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A Atitude Cristã com o Trabalho

Aquele que furtava não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado. Efésios 4.28
Passeata do Dia do Trabalho, em Detroit, em 1942
Texto de João Wesley Dornellas escrito em 7 de maio de 2000.
Tivemos mais uma comemoração do Dia do Trabalho, na realidade um dia em que quase ninguém trabalha. Mais um feriado e, desta vez, ele caiu numa segunda feira. Às vezes chegamos a pensar que o trabalho é um castigo. É, de fato, uma interpretação errada da narrativa bíblica da expulsão de Adão e Eva do Paraíso, obrigados a comer o pão com o suor do rosto. Já havia trabalho antes no Paraíso. A maldição não era sobre o trabalho, mas sobre a terra que, por produzir pouco e mal, exigia mais trabalho para produzir o fruto: pôs-lhe o nome de Noé, dizendo: Este nos consolará dos nossos trabalhos e das fadigas de nossas mãos, nesta terra que o SENHOR amaldiçoou. (Gn 5.29).

Na realidade, o trabalho é uma bênção. É por esta razão que Jesus diz claramente em Jo 5:17: “meu Pai trabalha até agora e eu trabalho também”. Jesus só recrutou como discípulos pessoas que estavam trabalhando. João, Pedro, Tiago e André foram chamados quando executavam trabalhos de pescador; Mateus enquanto cobrava impostos. Nenhum estava ocioso. Da mesma forma foram chamados os profetas do Antigo Testamento. Paulo, apesar da tarefa errada, também foi chamado pleno trabalho.

A ordem de Deus é trabalhar. Por isto, mandou descansar no sétimo dia; os outros são de trabalho. Longe de significar castigo, é uma bênção maravilhosa. Perante Deus todos os dias são sagrados. Paulo combate a preguiça e adverte contra a ociosidade (I Ts 4:11; II Ts 3:6-15; Ef 4:28, por exemplo). No Antigo Testamento, o livro de Provérbios está cheio de recomendações sobre o trabalho pois toda a criação trabalha: Um pouco para dormir, um pouco para tosquenejar, um pouco para encruzar os braços em repouso, assim sobrevirá a tua pobreza como um ladrão, e a tua necessidade, como um homem armado.(Pv 6.10s)

Todo trabalho é, antes de tudo, um serviço a Deus. O ser humano não trabalha apenas para a satisfação de suas necessidades. O cristão trabalha para servir a Deus, para manifestar, em adoração, que reconhece a Deus como Criador e a si mesmo como criatura. Tem que diariamente dar graças a Deus porque pode trabalhar, porque tem trabalho para fazer e porque reconhece que, além de trabalhar para sustentar sua família, tem que trabalhar também para estabelecer o Reino de Deus na Terra.

Finalmente, por reconhecer o valor do trabalho, nós cristãos temos que olhar à nossa volta e ver o que está acontecendo com relação ao trabalho. Primeira, há muita exploração dos trabalhadores. Temos que olhar para dentro de nós mesmos e ver se fazemos parte do time que os explora. Caso positivo, parar imediatamente com essa prática. Os índices de desemprego estão muito altos, não só no Brasil, mas em quase todos os países.

Precisamos, como cristãos, ser solidários com aqueles que querem trabalhar, mas não conseguem o emprego de que precisam para sustentar suas famílias e educar os seus filhos, que estão por aí, aos milhares, passando necessidades. Temos que nos preocupar também com os jovens que estudam, se esforçam, mas não conseguem trabalhar. O que será do seu futuro? Como cristãos somos obrigados a lutar contra toda forma de injustiça, da qual a falta de emprego é uma das piores facetas. O juízo de Deus está sobre a Igreja e sobre todos nós que fazemos parte dela.


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Estamos dando pedras a nossos filhos?

Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei, e abrir-se-vos-á. Pois todo o que pede recebe; o que busca encontra; e, a quem bate, abrir-se-lhe-á. Ou qual dentre vós é o homem que, se porventura o filho lhe pedir pão, lhe dará pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma cobra? Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará boas coisas aos que lhe pedirem? Mateu 7.7-11
Tentação no deserto, Rembrandt em 1635
Texto de João Wesley Dornellas escrito em 9 de abril de 2000.
O “No Cenáculo” é para ser lido todos os dias, mas vale a pena ler com antecipação a meditação do próximo dia 29 de abril, que tem o título “Pedras ou Pães?”. É sobre o trecho acima. Se o leitor ou leitora tem filhos, vale a pena lê-lo hoje mesmo. O texto é muito conhecido. Jesus pergunta, para falar dos atributos de Deus, qual o ouvinte que, se porventura o filho lhe pedisse um pão, lhe daria uma pedra. Para ele, só haveria uma resposta possível. Ninguém, nem mesmo sendo mau, faria isto com seu filho. Nem lhe daria uma cobra em lugar de um peixe.

O autor da meditação relembra alguns fatos do seu relacionamento com os filhos e pergunta: “será que eu lhes dei pedras quando eles pediam pão?” Falando sobre o amor do Pai, Jesus nos afirma que o nosso Pai celestial tem preparado sempre o melhor para nós.

A Escola Dominical, que nos ensina a conhecer Jesus melhor, é uma dádiva que o Pai dá aos nossos filhos queridos. Ter essa bênção disponível e não aproveitá-la para nossos filhos é um desperdício dos maiores. Estamos guardando o Pão a Vida só para nós e privando os nossos filhos dele? Isto equivaleria, usando as próprias palavras de Jesus, a dar pedras em lugar de pão e cobra em lugar de Peixe. Vamos pensar no assunto?

Dê uma prova de amor a seus filhos. Assim como você, com todo amor, os acorda cedo todos os dias para irem à escola, faça o mesmo no domingo. Traga-os com alegria à Escola Dominical e estimule a participação deles. Na Escola Dominical – você pode ter certeza – eles serão sempre alimentados com o Pão da Vida. Não existe nada mais nutritivo. Quem dele se alimenta, nunca mais terá fome. Ou você prefere dar pedras para eles? Neste caso, pense na sua responsabilidade perante Deus e nos compromissos que você assumiu quando os apresentou à Igreja para serem batizados. Dê o melhor para seus filhos. Dê-lhes a Escola Dominical. 

