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Amor de mão única

Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados. I Jo 4.10
João evangelista, Velázquez em 1619
O amor unilateral é uma realidade tão assombrosa que até o cinema já o utilizou como tema de alguns filmes. Num drama, de 2006, que tem por título “Longe dela”, uma mulher internada com mal de Alzheimer esquece-se do marido e se afeiçoa a um outro paciente também internado com o mesmo mal. Quando seu verdadeiro  marido vê sua mulher em pânico pelo fato do novo amor de sua esposa ter que deixar o hospital por falta de condições financeiras, se propõe a assumir as suas despesas médicas simplesmente pelo amor que dedicava unilateralmente a sua mulher.


Existe por aí um conto, se extraído de fatos, não sei, que narra o diálogo de um senhor de idade com uma enfermeira em uma clínica. Diz assim o conto:
Um homem de idade já bem avançada veio à clínica onde trabalho para fazer um curativo na mão ferida. Estava apressado, dizendo-se atrasado para um compromisso e, enquanto o tratava, perguntei-lhe qual o motivo da pressa. Ele me disse que precisava ir a um asilo de anciãos para, como sempre, tomar o café da manhã com sua mulher que estava internada lá. Disse-me que ela já estava há algum tempo nesse lugar porque tinha um Alzheimer bastante avançado. Enquanto acabava de fazer o curativo, perguntei-lhe se ela não se alarmaria pelo fato de ele estar chegando mais tarde.
– Não! – ele disse. – Ela já não sabe quem eu sou. Faz quase cinco anos que não me reconhece.
Estranhando, lhe perguntei:
– Mas, se ela já não sabe quem o senhor é, por que essa necessidade de estar com ela todas as manhãs?
Ele sorriu e dando-me uma palmadinha na mão, disse:
– É. Ela não sabe quem eu sou, mas eu sei muito bem quem é ela.

Ambas as histórias são tão tocantes que parecem mesmo coisa de cinema apenas, pois é extremamente difícil que exista um amor com essa escala de despojamento entre dois seres humanos. Quem ama quer de fato ser amado, e isso é fundamental. Bom, nem tanto. Como há entre nós uma vasta gama de sentimentos que são sempre confundidos com o “quase amor”, se nivelarmos o amor por esse padrão, encontrar alguém amando assim não seria tão raro. Mas é importante ressaltar que as narrativas falam de amores verdadeiros e não paixões alucinatórias. Falam histórias de vida cuja vontade e a necessidade de continuar amando a quem não retribui esse amor sobrepõe obstáculos absurdamente grandes.

É exatamente assim que João, o evangelista, vê o amor de Deus por nós. Um amor que se antecipa e que ama independentemente de qualquer resposta. Nesse mesmo capítulo dedicado inteiramente ao amor de Deus, o escritor bíblico faz uma ressalva que tira o mérito de qualquer iniciativa que tenhamos de retribuir esse amor: 4.19 - Nós amamos porque ele nos amou primeiro.  Ou seja, até o amor que porventura venhamos a dedicá-lo encontra as suas raízes no amor dele por nós.

A associação mais próxima que podemos fazer das histórias contadas, com a nossa realidade e com o texto bíblico, curiosamente não está no amor de mão única, e sim no esquecimento alzheimeriano que insistimos ter em relação ao amor de Deus. Importante notar também a interpretação que João faz da manifestação antecipada desse amor. Nele, Deus não espera que esse seu amor dedicado a nós lhe seja devolvido em qualquer medida ou proporção, mas sim que seja repassado ao próximo como a única e aceitável forma de reconhecimento.  Não tão simples assim. Deus espera que o seu amor através de nós continue trafegando também por uma via de mão única.

Logicamente que João não tirou essa sua conclusão do amor de Deus de algo parecido com a abstração hollywoodiana de amor. Ele aprendeu desde muito cedo com Jesus, seu mestre, que através de palavras bem simples e diretas já havia traçado antecipadamente as linhas do seu ministério profético: Lc 6.31 - 6.32 – Se vocês amam somente aqueles que os amam, o que é que estão fazendo de mais? Até as pessoas de má fama amam as pessoas que as amam.

