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O quadro de Jesus III

Jesus cura o cego, Carlos Araujo (1950-)
No tempo que eu fazia o seminário tinha um professor que sempre dizia coisas estranhas. Ele era um bom pregador, muito eloquente e tinha uma presença no púlpito marcante. Mas, por causa das suas afirmações absurdas, em vez de analisar o que ele dizia, eu fazia muita gozação dos sermões dele. Eu era meio abusado mesmo. Deus tem que perdoar por isso, porque ele já morreu. Mas um dia ele disse que nós nunca deveríamos pregar que Jesus salva ou que Jesus cura, porque isso é um grande erro teológico. Nesse dia eu quase caí da cadeira, e olhem que eu era bem moderninho nas minhas concepções. Eu fiquei indignado até a hora em que ele disse que não deveríamos pregar que Jesus salva sem explicar como ele faz isso. 

De fato, não é nada producente dizer que Jesus salva e que Jesus cura se não colocarmos um conteúdo consistente nessa frase. Aceitar o que o professor disse foi só o primeiro passo, mas levou anos para entender o que ele quis dizer. Nós temos que expor em termos concretos o que significa Jesus Cristo salva. Jesus Cristo nos salva do quê? Ele nos cura do quê? Esse é um problema da nossa existência: ele nos salva de que jeito? Somos realmente curados? Temos experimentado a salvação? Temos crido nas forças que curam? Temos recebido o poder de Jesus, o Salvador? Temos sido tomados por esse poder? Realmente Jesus Cristo é suficientemente poderoso para superar as nossas tendências neuróticas e neutralizar a rebelião da nossa subconsciência?

Sabemos que Jesus salva, mas diante dessa certeza temos experimentado os momentos em que a graça divina supera a ansiedade e o desassossego da nossa natureza humana quando eles mais nos castigam? Como tem sido os nossos momentos em que a graça de Deus conquista esses desejos desenfreados e as depressões escondidas que sempre se voltam contra nós sob a forma de ódio e hostilidade contra tudo e todos, inclusive contra nós mesmos. De que forma aceitamos e recebemos a cura do nosso desejo secreto de morrer? Mais importante que tudo isso: temos reconhecido os momentos em que a graça de Deus nos faz novas criaturas?

É isso que significa que Jesus Cristo salva, e é esse o problema de cada cristão no mundo seja em que época for: entender o que é ser curado, aceitar que Jesus salva e ser completamente tomado por essa salvação. Tudo isso debaixo de uma única e impreterível condição: da maneira como somos e do jeito em que nos encontramos aqui e agora.

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O quadro de Jesus II

Cristo cura um cego, el Grego em 1570
O povo que Jesus pôde curar naqueles dias e o povo que Jesus pode curar hoje é o mesmo que fez e que faz hoje essa entrega de si mesmo ao poder curativo de Jesus Cristo. Eles entregaram a si mesmos como eles estavam: pessoas divididas em si mesmas, pessoas se contradizendo a si mesmas, pessoas repugnando e desprezando a si mesmas. As pessoas que Jesus curou e as pessoas que Jesus pode curar hoje são exatamente aquelas que podem entregar-se a si mesmas como estão: amedrontadas, sobrecarregadas de culpa, acusando outras ao mesmo tempo se justificando, fugindo das outras para a solidão, fugindo de si mesmas para a depressão e pessoas tentando escapar para a segurança ilusória da enfermidade mental. Essa entrega nós chamamos de fé.

Podemos nós ainda experimentar esse mesmo poder? Podemos nós ter essa mesma fé? Eu penso que o que nos tem prejudicado hoje são as histórias de milagre que os evangelhos nos trazem. Não sabemos o que fazer com elas, pois elas parecem ser tão estranhas e tão diferentes da nossa realidade. Em vez de nos fazer ter mais fé crer mais no poder de cura de Jesus Cristo, elas nos fazem ficar mais distante. Justamente por isso precisamos redescobrir o que o Segundo Testamento sempre soube: os milagres são sinais apontando a presença do poder divino na natureza e na história. Sendo assim, os milagres não são uma negação das leis naturais, como temos pensado, crido e ensinado aos outros. Através dos olhos da nossa natureza pecaminosa nós só desejamos ver o espetacular, nós queremos ver o inusitado, o que ninguém jamais viu, e isso sim é contra as leis fundamentais da natureza. Nós ficamos tão ansiosos pelo ineditismo que caímos na tentação de desconsiderar os milagres do evangelho, quando na verdade a fé é ver os sinais que Deus tem deixado, e que apontam a presença dele na natureza e na história.

Como é difícil para nós entender essa verdade! Como nos custa acreditar que somos vítimas constantes da superstição e da magia. São raros entre nós aqueles que não ficam doidos, a palavra é essa mesma, doidos para saber o que o futuro vai trazer. São raros os que entre nós não consultam os discípulos do Omar Cardoso antes de por os pés fora da cama. Eu vou ter um bom dia? Eu vou fazer um bom negócio? Eu vou conhecer o amor da minha vida? Pouca gente sabe que a pior coisa do mundo é conhecer o futuro. Se eu soubesse que amanhã teria insônia, já ficaria sem dormir desde hoje.

Somos totalmente atraídos por tudo que misterioso e mágico, e é por isso que nos deixamos enganar por aqueles que exploram a fé com fins comerciais e egoístas. Não estou negando que os abusos da fé ocorrem, mas eles só ocorrem quando o uso correto da fé é negado, quando a fé se torna fraca. Não tenho tanta preocupação com isso, porque tenho total convicção de que a boa teologia e a boa prática da fé acabam os abusos e superstições. Por isso vamos deixar penetrar em nossas mentes a seguinte verdade: os milagres não são uma negação das leis naturais, eles são sinais de que Deus continua agindo hoje como agiu antigamente. O problema é ter fé para descobrir esses sinais no contexto pecaminoso, iníquo e injusto em que vivemos. Onde está o Reino de Deus nesse mundo em que todos tentam tirar para si o máximo proveito de tudo e de todos? Como perceber o milagre da presença de Deus em uma humanidade contaminada como a nossa?

O problema maior é o da nossa própria existência: somos curados? Somos curados mesmo? Somos salvos? (continua) 

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O quadro de Jesus I

Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e não te esqueças de nem um só de seus benefícios. Ele é quem perdoa todas as tuas iniquidades; quem sara todas as tuas enfermidades; quem da cova redime a tua vida. Salmos 103.2ss
O gadareno, Braulio Barquero (1980-)
Como vamos pintar o quadro de Jesus, o Cristo? Se eu tentasse o faria colorido. Mas não importa de que maneira pintamos o quadro dele, não importa se usamos lápis cera, tinta óleo ou grafite, como os grandes artistas de todos os séculos. Não importa se tentamos pintá-lo em sermões como os pastores têm feito domingo após domingo. Não importa se tentamos pintá-lo nas lições da Escola Dominical. Não importa se tentamos pintá-lo nas nossas orações, na nossa devoção, na nossa imaginação ou no nosso amor. Isso porque em cada uma das fases da nossa vida temos que responder a essa mesma pergunta: como vamos pintar o quadro de Jesus, o Cristo?

Olhando para o evangelho de Mateus nós achamos a resposta. Se olharmos para o evangelho todo veremos que este evangelista usou uma cor predominante e viva. Ele deu a Jesus uma expressão forte e um traço de grande intensidade. São Mateus pintou o quadro de Jesus como sendo aquele que cura. O Salvador é aquele que cura. Jesus Cristo é aquele que cura. É surpreendente como essa cor forte que revela a expressão viva da sua natureza tem se desvanecido em nosso tempo. Que perda hein? Justamente hoje quando mais precisamos ser curados perdemos a visão daquele que pode nos curar. Por quê? Por que temos desconsiderado aquilo que mais precisamos?

Certamente os evangelhos não são os culpados. Eles estão repletos de histórias de cura. Então, os culpados somos nós, sou eu. Quando eu prego um sermão sobre cura, o faço com medo, porque esse é um assunto tão explorado e tão abusado em nossos dias que acabo achando que é melhor nem tocar no assunto. Os pastores, os teólogos e os leigos são culpados porque se esqueceram de que a palavra Salvador significa aquele que cura. Nós temos nos esquecido de que a palavra Salvador significa aquele torna a unir aquilo que está quebrado, tanto no corpo quanto na mente. Salvação é a cura. Jesus Cristo é o Salvador que cura. Este é quadro pintado por Mateus.