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Ecumenismo

CONIC - Conselho Nacional de Igrejas Cristãs
Texto do rev. Luiz Carlos Ramos.
A onda anti-ecumênica que afeta muitos segmentos do próprio cristianismo não deixa de ser surpreendente. Como imaginar que uma pessoa cristã seja contra a unidade da igreja? Como explicar a intolerância para com o “outro” por parte de pessoas que professam a fé cristã? Afinal, o cristianismo tem como elemento central a doutrina da encarnação do Filho de Deus que, vencendo a distância infinita que separava a humanidade de Deus, quebra a maior de todas as barreiras: aquela que separa o “Eu” do “Totalmente Outro”, e que exige, como consequência, a quebra da barreira com o “Tu”, isto é, com o próximo (vd. conceitos de Martin Buber).


A propósito dessa onda anti-ecumênica, esta reflexão pretende abordar o movimento ecumênico como uma resposta concreta à oração de Jesus pela unidade dos que creem.
A principal referência escriturística que inspira explicitamente o movimento ecumênico é a Oração Sacerdotal de Jesus, relatada no capítulo 17 do Evangelho de João: que eles sejam um, para que o mundo creia!

Ecumenismo como movimento de oração pela unidade dos que creem.
O compromisso ecumênico, portanto, é, primeiramente, um compromisso de oração. Os discípulos perguntavam a Jesus como deviam orar. No Sermão do Monte, Jesus oferece o modelo da Oração do Pai Nosso, que tem no pronome “nosso” a indicação explicita de que toda oração cristã deve ter um caráter comunitário e expressar as aspirações relativas ao cumprimento da vontade de Deus na Terra, da mesma forma que ela é realizada no Céu.

A Oração Sacerdotal de Jesus oferece outro modelo de oração que reforça a convicção de que a preocupação com a unidade dos que creem é prioritária na pauta das súplicas e nas intenções dos fiéis. Orar é desejar, suplicar é querer, pedir é buscar. O que deseja Jesus nessa oração? A unidade. O que suplica? A unidade. O que busca? A unidade.

Como o próprio Cristo advertia, em outra ocasião, uma casa dividida contra si mesma não pode subsistir (Mc 3.23ss). Isso implica em que uma pessoa que se diz cristã, mas que se posiciona contra o movimento de oração pela unidade da igreja, está assumindo o seu inverso. Suas orações, se não são em favor da unidade, são, consequentemente, em favor da desintegração, da sectarização e, portanto, da diabolização (cf. sentido etimológico dia+ballo) da igreja e dos cristãos. John Wesley expressava sua preocupação com essa tendência entre seus seguidores. Por isso dizia que não temia o desaparecimento do movimento metodista, mas que este viesse a se tornar uma seita pseudocristã.

Ecumenismo como movimento de comunhão solidária e celebrativa dos cristãos
Em segundo lugar, o compromisso ecumênico é um compromisso de comunhão. Jesus suplica ao Pai que os que creem e os que vierem a crer sejam um. Em que sentido? No mesmo sentido em que Jesus, o Filho, é um com Deus, o Pai. O modelo comunitário da igreja é a Divina Comunidade, a Santíssima Trindade, o Deus Trino e Uno.

Na comunidade divina, há plena unidade, não obstante a evidente diversidade das divinas pessoas. Os teólogos clássicos explicam que essa unidade se dá em temos de natureza. O Pai, o Filho e o Espírito são da mesma natureza. Não obstante, desempenham funções distintas. Conquanto juntos, não se misturam. Sendo Um, ainda assim, são Trindade. A um compete criar e revelar, a outro revelar e salvar, e a outro, salvar e consolar.

Por mais diferentes que os seres humanos possam ser, jamais serão tão “diferentes” quanto as pessoas da Trindade Santa. Se Deus é o modelo de comunidade perfeita embora sendo tão distinta entre si, como podem os seres humanos fechar-se intolerantemente em relação a quem é diferente em termos de convicções intelectuais ou de funções assumidas no corpo de Cristo, mas que, por mais diferentes que sejam, ainda são, e sempre serão, da mesma natureza humana?
A teologia e a ciência advogam: a humanidade é uma única família, uma única raça: a raça humana, a família humana —e a fé insiste em professar, surpreendentemente, que todos têm um único e mesmo Pai divino.

Outra expressão reiterada pelos Doutores e Pais da Igreja, e reforçada em diferentes épocas pelos Patronos da fé que professamos, é a de que devemos viver a unidade no essencial, a liberdade no não essencial, e a caridade (solidariedade) em todas as coisas. Em contrapartida, os que são contra o movimento ecumênico assumem uma postura de intolerância que culminará com a desintegração do essencial, a intolerância no não essencial, e o ódio em todas as coisas.

Ecumenismo como movimento missionário dos cristãos a serviço da humanidade
Em terceiro lugar, o compromisso ecumênico é um compromisso missionário. A oração de Jesus explicita o propósito da súplica pela unidade: “para que o mundo creia”. O que impressionava os ouvintes de Jesus era o fato de que ele não falava como os escribas, mas como quem tem autoridade. Essa autoridade estava relacionada à coerência da mensagem de Jesus com o seu estilo de vida. Os escribas, para defender a sua verdade, não hesitavam em recorrer à mentira. Assim fizeram em Tessalônica, quando contrataram “homens dentre a malandragem” para que instigassem a multidão e inventassem mentiras contra os missionários que vieram para pregar o evangelho naquela cidade. Para defender sua ortodoxia, recorriam a práticas heterodoxas.

O mesmo se dá com os que militam contra o movimento de unidade. Dizem pregar o Evangelho de Cristo, mas praticam o oposto dos ensinamentos do Mestre; dizem crer no Deus Trino-e-Uno, mas promovem a sectarização da igreja; dizem professar o evangelho do amor; e praticam o ódio e a intolerância para com aqueles e aquelas que, embora sendo da mesma natureza que eles, pensam e agem de modo diferente.