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A regressão e o salmo 139

 Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno. Leia o Salmo 139

Salmo 139, extraído de www.rowandahl.com
Até onde pude me informar, a prática da regressão, tecnicamente chamada de Terapia de Vidas Passadas ou TVP, foi introduzida em 1967, como resultado final do estudo de uma corrente terapêutica composta de renomados doutores em psicologia, chefiada pelo Dr. Morris Netherton.


Não precisamos inferir que este estudo se fundamenta na doutrina Espírita formulada pelo francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, sob o pseudônimo de Allan Kardec, que em seu Livro dos Espíritos afirma o seguinte: Ao entrar na vida corporal, o Espírito perde, momentaneamente, a lembrança de suas existências anteriores, como se um véu as ocultasse; entretanto, às vezes, tem uma vaga consciência disso e elas podem até mesmo lhe ser reveladas em algumas circunstâncias. Mas é apenas pela vontade dos Espíritos Superiores que o fazem espontaneamente, com um objetivo útil e nunca para satisfazer uma curiosidade vã.

Nada pode ser mais natural para os adeptos dessa doutrina do que acreditar tanto na veracidade da TVP quanto na sua eficiência. Se eu acreditasse que teria vivido outras vidas, procuraria saber quem fui e o que fiz no passado, pelo menos para tentar não repetir as mesmas idiotices, claro! O problema imediato que esta doutrina apresenta para os adeptos do Cristianismo é que ele prega uma fé que se fundamenta na ressurreição após a morte, o que não nos possibilitaria viver outras vidas, e não na reencarnação.

Apesar de tudo, esta prática penetrou nos meios evangélicos disfarçada com o nome de Regressão Espiritual, segundo consta, através do movimento chamado G12, do qual não possuo maiores esclarecimentos. Tem como proposta básica tratar, pela cura interior, feridas não curadas da alma, rejeições que trazemos desde o ventre materno e desgraças que herdamos dos nossos antepassados, ao que se deu o pomposo nome de maldições hereditárias.

Sem querer entrar nesta polêmica que já dura algumas décadas, gostaria de contrapor essa doutrina a um velho salmo atribuído ao rei Davi que foi catalogado na Bíblia como o salmo 139, onde encontramos a verdadeiramente bíblica regressão.

Começa dizendo o salmista: Tu me sondas e me conheces. Sabes quando me deito e quando me levanto. Sabes também o que penso, mesmo antes que eu pense. Tudo isso Davi atribui a um conhecimento tão elevado que ele sequer consegue tocar. Em rápidas palavras, Davi está declarando que ninguém o conhece mais do que Deus, nem ele mesmo. Se existe alguém que pode esquadrinhar a vida humana esse alguém é Deus.

A partir desse conceito, o salmista tenta imaginar um local de fuga. Um ponto no espaço onde essa influência não se faz presente. Ele o faz através de uma pergunta simples: Para onde fugirei da ta face? Não para o norte, nem para o sul. Nem no infinito, nem na escuridão. Nem de dia, nem de noite. Depois de muito refletir não encontra esse tal local nem mesmo no mais profundo abismo, ou quinto dos infernos, se assim preferirem.

O que Davi diz em seguida é para matar de inveja todos os pretensos perscrutadores de passado: meus ossos não te foram encobertos enquanto eu estava sendo entretecido, e os teus olhos viram a minha substância ainda informe. É bom que se diga que isso vale para qualquer geração anterior ou posterior a Davi. Ou seja, é eficaz também naqueles que poderiam que deixar alguma herança nefasta.

Depois de tudo que vimos, não podemos dizer que este salmo é propriamente uma regressão. Ele é sim uma enorme progressão nos aspectos morais, psicológicos e espirituais da nossa vida. Saber que Deus conhece todos os nossos fracassos, frustrações e omissões e que estes já foram perdoados e esquecidos por ele, já no induz a fugir de qualquer tipo de regressão, que de ter que vasculhar os porões da nossa alma para saber quem somos. Nós sabemos quem somos. Nós somos como esse Davi do salmo, que por mais que as nossas iniquidades neguem, por mais que nos ocultemos da verdade, por mais que fujamos da sua face, ele nos encontra porque nos conhece.

