em que basearam as suas pregações se sobrepõem de forma extraordinariamente assombrosa. Ambos vieram ampliar os limites da atuação do povo que se chama pelo nome de Deus para muito além das fronteiras que convenientemente estabelecemos. Ambos nos deram a conhecer um Deus católico, um Deus universal. Mas uma coisa eu sei. Eu sei que todos aqueles que ao refletirem pela primeira vez nessas palavras pensaram apenas em uma coisa: como isso é ruim para os negócios!

Claro que é, pois isso estende a nossa responsabilidade para limites muito maiores do que nós mesmos nos propusemos aceitar quando chegamos à igreja. Isso nos tira da tranquilidade do trabalho doméstico, para nos lançar em locais inóspitos e adversos. Isso confunde toda a contabilidade que fizemos no planejamento anual de nossas igrejas. Isso nos tira da confortável certeza de sabermos a quem haveremos de dedicar o nosso amor e a quem devemos efetivamente perdoar. De uma certa forma, nos sentimos até traídos, se levarmos em conta as promessas e vantagens que nos foram oferecidas quando da nossa adesão à igreja.

Não é com um sorriso largo que digo, mas esta proposta de Deus em nada se confunde com o nosso esquema vigente de evangelização dos não evangélicos ou das pessoas que professam outros credos. A ordem direta de Deus tem mais a ver com ser luz do que com ser ministro de qualquer outra coisa, seja da Palavra, da oração, dos cânticos ou das profecias. A ordem de Deus pouco leva em consideração a preocupação que temos em preservar as nossas doutrinas. A ordem de Deus não está nem aí para o tamanho, localização ou mesmo os equipamentos dos nossos templos.

Enfim, para o nosso desespero e total desestabilização, a ordem de Deus está mais afeita à salvação dos outros do que propriamente à nossa salvação. Se alguém põe em dúvida essas palavras deveria dar uma rápida olhada no que aconteceu na vida dos dois pioneiros da fé que nos trouxeram essa mensagem. Se isso não bastar, pelo menos que conheça o estado emocional em que se encontrava o profeta quando recebeu de Deus esta mensagem que foi decisiva na sua vida: Mas eu pensei: “Todo o meu trabalho não adiantou nada; todo o meu esforço foi à toa.” Mesmo assim, eu sei que o SENHOR defenderá a minha causa, que o meu Deus me recompensará. Is 49.4



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Onde é a tua igreja? III

Eis que estou à porta e bato...
É bom que seja assim, contudo, por mais que consideremos a opinião dos outros, a pergunta mais importante dessa trilogia ­­‒ para usar uma palavra da moda ­­‒ é essa: onde é a minha igreja? Essa é a pergunta crucial, pois ela parte de nós para nós mesmos. Logicamente que não a fazemos com o intuito de relembrarmos o seu endereço, mas com a convicção de que a pergunta exige que extrapolemos o conceito da edificação chamada igreja.

No seu projeto inicial, Jesus a alicerçou sobre ombros humanos: Mc 16.18a ­­‒ Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja. Uma igreja que leva a marca da inconsistência, pois Jesus conhecia muito bem aquele a quem atribuiu tamanha responsabilidade. Um Pedro que em meio a um milagre, duvida; na confrontação definitiva, se acovarda; um Pedro que tem duas caras, uma para os judeus e outra para os gentios, e não vacila em usá-las. Mas também um Pedro voluntarioso, que se antecipa aos demais, e que consciente das suas limitações oferece a Jesus a única coisa que ainda lhe restou: o amor incondicional pelo seu mestre. Jesus está ciente de que suas as falhas são em número igual às tantas vezes que sonhamos com uma igreja perfeita, mas ainda assim insiste em confiar-lhe o seu maior legado: a salvação do mundo.

O projeto inicial previa também uma igreja itinerante, muito diferente do sedentarismo que hoje nos assola. Uma igreja que tendo pela frente um mar de dificuldades e nos seus calcanhares os mais poderosos inimigos, ainda consegue ouvir e atender a voz de um Deus que está sempre dizendo: diga ao meu povo que marche. Que marche de encontro às estruturas mais bem constituídas e consolidadas, sob a promessa de que elas não suportarão a sua investida: Mc 16.18b ­­‒ e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.