A mulher que tinha hemorragia encontrou Jesus e voltou para casa curada e limpa. O endemoninhado encontrou Jesus e foi libertado da sua divisão mental. Aqueles que estão quebrados e divididos são curados, e essa é a verdade porque o Reino de Deus tem chegado a nós. Essa é resposta que Jesus deu aos fariseus quando eles duvidaram do seu poder de curar. Foi também a resposta que deu a João Batista para ajudá-lo em sua dúvida: Mt 11.4ss - Jesus respondeu: — Voltem e contem a João o que vocês estão ouvindo e vendo. Digam a ele que os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e os pobres recebem o evangelho. E felizes são aqueles que não abandonam a sua fé em mim! A natureza do Reino de Deus é curar aquilo que está doente. Salvar fazendo sadio aquilo que está quebrantado.

As história e cura que os evangelhos nos contam não são histórias de um passado em que os milagres aconteciam. Elas estão nos evangelhos porque são histórias de cura para nós hoje. Essas histórias não somente mostram a condição humana, que é a mesma desde sempre, mas nos mostram também a atitude que faz possível a cura, e essa atitude é o que chamamos de fé.

Fé não significa a crença naquilo para que não há evidência. A fé nunca poderia significar isso numa religião autêntica, porque ela não prega uma fé cega. A fé significa ser agarrado por um poder maior do que nós. A fé significa ser alcançado por um poder que nos tira da letargia doentia, nos transforma e nos cura. Render-se a esse poder é ter fé. (continua)

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Gigantes que não morrem

Mas Davi retrucou ao filisteu: "Tu vens contra mim com espada, lança e escudo; eu, porém, venho a ti em nome de Iahweh dos Exércitos, o Deus dos exércitos de Israel que desafiaste. Toda a terra saberá que há um Deus em Israel, e toda esta assembleia conhecerá que não é pela espada nem pela lança que Iahweh concede a vitória, porque Iahweh é o senhor da batalha e ele vos entregará em nossas mãos." Davi pôs a mão no seu bornal, apanhou uma pedra que lançou com a funda. Desse modo Davi venceu o filisteu com a funda e a pedra: feriu o filisteu e o matou; Davi correu, pôs o pé sobre o filisteu, apanhou-lhe a espada, tirou-a da bainha e a cravou no filisteu e, com ela, decepou-lhe a cabeça. I Samuel 17.45,47,49 e 50
Davi e Golias, R Leinweber
A história da Bíblia mais conhecida e, talvez por isso, mais apreciada pelas crianças de todo o mundo é, sem dúvida, o duelo entre o jovem Davi e o gigante Golias. Por gerações, essa história que durante muito tempo foi contada literalmente através de um flanelógrafo, hoje é exibida em data show e com uma série de restrições para torná-la politicamente correta e acessível aos sensíveis ouvidos das gerações atuais. Já não se pode mais dizer que Davi matou Golias, da mesma forma que não pode mais cantar “atirei o pau no gato”. Sem querer contestar o desenvolvimento das ciências sociais que desembocou nesta conclusão, quero dizer que em termos doutrinários, para a igreja, isso é uma enorme baboseira.

Segundo este pensamento, daqui para frente vamos ter que contar às crianças que Jesus não morreu na cruz, que Estevão não foi apedrejado, que Paulo não foi decapitado e que não houve cristão sequer que tenha morrido nas arenas romanas. Se o intuito de tudo isso na vida secular é evitar que as crianças se tornem, mais tarde, adultos neuróticos com tendências criminosas, o que podemos projetar para o futuro das nossas crianças no contexto religioso a na vida da igreja? Será que iremos formar cristãos mais conscientes, amorosos e fiéis? Será que estamos criando uma geração de grandes pregadores e ativistas evangélicos?

Até onde posso perceber, nós criamos sim uma geração de levitas, de ministros de louvor, de apóstolos e de ungidos do Senhor, que além de constituírem a casta superior e privilegiada da igreja, são também intocáveis, inquestionáveis e irrepreensíveis, pois segundo eles mesmos apregoam: ai daquele que tocar no ungido do Senhor.

O que mais me entristece nisso tudo é ver que os citados Paulo, Estevão, o próprio Jesus, não tiveram a lucidez de tomar esse versículo devidamente engendrado por Saul, para ameaçar e repelir de vez os seus inimigos juntamente com as suas ameaças. Causa-me um sentimento profundo de derrota constatar que, por conta dessa inadmissível falha, esses incautos cristãos tivessem que passar por tantos tormentos e aflições, em nome de um evangelho que disponibiliza uma quantidade enorme de artefatos protetores e frases de efeito libertador.

Não sei onde isso começou, mas posso traçar um perfil da situação a que tudo isso está nos levando. Se não podemos mais contar as crianças o furor da batalha, também não vamos poder contar que de quem são os méritos da vitória, e assim, vamos dar mais crédito e mais louvor aos que se anunciam como guardiões da autêntica, única e aceitável forma de adoração. O versículo chave desse texto, e que orienta todo o desenrolar da situação é esse: não é pela espada nem pela lança que Iahweh concede a vitória. Foi exatamente isso que Israel aprendeu naquele dia. Que não são os nossos dons e atributos que fazem a diferença, que não é a beleza da voz que torna o louvor mais digno, que não são os títulos ou diplomas que traduzem mais fielmente a vontade de Deus.

Realmente estamos criando uma geração de cristãos iludidos. É por isso que as ciências sociais têm conseguido influenciar tanto a doutrina da igreja, quando a influência deveria ser exatamente ao contrário. É por isso também que estamos começando a tratar as histórias da Bíblia como contos de fadas, assim como são os contos de várias religiões pelo mundo. Por trás disso tudo há uma ameaça infinitamente maior, por isso bem nos advertiu Gilbert Cherteston sobre o perigo das ilusões que esses contos criam: Contos de fadas não fazem as crianças acreditarem que monstros existem. As crianças já sabem que eles existem. Contos de fadas fazem as crianças acreditarem que monstros podem ser mortos por nós.




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É para isso que vim

Tendo-o encontrado, lhe disseram: Todos te buscam. Jesus, porém, lhes disse: Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas, a fim de que eu pregue também ali, pois para isso é que eu vim. Marcos 1.37s
Semão da Montanha, Bertalan Pór (1880-1964)
Em um dos livros dos quais tive o orgulho de escrever, uma pergunta domina o seu contexto do princípio ao fim: Jesus sabia que era o Filho de Deus? Já falei sobre isso há algum tempo, contudo, continuo percebendo que a resposta continua sendo a mesma: um belo e sonoro sim. Levo sempre em consideração que uma pergunta como essa pega qualquer um de surpresa, simplesmente pelo fato de que entre os que nele creem ela é descabida, pois parece não haver qualquer dúvida quanto a isso, e entre os que não creem é uma pergunta que jamais chega a ser formulada.

Durante há algum tempo tenho percebido também que esta não é a única forma de se fazer esta pergunta, posto que ela está embutida em várias outras perguntas que jamais ousamos fazer, como também em alguns assuntos sobre os quais evitamos falar.

Muito recentemente eu fui questionado por ter afirmado que a finalidade precípua de Jesus não era a de fazer milagres, e que estes aconteceram como consequência, e não como causa. Esta questão me foi colocada das maneiras seguintes:
1- Por que então ele fez milagres?
2- Não seria mais adequado afirmar que: Jesus veio implantar definitivamente o Reino de Deus e para isto teve que fazer milagres?

Não quero parecer um visionário, mas no meu entender essas perguntas estão diretamente ligadas à pergunta anterior. Uma vez que as pessoas deduzem, e com argumentos bem sólidos, que tanto a capacidade quanto a necessidade de Jesus fazer milagres estavam intrinsecamente ligadas ao seu ministério terreno, mesmo que o próprio Jesus tenha deixado bem claro que veio para anunciar, pregar e proclamar o Reino de Deus. Isso pode ser percebido também na sua pré-disposição de fazer um ministério itinerante, sem ter qualquer lugar como referência, uma prática que um curandeiro da sua época jamais pensaria adotar. Vejam, por exemplo, que as pessoas se dirigiam para o deserto, pois sabiam que era lá que João Batista estava. Isso sim é bom para o “negócio”. Jesus, por seu turno, fez o contrário, através da sua irrevogável decisão de visitar cada cidade e cada aldeia onde se encontravam os Perdidos da Casa de Israel.