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Os mortos na Bíblia

Bem aventurados os mortos, autor desconhecido, século XVI
A declaração mais firme e mais corajosa sobre a morte na Bíblia não nos vem através dos livros canônicos, e sim de um livro que até bem pouco tempo era chamado de apócrifo, o livro da Sabedoria. Essa pérola que a tradição atribui a Salomão possui fortes indícios que foi escrita entre os anos 100 e 20 antes de Cristo, por judeus de Alexandria, no Egito.

Nota-se nele não somente o intelecto da língua grega, como o seu estilo, mas também o reflexo das escolas filosóficas e dos costumes da Grécia pagã. A narrativa, contudo, encontra seu maior sentido na perseguição empreendida por Ptolomeu Alexandre, e depois por Ptolomeu Dionísio, em virtude das insurreições judaicas acontecidas no século primeiro antes da nossa era.

O livro é citado nominalmente várias vezes no Segundo Testamento, haja vista as relações que temos entre:
Sabedoria 12.12-22 com Romanos 9.19-23;
Sabedoria 9.15 com II Coríntios  5.4;
Sabedoria 3.5-6 com l Pedro 1.6-7;
Sabedoria 7.25-26 com Hebreus 1.3;
Sabedoria 7 com João 1.

Para o bem da verdade, o autor fala e escreve nos capítulos 7 a 9 como se fora Salomão, rei de Israel, que reinou em Jerusalém no séc. X a. C.  E é por isso que o livro recebeu o título de Sabedoria de Salomão. Mas isto não passa de artifício literário comumente empregado nas antigas literaturas, que visava a dar ao texto maior autoridade e atração, pois pegava a carona de um ilustre personagem da Bíblia. Este artifício não compromete autoridade divina do livro, nem a sua inspiração, mas, como já vimos, pelo uso que fizeram dele os autores do Segundo Testamento, os quais, não somente o citaram nominalmente, mas escancaradamente apropriaram-se dos seus pensamentos.

Nesse dia em que é celebrado o dia de Finados, também vou me permitir valer deste precioso texto e usá-lo como parâmetro para a nossa meditação. Deixemos que o Salomão, não o rei, mas o iluminadíssimo autor do livro da Sabedoria nos inspire e nos conforte nesta significativa data do nosso calendário cristão. Data em que lembramos com saudade e que homenageamos os nossos entes queridos que já não estão mais entre nós, mas que nos legaram todo o sentido da vida, do que somos e do conhecimento que temos hoje.

Sabedoria 3.1-12
O destino do justo e do ímpio

Mas as almas dos justos estão na mão de Deus, e nenhum tormento os tocará.
Aparentemente estão mortos aos olhos dos insensatos: seu desenlace é julgado como uma desgraça.
E sua morte como uma destruição, quando na verdade estão na paz!
Se aos olhos dos homens suportaram uma correção, a esperança deles era portadora de imortalidade,
e por terem sofrido um pouco, receberão grandes bens, porque Deus, que os provou, achou-os dignos de si.
Ele os provou como ouro na fornalha, e os acolheu como holocausto.
No dia de sua visita, eles se reanimarão, e correrão como centelhas na palha.
Eles julgarão as nações e dominarão os povos, e o Senhor reinará sobre eles para sempre.
Os que põem sua confiança nele compreenderão a verdade, e os que são fiéis habitarão com ele no amor: porque seus eleitos são dignos de favor e misericórdia. 
Os ímpios serão castigados pelos seus próprios raciocínios: desprezaram o justo e se afastaram do Senhor;
Infeliz de quem despreza a sabedoria e a instrução: vazia é a sua esperança, inúteis seus afãs e suas obras;
Néscias são suas mulheres, depravados seus filhos e maldita a sua posteridade.