Quanto ao número de membros suficientes para a consolidação da promessa temos algumas sugestões, e todas igualmente válidas. John Wesley avaliava esse número em cem pessoas: Dai-me cem homens que nada temam senão o pecado, e que nada desejem senão a Deus, e eu abalarei o as estruturas do inferno. Jesus, ainda sob a perspectiva humana falava em um número bem mais modesto: Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles. Paulo, por sua vez, o reduziu o numero funcional de uma igreja a uma única pessoa: Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Mas a palavra final sobre esse assunto está mesmo com Deus, o único que possui a visão total da história: um só rebanho, uma só igreja, uma só fé, um só Pastor.

Onde está a minha igreja? Escondida debaixo de uma denominação, de uma convenção ou mesmo debaixo de um templo? No contexto da ICI, ela está na rua Joana Angélica, 203, em Ipanema. Mas lá é o lugar onde eu passo umas poucas horas de um único dia da semana. É esse o endereço da minha igreja? A que eu tento enganar? Onde está a igreja que deveria estar no meu trabalho, na minha casa e na minha convivência?

Se voltarmos os olhos ao velho e bom hino citado na primeira meditação desta série veremos que as recomendações continuam as mesmas. Que existe apenas uma igreja que realmente funciona. Tenha ela o rol que tiver, a localização mais improvável, ou a o mais humilde local de encontro, ela é a igreja de Jesus Cristo. A única comissionada a levar o seu nome. Por tudo isso é que antigamente cantávamos assim:
Leva tu contigo o nome  
De Jesus, o Salvador, 
Este nome dá conforto  
Hoje, sempre e onde for.

Atentem bem: hoje, sempre e onde for!

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Onde é a tua igreja? II

Parábola do grão de mostarda, Van Gogh
Uma segunda intenção que se esconde por trás dessa pergunta é saber se a minha igreja pertence ao mundo real ou se é mais uma das abstrações apocalípticas com que certos cristãos imaginam ter comunhão. Esta é uma pergunta capciosa, cuja resposta pode de imediato excluir qualquer possibilidade de uma pessoa com escrúpulos e algum senso de indignação vir a por seus pés nela um dia. Essa pergunta se apresenta também como uma forma de triagem, da qual as pessoas se valem pela necessidade de determinar o grau de atenção e seriedade que nos serão dispensados dali para frente.

Não vamos nos iludir pensando que estes “evangélicos” que assim se apresentam constituem-se em mais um dos sinais flagrantes que nos apontam para o breve fim dos tempos. Eles ainda não são exatamente os tais espíritos enganadores que Paulo, Pedro, João Tiago e os profetas denunciaram com tanta veemência na Bíblia. Está na cara que eles só enganam a si mesmos e a alguns poucos mal intencionados.

No tempo de Jesus, o que mais se via nas praças e na periferia das cidades judaicas eram pessoas se autoproclamando Messias Salvadores de Israel. Este, embora não aponte para o Apocalipse, segundo a Bíblia, é um forte indício de que as coisas por aqui não andam nada bem, que autoridades constituídas não estão sendo honestas em seus governos, que não está se fazendo justiça aos necessitados e que a igreja não está exercendo a sua voz profética contra tudo o que está acontecendo. Não faz muito tempo, numa meditação chamada Cana quebrada, eu falei das diferentes lutas que são travadas em nosso mundo atual. Falei que a luta da igreja é diferente das lutas de classe que estamos acostumados a ver nas ruas e nas televisões. Mas não disse que a nossa luta pela implantação definitiva do Reino de Deus nos exclui da responsabilidade para com as pessoas que estão reivindicando um mundo melhor para todos.

Se alguém ainda nutre a ilusão de que Deus está preparando um mundo todo “zerado” para que os salvos vivam eternamente em glória, desista dela, porque o mundo que Deus amou com tal intensidade a ponto de entregar seu Filho Unigênito é esse aqui. Se existe uma igreja a qual Jesus amou e que por ela se entregou voluntariamente a ponto de fazer dela a sua noiva, esta igreja é a de pé no chão. Não são os tabernáculos dos santos eleitos e nem as hostes etéreas que mal tocam a superfície da Terra. Essas não precisam de um Cordeiro de Deus, e sim de um ser tão inatingível quanto elas.