Além disso tudo, falta bom senso a muitas dessas pessoas para perceberem sua incoerência. Fazem o que fazem com boas intenções, pregam o que pregam supondo estarem fazendo isso em nome de Deus; acreditam no que acreditam porque são crédulos, mas não crentes, e se deixam levar por discursos falaciosos.

Ao que parece, o desejo de Cristo e a mensagem do seu Evangelho continuarão a ser a opção de poucos: dos que escolherem o caminho estreito, do pequeno rebanho que ainda distingue a voz do Pastor em meio aos uivos dos lobos e o alarido dos salteadores, de homens e mulheres dos quais o mundo ainda não é digno (cf. Hb 12).

Luiz Carlos Ramos é pastor metodista, doutor em Ciências da Religião e é professor da Universidade Metodista de São Paulo 


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10 Estratégias da Manipulação

Pollice verso, Jean Leon Gerome em  1872
Texto de Noam Chomsky.
1. A estratégia da distração:
O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas. A técnica é a do dilúvio ou inundação de contínuas distrações e de informações sem importância. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público interessar-se pelos conhecimentos essenciais, nas áreas da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética.Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais,  atraída por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar. (Citação do texto “Armas silenciosas para guerras tranquilas”).

2. Criar problemas e depois oferecer soluções:
Este método também é chamado: “problema--> reação--> solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o suplicante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o requerente de leis de segurança e políticas, em prejuízo da liberdade. Ou também: Criar uma crise econômica para que o povo  aceite como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

3. A estratégia da gradualidade:
Para fazer que se aceite uma medida inadmissível, basta aplicá-la gradualmente, a conta-gotas, num prazo ampliado. Dessa forma, as novas condições impostas, as mudanças radicais são aceitas sem provocar revoltas.

4. A estratégia do adiar :
Outra maneira de provocar a aceitação de uma decisão impopular é a de apresentá-la como “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício  futuro que um sacrifício imediato.
Primeiro, porque o esforço não é imediato.
Segundo, porque a massa, ingenuamente crê que “amanhã tudo irá melhor” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado.
Isto dá mais tempo ao cidadão para se acostumar à ideia da mudança e de aceitar com resignação quando chegar o momento.

5. Dirigir-se ao público como criaturas de pouca idade:      
A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discursos, argumentos, personagens e entonações particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse uma criatura de pouca idade ou um deficiente mental. Quanto mais se tente procurar enganar o espectador, mais se tende a adotar um tom infantil. Por que? Porque dirigir-se a uma pessoa como se tivesse doze anos ou menos, tenderá, por sugestão, a adotar respostas ou reações mais infantis e desprovidas de sentido crítico.

6. Utilizar o aspecto emocional muito mais que a reflexão:
Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para curtocircuitar a análise racional, e neutralizar o sentido crítico dos indivíduos. Por outro lado, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou injetar ideias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir a determinados comportamentos.

7. Manter o povo na ignorância e na mediocridade:
Fazer com que o público seja incapaz de compreender a tecnologia e métodos utilizados para seu controle e escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância entre estas e as classes altas permaneçam inalterada no tempo e seja impossível alcançar uma autêntica igualdade de oportunidades para todos.”

8. Estimular o público a ser complacente com a mediocridade:
Fazer crer ao povo que está na moda a vulgaridade, a incultura, o ser mal falado ou admirar personagens sem talento ou mérito algum, o desprezo ao intelectual, o exagero do culto ao corpo e a desvalorização do espírito de sacrifício e do esforço pessoal.

9. Reforçar o sentimento de culpa pessoal:
Fazer crer ao indivíduo que ele é o único culpado de sua própria desgraça, por insuficiência de inteligência, de capacidade, de preparação ou de esforço. Assim, em lugar de rebelar-se contra o sistema econômico e social, o indivíduo se desvaloriza , se culpa, gerando em si um estado depressivo, que inibe sua capacidade de reagir. E sem reação, não haverá revolução.

10. Conhecer os indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem:
Nos últimos 50 anos, os avanços da ciência geraram uma crescente brecha entre os conhecimentos do público e aqueles utilizados pelas elites dominantes. Graças à biologia, a neurobiologia e a psicologia aplicada, o Sistema tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicológica. O Sistema conseguiu conhecer melhor o indivíduo comum do que ele se conhece.

Conclusão: Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um maior controle e poder sobre os indivíduos, superior ao que pensam que realmente tem.

Noam Chomsky é linguista, filósofo e ativista político estadunidense, professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts


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Jesus e a Mulher II

Jesus chorou, James Tissot em 1886
Leiam João 4:5-27 e Isaías 61:1-3, 8-11
Sermão de Elisa Gusmão pelo Dia Internacional da Mulher de 2013.
Muitos cristãos extraíram suas ideias patriarcais dos ensinamentos religiosos do Antigo Testamento ou das epístolas paulinas, sem perceber que o que eles estão tomando como ensinamentos eternos não são mais do que elementos passageiros de contexto, época e cultura. Apesar dos esforços de alguns pregadores em dizer que este ensinamento era positivo - que as mulheres eram assim segregadas porque estavam trazendo algo que havia estado em contato com o sagrado de volta à vida diária - a verdade é que durante séculos a sexualidade feminina foi usada pela igreja como argumento contra a ordenação de mulheres, e agora contra as mulheres no bispado.


Ao longo da minha vida cristã ouvi comentários de pessoas que acreditavam que maternidade e Ministério são incompatíveis, ao ponto de dizer que a figura de uma mulher grávida no púlpito era imprópria, inaceitável. Mas nós temos mulheres grávidas em praticamente todas as profissões, inclusive locutoras de TV; por que então não no púlpito? A prova de que esses ensinamentos são transitórios é que um a um, eles caducaram. Estas instruções foram dadas para orientar as jovens Igrejas, e para proteger as mulheres das consequências e críticas a modos de comportamento que, naquela época, eram inaceitáveis.
A tentativa de justificar a exclusão de mulheres do clero, desta vez com o argumento de que os discípulos de Jesus eram todos homens. Pode-se dizer que nós não sabemos as identidades dos 72 apóstolos enviados dois a dois, à frente de Jesus (Lucas: 10, 1-24), ou, ainda, do grupo grande de seguidores que o acompanhavam por toda parte: E todos os seus conhecidos, e as mulheres que juntamente o haviam seguido desde a Galileia, estavam de longe vendo estas coisas.