Palavra do Senhor.

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Árvores da casa do Senhor

O justo florescerá como a palmeira, crescerá como o cedro no Líbano. Plantados na Casa do SENHOR, florescerão nos átrios do nosso Deus. Na velhice darão ainda frutos, serão cheios de seiva e de verdor, para anunciar que o SENHOR é reto. Ele é a minha rocha, e nele não há injustiça. Salmo 92,12-15
Salmo 92, Melani Pyke em 2010
Sem que fosse proposital, todas as meditações do blog nesta semana foram baseadas nos salmos. Eu confesso que gostei, porque dos textos inspirados do Primeiro Testamento, para mim, os salmos são os que pregam a Palavra de Deus com mais dramaticidade pessoal. Os profetas, quase sempre, se sentam numa metralhadora giratória a atiram para todos os lados, raramente expondo as suas angústias e aflições. Mas ainda assim, salmos como o 92 superam o drama e conseguem elevar qualquer astral. Ele fala das pessoas que têm por hábito estar na Casa do Senhor.

Não sei que já teve a experiência de visitar uma igreja em dois momentos distintos. O primeiro, quando está sendo celebrado um casamento, repleta de homens elegantes, mulheres lindíssimas e de um glamour total. O segundo instante é no seu dia a dia, com as pessoas daquela comunidade. Posso dizer com convicção que, do alto do púlpito, a segunda visão é muito mais inspiradora e infinitamente mais bela. Uma é de um jardim bonito, elegante, fino, mas artificial. O outro é o jardim plantado pelas próprias mãos de Deus, e esse é insuperável.

Eu queria falar rapidamente das características das árvores plantadas nesse jardim, ressaltadas pelo salmista.

A retidão da palmeira. Excetuando algumas exceções, como o Gogó da Ema, em Maceió, a palmeira cresce sempre reta, e retidão em todos os aspectos da vida é uma característica facilmente encontrada naquele que foi realmente plantado por Deus em seu jardim. Para ele não tem meio termos e nem jeitinho brasileiro. A justiça é o seu ideal de vida. Seu caminho é para o alto, para as coisas mais elevadas. Colocado em uma posição estratégica ilumina todos à sua volta.

A firmeza do cedro. As árvores plantadas na Casa de Deus não se abalam com qualquer vendaval. Não são os planos do governo, as medidas econômicas ou mesmo a instabilidade social que as fazem perder o sono. Resistem bem às tempestades naturais e artificiais, como também não se deixam levar por qualquer tendência, principalmente pelos atuais ventos de doutrina. Eles são como os de Bereia, vão às Escrituras para verificar se o que está sendo pregado está de acordo com o que elas dizem.

O vigor na velhice. Quando eu vejo os mais idosos que eu da igreja me bate uma séria dúvida quanto á profundidade das minhas raízes. Que disposição! Que pioneirismo! Que fé! Parece que o tempo, que derruba tantos ídolos da beleza universal, não tem poder algum sobre essas árvores. Não sei quanto à expectativa de vida da população brasileira, mas os velhos da igreja estão vivendo mais e com mais disposição.

Mas tudo tem um propósito bem definido: estas coisas anunciam o quanto Deus é bom e o quanto o seu amor é benéfico aos que se permitem ser amados por ele. O quanto a segurança da fé em um Deus verdadeiro transforma os obstáculos provocados pelos infortúnios comuns da vida humana em uma escada que aponta para a realização pessoal.

Coelho Neto compôs um soneto que retrata bem a beleza e valor das árvores antigas e o quanto elas se sobrepujam às mais novas, embora a modernidade se vire do avesso, para inútilmente tentar provar o contrario.

VELHAS ÁRVORES
Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores novas, mais amigas:
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...

O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres de fomes e fadigas;
... E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem:

Na glória da alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!