A minha igreja, com certeza, não é a igreja de Deus, mesmo porque Deus não tem igreja. Ela não é a comunhão irrestrita dos santos. Se já foi um dia, deixou de ser no momento em que me filiei a ela. Por isso é importante que as pessoas conheçam Jesus pelo que ele representa na nossa fé. Diz assim um hino antigo:
Este nome leva sempre
Para bem te defender
Ele é arma ao teu alcance
Quando o mal te aparecer.

Não foi por mero acaso que Deus prescreveu entre os mandamentos um que fazia imperativa a proibição do uso indevido do seu nome. As manifestações humanas que levam o nome de Deus precisam ter a consciência do compromisso indissolúvel que têm com este nome. Quando nos apresentamos como pastores ou membros de uma igreja, e se existe por trás disso uma tentativa de alusão ao nome de Jesus, o Cristo, tenhamos a certeza de que não será o tamanho do templo ou do rol que dará credibilidade à nossa apresentação. Será sim o compromisso com a verdade do evangelho, que desde tempos remotíssimos nos tenta passar a realidade de um Reino que não é um tesouro a olhos vistos, mas que está escondido em algum lugar. Que nasce pequeno como um grão de mostarda, mas que pela sua presença e participação neste mundo vem a se tornar uma imensa árvore aonde as aves do céu vêm fazer os seus ninhos.

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Onde é a tua igreja? I

Vendo Jesus passar, disse: Eis o Cordeiro de Deus! Os dois discípulos, ouvindo-o dizer isto, seguiram Jesus. E Jesus, voltando-se e vendo que o seguiam, disse-lhes: Que buscais? Disseram-lhe: Rabi (que quer dizer Mestre), onde assistes? João 1.36ss
João batizando pessoas, Nicolas Poussim em 1635

Não sei não! Pode até ser que não seja a pergunta que mais me fazem quando me apresento como pastor, mas com certeza é uma das que mais frequentemente me vejo na obrigação de responder, e em algumas situações mais de uma vez para a mesma pessoa. Isso vale também para quando sou apresentado por uma terceira pessoa. Contudo, ter que responder uma pergunta tão corriqueira assim, nem mesmo Jesus escapou. Ela foi o cartão de visita apresentado por André, irmão de Simão Pedro quando teve o primeiro contato com Jesus. Isso me faz imaginar alguns motivos que levam as pessoas a fazê-la.

Em primeiro lugar, eu imagino que não seja exatamente a curiosidade de saber a localização exata do prédio onde esta funciona, mesmo que a pessoa diga, e isso se tornou um chavão, que um dia pretende visitá-la. Por todos os efeitos demonstrados, essa pergunta tende a ficar mais no campo da desconfiança do que propriamente no da curiosidade. Querem de fato saber se sou pastor e qual é o indício que eu tenho para apresentar que possa provar esta minha afirmação.

Em um tempo que já ficou no passado, as pessoas faziam uma imagem superdimensionada do pastor. Para elas era ele quem detinha o poder de fazer a oração mais eficiente. Na mesma expectativa, esperavam que ele tivesse a conduta mais ilibada possível, assim como a palavra mais sábia em todas as ocasiões. Todos sabem que a coisa não era bem assim. A própria Bíblia não se furta em registrar as “batatadas” dos mais iminentes teólogos, dentre eles o grande apóstolo São Paulo. Hoje em dia a desconfiança é bem mais cabida, pois os noticiários não descansam um dia sequer sem que uma nova falcatrua aconteça no meio evangélico. Falo apenas das novas, porque as antigas continuam se multiplicando.

Não foi diferente também com Jesus. Ao apresentá-lo como o Cordeiro de Deus, aquele que veio para remir definitivamente a humanidade; nas palavras de João Batista, aquele que tira o pecado do mundo, este mesmo João mostrou também uma imagem superdimensionada de Jesus. Era uma apresentação muito espetacular para aquele que se apresentava humildemente na sua condição humana. Qualquer Messias que se apresentasse como tal deveria ter pelo menos dois metros de altura, olhos azuis e barriga de “tanquinho”, isso sem falar dos apetrechos bélicos que o acompanhavam.