As palavras que eu repeti não se referem simplesmente ao acompanhamento geográfico de Jesus à medida que ele se deslocava, mas a segui-lo como discípulas: E algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual saíram sete demônios; e Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, e Suzana, e muitas outras que o serviam com seus bens.

Foi o que elas ouviram de Jesus na Galileia que ajudou as mulheres a compreenderem os eventos da manhã de Páscoa. Parece mesmo que mulheres que estiveram presentes em muitos eventos foram subsequentemente excluídas, quer seja quando tais eventos foram escritos, ou copiados. E podemos facilmente adivinhar que isso aconteceu devido ao contexto cultural na época em que foi feita tal redação ou cópia.

Voltando ao que estávamos dizendo sobre elementos transitórios; são, no entanto, os princípios eternos que devem nos guiar, e estes são muito claros nas ações e ministério de Jesus. É preciso ser cego para não percebê-los e ver que, como parte de sua missão, Jesus estava quebrando todas as barreiras entre os seres humanos - inclusive aquelas entre os sexos. Mesmo se buscarmos nos escritos de Paulo princípios sobre o lugar da mulher na igreja, vamos descobrir que ele não via diferenças espirituais entre os sexos: "Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus."(Gal. 3:28)

Em um século no qual uma senhora chamada Angela Merkell praticamente governa a Europa, quando mulheres soldados são destacadas para o Afeganistão, e quando muitas mulheres executivas seguem carreiras como “high flyers", enquanto seus cônjuges desempenham tranquilos as funções caseiras - essa discussão pode parecer um desperdício de tempo. Será? As mulheres parecem mais envolvidas em todas as áreas da sociedade; são muitas vezes até mais agressivas do que no passado. Talvez essa agressão seja sua forma desesperada de competir – quando o sucesso ainda é reservado para os homens.
A imagem de Deus: Pai ou Mãe?

E, finalmente, as nossas ideias sobre as mulheres, afetam nossa imagem de Deus: enquanto o Feminismo Socialista preocupava-se com direitos econômicos, o Feminismo Liberal com direitos políticos e o Feminismo Radical com direitos sexuais (queima de sutiãs), às vezes parece que as pessoas religiosas envolvidas no Feminismo estão basicamente preocupadas em definir sexo de Deus. Desta forma, pensam elas, será simples reescrever nossos hinos, recriar nossa liturgia, ou decidir quem pode ser ordenado...
Sermão de Elisa Gusmão pelo Dia Internacional da Mulher de 2013.
Leiam João 4:5-27 e Isaías 61:1-3, 8-11

Na Bíblia, podemos facilmente encontrar imagens de Deus como ambos os progenitores, pai e mãe. Entre os textos mais conhecidos estão estes, de infinita ternura: "Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha os seus pintos debaixo das asas, e não quiseste?"

Obviamente a imagem de um progenitor é a melhor que existe em nossa experiência humana para descrever Deus. Não é de admirar que Jesus tenha escolhido dirigir-se a Deus como Abba. É preciso estarmos conscientes, entretanto, de ambas as imagens - pai ou mãe – são imagens humanas. Deus é espírito, além da compreensão humana, e qualquer imagem que usarmos para descrevê-lo deixará sempre a desejar.

Para satisfazermos a sede que temos de Deus, nós o vemos com os olhos da mente e o sentimos com o coração. Os índios americanos já se dirigiam a Ele como o Grande Espírito, A teóloga Mary Daly criou a palavra Be-ing – que lembra o Yahweh hebraico.  Feministas estão aparecendo com novos nomes a cada dia. Contanto que esses nomes reflitam nossa ideia da grandeza de Deus, por que não usá-los?

Quando falamos de "feminista" pensamos em mulheres agressivas, como a americana Betty Friedam, ou irônicas, como a francesa Simone de Beauvoir, ou as feministas dos nossos dias. Às vezes é difícil para nós, como cristãos, adotarmos qualquer tendência de pensamento secular. Mas temos que ter conhecimento sobre as ideias e dar apoio aos movimentos que ecoam os ensinamentos de Jesus. Com respeito ao lugar das mulheres, ainda há muito por fazer.  Porque ele realmente deu início a uma revolução para libertar os oprimidos - e as mulheres estavam entre eles. Sob muitas formas, eles ainda estão.

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Email ao apóstolo Paulo

Conversão do Proconsul Sergio Marcus, Raphael, em 1515
Texto de Josilia Rodrigues.
Amado apóstolo:
Estou escrevendo para colocá-lo a par da situação do Evangelho que um dia você ajudou a propagar para nós gentios, e que lhe custou a própria vida. As coisas estão muito difíceis por aqui. Quase tudo o que você escreveu foi esquecido ou deturpado. Você foi bastante claro ao despedir-se dos irmãos em Éfeso, alertando que depois de sua partida lobos vorazes penetrariam em meio à igreja, e não poupariam o rebanho. Palavras de fato inspiradas, pois isso se concretiza a cada dia.

Lembra-se que você escreveu ao jovem Timóteo, que o amor ao dinheiro era a “raiz de todos os males”? Quero que saiba que suas palavras foram invertidas, e agora se prega que o dinheiro é a “solução” de todos os males. Também é com tristeza que lhe digo que em nossa época ninguém mais quer ser chamado de pastor, missionário ou evangelista, pois isso é por demais humilde: um bom número almeja levar o título de apóstolo. Sei que em seu tempo, os apóstolos eram “fracos... desprezíveis... espetáculo para os homens... loucos... sem morada certa... injuriados... lixo e escória”. Agora é bem diferente. Trata-se de uma honraria muito grande: acercam-se de serviçais que lhes admiram, quando viajam exigem as melhores hospedarias e são recebidos nos palácios dos governantes.