Não sei nas outras religiões, mas tudo no Cristianismo assume proporções descomunais, que se desdobra em questões intermináveis. Nunca é simplesmente uma questão de crer ou não crer. Nada se esgota dentro de um ambiente restrito. Jamais os fatos assumem características domésticas e propícias somente a uns poucos iniciados. Até mesmo a obrigatoriedade ou não de Jesus fazer milagres, um tema que deveria ser discutido apenas entre acadêmicos, não tardou em ganhar as esquinas, ruas e avenidas, tanto no tempo dele quanto no nosso tempo. Não tenho como acreditar que a maioria dos mais de cinco mil homens que estavam presentes no famoso Sermão da Montanha, foi lá apenas para ouvi-lo e não pelos seus milagres. Assim com também não posso crer que a superlotação de algumas igrejas seja causada por pessoas interessadas em ouvir todas as boas notícias que o evangelho tem a dar.

O reflexo de tudo isso hoje é um a busca frenética pelos milagres, mas não como uma bênção ou mesmo uma dádiva não merecida. Já assumiu a forma de retribuição obrigatória  por um sacrifício dedicado a Jesus, sacrifício esse que pouquíssimas vezes chega a ser usado em favor do Reino que ele veio implantar.  E é isso que tem feito a diferença. As pessoas não têm mais a preocupação de averiguar onde e em que proporção as suas ofertas estão sendo empregadas. Não importa nem mesmo se elas estão prestando um desserviço ao evangelho. Importa sim se o milagre vai ou não acontecer, se a unção será ou não derramada. Não é mais uma questão de consciência, de sensação de dever cumprido, de tentar ajustar as contas com Deus. Bem sintetizou o bispo Macedo em uma reunião com os seus pastores:Entendeu como é? Se quiser (dar), amém! Se não quiser, que se dane! Ou dá ou desce.

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Jesus andou sobre o mar, e daí?

Vendo-os em dificuldade a remar, porque o vento lhes era contrário, por volta da quarta vigília da noite, veio ter com eles, andando por sobre o mar; e queria tomar-lhes a dianteira. Eles, porém, vendo-o andar sobre o mar, pensaram tratar-se de um fantasma e gritaram. Pois todos ficaram aterrados à vista dele. Mas logo lhes falou e disse: Tende bom ânimo! Sou eu. Não temais! E subiu para o barco para estar com eles, e o vento cessou. Ficaram entre si atônitos, porque não haviam compreendido o milagre dos pães; antes, o seu coração estava endurecido. Mc 6.48ss
Jesus caminha sobre as águas, Doré
Esse é um texto em que, para muitos, o milagre rouba a cena dos demais elementos da narrativa, e o faz justamente quando ele nem mesmo é o tema central da mensagem. Tanto os céticos quanto muitos dos que creem em Jesus imaginam que a finalidade precípua do seu ministério era quebrar as leis fundamentais da natureza para se afirmar como Messias que redimiria Israel. Imaginam também que, uma vez que vários outros atributos que o imaginário do povo fazia deste enviado de Deus Jesus não demonstrava possuir, o milagre se prestaria, então, como substituto aceitável.


Mas Jesus não veio para fazer milagres e sim para implantar definitivamente o Reino de Deus. Os milagres que aconteceram, embora muitos, não foram em número satisfatório nem mesmo para os mais próximos, como foi declarado pelos caminhantes de Emaús ao próprio Jesus: Eu pensava que ele quem iria redimir Israel. Eles custaram a entender que os milagres aconteceram apenas como consequência, e jamais como objetivo. Tanto foi assim que alguns desses milagres realizados por Jesus sequer haviam sido planejados, como no caso da cura da mulher com fluxo de sangue ou mesmo o da mulher sírio-fenícia.

Instigado que foi pelo ceticismo que parte do povo demonstrava em relação a ele, Jesus deixou claro que até mesmo os milagres têm por obrigação seguir um plano anterior estabelecido por Deus, e que todos tem uma função definida no grande plano de salvação de Deus: Lucas 4.25-27 - Na verdade vos digo que muitas viúvas havia em Israel no tempo de Elias, quando o céu se fechou por três anos e seis meses, reinando grande fome em toda a terra; e a nenhuma delas foi Elias enviado, senão a uma viúva de Sarepta de Sidom. Havia também muitos leprosos em Israel nos dias do profeta Eliseu, e nenhum deles foi purificado, senão Naamã, o sírio.

Se retirarmos o foco do milagre em si e ampliarmos um pouco a visão fazendo incidi-la sobre todo o contexto, aí poderemos ver que a intenção maior de Jesus era quebrar os corações endurecidos, antes de quebrar as leis fundamentais da gravidade e da resiliência dos fluidos. Quem disse essa frase foi o Sergio Duarte químico.

Antes de olharmos diretamente para o milagre temos obrigatoriamente que perceber algumas outras coisas que o transcendem:
Jesus vê a dificuldade dos seus discípulos;
Jesus vai ao encontro deles em meio á dificuldade;
Jesus quer se antecipar à necessidade momentânea deles;
Entra no mesmo barco que eles, e o faz em todos os sentidos, inclusive o literal;
Põe termo ao medo que havia se instaurado entre eles;
Dirimiu as dúvidas que eram ainda resquícios do milagre anterior da multiplicação dos pães e peixes.

Albert Einstein dizia que é mais fácil quebrar um átomo do que um preconceito. Jesus disse que e mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha que um rico entrar no Reino dos Céus. Por tudo que vimos até agora, com absoluta certeza podemos também afirmar: é mais fácil andar sobre as águas tumultuadas de um mar bravio, do que quebrar a insensibilidade de um coração endurecido pelo ceticismo ou pela superstição.

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Alegria triste, tristeza alegre

Mas a quem hei de comparar esta geração? É semelhante a meninos que, sentados nas praças, gritam aos companheiros: Nós vos tocamos flauta, e não dançastes; entoamos lamentações, e não pranteastes. Pois veio João, que não comia nem bebia, e dizem: Tem demônio! Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem: Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores! Mas a sabedoria é justificada por suas obras. Mateus 11.16-19
Eis o Cordeiro de Deus
Não há como desvincular o propósito do ministério de Jesus do ministério de João Batista. Ambos pregavam aos pobres a chegada do Reino de Deus e aos ricos o arrependimento. Olhos desconfiados irão enxergar uma certa continuidade interesseira, pois algumas narrativas do evangelho deixam bastante claro que o ministério efetivo de Jesus começa justamente depois prisão e decapitação de João Batista por ordem de Herodes Antipas.

Também não podemos nos esquecer que de uma forma bastante objetiva João Batista mesmo no cárcere demonstrou um alto grau de preocupação com aquele que estava começando a se fazer notar pelas suas mensagens e seus milagres. João mandou que um dos seus discípulos mais chegados fosse procurar saber qual era a de Jesus: Mt 11.2s - Quando João ouviu, no cárcere, falar das obras de Cristo, mandou por seus discípulos perguntar-lhe: És tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro? Jesus praticamente devolve a pergunta ao seu inquisidor perguntando-lhe o que para ele parecia estar acontecendo. O que, na verdade, ele estava vendo e ouvindo. Quais eram os resultados mais imediatos do ministério de Jesus: Mt.11-5 - os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho.

Logicamente que a preocupação do Batista não estava nos resultados, eles eram mais que visíveis. Estava sim na forma radicalmente diferente com que Jesus estava conduzindo o seu ministério. E é por esse detalhe que Jesus descobriu a inconsistência do povo para quem estavam sendo dirigidas tanto a sua, como a mensagem de João Batista. Em virtude da grave desconfiança levantada por João, Jesus deveria ter voltado os seus esforços e a sua atenção para dirimi-la, mas não o fez. Concentrou-se exclusivamente no propósito final, que era o Reino de Deus. Jesus descobriu também que a índole da natureza humana viaja ininterruptamente entre os extremos, e que sempre se mostra vacilante quando se depara com a firmeza de posições diferentes.

João quis saber qual era a de Jesus, e Jesus ficou sabendo qual era a do povo que João supunha que estava incondicionalmente com ele. A austera conduta que João impunha aos seus discípulos estava se mostrando muito incomodada com a liberdade de atitude e de expressão que Jesus dava aos seus. Mas esse não era o problema, e sim a indecisão do povo que não estava inclinado a aceitar nem uma e nem outra posição: Pois veio João, que não comia nem bebia, e dizem: Tem demônio! Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem: Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores!