Podemos notar que aqueles que ousaram traçar, no Primeiro Testamento, uma imagem antecipada do servo de Deus, aquele que teria como função precípua a redenção de Israel, também oscilaram muito nas suas conclusões. Isaías, por exemplo, o chama de Maravilhoso Conselheiro, Deus forte e Príncipe da Paz, mas também o vê como alguém de uma aparência horrenda, e em um estado mais o degradante possível.

Não teria sido essa uma das razões que fez com que André imediatamente quisesse saber o local em Jesus atuava? Não foi para confirmar  a possibilidade de Jesus possuir um atributo tão além daquilo que a sua primeira aparência mostrava? Estamos falando de um Jesus de pé, com saúde e gozando liberdade plena. O que não diriam dele aqueles que o viram ser cuspido, açoitado e humilhado na presença de todos?

É importante que as pessoas nos conheçam como realmente somos. Não é o membro da igreja tal, que possui um enorme templo, arrecada x milhões de dízimo e conta com mais “trocentos” mil adeptos.  É o servo de Jesus Cristo que elas precisam conhecer. Não é operador de milagres, o super ungido, ou o que foi contemplado com a maior quantidade de dons que lhes interessa, mas aquele que tem para mostrar com suas próprias deficiências e fracassos o quanto Deus pode fazer por alguém tão parecido com eles mesmos. Pretendo continuar esta meditação. Talvez Deus me permita desenvolver mais um ou dois raciocínios que tenho em mente. Se não for possível, conclua você mesmo um final para ela.

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Um auto para o seu Natal III

Cristo entra em Jerusalém, Hippolyte Flandrin (!809-1864)
Texto do rev. Jonas Rezende que retrata um Jesus mais velho, não mais um menino. Um Jesus que tem responsabilidades e compromissos. Esse é um jogral para 6 ou 8 pessoas de ambos os sexos. Um jogral para jovens e não juvenis. Está dividido em 3 partes pela limitação de espaço desse blog. Parte final.


Foi assim, no silêncio pulsante,                                          (contando uma história, calmamente)
que Deus profetizou sobre a história da Terra
e que os homens, nem sempre, entenderiam a libertação.
Chegaria o momento em que Deus mandaria,
como seu profeta especial, o próprio filho,

Mas os homens o desprezaram...                                      (com pesar)

Confesso que saber disso me entristeceu,                          (contraste triste / alegre)
mas o som da palavra HOMEM me pareceu engraçado e sorri.
Ele continuou:

Meu filho será crucificado!                                                (profecia triste)

Entendi o que era cruz,                                                    (com gravidade)
e dessa vez foi Ele que sorriu tristemente.  
Mas, como Jesus se aproximava, Deus concluiu apressado:   (esperto)

A chegada de Jesus será uma festa!                                   (profecia feliz, esperança)
Todos os homens que nascem têm o seu natal,
mas o de Jesus Cristo,    
sempre será O Natal !                                                                                                   : 

Então, caí de joelhos e pela primeira vez senti o que sempre foi a oração: 

Jesus Libertador,                                                             (louvando)
Hoje é o dia da esperança.
As crianças brincam de maneira mágica
com luzes coloridas e piscantes, na dança dos segundos.    
Teu amor nos dirá como descobrir, nos mapas do céu estrelado,    (louvor)
a rota dos navegantes e das estrelas bailarinas.
Teu amor nos falará como descobrir também                      (deslumbrado)
nas cintilações fascinantes dos astros
código da comunicação com o Amor maior.

Quem faz isto?

Quem nos oferece tudo isto?

Quem nos perdoa por tudo isto?

Somente tu, Jesus Cristo.                                                 (afirmação)

Mas um belo dia, Jesus,
tua semente sofrida partirá em busca de vida.                    (esperança, novidade)
Porque nascer, morrer, crescer é belo e misterioso.             (cobre o rosto, se esconde,),
Revelação completa, como se vê na vida da borboleta:
No início é a estranha larva protegida no casulo.                (contorce, espreguiça)
Transmuta-se e eis a crisálida!                                          (escapa,se endireita)
Metamorfose perfeita: É o voo da borboleta !                     (se abre e voa)

Uma só realidade faz ver a vida na morte
que ao fim é incumbida de ser   da vida..
E Deus finalizou assegurando:

Tu, ó homem és a borboleta!                                             (aclamação!!)  
Tu, ó homem és Melquezedeque!