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Vitórias íntimas

Bendito o SENHOR, que não nos deu por presa aos dentes deles. Salvou-se a nossa alma, como um pássaro do laço dos passarinheiros; quebrou-se o laço, e nós nos vimos livres. Salmo 124.6s
Templo para se orar em secreto na Capadócia
São realmente muito poucos os salmos que declaram a derrota fragorosa do inimigo. O espírito do salmista, que acompanha o espírito da Bíblia inteira, sempre coloca o suplicante escapando na última hora, por um triz ou por um detalhe que nem ele mesmo soube explicar. Logicamente, e a história assim comprova, que Israel nem sempre era a parte injustiçada do conflito, nem sempre o seu inimigo era um opressor sanguinário e nem sempre o citado inimigo merecia uma severa punição.


O que o salmista faz questão de exaltar nesses salmos de livramento não é nem tanto a derrota de inimigo em contraste com a vitória de Israel, mas a providência de Deus quando já não havia mais esperança. Esses são casos típicos onde não há vencedores e nem vencidos, nem exaltados e nem humilhados, nem ganhadores e nem perdedores. Essa distinção tem para o salmista dois propósitos bem específicos: ao mesmo tempo em que louva a Deus por um livramento sutil, mas eficiente, dá ao outro lado a oportunidade de ver que o seu Deus não é um Deus vingativo e muito menos punitivo, deixando abertas as portas para que os povos inimigos de Israel também venham a crer e adorar o seu Deus.

Em uma análise rápida poderíamos bem dizer que esses elementos constituem um protoevangelho que veio revelar, de uma vez por todas, que a tendência de Deus em um conflito entre humanos é sempre pender para o lado da justiça, não importando exatamente quem tem o direito. Neste embate entre o direito e a justiça podemos afirmar que a Bíblia é realmente pioneira. Mesmo os códigos de leis mais famosos e mais citados da antiguidade, como é o código babilônico de Hamurabi, eram bastante discriminatórios, fazendo um tipo de justiça ao rico e outro ao pobre. Na contramão dessa história secular, vem a Bíblia proclamando as Leis Humanitárias do Deuteronômio, para dar um banho de civilidade e da verdadeira essência da justiça, que dá a quem precisa e não a quem tem direito.

Nós os cristãos deveríamos prestar mais atenção nesses salmos, e em vez de estarmos sempre clamando por vitórias glamourosas em nome de Deus, termos a consciência de que dentre as principais características da vida de qualquer cristão estão os riscos iminentes e livramentos tangenciais, quando esses, por ventura, vêm a acontecer. Nem sempre conseguiremos o emprego que desejamos, nem sempre a cura nos será concedida e nem sempre, de forma clara e visível, triunfaremos sobre o mal. Nossas vitórias serão sempre discretas e perceptíveis apenas a uns poucos olhos atentos. As maiorias não as aceitarão como uma providência milagrosa de Deus, e sim como uma simples coincidência.

Uma velha tia tinha como lema um texto que eu sempre pensei que fosse mais um dos vários provérbios bíblicos, e esse lema ela fazia questão de difundir na família através de uns pequenos quadros pintados com esse texto. Todas as casas dos meus parentes paternos tinham obrigatoriamente que ter esse quadro na parede da sala, sempre ao lado do quadro dos dois caminhos. O lema era o seguinte: Sê como o sândalo que perfuma o machado que o fere. Pode não estar na Bíblia, mas é profundamente bíblico. Este seria sempre o resultado ideal num conflito entre cristãos e cristãos e também entre cristãos e não cristãos.

De uma maneira muito particular, mesmo sem nunca ter feito uma citação semelhante, Jesus viveu sob esse lema, principalmente quando a ofensa era dirigida a ele pessoal e individualmente. Quando não eram os seus pequeninos os agredidos, os agressores nunca saiam sem receber algo de bom e proveitoso para as suas vidas. Em seus conflitos, Jesus primou por deixar mais um alerta às consciências do que fazer propriamente um julgamento sumário.

Como diria o meu amigo, pastor Jonas: pense nisso!