Jesus se aproveita da crítica destrutiva para lançar as bases de um sentimento que está além de tudo que estava sendo julgado e condenado. Jesus fala que a insensibilidade e a indiferença estavam por trás de toda a questão. Nós vos tocamos flauta, e não dançastes. Algumas traduções dizem assim: Jogamos um brinquedo, e não brincastes. Jesus está querendo dizer a eles da alegria ingênua que o Reino de Deus veio trazer. Ela se assemelha a de uma criança brincando num parque. Por outro lado, e aqui vale a lição deixada por João Batista, ele aproveita para falar novamente da insensibilidade e da indiferença em outro nível. Da insensibilidade e da indiferença para com os sentimentos e necessidades das outras pessoas: entoamos lamentações, e não pranteastes.

Ele veio dizer que o Reino de Deus é, na verdade, uma comunhão perfeita dos dois ministérios. Tem a hora de comer, beber e se divertir, mas também tem a hora de deixar tudo de lado e atender o próximo. Mas parece que isso não ficou bem claro na mente dos apóstolos, pois as questões sobre o poder e a escolha dos melhores lugares ainda era flagrante entre eles. Para o bem de todos, Deus chamou mais um apóstolo para dizer entre outras coisas o seguinte: Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram. Quantos Paulos serão preciso para que entendamos isso também?

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O pavio que fumega

Não esmagará a cana quebrada, nem apagará a torcida que fumega. Is 42.3
O pavio que fumega, Dave O'Donnel (?)
Peço desculpas por não ter postado ontem no blog. Dessa vez não foi por falta de tempo ou por doença, como de outras vezes, mas porque eu ainda estava sob o impacto da mensagem para o Natal que preparei, primeiramente para mim, e se tiver oportunidade pretendo dividi-la também com a igreja. Tenho a certeza de que este impacto foi causado menos pelo que consegui escrever do que propriamente pelo que me chegou às mãos para me inspirar quase que na totalidade do texto. Tenho que confessar que quando inicialmente li o texto de Isaías 42.3, não fiz a menor ideia do quão longe ele iria me levar, do impacto que ele iria causar e do estrago que ele iria realizar.

Não tenho como negar que Isaías me fez enxergar a verdadeira luta que existe entre o Reino de Deus e o reino das trevas. Não tenho como negar que Isaías me mostrou o quanto eu tenho preferido lutar as lutas do nosso século em detrimento daquelas que eu fui chamado a lutar, e que são eternas. Isaías simplesmente aniquilou todos os argumentos que até então eu utilizava em minha defesa, como também os que eu usava para atacar certas pessoas ou segmentos da sociedade. Ele disse com todas as letras que o culpado sou eu.

Nessas horas eu vejo que não passo de um pavio que fumega. Eu nunca tinha percebido antes as grandes diferenças entre as lutas que são travadas em nosso mundo. Nunca tinha feito a distinção entre as lutas de classe levadas a cabo pela sociedade e as lutas próprias e exclusivas do Reino de Deus. Sempre pensei que eram a mesma coisa. Sempre achei que me engajando em uma luta qualquer pelos meus direitos, eu estaria também lutando ao lado de Deus em favor de seu Reino. Simples assim. Mas como eu estava errado! Como eu não pude perceber os enormes contrastes? 

Não funciona bem assim no Brasil, aqui é realmente diferente, mas em outros lugares do mundo, para se dar aumento a uma classe há a necessidade de se ter aumento de impostos ou no valor dos serviços. É aí que eu apoio, por achar justas, as reivindicações dos professores, bombeiros, bancários, policiais e aposentados. Mas vou ficar muito indignado se esse aumento sair do meu bolso, pois quero que tudo aconteça e que nada aumente para que isso aconteça. Estou usando o verbo na primeira pessoa, mas na certeza de que não estou sozinho nesse conceito.

Fico realmente perplexo como Isaías enxergou isso tão claramente há 2600 anos. Como é que sem dados históricos, sem as ciências sociais, sem cálculos estatísticos e sem a mídia para lhe colocar a par da situação, ele pode ir tão fundo na detecção da verdadeira raiz do problema. É realmente assombroso que se aproxima do limite do sobrenatural a teologia que Isaías faz da reação de Deus diante de todas as lutas justas e injustas travadas desde sempre em nosso mundo. Com palavras simples e exemplos do cotidiano ele simplesmente disse: olha gente, Deus é bom. Ele quer que o fraco se levante, mas não quer derrubar quem está de pé para que isso aconteça. Ele não quer uma simples inversão de posições, mas a transformação completa de toda a sociedade. Ele quer restaurar e não esmagar. Ele quer reacender e não apagar de vez.

Para essa missão em particular, ele não convoca todas as pessoas. Não são todos os que são chamados a lutar essa luta. Para essa tarefa que, segundo a Bíblia os anjos se sentiriam orgulhosos de realizar, ele convocou apenas os que pretendem ser fiéis a ele. Não é briga pra muita gente não. É uma convocação para poucos. Fica difícil de precisar, mas, pelo que tudo indica, Isaías estava praticamente sozinho, e mesmo assim conseguiu comunicar essa estupenda verdade. Ele anunciou um Deus à frente de qualquer realidade, um Deus “melhor” do que qualquer bondade, um Deus mais justo do que qualquer justiça.

É justamente no Natal que a profecia de Isaías fala mais alto. Enquanto a humanidade espera que mudanças radicais aconteçam, apenas porque a letra de uma música ano após ano, Natal após Natal tenta nos fazer crer que hoje é o novo dia de um novo tempo, Isaías vem nos desafiar a colocarmos as nossas esperanças em um Deus que nos ama, e que somente através do compartilhamento desse amor, mudanças poderão ocorrer. Isaías continua dizendo que Deus não esmagará a cana quebrada, e nem apagará a torcida que fumega. Para que o Natal cumpra com seu objetivo basta que apenas uns poucos creiam firmemente nisso.

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A cana quebrada II

A Adúltera, Rembrandt em 1644
Cremos que as pessoas respondem ao amor, mesmo que tenham perdido a capacidade de responder a qualquer outra coisa. Disse uma pessoa que trabalha há muitos anos com crianças excepcionais. Ela está seguindo a linha de pensamento de Isaías: Não esmagará a cana quebrada, nem apagará a torcida que fumega. Aqui está a chave da existência da igreja.


A igreja existe para ser o lugar onde pessoas são valorizadas, onde as pessoas são estimadas e onde as pessoas são amadas, não pelas coisas que possuem ou pelo que fazem, mas porque Deus as tem chamado para serem dele. A essas pessoas Deus lhes deu a importância do mérito que é seu, aquilo que chamamos de graça.

Uma das coisas que mais incomoda um pastor é ver um membro de sua igreja se transferir para outra. Mas hoje, até isso se tornou uma tarefa impessoal, pois hoje o fazemos através de uma carta padrão de transferência, e muitas vezes sem o conhecimento da congregação, quando a carta não é do conhecimento do membro em questão. Parece uma lista de roupa para a lavanderia. O que deveria ser uma festa de amor, com a igreja toda agradecida a Deus pela bênção que foi aquela pessoa entre eles, e com os melhores votos de que ela seja também uma bênção na sua nova igreja, é um ato burocrático frio e insensível.

Nem apagará a torcida que fumega. Podemos também considerar que todo pavio fica velho, e quando falta o suprimento de óleo ele queima a si mesmo soltando muita fumaça. Aqui Isaías está se referindo àqueles que tiveram uma falha pessoal, que se sentem desgastados pelas suas próprias deficiências ou que estão sendo consumidos pelos seus erros. Em nossa sociedade eles são a maioria. O evangelho veio para mudar a nossa maneira de enxergá-los. Eu pelo menos preciso mudar a minha. Quando achamos que outra pessoa está em pecado, está perdida ou longe da graça de Deus, o nosso julgamento sobre ela atrapalha a comunicação do amor de Deus. Talvez, no dia que eu conseguir ser assim, eu consiga pregar o evangelho sem raiva e sem essas mensagens duras que costumo postar. Se eu acho que você está errado passo a ter uma atitude diferente com você, mas Jesus não era assim. Ele tratava prostitutas, adúlteras, publicanos e fariseus amando-os da mesma forma. Não olhava diretamente para o erro e sim para a pessoa, e assim via o ser humano que estava por trás do erro.