Antes do mundo ser sonhado                                            (sabedoria, autoridade)
meu filho Jesus não   ignorava a cruz.

Ele   sempre soube que teria de esvaziar-se de sua glória,   (carinhosamente)
despojar-se do instinto social de posse e de pose,
tornar-se Servo do mundo,
para mostrar que o destino é nosso! E de mais ninguém !    (segurança)             

AMÉM.                                                                           (épiico, crescente, triunfante)
      
O Jesus do sagrado galope tudo aposta nos seres humanos
e faz deles o grande parceiro,   aliados e amigos fiéis,                 
companheiros que nunca abandonam o Senhor.
O Senhor que inscreveu no seu elmo
o que disse o profeta do Eterno,
sobre a festa maior do Natal:
O nome do Filho será:                                                     Proclamando

Fechando as pastas. Marcando passo firme, indo à frente,
Maravilhoso Conselheiro!

Deus Forte !

Pai da Eternidade!
Príncipe da Paz!                                                              (CANTANDO)

Fechando as pastas. Marcando passo firme, indo em frente,
Maravilhoso Conselheiro!

Deus Forte !

Pai da Eternidade!
Príncipe da Paz!                                                              (CANTANDO)

Conclamando, chamando, desafiando alegremente       
Quem no Cristo está pronto a apostar?     

Quem?                                                                           PALMAS



Quem aposta no Cristo?                                                   (saindo espalhado)

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Um auto para o seu Natal II

Entrada em Jerusalém, Pietro Lorenzetti
Texto do rev. Jonas Rezende que retrata um Jesus mais velho, não mais um menino. Um Jesus que tem responsabilidades e compromissos. Esse é um jogral para 6 ou 8 pessoas de ambos os sexos. Um jogral para jovens e não juvenis. Está dividido em 3 partes pela limitação de espaço desse blog.
Parte II

Os pobres o acolheram com a generosidade de quem nada tem.   (elogiando)

Olavo Bilac imagina:                                                        (lendo o livro)
“Não houve sedas nem cetins nem rendas
no berço humilde em que nasceu Jesus,
mas os pobres trouxeram oferendas
para quem tinha que morrer na cruz

Foi exilado com Maria e José, como qualquer retirante brasileiro    (malandrinho)
ou algum filho da pobreza palestina,
Cresceu.   Criança... adolescente culpado sem culpa,
 (apenas algumas bobagens como fumar escondido...)

É verdadeira e histórica a sua apresentação ao povo.          (com certeza)
Bem assim: a circuncisão                                                 
e a visita ao templo,   em que ensinou os próprios doutores da lei.

Tudo com o testemunho do povo,                            (chamando atenção, dando aula)
que não despreza corretas manifestações.

Mais tarde, este mesmo povo, que era o seu,
forjaria um nome digno para ele: 

Jesus, filho de David !                                                      (todos louvando)

E justificaria uma linhagem real:

Tem misericórdia de nós !                                                (todos clamando)       

Como Jesus fez sinais que não se imitam,
muitos tentaram transformar o menino   num fazedor de milagres.
Alguém relatou, em linguagem questionável, uma narrativa:

Ocês num sabia? Uai !                                                      (como um Jeca Tatu)
O menino Jesus fez um passarim, de barro.  
Mordô, ajeitô bem direitim, soprô....fú. Nó senhora !!  
E num é que o bichinho avoô !!
                                                                 (Aguarda platéia se recobrar do riso)

É difícil acreditar em casos que lembrem crendices,             (com alegria)
mas se Jesus quisesse mesmo,
o passarinho não voaria?   Voaria!                                   
E seria o príncipe de todos os pássaros.

Vamos recordar o Natal                                                   (docemente)
e suas velhas emoções que povoam nossa alma
de infância eterna e saudáveis ilusões.                              

Quem sabe, se não daremos                                             (com entusiasmo)
- mais cedo do que esperamos -
um salto que nos coloque numa festa universal?                
Os próprios anjos disseram que era evolução normal:
Alegrem-se de verdade!                                                   (sonhador)

Imagine, there´s no haven...                                           (cantando)                                        
Nos disse   John Lenon –                                                 (com gravidade)
antes de ser calado                                                             
por seu sangue derramado
pelo braço desgovernado  
e a mente de um agressor.