Eles não costumam pregar seus textos, pois você fala muito da “Graça” e da “liberdade que temos em Cristo”. Isso não soa bem hoje, pois a Igreja voltou à “teologia da retribuição” da Antiga Aliança (só recebe quem merece), e liberdade é a última coisa que os pastores querem pregar à suas ovelhas. Você não é bem visto por aqui, pois sempre foi muito humano, sem jamais esconder suas fraquezas: chegou até reconhecer contradições internas e que não faz o bem que prefere, mas o mal, esse faz. Eles não gostam disso, pois sempre se apresentam inabaláveis e sem espinhos na carne como você. A presença deles é forte, a sua fraca , eles são saudáveis, você sofria de alguma coisa nos olhos , eles jamais recomendariam a um irmão tomar remédio, como você fez com Timóteo, mas aqui eles oram e determinam a cura – coisa que você nunca fez. Você dizia que por amor a Cristo perdeu “todas as cousas” considerando-as refugo. As coisas mudaram, irmão. Agora cantamos: “Restitui, quero de volta o que é meu!”.

Vivo em uma cidade que recebeu o seu nome, e aqui há um apóstolo que após as pregações distribui lencinhos vermelhos encharcados de suor, e as pessoas levam pra casa, como fizeram em Éfeso, imaginando que afastarão enfermidades. Sim, eu sei que você nunca ordenou isso, nem colocou como doutrina para a igreja nas epístolas, mas sabe como é o povo.... Admiro sua coragem por ter expulsado um “espírito adivinhador” daquela jovem, embora isso tenha lhe custado a prisão e açoites. Você não se deixou enganar só porque ela acertava o prognóstico. Hoje há uma profusão de pitonisas e prognosticadores no meio do povo de Deus, todavia esses espíritos não são mais expulsos, ao contrário, nos reunimos ansiosos para ouvir o que eles tem a dizer para nós. Gostaria de ter conhecido os irmãos bereanos que você elogiou. Infelizmente, quase não existem mais igrejas como as de Beréia, que recebam a palavra com avidez e examinem as Escrituras “todos os dias para
ver se as coisas são de fato assim”.

Tem hora que a gente desanima e se sente fragilizado como Timóteo, o seu companheiro de lutas. Mas que coisa bonita foi quando você o reanimou insistindo para que reavivasse “o dom de Deus” que havia nele. Estou lhe confessando isso, pois atualmente 90% dos pregadores oferecem uma “nova unção” para quem fraqueja. Amo esta sua exortação, pois você ensina que dentro de nós já existe o poder do Espírito, e não precisamos buscar nada fora ou nada novo! Nossos cultos não são mais como em sua época, onde a igreja se reunia na casa de um irmão, havia comunhão, orações, e a palavra explanada era o prato principal.... as coisas mudaram: culto agora é chamado de “show”, a fumaça não é mais da nuvem gloriosa da presença de Deus, mas do gelo seco, e a palavra é só para ensinar como conseguir mais coisas do céu.

O Espírito lhe revelou que nos últimos tempos alguns apostatariam da fé “por obedecerem a espíritos enganadores” . Essa profecia já está se cumprindo cabalmente, e creio que de forma irreversível. Amado apóstolo, sinto ter lhe incomodado em seu merecido descanso eternal, mas eu precisava desabafar. Um dia estaremos todos juntos reunidos com a verdadeira Igreja de Cristo.

Não consegui me contactar com essa inspirada escritora. Caso alguém a conheça, por favor me forneça algum dado para que eu possa agradecer pela sua coragem. Se me for dada a honra de pessoalmente abrir este blog, o meu muito obrigado a você, Josilia Rodrigues.

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20 perguntas do Clube Santo

    O Clube  Santo, gravura de 1729
    Essas perguntas tem a sua origem no grupo de responsabilidade espiritual iniciado por João e Carlos Wesley, enquanto eram estudantes na Universidade de Oxford. O grupo de detratores chamava-se "O Clube Santo." Esta lista apareceu pela primeira em Oxford, por volta de 1729, no prefácio do Diário de Wesley. Segundo seus membros, o "Clube Santo" fazia a si mesmo essas perguntas diariamente em suas horas de devoção, 200 anos atrás.


    1. Consciente ou inconscientemente, eu crio a impressão de que eu sou melhor do que eu realmente sou? Em outras palavras, eu sou um hipócrita?
    2. Sou honesto em todos os meus atos e palavras, ou eu exagero?
    3. Confidencialmente eu passo para o outrem o que foi dito a mim em confiança? Posso ser confiável?
    4. Eu sou um escravo do vestir, dos amigos, do trabalho, ou de hábitos?
    5. Eu sou consciente da minha autopiedade ou tento justificar a mim mesmo?
    6. Será que a Bíblia vive em mim hoje? Eu dou a ela tempo para falar comigo todos os dias?
    7. Estou desfrutando da oração?
    8. Quando foi a última vez que falei com alguém sobre a minha fé?
    9. Eu oro sobre o dinheiro que eu gasto?
    10. Eu vou para a cama na hora certa e me levanto na hora certa?
    11. Eu desobedeço a Deus em alguma coisa?
    12. Eu insisto em fazer algo que deixa a minha consciência inquieta?
    13. Estou derrotado em qualquer segmento da minha vida?
    14. Eu sou ciumento, impuro, crítico, irritável, sensível, ou desconfiado?
    15. Como faço para passar meu tempo livre?
    16. Eu sou orgulhoso?
    17. Eu agradeço a Deus porque não sou como as outras pessoas, assim como o fariseu que desprezava o publicano?
    18. Há alguém quem temo, tenho antipatia, ignoro, critico, mantenho ressentimento ou lhe falto o respeito? Se sim, o que estou fazendo a respeito disso?
    19. Eu me pego resmungando ou reclamando constantemente?
    20. Cristo é real para mim?
    Alguns os outros membros do clube foram John Gambold, que se tornou um bispo da Igreja Morávia, James Hervey, que se tornou um notável escritor cristão; John Clayton, que se tornou um homem de destaque na Igreja Anglicana, Benjamin Ingham, que se tornou um famoso evangelista inglês e George Whitefield, que Deus usou poderosamente na América e no grande avivamento evangélicol, na Inglaterra.
    Em uma carta a seu filho João, de 8 de junho de 1725, Suzanna Wesley definiu para ele o que ela classificava como pecado. Ela escreveu: "Tome esta regra: o que enfraquece a sua razão, prejudica a ternura de sua consciência, obscurece o seu sentido de Deus, ou tira o prazer das coisas espirituais, em suma, o que aumenta a força e a autoridade do seu corpo sobre sua mente, é pecado para você, por mais inocente que seja em si mesmo"