Por mais que ataquemos as injustiças desse mundo, e por mis que elas se multipliquem, o problema essencial está mesmo dentro de nós. Nós estamos sofrendo de falta de suprimento. Sofremos de esvaziamento de amor e carência de esperança. Sofremos da ausência de confiança em nós mesmos e em Deus. Sofremos pela tanto pela falta de fé que não enxergamos que todas essas ausências estão consideradas na promessa da profecia de Isaías. Isaías está nos dizendo que Deus não nos condena pelo fato do nosso estoque estar baixo, que ele não nos rejeita porque somos falhos, e que não nos ignora porque a nossa luz não está brilhando. Isaías está dizendo que Deus mandou seu Filho para nos refazer, nos renovar, nos reabastecer e nos completar. Ele não está aqui para esmagar a cana quebrada e nem apagar a torcida que fumega. Não está aqui para julgar, condenar e destruir, mas para tratar muito melhor do que nos tratamos a nós mesmos e aos outros.

A nossa melhor intenção é dividir essa mensagem com todo mundo, mas isso será quase impossível enquanto existir a barreira montada em nossas mentes pela nossa natureza, pela maneira com que fomos criados ou pelo ranço do nosso pecado original. Mas o fato é que não queremos um Deus assim, isso nos incomoda. Ficamos sem saber o que fazer com ele. Ficamos com vergonha da sua bondade, da sua misericórdia e do seu amor. O Deus de Isaías é bom demais para funcionar nesse mundo. Ele jamais deveria deixar Isaías falar desse jeito. Um Deus que age assim é um Deus exagerado.

Não esmagará a cana quebrada, nem apagará a torcida que fumega. Vamos pensar agora na possibilidade de existir um Deus assim. Vamos pensar que ele realmente quer salvar a humanidade. Que ele, de fato, quer nos revelar que não veio para nos castigar, e nem nos rejeitar. Que ele não está bravo com ninguém. Vamos pensar que ele tem compaixão e que nos quer para ele. Se ele é realmente assim, pensemos agora o que ele teria feito. Ele teria feito exatamente aquilo que ele fez: teria mandado um homem chamado Isaías para anunciar como ele realmente era. O que teria feito Deus se ele fosse realmente amor? Teria feito exatamente o que fez: teria enviado seu único filho para que todo aquele que nele crê não morresse. 

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A cana quebrada I

Não esmagará a cana quebrada, nem apagará a torcida que fumega. Is 42.3
O peso da opressão, Paulo Zerbato
Há um mundo novo para ser construído, e com ele uma humanidade nova para se afirmar. Essa é a tarefa dada por Deus à igreja: assumir responsabilidades, exorcizar o mal, entronizar o humano. É a tarefa dos fiéis nessa vida. Mas parece que a sociedade assumiu esse papel. De todos os lugares chegam notícias de gente que está brigando pelos seus direitos com vistas a um mundo novo, um mundo melhor. Por outro lado, de outros lugares chegam também manifestações de apoio a esses movimentos de luta. Parece que está todo mundo brigando junto. Essa é a tônica do secularismo dos nossos dias, brigar junto pelos direitos. Parece que todo mundo quer vencer a luta. Mas o Reino de Deus é exatamente o oposto. Ele não é para os vencedores não. O Reino de Deus é para os derrotados, os pobres, os que são subjugados.

Em um dos nossos rituais da Santa Ceia dizemos: Pai Celestial, nós confessamos que temos pecado contra ti e nosso próximo. Nós temos andado nas trevas e não na luz; Temos clamado o nome de Cristo, mas não temos fugido da iniquidade. Também cantamos hinos que dizem: Oh! Que cego eu andei,/ E perdido vaguei,/ Longe, longe do meu Salvador! Assumindo a culpa temos uma atitude completamente diferente dessa que domina o nosso mundo atual. É por isso que dizem que o evangelho é bastante negativo, que não tem qualquer proveito. Todos aqueles que têm confiança na sua própria habilidade, todos aqueles que possuem uma imagem positiva, não podem entrar no Reino de Deus, até as circunstâncias da vida o abaterem. Porque o espírito da pessoa precisa ser quebrado antes, para que ela, então, possa crer. É aí que os que não creem dizem não ser justo, e a nossa discussão vai longe.

Eu até entendo a preocupação deles e lhes dou uma certa razão, mas é isso mesmo. O evangelho é para os fracos, para os pobres, para os que não têm vez nem voz, os fracassados, os pecadores. Essa é a boa notícia. Essa é a profecia de Isaías do nosso texto bíblico de hoje: Não esmagará a cana quebrada, nem apagará a torcida que fumega. Mas quem é esse que faz essas coisas? Isaías diz que ele é o servo do Senhor. Tem pessoas que dizer ser a própria nação de Israel. Outros acham que é o Reino de Deus. Mas para os cristãos esse servo sempre tem sido Jesus Cristo. Contudo, seria mais importante perguntarmos o seguinte: quem é o Deus desse servo? Porque o Deus desse servo representa aquele que é bom, paciente e misericordioso.

Não esmagará a cana quebrada. A cana em si não representa muita coisa. Em muitos lugares é como o capim à beira da estrada. É como as pessoas sem expressão que ficam sempre à margem. São essas que vão ser recuperadas, que vão ser restabelecidas, porque para Deus são inestimáveis. A torcida que fumega fala do pavio de uma lamparina que está acabando, quase no fim. A lamparina foi feita para iluminar, mas esta está apenas com uma luz insignificante que mal se enxerga, e soltando bastante fumaça. De acordo com a promessa de Isaías, essas lamparinas que não funcionam bem serão restauradas, serão limpas e reabastecidas, em vez de apagadas de vez. Atentem para esse simples versículo tirado da vida cotidiana de Isaías, nele Deus é revelado. Deus é paciente, Deus é manso em todas as suas maneiras. Seus propósitos não são para destruir, e sim para restaurar.

Não esmagará a cana quebrada, nem apagará a torcida que fumega. Vamos considerar esses dois elementos mais detalhadamente. Podemos imaginar um trator passando por um canavial. Nele a cana é quebrada por uma força exterior e tem sido vítima de circunstâncias alheias. Não por sua culpa que está quebrada. Muitos vivem uma vida de sofrimento sem ter culpa alguma. São vítimas do seu local de nascimento, de algum defeito congênito, de acidente ou de alguns revez financeiro. Esses receberam um duro golpe que os fizeram cair, esses são as canas quebradas. Algum infortúnio os derrubou da vida.

O fato é que toda sociedade é para ser julgada pelas suas atitudes para com os tais. Qual é a nossa atitude para com eles? Nós falamos sobre a democracia, mas vivemos numa sociedade de classes, em que cada um luta para conquistar mais privilégios para si. Isso está bem longe da democracia. Existe dentro de nós um sentimento latente que só os da elite têm valor. Está aí o grande sucesso das loterias entre nós. Todo mundo quer ser da elite. Todo mundo quer ter mais privilégios. A sociedade grega permitia o infanticídio em caso de imbecilidade, afinal, o que poderiam produzir os imbecis? Muitos homens creem o mesmo, e por isso querem a legalização do aborto. Para estes a força é a única virtude, e a fraqueza a única falha. Eles pleiteiam uma raça de super homens em que as canas quebradas serão eliminadas. Para eles a compaixão é um luxo que a humanidade não pode ser dar.

Não é assim no Reino de Deus. Lá ninguém é jogado fora. Os mais desprezados são justamente os mais amados. Eles têm suprema importância aos olhos de Deus. É isso que Isaías estava tentando fazer entender quando disse que o servo de Deus não veio para esmagará a cana que já está quebrada. (continua)

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Resquícios de um sermão

Ouvindo isto, admirou-se Jesus e disse aos que o seguiam: Em verdade vos afirmo que nem mesmo em Israel achei fé como esta. Digo-vos que muitos virão do Oriente e do Ocidente e tomarão lugares à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus. Mateus 8.10s
Jesus e o centurião, Paolo Veronese
Já falamos sobre filosofias vãs aqui neste blog. Filosofias extraídas de frases e ditados que constituem para muita gente filosofia de vida, mas que quando analisadas à luz do evangelho, como disse Paulo em Cl 2.8, não passam de sutileza vazia. Porém, estamos bem conscientes de que não nos referimos a todas as filosofias vãs que circulam entre nós, por isso, volta e meia surge mais uma para nos surpreender. Queria hoje tratar especificamente do ditado que diz: faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço. Buscando paralelos na Bíblia, não encontrei uma passagem que mais ilustra esse assunto do que o episódio que narra o encontro de Jesus com o centurião romano. Neste texto Jesus está nos dizendo com todas as letras: faça o que eu digo, porque eu faço o que digo.