Imagine... digo eu                                                                    (sonhador)
O mundo tem como Eixo,
um Deus com olhar de menino                                         
que engole pela retina todo o mundo que sonhou

E o homem desgovernado,                                               (alegremente)
mas que está predestinado a descobrir-se feliz,
aprende novamente a brincar o Carnaval !

ECCE HOMO AFECTUS !                                              (apresentando com alegria)

EIS O HOMEM AFETIVO !

O Presépio foi a profecia de São Francisco: no passado e futuro.    (com contraste)
Jesus e a perfeita unidade:                                              
Céus e terra,       
anjos e homens,     
homens e animais,
Sábios magos e simples pastores,
ricos e pobres.

Paz na terra entre os homens,                                    (docemente, o Pai acolhendo)
Palavra de Deus pelos lábios dos anjos
e a fidelidade dos seres humanos

OLHOS NOS CÉUS,                                                (olhar ao alto, ombros abertos, )

JOELHOS NA TERRA                                       (contritos, contrai abdômen, se curva)

E A BOCA NO MUNDO                                (encarando o publico, queixo para frente)
  
Noite de paz, noite de amor                                             (teclado e coro)Oh! que belo resplendor
Ilumina o menino Jesus
No presépio do mundo, eis a luz
Sol de eterno fulgor, Sol de eterno fulgor

Sol !   Sol de eterno fulgor !                                             (poder, grandiosidade)

Jesus, meu Mestre,                                                          (atônito)
teu hálito criador
ainda visita as gigantescas esferas mergulhadas num frio astronômico,
insuportável ao ser humano.
Eu tive, não sei se no corpo ou fora do corpo, Deus o sabe,
a espantosa visão de estrelas que coalhavam o céu azul marinho.
Ou seriam acidentes ainda insuperados da explosão formidável do Big Bang,
quando foi inaugurado o Universo?                                  

Sol !   Sol de eterno fulgor !                                             (grandiosidade, poder)


Olhei, nas lonjuras incalculáveis, um monturo sinistro                   (ignorância, pequenez)
e não soube como nomear a vastidão daquele cadinho infinito
que acabara de passar por uma metamorfose extraordinária.
Eu nem tinha consciência                                                
de ser uma existência à parte do espetacular poder,
por Deus testado nos abismos desalentados.

Noite de paz, noite de amor                           (teclado e coro)
Tudo dorme em derredor
Entre
 os astros que espargem a luz

Proclamando o menino Jesus
Brilha a estrela da paz, Brilha a estrela da paz

Brilha a estrela da paz...   A estrela da paz.                        (calmaria, acolhimento)




Fiz então o que de melhor me convinha:                            (recobra controle)
Procurei acalmar-me.                                                      
Tive a certeza
de que não poderia ser visitado por tantos conceitos... e por uma linguagem
que me localizava num tempo e espaço
que apenas estavam sendo inaugurados.

Mas sabia que o Autor do que eu via e sentia,                     (com fé)               
dentro e fora de mim,
dirigia aquele teatro cósmico que excedia todas as tragédias.

Concluí que eu mesmo me encontrava no epicentro marcado pela criação          (acolhimento)
porque Deus –nome que mais uma vez se formava inteligível em mim
– queria que o poderoso evento fosse testemunhado.
E eu me senti de repente mais que tão somente testemunha,
uma vez que Ele se comunicava comigo e, mesmo sem palavras,
me tratava como cúmplice e amigo.


Brilha a estrela da paz... A estrela da paz.                          (calmaria, acolhimento)

                                        (continua)



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Um auto para o seu Natal I

Entrada triunfal em Jerusalém, Giotto
Texto do rev. Jonas Rezende que retrata um Jesus mais velho, não mais um menino. Um Jesus que tem responsabilidades e compromissos. Esse é um jogral para 6 ou 8 pessoas de ambos os sexos. Um jogral para jovens e não juvenis. Está dividido em 3 partes pela limitação de espaço desse blog.

A multidão celebra a entrada de Jesus em Jerusalém,         Coro entra desencontrado falando):
no domingo de Ramos:
HOSANA!   Bendito o que vem em nome do Senhor!          