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Anjos, o olhar incessante de Deus

Vede, não desprezeis a qualquer destes pequeninos; porque eu vos afirmo que os seus anjos nos céus veem incessantemente a face de meu Pai celeste. Mateus 18.10

Abraão e os três anjos, Ludovico Carracci
É no mínimo curiosa esta ligação que Jesus faz da relação de cuidado e apreço que se deve ter com os seus pequeninos e os anjos que estão permanentemente contemplando a face de Deus. Devemos entender que a palavra pequenino refere-se tanto às crianças quantos aos novos na fé, que no entender de Jesus mereceriam especial atenção e cuidado. Se formos fazer uma interpretação ao pé letra, teríamos que concluir que as crianças e os neófitos são capazes de ter revelações privilegiadas de Deus que vão perdendo a sua intensidade à medida que eles amadurecem na fé. Uma doutrina que contrariaria todo o processo de santificação ensinado por Paulo.

Contudo, se retrocedermos um pouco na leitura de Mateus 18.19, veremos que Jesus fala claramente sobre a inevitabilidade do escândalo, condenando, porém, o autor por intermédio de quem vem este escândalo. A condenação se intensifica muito, caso este escândalo envolva, de alguma forma, um desses seus pequeninos. O escândalo para com os pequeninos nas palavras de Jesus assume diversas formas, que vão desde a desconsideração como pessoa, a e consequente desconsideração como ovelha membro do seu rebanho, até situações que venham abalar a fé ainda incipiente deles. Portanto, se a tua mão ou o teu pé te faz tropeçar, corta-o e lança-o fora de ti; melhor é entrares na vida manco ou aleijado do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo eterno. Se um dos teus olhos te faz tropeçar, arranca-o e lança-o fora de ti; melhor é entrares na vida com um só dos teus olhos do que, tendo dois, seres lançado no inferno de fogo. Debaixo desta seriíssima advertência de que ter pés, mãos e saúde perfeitos são prioridades menores do que a integridade física, moral e espiritual dos tais pequeninos, quando se trata de estar dentro ou fora, a favor ou contra o Reino de Deus.

Após a advertência, agora avançando um pouco na leitura do texto, veremos que Jesus encerra esta questão propondo um não menos enigmático desafio: Que vos parece? Se um homem tiver cem ovelhas, e uma delas se extraviar, não deixará ele nos montes as noventa e nove, indo procurar a que se extraviou? E, se porventura a encontra, em verdade vos digo que maior prazer sentirá por causa desta do que pelas noventa e nove que não se extraviaram. Alguém já se perguntou se faria exatamente o que o texto sugere? No que diz respeito a mim, eu digo que, nas circunstâncias citadas, eu não faria, ou que pelo menos teria enormes dificuldades de fazê-lo.

Temos aqui um impasse, pois a questão apresentada por Jesus não quer exatamente perguntar o que nós faríamos neste contexto, mas sim de declarar o que Deus faz constantemente conosco. No que concerne à salvação, ele não quer que nenhum dos seus pequeninos se perca: Assim, pois, não é da vontade de vosso Pai celeste que pereça um só destes pequeninos. Mas o que fazer para estar incluído entre os que estarão perdidos? A resposta é dada no início deste capítulo, e expõe claramente a raiz de toda a questão: Naquela hora, aproximaram-se de Jesus os discípulos, perguntando: Quem é, porventura, o maior no reino dos céus?

Toda a problemática do texto está relacionada à ambição por posições elevadas. Na tentação de ser grande, maior e mais importante que os pequeninos, está a raiz de todo o mal, tanto o escândalo quanto o desprezo. Jesus faz uma inversão de valores para dizer que Deus está mais vigilante e mais solícito a atender quem realmente precisa. Pelos critérios divinos os que são inferiores, sob algum aspecto são pequenos e os que estão perdidos, recebem de Deus uma manifestação especial, a ponto de ter sobre si a atenção total de Deus na sua reintegração e na sua convivência no rebanho. Assim como os anjos estão permanentemente contemplando a face de Deus, o olhar benevolente e atencioso de Deus está, da mesma forma, sobre os seus pequeninos e sobre os que como eles se tornam.