Não precisamos retroagir muito no evangelho de Mateus para nos depararmos com o mais famoso sermão de Jesus Cristo: o Sermão da Montanha, onde ele traçou as diretrizes mais imediatas para aqueles que têm o Reino de Deus como prioridade de vida. Não foi por mero acaso que foi Mateus quem mais se estendeu nessa narrativa, pois seu intuito era mostrar aos judeus que em Jesus o próprio Deus estava cumprindo o que havia prometido a Abraão, Isaac e Jacó. Em Jesus o próprio Deus estava dizendo: eu faço o que digo.

Mateus observou e fez questão de narrar uma série de situações em que viu Jesus cumprindo fielmente as determinações que havia exigido dos seus discípulos naquele sermão. Se considerarmos que o versículo 1 do capítulo 8, que diz que Jesus finalmente desceu da montanha, veremos Jesus pondo em prática tudo o que disse anteriormente: curando um leproso, também curando a sogra de Pedro, acalmando a tempestade e ressocializando o endemoninhado gadareno. Mas é justamente na cura do servo do centurião que sua prática mais corrobora com a sua pregação. Este é um episódio ímpar e sem paralelo em toda a Bíblia. Nem mesmo à cura de Naamã pode ser comparado.

Vejamos toda a sua complexidade. O simples diálogo amistoso de Jesus com o oficial romano poderia ser considerado um ato de alta traição. Não havia quem representasse melhor o inimigo número um de Deus e de seu povo do que o Império Romano. Muitos daqueles que o ouvirão pouco antes consideravam que a sua pregação poderia servir para todos, menos para os romanos. Jesus havia falado que deveríamos amar os inimigos, mas não falou nada em amar os piores inimigos. Por isso é que imediatamente após o seu sermão, Jesus nos ensinou que devemos amar os cruéis e hediondos inimigos. Mas ele não parou por aí.

O simples fato de Jesus prestar este inestimável serviço ao centurião poderia ser entendido como um capítulo à parte, ou como algo excepcional que não deveria se repetir, não fosse o diálogo travado entre ambos. O centurião surpreende gratificantemente Jesus em vários aspectos. Primeiro, reconhecendo a sua indignidade: não sou digno que entreis em minha casa. Reconhece também o imerecimento do que estava pedindo. Caso Jesus não o atendesse, ele seguiria seu curso normalmente, sem ressentimentos. Aquele homem deve ter ouvido de Jesus: Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei, e abrir-se-vos-á. Pois todo o que pede recebe; o que busca encontra; e, a quem bate, abrir-se-lhe-á. abriria a porta, crendo nisso ousou a se incluir entre os que pedem, os que buscam e os que batem à porta.

Em segundo lugar, o centurião conseguiu ver em Jesus uma autoridade bem maior do que aquela a quem servia como oficial do seu exército. Mais do que ninguém aquele homem conhecia o peso de uma autoridade. O fato de recorrer a Jesus, por menor e mais insignificante que fosse o seu pedido, era a prova cabal de que ele reconhecera em Jesus uma autoridade infinitamente maior do que todo o poderio do seu Império. Jesus tinha poder para trazer à realidade coisas que os Césares não podiam sequer sonhar.

Faça o que eu digo, porque eu faço o que digo. Jesus havia falado que aqueles que mantivessem a fé no Reino a despeito das circunstâncias receberiam o galardão. Muito mais que amar, cuidar das necessidades ou mesmo acatar uma como válida uma sugestão de um inimigo declarado, Jesus o destaca da multidão que o seguia, como também o exalta acima de todos os grandes de Israel. Em Jesus o discurso se aliou à prática, e finalmente transformaram aquele que era mais odioso inimigo em o seu mais fiel servo. 

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As diatribes de Jesus

Guardai-vos dos escribas, que gostam de andar com vestes talares e muito apreciam as saudações nas praças, as primeiras cadeiras nas sinagogas e os primeiros lugares nos banquetes; os quais devoram as casas das viúvas e, para o justificar, fazem longas orações; estes sofrerão juízo muito mais severo. Leiam Lucas 20.46 a 21.4

Oferta da viúva pobre, Gustav Doré
Tentando encontrar um termo que definisse com exatidão a narrativa da viúva pobre, me deparei com a palavra diatribe, uma palavra que teve vários significados ao longo da história. Serviu inicialmente para significar o estilo dos discursos moralistas dos filósofos estoicos e cínicos da antiga Grécia. Mais tarde, passou a designar qualquer discurso agressivo ou ofensivo, para, enfim, ter o sentido de sátira que damos hoje.
Se quisesse conceituar o tipo de discurso proferido por Jesus na entrada do templo de Jerusalém sobre a oferta da viúva pobre, eu diria que este é o argumento que fecha a questão contra a atitude exibicionista e vexatória dos ricos, dos escribas e dos fariseus no momento em que faziam as suas ofertas; teríamos que dizer que este discurso foi uma diatribe em todos os seus sentidos da palavra.

Para Jesus a relação que se estabelecia ali era bastante simples: os tais homens, que se vestiam majestosamente de púrpura para receberem a admiração e as homenagens do povo, que também davam ofertas polpudas do que lhes sobrava, para Jesus eram os mesmos que devoravam as casas das viúvas. Eles eram capazes de fazer isso e muito mais, apenas com intuito vão de se justificarem diante de Deus.

Jesus está falando do orgulho que as pessoas têm pelo que imaginam estar fazendo em nome e para a glória de Deus, mas que na realidade o fazem em seu próprio nome e para a sua própria glória. Não faz muito tempo que a imprensa mundial alardeou a notícia sobre os donativos milionários que alguns ricos fizeram às vítimas do tsunami, mas não foi capaz de dizer que as quantias ofertadas não passavam de uma gota no oceano das suas riquezas. Tanto para aquela época, quanto para hoje, o que conta é o montante e não a avaliação moral da origem do dinheiro e nem da intenção velada por trás da oferta. Para muitos, os que têm valor na igreja são os que dão os maiores dízimos e mais generosas ofertas, o que historicamente não é verdade. A igreja de Jesus Cristo sempre foi sustentada pela oferta das viúvas pobres, pois são elas que insistiram em permanecer, principalmente quando os cultos estavam esvaziados, a programação era chata e a música era tocada num órgão de pedal por uma senhora que mal conseguia ligar dois acordes. São elas que fiel e rigorosamente ofertam, mesmo quando seus recursos são parcos.

Qualquer observador veria que Jesus não estava falando a verdade literal quando disse que a viúva deu a maior oferta entre todos. Mas sim de que ela deu a verdadeira oferta, pois ofertou 100% de si e 100% de tudo que possuía. Mas este observador teria que ver também que Jesus não está falando de tributação, de algo que é devido por obrigação e que deve ser cobrado dentro de uma escala progressiva de valores. Ele está falando da oferta voluntária, de um tipo de presente oferecido pela própria escolha individual, não por ordem do governo. Este sim deve contar como um presente moral e espiritualmente superior. Uma oferta maior do que todas as outras juntas.

Jesus radicaliza dizendo que a escolha de dar mais dinheiro não significa necessariamente dar um presente melhor, principalmente quando o dinheiro é proveniente de pessoas que têm menos ou das pessoas espoliadas em nome de uma estabilidade econômica. Jesus não está se referindo apenas às ofertas do templo, mas à vida em sociedade, cuja igreja deve se estabelecer como um parâmetro incontestável.

Entendo que a oferta da viúva pobre ressurge do tempo como uma diatribe que alerta a igreja e denuncia o mundo econômico dos nossos dias. O que realmente não dá para entender é como, em apenas uma diatribe, Jesus pôde dar tanto valor e tirar tanto ensinamento de duas míseras moedas.