    Tradução livre do texto do site www.encountergod.com

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    A Reforma Wesleyanada do século XVIII

    John Wesley em gravura da época
    Texto do rev. Duncan A. Reily
    O PAPEL DA BÍBLIA
    Em sua carreira reformista, João Wesley percebeu bem cedo a importância não só da evangelização, como também da edificação das pessoas evangelizadas.
    Assim, na “Fundição”, local que se tornou a sede dos metodistas em Londres, ele introduziu a “pregação da manhã”. Ele insistia que os crentes se reunissem para cultuar a Deus diariamente, às cinco horas. Nessas reuniões, ele fazia breves exposições bíblicas, frequentemente abordando um versículo por dia.

    No prefácio do primeiro volume dos seus Sermões, Wesley declarou ao mundo seu ideal de ser homo unius libri (homem de um só livro). Alguns anos atrás, aceitei o desafio de fazer uma nova versão dessa obra. Logo percebi que a mente de Wesley estava tão saturada com a Bíblia que ele usava não apenas a doutrina, mas também a linguagem bíblica. Outra evidência de que ele buscava ser homo unius libri é seu livro Notas Explicativas sobre o Novo Testamento (1753-1754), em cujo prefácio ele declara: “Durante muitos anos, venho desejando pôr no papel em forma conveniente tudo que me tem vindo à mente pela minha leitura, pensamento ou conversação que poderia ajudar pessoas sérias, que não tiveram a oportunidade de educação formal, na sua compreensão do Novo Testamento”. Depois de mencionar, modestamente, falta de “erudição, experiência e sabedoria” como razões da sua demora em preparar tal obra, ele explica que teria de fazê-lo logo, pois uma doença séria parecia indicar a proximidade da morte. Sem forças para viajar ou pregar, mas ainda capaz de “ler, escrever e pensar”, ele se dedicou à tarefa de produzir, com a ajuda do seu irmão Carlos, as Notas.

    O SACERDÓCIO UNIVERSAL DOS CRENTES
    Um dos aspectos mais importantes da obra de Wesley foi a reapropriação da doutrina do sacerdócio universal dos crentes. Além disso, ele fez uma aplicação mais larga do que aquela feita por Lutero. Como exemplos disso, citam-se a pregação de leigos e o trabalho da mulher.

    Durante os primeiros anos do movimento, seus principais pregadores foram os irmãos João e Carlos Wesley. Thomas Maxfield havia se convertido por meio da pregação de João Wesley em Bristol e se ofereceu para ajudá-lo da maneira que este designasse. Certa ocasião, estando Wesley ausente de Londres, Maxfield começou a pregar na Fundição, algo quase inédito naquele tempo. Ao saber da irregularidade, Wesley voltou a Londres às pressas para proibir tal aberração. Todavia, ouvindo a pregação do jovem, exclamou: “É do Senhor! Seja feita a vontade dele!” Depois disso, já aberto à ideia da pregação leiga, ele estabeleceu uma série de critérios a que qualquer leigo tinha de atender para ser autorizado a pregar. A pessoa precisava ter:
    (1) graça — experiência da justificação pela fé, por meio da graça de Deus;
    (2) dom — capacidade de transmitir a outros o plano divino da salvação;
    (3) frutos — pessoas arrependidas, testemunhando ter passado da morte espiritual para a vida por meio da sua pregação.
    Se o jovem atendesse a estas condições básicas, ele era arrolado como pregador em experiência e começava o seu preparo intelectual, principalmente pela leitura. Wesley preparou para os pregadores leigos cinquenta tomos massudos de matéria teológica, desde os pais apostólicos até teólogos do século XVIII.

    A vocação e prontidão dos pregadores leigos em servir como “filhos no evangelho” eram condições consideradas sine qua non por Wesley. Mas eles não precisavam passar longos anos na universidade. Logo depois de serem licenciados para pregar, eles entravam em atividade. Eram homens do povo, o que facilitava a sua comunicação com as massas inglesas. Portanto, é fácil perceber como a pregação leiga foi um fator importantíssimo no alastramento do metodismo.

    Dois dias depois de começar a pregação ao ar livre, Wesley começou a incluir a mulher no quadro dos seus colaboradores. Nos agrupamentos promovidos para o alcance dos alvos do movimento, havia uma liderança feminina para as mulheres. Além disso, as mulheres ensinavam nas escolas e orfanatos do movimento, bem como em outras obras de caridade. Foi uma mulher (Ana Ball) que fundou a Escola Dominical em High Wycombe em 1769, onze anos antes das escolas de Roberto Raikes, o fundador oficial da Escola Bíblica Dominical.

    Por ocasião do enterro da sua mãe, Susana, Wesley registrou em seu diário (01/08/1742) parte de uma carta escrita por ela em 1712, na qual ela descreve cultos com mais de 200 pessoas dirigidos por ela. Isso leva a crer que Wesley via sua mãe como precursora das pregadoras que surgiram no meio do movimento. Temos de confessar que ele não reconheceu com o mesmo entusiasmo e aprovação a pregação feminina que marcava o trabalho de leigos “movidos pelo Espírito para pregar”. Entretanto, não a proibiu. Alguns ramos do movimento, como os Metodistas Cristãos da Bíblia e o Exército da Salvação, deram um lugar de destaque para a mulher pregadora.