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Pedro tu me amas? III

Quando eles acabaram de comer, Jesus perguntou a Simão Pedro: — Simão, filho de João, você me ama mais do que estes outros me amam? Leia João 21.1-17
Pedro, tu me amas?
Isso nos guia à segunda situação. Jesus deseja nos levar ao conhecimento de como nós realmente somos, apesar de sermos humanos, apesar de sermos fracos, apesar de sermos falhos. Isto significa que precisamos deixar que ele penetre nas profundezas da nossa personalidade. Por que vocês acham que ele apareceu de repente lá na Galileia? Ele tinha planos magníficos para aquele homem. Ele nunca vacilou na sua estratégia de construir a sua igreja sobre o modo de ser de Simão Pedro. Ele vem a cada um de nós para fazer conosco o que fez com Pedro, isto é, introduzir o discípulo dentro de si mesmo.


Jesus queria que Pedro tivesse um conhecimento de si que fosse além do seu fracasso. Veio ao seu coração fechado quando Pedro se achava indigno. Pedro não ousaria a amar de novo com medo de falhar como falhou naquela noite. Jesus não poderia deixá-lo nessa condição nem que precisasse chegar, com chegou, ao fundo do poço. Por isso Jesus insistiu com aquelas perguntas. Pedro precisava entender que ele era muito mais do que fracasso e remorso. Havia dentro daquele homem impetuoso, que se antecipava aos outros; falho, que errava maios que os outros; desajeitado, conseguia subir ao sétimo céu e descer aos quintos dos infernos em segundo, uma pessoa que precisava ser reconstruída. Uma reconstrução com base na aceitação, que anula qualquer rejeição. Jesus precisou insistir até que Pedro se rendesse a uma consciência maior do que a sua, uma consciência que conhece, como ele bem disse, todas as coisas.

Pedro havia respondido que era amigo de Jesus porque não tivera a capacidade de amá-lo na noite em que o negou, e assim, se sentia incapaz de amá-lo também naquela hora. Mesmo como amigo tinha falhado também. Era um relacionamento que não dava para remendar e continuar, tinha sim que ser reconstruído do zero. Impressionante como Jesus numa simples conversa, levou Pedro a se sentir perdoado, se sentir renovado, e descobrir que tinha ganhado uma nova chance. Jesus apresentou ao Pedro indigno, uma nova e excepcional criatura.

O que nos leva à terceira situação: aquilo que nós devemos fazer quando falhamos. O problema que nos acompanha é de nunca sabermos o que fazer quando falhamos. Nós sabemos onde Pedro falhou: quando negou Jesus três vezes. Nós sabemos o que Pedro fez: fugiu para a Galileia para esquecer. Sabemos julgá-lo pelo que ele fez: ele era mesmo um discípulo indigno. Mas nem sempre temos a coragem de confessar que não sabemos o que fazer quando nos sentimos como ele. Por isso precisamos aprender com Pedro o que é amar Jesus. Amar Jesus é permitir a ele nos dar uma nova autoestima viável. Não falo de egoísmo, mas de uma nova motivação. Quando Pedro tinha desistido de si mesmo, Jesus lhe confia uma missão que o restaurou por inteiro: chamou-o para ser um pastor no rebanho de Deus. Para quem esperava apenas poder voltar à vida antiga, de como era a vida antes de ter conhecido Jesus, ser chamado de volta ao ministério é mais que extraordinário, se é que temos palavras para definir. Em vez de mandar Pedro repensar a sua vida e ver onde tinha falhado, Jesus lhe dá uma nova tarefa.

Pedro foi amado, Pedro foi perdoado, Pedro foi apascentado, Pedro foi habilitado. É este o retrato que tenho de mim? É esse o retrato que temos de nós mesmos? É essa a nossa autoestima viável?