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Teologia e heresia

O discípulo não está acima do seu mestre, nem o servo, acima do seu senhor. Basta ao discípulo ser como o seu mestre, e ao servo, como o seu senhor. Se chamaram Belzebu ao dono da casa, quanto mais aos seus domésticos? Portanto, não os temais; pois nada há encoberto, que não venha a ser revelado; nem oculto, que não venha a ser conhecido. Mateus 10.24-26

Último julgamento, Fra Angelico
Ao ouvir mais uma excelente mensagem do rev. Ed René Kivitz fui surpreendido com uma confissão bombástica, sincera e ao mesmo tempo muito corajosa. Disse ele: Se a tua teologia é original é heresia. Esse foi o seu argumento usado contra aqueles que dizem autoiluminados e que proclamam como verdadeiras as visões alucinatórias dos seus transes mediúnicos. Com isso ele quis dizer que a mensagem que prega não é produto do seu intelecto, mas é fruto de uma longa cadeia de pensadores que vêm estudando a ação de Deus na história ao longo desses dois mil anos de Cristianismo.


Pode ser que isso pareça comum, ou pelo menos que deveria parecer comum, mas a nossa realidade é bem diferente. A preferência da igreja tende a acatar mais a voz daqueles que pregam debaixo da sua própria autoridade, do que daqueles que se fundamentam em pensadores do passado. O meu amigo João Wesley Dornellas certa vez foi surpreendido com a seguinte declaração: eu gosto muito da sua aula, mas não gosto quando você repete as coisas que aquele seu parente falou. A pessoa disse isso imaginando que o João era descendente de John Wesley, a quem seus pais homenagearam. É estranho que alguém que frequente uma igreja metodista não queira aceitar que o que John Wesley pregou e deixou como legado seja o melhor do pensamento evangélico para ela. Estranho, porém real. Talvez os líderes neopentecostais hoje falem mais alto nessa igreja do que qualquer pensador genuinamente metodista.

Eu não creio no livre arbítrio, então vá ser batista. Eu creio na predestinação, então vá ser presbiteriano. Eu creio em manifestações visíveis e frequentes do Espírito Santo, então vá ser pentecostal. Falo isso com muito critério, porque, embora seja eu essencialmente arminiano, frequento e prego em uma igreja de origem calvinista, porque é uma dos últimos redutos onde consigo viver a minha fé de origem, pasmem vocês.

O rev. Ed René não está sozinho nesta empreitada. Ele está seguindo os passos da dura batalha que o apóstolo Paulo teve que travar com os Espirituais de Corinto: aqueles que não eram de Pedro, de Paulo e nem de Apolo, mas exclusivamente de Jesus. Essa foi e continua sendo uma declaração bastante capciosa. Uma vez que eu tenha recebido a mensagem do evangelho diretamente de Jesus, não tenho mais necessidade de ouvir ou meditar sobre outra mensagem pregada por alguém que recebeu a sua mensagem de outro pecador mortal como ele.

Pergunta em seu sermão o rev. Kivitz: Por que é que um sujeito acredita em alguém que diz que Deus falou com ele hoje à noite, e não confia num sujeito que tenta discernir o que Deus vem falando ao longo de dois mil anos de História da Igreja? Não sei se a resposta foi omitida no resumo do sermão que ouvi, mas sei que a pergunta ficou no ar. Por que alguém faria isso: trocar o que vem dando certo, ainda que precariamente, por algo que a própria História já provou não ter futuro? Não pensem que este movimento neopentecostal é novidade. Tanto a igreja de Corinto, quanto muitas outras no passado, já amargaram o fel desse evangelho, e consequentemente colheram seus frutos podres que resultaram em separação, fraude, enriquecimento ilícito e mau juízo da igreja por parte dos pagãos.

Jesus, mesmo sendo chamado de Belzebu, o príncipe dos demônios, não arredou pé de levar até as últimas consequências a sua missão profética. Jesus, mesmo ciente de que os seus seguidores seriam perseguidos e odiados por aqueles que preferem acreditar no imediatismo de uma revelação estranha à Bíblia, não lhes deu qualquer poder imunológico. Pelo contrário, recomendou apenas perseverança, pois se chamam de demônio o Mestre, do que não chamarão os seus discípulos?

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Pai, mãe e irmãos

Porém ele respondeu ao que lhe trouxera o aviso: Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? E, estendendo a mão para os discípulos, disse: Eis minha mãe e meus irmãos. Porque qualquer que fizer a vontade de meu Pai celeste, esse é meu irmão, irmã e mãe. Mateus 12.48-50

Jesus pregando, H. Mandel
Uma das declarações de Jesus menos digeríveis é esta de Mateus 12.26: Se alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. Sabedor da dificuldade que teríamos para aceitá-la, Jesus fez questão de confirmar o seu discurso na prática, o que pode ser muito bem observado no nosso texto base acima.


Logicamente que as circunstâncias colaboraram bastante para que ele chegasse a esse desfecho. Pois justamente em um oportuno e complexo momento da sua afirmação como Messias, diante dos fariseus e escribas que o contestavam com veemência, que ele foi interpelado quase que judicialmente pela sua família biológica.

Alguém ali estava na hora errada, no momento errado, e não era Jesus. Jesus estava exatamente onde seu Pai pretendia que ele estivesse. Primeiro, anunciando que as boas notícias do Reino devem prevalecer sobre a rigidez de qualquer lei que priorize a instituição em detrimento do indivíduo. Segundo, que o Reino de Deus não se confunde em absolutamente nada com o reino das trevas, pois não se apresenta apenas como outra opção viável, mas como a negação completa e irrestrita deste em todos os aspectos. Terceiro, que o seu ministério, paixão, morte e ressurreição seriam os únicos sinais visíveis de que este Reino havia chegado. Ou seja, o que ele estava fazendo ali, e a mensagem que estava pregando, era simplesmente uma questão de estar a favor e aceitar, ou estar contra e rejeitar. Uma verdade que ele fez questão de deixar bem clara quando se expressou no versículo 30: Quem não é por mim é contra mim; e quem comigo não ajunta espalha.

Uma postura tão radical assim é bem passível de sofrer contestação das pessoas estranhas, ceticismo das pessoas do seu círculo de amizades e total abominação de seus familiares, principalmente enquanto aqueles ainda não haviam se conscientizado da sua messianidade.

Esse é o ponto definitivo de ruptura entre a obrigação para com os laços de família e a necessidade imperiosa da missão. Encurralado entre a escamoteada má intenção dos fariseus e o apelo sincero, porém, inconsequente da sua mãe, Jesus se vê na condição de ter que transferir a prioridade, que até então era consanguínea, para um outro tipo de família sem laços de sangue. A família que naquele preciso momento mais carecia da sua assistência era a família da fé. Não temos porque imaginar que, aquelas palavras que, com toda certeza, entristeceram profundamente o coração de Maria, sua mãe, permaneceram como marco da relação futura com ela. Com a mesma certeza, Maria, mais tarde, veio a entender o seu sentido, bem como justificar a atitude. Como prova cabal, temos a sua preocupação de deixá-la aos cuidados de João, seu discípulo.

Mas apesar de todas as explicações cabíveis, das incansáveis tentativas de juntar pontas soltas e da penosa aceitação da proposição de Jesus como oportuna e válida, ainda prevalece a principal questão do texto: Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?

Curioso que mesmo Jesus se assumindo como mestre, segundo a tradição rabínica, como sacerdote na linhagem de Melquisedeque, como profeta na mais íntegra tradição, não se coloca como pai ou patriarca da fé cristã. Ele não pergunta quem são seus filhos, ou quem são aqueles que estariam sob a sua tutela, mas pergunta quem é sua mãe e quem são seus irmãos. Ele assume a mais interativa posição possível na escala hierárquica da fé. Jesus se faz um entre nós. Jesus está querendo saber quem está disposto a juntar como ele. Se numa hora é o irmão que questiona a ânsia de poder dos seus irmãos, noutra se deixa batizar por João, fazendo dele seu mentor e predecessor. Se em uma ocasião acalma o mar bravio e o vento impetuoso com uma só palavra, em outra chora copiosamente a perda de um amigo-irmão.

O evangelho não está aí para criar grandes celebridades, muito menos líderes religiosos. O evangelho nos veio trazer uma nova ordem de relacionamentos onde todos tem o que ensinar e todos necessitam aprender. Quem é minha mãe que dá sustento à minha mensagem? Quem são meus irmãos que se dispõem a vivê-la? Estas são as únicas perguntas que nos são feitas. Isso é tudo o que merece ser respondido.