    Concluo com palavras do próprio João Wesley: “O que pretendo é declarar abertamente a toda a humanidade o que é que os chamados metodistas já fizeram e fazem agora — ou, melhor, o que Deus já fez e continua fazendo em nossa terra. Porque não é o trabalho do homem que apareceu recentemente. Todos que observem calmamente devem dizer: ‘Foi o Senhor que fez isto e é coisa maravilhosa aos nossos olhos’  Sl 118.23.”

    Duncan A. Reily foi doutor em história da igreja pela Emory University, em Atlanta, Geórgia, ex-professor da Universidade Metodista de São Paulo e autor de História Documental do Protestantismo no Brasil. (1924-2004).

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    A barca da Igreja

    Affonso Romano Sant'Anna, em 2011
    Texto do poeta e escritor Affonso Romano Sant’Anna.
    Muito sugestivo aquele comentário do Papa Bento XVI de que Deus estava dormindo, enquanto a barca da Igreja sacolejava e parecia que ia adernar. Alguém maldosamente pode perguntar: Mas Deus dorme?  Não. Se o universo parar para dormir será o caos. Imagine um elétron dizendo para o resto da turma do átomo: é hora de dormir. Não dá. O Papa usou uma figura de retórica, não era Deus, eram os homens, ou melhor, a Igreja mesmo que estava dormindo.

    O Papa estava se referindo a algo que encontramos em Mateus 8.23-27, Lucas 8.22-25 e em Marcos 4.35-41. Marcos narra assim o acontecido: Naquele dia, sendo já tarde, disse-lhes Jesus: Passemos para a outra margem. Em seguida os apóstolos se despedem da multidão se lançam ao mar em seus barcos. A narrativa diz que havia outros barcos. Afinal, aqueles seguidores era pescadores, homens do mar. E quando se levantou o temporal, Cristo, espantosamente, não-estava-nem-aí, dormia alheio à grande agitação. No entanto, como os discípulos entrassem em pânico e acordassem o mestre, este estranhou tanto pavor, e “despertando, repreendeu o vento, e disse ao mar: Acalma-te, emudece. O vento se aquietou e fez-se uma grande bonança.

    Se eu estivesse ainda num púlpito, como tantas vezes fiz na adolescência, eu diria: Meus amados irmãos! Atentai para algumas coisas específicas que quero lhes dizer. Não vou lhes lembrar que Cristo, para surpresa dos apóstolos, havia já caminhado sobre o mar. Nem vou lhes recordar que Jesus tornou piscosas aquelas águas que antes eram estéreis. Portanto, ele seria também capaz de façanhas miraculosas, como acalmar a tempestuada natureza. Mas há uma coisa neste texto bíblico que gostaria que meus amados irmãos e irmãs observassem. O texto começa dizendo uma coisa importante e que tem tudo a ver com a história da Igreja. Diz Marcos que Jesus, ao final do dia, disse aos seguidores: passemos a outra margem.

    Então, torno mais explícito o que o Papa deveria ter dito, e não o disse com palavras, mas com gestos. Meus irmãos e minhas irmãs, estamos no fim de um dia, ou melhor, no fim de um período histórico. A Igreja tem que passar para ao outra margem, leiam: Passemos para a outra margem. Em Mateus o texto é mais incisivo: ordenou passar para a outra margem. Estamos numa travessia. Que o diga o apóstolo apócrifo Guimarães Rosa: O que existe é travessia.

    A Igreja deveria ter feito essa travessia há muito tempo. São Francisco, há uns 800 anos já dizia que a nave da Igreja está a pique. Lutero e tantos outros, há mais de 500 anos, jogaram-se ao mar, e colocaram em dúvida a ideia de que “fora da barca não há salvação”. Era natural que Cristo falando a pescadores, usasse pedagogicamente a linguagem náutica. Mas o mundo mudou. Há quem julgue que a Igreja é um “navio fantasma” na neblina dos séculos. Outros acham que é um Titanic a caminho do iceberg. Há quem ache que os hereges são piratas perigosos. Há pescadores com a obstinação do capitão Ahab do romance Moby Dick, e há quem, parodiando os fatos, o que sucedeu, na Itália, com o capitão que largou o barco e ouviu a reprimenda: Vadda a bordo, cazzo.

    Minhas amadas e meus amados irmãos leitores, é memorável o que estamos assistindo. Memorável e paradoxal. O timoneiro que largou o barco virou herói. Entregou o leme da Igreja para que outro a colocasse no rumo.

    Os tempos são outros, o mar está encapelado e não dá pra voltar à “margem antiga”. Passemos a outra margem!

    Texto do poeta e escritor Affonso Romano Sant’Anna publicado simultaneamente nos jornais Estado de Minas e Correio Brasiliense, em 10 de março de 2013.

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    Igrejas adultocêntricas?

    Crianças vem a Jesus, John Lautermilch (1910-1986)
    Texto de Nicolás Panoto.
    É interessante constatar como os imaginários sociais atravessam a vida das igrejas: as diferenciações entre grupos pertencentes a distintos estratos socioeconômicos, a relação homem-mulher, os modelos de organização institucional, entre outros aspectos que poderíamos mencionar. Muitas vezes concebemos as comunidades eclesiais como pequenas ilhas que não são afetadas no que são e fazem pelo que acontece na sociedade. Longe disso, são uma expressão inevitável das vicissitudes, complexidades, belezas e problemáticas que se apresentam em nosso meio. Isto também diz respeito à infância e adolescência.


    Socialmente, tais grupos etários carregam uma série de estigmas que influenciam tanto seu desenvolvimento como também a atitude de terceiros sobre eles e elas. A ideia evolutiva sobre o humano, por exemplo, que coloca a infância e a adolescência em um estado de “quase-adultez”, que se poderia traduzir como uma condição “quase-humana”. Também a preferência que se dá à “lógica adulta” sobre aquelas que representam as crianças e os adolescentes: a razão sobre o emocional, a distância individualista sobre a espontaneidade do corporal, a técnica sobre o lúdico etc.