Hosana Bendito HOSANA Bendito HOSANA BENDITO        (Coro virando-se para a cruz) 

CRUCIFICA-O!                                                           (forte, junto)

Apenas alguns dias                                                     (tipo: presta atenção.Cuidado!)
separam a celebração festiva do domingo de Ramos
e o julgamento e morte   de Jesus.
Num momento o Cristo é Rei.
E tão pouco depois já é réu.
     
A verdadeira fé                                                               
se expressa em atos costurados pelo amor ao longo da vida
e não na declamação artística e sem futuro.                       (pausa)

Por justiça e com ternura, evoco São Tomé.
O santo que não tem pudor ou vergonha de duvidar,
com decência e honestidade.
Afinal, santo tem de ser retardado? Não pode pensar?
Tem de revirar sempre os olhos para o céu?
Ser conservador?
E as dúvidas de José, noivo de Maria?  

Erasmo de Rotterdan,                                                    (com autoridade)
no seu livro O ELOGIO DA LOUCURA  
se revela corajoso inimigo das unanimidades
e do amém dos desertores morais.
Quero também esboçar O ELOGIO DA DÚVIDA,
em memória e homenagem a São Tomé.                           
que tem a humildade sincera de se expor ao confessar:

- Se não colocar meu dedo nas tuas feridas, Jesus,             (humildade e sinceridade)
não posso crer...                                                            

O cientista cristão, Warwick Kerr,                                    (dando aula)
identifica nessa postura a própria base do saber científico.
Concordo.                                                                     
A atitude de Tomé me lembra a dúvida sistemática, de Descartes.
Só duvida quem pensa e reflete,
quem deseja conhecer mais,   quem está vivo.
Certamente por isso Descartes conclui:
Penso, logo existo.
Tenho profundo amor por todos os místicos que jamais duvidam,  (suavemente)
mas me identifico mesmo é com São Tomé.                      

O mais importante é que Jesus aceita a dúvida                   (com alegria)
e responde à curiosidade do seu apóstolo.                        
Nenhum seguidor do Cristo passou por um processo de conversão
tão bela quanto instantânea.
Nem fez uma profissão de fé mais eloqüente do que a de Tomé
ao Mestre de sua vida:

-Senhor meu e Deus meu!                                                (clamando)

Paul Tillich, teólogo e filósofo nos instrui:                          (lendo como num livro)
“Os que não são capazes de elevar as suas dúvidas até a Verdade,
 que transcende toda verdade finita,
têm de reprimir suas dúvidas
e forçosamente se convertem em fanáticos.“                     
(pausa para pesar)

No humilde presépio sem ter nada seu,                   (teclado e solo)
Jesus pequenino sem nada nasceu.
O céu estrelado e cheio de luz
proclama: Nasceu o menino Jesus !

Eu te amo pequeno menino Jesus.                          (teclado e coro)
Na vida desejo pra sempre o seguir.
Não deixe que nunca me falte tua luz
e ao outro que eu possa amar e servir.

Examinando o nascimento de Jesus,                                 (com espanto)  
sabemos da importância singular do que aconteceu há mais de 2.000   anos...
Uma criancinha que vive neste mundo
sabe agora, sem nenhuma dúvida,
que nada seria mais significativo que o Natal.
Um evento que divide a História em antes e depois de Jesus Cristo.
Uma importância que mais ninguém logrou possuir.             

Este é somente o primeiro passo para chegar mais perto do Menino.       (com claridade)
Ele nasceu para seres humanos mergulhados na escuridão,
na caverna escura, de que nos falou, na Antiguidade clássica, o filósofo Platão.
Ele trouxe para os seres humanos a sua poderosa luz.

A poderosa luz de Jesus!                                               (coro todo)                    


Esta infância não é apenas um fato cronológico,                 (reconhecendo)
mas parte da existência do bom Mestre
que todo coração sensível sempre aquece.

Dados históricos são por certo escassos                           (com preocupação)
e criam mais dificuldades e poucos clarões de inteligência.
Parece certo que Jesus era bem forte.
Do contrário, seria difícil superar os perigos de infecção e morte,
vivendo num estábulo por dias,                                       
dormindo num tosco e rude cocho...
E outras privações quase esperadas pela condição social desta família.

                            (continua)

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