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Deus de vivos

Pois, quando os mortos ressuscitarem, serão como os anjos do céu, e ninguém casará. Vocês nunca leram no Livro de Moisés o que está escrito sobre a ressurreição? Quando fala do espinheiro que estava em fogo, está escrito que Deus disse a Moisés: “Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó.” E Deus não é Deus dos mortos e sim dos vivos. Lucas 12.25-27
A Ressurreição dos Santos, por volta de 1250
Na leitura do evangelho recomendada para hoje diz que alguns saduceus foram a Jesus para colocá-lo contra a Torah, mas diz também que seus corações foram atraídos por Jesus. De uma forma ou de outra, todos queriam aproximar-se de Jesus, mesmo que imbuídos de diferentes intenções.


A liturgia de hoje faz uma pergunta importante sobre a ressurreição dos mortos. O caso em questão diz respeito a uma mulher que havia se casado com sete irmãos. Um após outro, os maridos tinham morrido e ela não tinha filhos. Esta viúva, que tinha sido deixada sozinha por sete vezes, não era declaradamente estéril, mas foi condenada a uma vida de incerteza e esterilidade. Na ressurreição o que vai acontecer com essa mulher? Ela teve sete maridos, agora, na ressurreição, de quem ela seria esposa?

Com a sua perspicácia típica, Jesus responde alargando a perspectiva deles, para levá-los pouco a pouco a lógica da vida: os critérios da vida terrena não podem ser aplicados ao Reino de Deus, porque a diferença é substancial. Paulo dizia que o Reino não é uma questão de comida e bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo. Isso muda completamente a dimensão do que estava sendo proposto. Jesus cita a própria Torah em Êxodo 3.6, que é um texto que fala sobre Deus e não sobre a ressurreição. A partir do testemunho de Moisés invocando o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó, Jesus conclui que Deus não é Deus de mortos, mas de vivos, porque para Deus todos esses patriarcas estão vivos na sua presença. Mas onde estaria a prova de que os mortos ressuscitam? Se Jesus descreve seu Pai como um Deus de vivos não de mortos, isso significa que Abraão, Isaac e Jacó estão vivos em algum lugar, mesmo que Moisés tenha proferido estas palavras há muito tempo atrás.

Na resposta aos saduceus, Jesus aproveita a oportunidade para corrigir também a crença dos fariseus, que entenderam a ressurreição em termos materiais: a mulher que teve sete maridos, na ressurreição será mulher de quem? Jesus diz que a vida dos mortos não é como o da Terra, é uma vida diferente, porque é divina e eterna e não transitória e volátil com a vida terrena. Jesus ousa a compará-la com a vida dos anjos, que para ele não são as criaturas gentis e complacentes que imaginamos. Na Bíblia, eles agem pelo poder de Deus, com um dinamismo que causa temor e espanto. Dentro dessa esfera de ação não caberiam os conceitos familiares e nem as preocupações da vida que tão bem conhecemos. Na ressurreição o efêmero se torna eterno. 

Com a cruz, Jesus não quis se livrar do efêmero, a fim de fugir para a eternidade. Pelo contrário. Através dela colocou a semente da eternidade no mundo para que o Reino de Deus cresça e introduza o padrão angelical de vida em nosso mundo. Mas antes de tentar esclarecer como a vida angelical transforma o efêmero em eterno, eu gostaria de salientar que os que afirmam que o matrimônio não tem consequências no céu, estão fazendo uma interpretação errada da resposta de Jesus aos saduceus. Ao afirmar, na versão escrita pelo evangelista Marcos, que os filhos deste mundo se casam e dão-se em casamento, mas aqueles que forem julgados dignos de alcançar o mundo vindouro e da ressurreição dos mortos não se casam nem se dão em casamento, Jesus rejeita a ideia que os saduceus apresentam da eternidade como uma simples continuação das relações terrenas entre os cônjuges, mas não descarta a possibilidade de que eles poderiam encontrar em Deus a união que os uniu na terra. 

Se não podemos viver agora a eternidade integralmente, podemos menos ainda espiritualizar o efêmero da vida humana. Por tudo isso é que o evangelho nos chama a viver a tempternidade, que é a dimensão transtemporal da criação. É viver à frente do nosso tempo, é priorizar o apofático, viver as experiências não catalogadas ou descritas. A teologia apofática insiste que a natureza divina está além das palavras, conceitos e entendimentos. Diferente da teologia tradicional, que se perdeu na confiança que Deus se resume nas imagens rígidas de Pai, Filho e Espírito, mas que nem de longe esgotou esse mistério. 

Não fomos condenados a viver uma vida solitária e estéril, mesmo que seguidas experiências tentem nos provar o contrário. Somos chamados a viver como anjos, quando debaixo da irrestrita obediência a Deus, se esconde o mistério da fraqueza que se faz forte, da humildade que exalta, da loucura que confunde os sábios e do amor que vence a morte. A ressurreição só começa quando a vida vence a morte.

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Alegria no Espírito

Missão do doze, Fra Angelico em 1440
Naquela hora, exultou Jesus no Espírito Santo e exclamou: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado. E, voltando-se para os seus discípulos, disse-lhes particularmente: Bem-aventurados os olhos que veem as coisas que vós vedes. Pois eu vos afirmo que muitos profetas e reis quiseram ver o que vedes e não viram; e ouvir o que ouvis e não o ouviram. Lucas 10.21 e 23-24

Este texto de Lucas fala da alegria dos setenta ou setenta e dois discípulos que saíram, enviados por Jesus, em missão evangelística pelas cidades da Judeia e Galileia em contrapartida à alegria do próprio Jesus manifesta na sua oração ao Pai. Apesar de Jesus ter mostrado a eles apenas um dos motivos da verdadeira alegria, que era bem diferente do motivo pelo qual os discípulos estavam se alegrando, podemos, com a ajuda e bons biblistas, descobrir nas entrelinhas alguns outros bons motivos da chamada “alegria no Espírito”.

Os discípulos voltaram da missão exultantes porque as forças do mal lhes eram submissas. Jesus contrapõe dizendo: Não obstante, alegrai-vos, não porque os espíritos se vos submetem, e sim porque o vosso nome está arrolado nos céus. Temos aqui um grupo de discípulos eufóricos com o poder recém adquirido sobre as obras do mal, e tomos Jesus determinando qual deveria ser o verdadeiro motivo da alegria. Contudo, o próprio Jesus também se porta de forma alegre. Qual seria, então, o motivo da sua alegria? Seria a alegria de perceber o Espírito Santo se manifestando na igreja?

Os teólogos de tendência mais carismática diriam que a alegria de Jesus foi devida ao que Lucas relatou no verso 18: Mas ele lhes disse: Eu via Satanás caindo do céu como um relâmpago. Esta interpretação, no entanto, nos conduz obrigatoriamente a uma pergunta crucial: O Espírito Santo inspira dentro de nossos corações alegria pela derrota do mal, ou nos dá sabedoria para que nos conscientizemos da nossa atividade profética, que é muito mais relevante que simplesmente combater o mal, e isso sim, nos leva à alegria?

Podemos afirmar com certeza que as vitórias obtidas em nome do Reino de Deus eram o constante motivo das alegrias de Jesus. O texto acima nos permite concluir que as vitórias do Reino já haviam começado e que já eram visíveis na escolha preferencial de Deus pelos pequeninos. Podemos afirmar também que a visão profética de Jesus deslumbrava vitórias ainda maiores do que a conscientização daqueles setenta e dois discípulos: Jo 4.35 - Não dizeis vós que ainda há quatro meses até à ceifa? Eu, porém, vos digo: erguei os olhos e vede os campos, pois já branquejam para a ceifa. O ceifeiro recebe desde já a recompensa e entesoura o seu fruto para a vida eterna; e, dessarte, se alegram tanto o semeador como o ceifeiro.

A alegria na vitória imediata e temporária é natural e válida, mas somente a sabedoria nos faz ver que ela só se completa quando ela é estendida a todos. No linguajar de Jesus: tanto ao semeador como ao ceifeiro. Ter a sabedoria para perceber esta alegria é mais que um privilégio. É uma bênção que nos coloca entre os mais bem aventurados, porque muitos profetas e reis quiseram recebê-la e não receberam; quiseram vê-la, e não a viram; quiseram, pelo menos ouvir o seu sussurrar, e não ouviram.

Tudo isso é muito bom porque não precisamos escolher entre uma alegria e outra. Não precisamos abrir mão de uma em detrimento da outra. Não precisamos escolher entre as alegrias que o Espírito inspira. Precisamos, sim, reconhecermos o nosso papel tanto no discurso profético inspirado, quanto no desenvolvimento da sabedoria como um dom carismático. 

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