    A vida de adulto se representa, entre outras coisas, com a maturidade, a frieza nas decisões, a superação das instabilidades, a semeadura da razão, a efetividade dos resultados. E é na rigidez destes estereótipos onde muitas vezes perdemos a surpresa da espontaneidade, o frescor da aproximação dos corpos e a riqueza dos caminhos que abre nossa liberdade intrínseca. Em outros termos, nos esquecemos da condição lúdica que caracteriza a vida humana e social. É esta condição que nos impede de “ir mais além” e abrir horizontes. Necessitamos ser como crianças que jogam. Como disse Rubem Alves, “no jogo, o homem encontra significado e, portanto, diversão, precisamente no fato de suspender as regras do jogo da realidade, que o transformam num ser sério e em tensão constante. A realidade nos deixa enfermos. Produz úlceras e depressões nervosas. O jogo, entretanto, cria uma ordem da imaginação e, portanto, produto da liberdade”(1).

    Por tudo isto, a infância é um desafio para as igrejas. Poderão me dizer: “Mas, como, se quase todas as igrejas possuem programas de trabalho com crianças e adolescentes?”. Isso é verdade. Entretanto, trabalhar com a infância e a adolescência não quer dizer “ter programas”. Muitas vezes, precisamente tais atividades podem se transformar em mecanismos para distanciar as crianças e os adolescentes dos supostos “espaços centrais” da vida da igreja: da tomada de decisões até um protagonismo ativo nas áreas mais “importantes”.

    Que papéis cumprem nossas crianças e adolescentes nas igrejas? Sua presença passa por uma atividade no fundo do templo ou têm um lugar protagônico em nossas liturgias? Nos perguntamos se as atividades que realizamos tratam de temas ou dinâmicas pertinentes a suas necessidades atuais ou queremos continuar com “o que sempre se faz” para mantermos eles distantes das complexidades da realidade? Por que não pensar em deixar nossa lógica adulta, organizada e institucionalizada de ser igreja para adentrarmos em dinâmicas inclusivas, lúdicas e dinâmicas onde as crianças se sintam parte, e possamos aprender com elas?

    Levar a sério a infância é deixar de ver as crianças como uma “etapa incompleta” da vida humana; é deixar de criar espaços de contenção e entretenimento enquanto os adultos nos encarregamos das “coisas sérias”. As crianças nos apresentam uma lógica de vida cuja importância está em si mesma, não na comparação com a nossa como adultos.

    Assumir a riqueza do lúdico na vida implica compreender que as estruturas institucionalizadas podem ser transformadas, que os seres humanos não são valiosos por possuir um lugar mas pelas infinitas possibilidades de se mover e de criar coisas novas. Também envolve o aprendizado de ver Deus a partir de seu movimento constante em nossa vida cotidiana, não a partir de regras e preconceitos fixos. Como diz Edesio Sánchez Cetina, “o peculiar do jogo é a criação de um momento no qual o que conta é o sujeito do jogo, não as regras. Estas se transformarão no próximo jogo. Por isso a teologia que surge neste contexto não pode sistematizar-se. A única coisa segura no jogo é a inovação, a surpresa, a liberdade que se vive. E esse momento do jogo, ainda que pareça efêmero, por ser ‘evangelho’ se converte em eternidade” (2).

    Romper com o adultocentrismo das igrejas implica distanciar-nos de uma lógica que se naturalizou em nossas sociedades, que responde ao etnocentrismo e à tecnificação e racionalização típicas do capitalismo ocidental, que deposita no “homem adulto” toda a capacidade para “transformar o mundo”, para criar o caminho do “progresso”, para não deixar espaço para o imprevisto. É precisamente esta mesma lógica que criou mecanismos de segregação, opressão e pobreza, afetando majoritariamente as grandes massas de crianças e adolescentes, como os grupos marginalizados e vulneráveis.

    Portanto, se não mudamos nossa lógica de vida e nossa maneira de ser igreja, todos os nossos programas de trabalho podem terminar sendo apenas paliativos frente a um contexto que nos oprime violentamente. Necessitamos ir fundo. Todo empreendimento de trabalho com a infância e a adolescência implica, de parte dos adultos, um ato de humildade e de mudança de posição, deixando de lado as tribunas de poder e do suposto conhecimento para se arriscar a questionar os espaços de segurança e repensar a rigidez institucionalizada. É na inquestionabilidade adulta do estabelecido onde encontramos a violência marginalizante que oprime a nossas crianças.

    Recordemos a ação de Jesus em Marcos 9.36: “E, tomando uma criança, colocou-a no meio deles...”. Esta criança representa — em seu corpo, olhar, pensamento, sentimentos — a imagem mesma do Reino. Um pequeno, que em sua presença joga por terra as elucubrações teológicas dos discípulos adultos que, em seu afã de buscar constantes explicações, não observavam, não sentiam, não participavam das ações do Mestre, assim como aquelas crianças que, sem se importar o que diriam os outros, pegavam o braço de Jesus para escutá-lo e senti-lo.

    Sejamos como crianças: este é o desafio. Como disse Ernesto Sábato, falecido recentemente: “Toda criança é um artista que canta, dança, pinta, conta histórias e constrói castelos. Os grandes artistas são pessoas estranhas que conseguiram preservar no fundo de sua alma essa inocência sagrada da infância e dos homens que chamamos primitivos, e por isso provocam o riso dos estúpidos” (A resistência).

    Texto de Nicolás Panoto, licenciado em Teologia pelo Instituto Superior Evangélico de Estudos Teológicos - ISEDET. Mestrando em Antropologia Social e doutorado em Ciências Sociais pela FLACSO (Argentina).
    Notas(1) Rubem Alves, Hijos del mañana. Salamanca: Sígueme, 1976, p. 112.
    (2) Edesio Sánchez Cetina. Para un mundo mejor… El niño es el mejor protagonista. In: Seamos como niños. Buenos Aires: Ediciones Kairós, 2007, p. 80.

    * Artigo publicado na Revista Kairós, Ano 11, No. 27, Jul. 2011, pp.12-15.

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