Amar os outros é permitir que eles nos amem. Isto significa permitir que conheçam as nossas dificuldades e habilidades. A vulnerabilidade é o meio mais dinâmico de comunicação. A mais poderosa arma que o discípulo de Jesus possui não é a força ou a invulnerabilidade dos grandes vencedores, mas a fraqueza e a humildade dos que já falharam. É desse jeito que ele deve se deixar ser conhecido, principalmente aquele que foi chamado para apascentar ovelhas. O que de melhor o pastor tem a apresentar à sua igreja, e o cristão ao mundo, é a honestidade para com Deus e a honestidade para com o próximo, aliado à coragem de mostrar o coração aberto. Sentir vergonha de si mesmo, nem sempre é fim de tudo. Se nessa hora aceitarmos a orientação de Jesus e dissermos sim aos seus desafios, teremos sempre a oportunidade de um novo e glorioso recomeço. 

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Pedro, tu me amas? II

E perguntou pela segunda vez: — Simão, filho de João, você me ama? Pedro respondeu: — Sim, o senhor sabe que eu o amo, Senhor! E Jesus lhe disse outra vez: — Tome conta das minhas ovelhas! Leia João 21.1-17
Jesus no Mar da Galiléia, Lucas Gassel (1490-1568)
Este texto é um dos mais traumáticos e ao mesmo tempo um dos mais ternos da Bíblia toda. Não conheço outro tão emocionante. É o drama da reintegração de Simão Pedro. O que aconteceu àquele homem precisa acontecer a cada um de nós. É o evangelho em miniatura. Revela a fonte de poder, de amor e de gozo na vida cristã. Revela o quanto Jesus ressurreto deseja nos libertar das culpas e das frustrações que acumulamos ao longo das nossas vidas.

A mensagem central do texto é a seguinte: O amor de Deus nunca falha, por mais que nós falhemos. Pedro tinha construído o seu relacionamento com Cristo baseado na sua própria capacidade, na sua própria competência. Foi exatamente por isso que ele sofreu mais o impacto desse diálogo do que a sua negação no Getsêmani.

Com o que ainda restava de suas forças ele poderia viver, mesmo com a consciência em frangalhos. O que lhe restou de orgulho, de fidelidade e de honra o sustentariam por mais alguns anos. Seu grande erro continuava sendo o de pensar que sua relação com Deus dependia do cultivo das qualidades que iriam ganhar a sua aprovação. Pedro, assim como nós, tropeçava constantemente no seu próprio ego. Se ser adequado é fundamental para ser amado por Deus, o que acontece quando com que é inadequado? Todos nós temos o mesmo problema. Nós projetamos em Deus o que nós conhecemos, e nós conhecemos, como todo mundo conhece bem: o jeito que fomos criados pelos nossos pais. Se fazemos o que é certo, recebemos o prêmio. Até criaram um Papai Noel para isso. Porém, se fazemos o que é errado, a coisa é diferente. Tem que ser desse jeito, eu não conheço outro.

Nosso problema é projetar em Deus o nosso próprio padrão de aceitação. Eu não conheço outro padrão de aceitação. Toda a nossa compreensão de Deus é baseada no amor negociado, no interesse próprio, na troca de referências. Neste padrão, Deus nos amará somente se formos corretos, se formos diligentes, se formos aceitáveis. Nós tentamos de todas as formas vivermos uma vida reta. Claro, por isso estamos na igreja. Tentamos viver uma vida reta para Deus nos amar, em vez de vivermos uma vida reta porque ele já nos tem amado. Diferença entre dia e noite. Por isso vamos ver três situações que podem nos ajudar nessa mudança de padrão de aceitação.

O melhor da mensagem de Jesus é que ele sabia que, por iniciativa própria, não conseguiríamos amar a Deus com todas as nossas forças, com toda a nossa alma e com todo o nosso entendimento, por isso ele veio anunciar que o amor de Deus é dado livremente a nós, antes mesmo de pedirmos. Se é assim, então por que Jesus perguntou a Pedro se ele o amava, se ele já sabia de antemão que Pedro jamais poderia amá-lo suficientemente? Não foi para expor em público a inadequação de Pedro, esse não foi o problema. O objetivo era conseguir que Pedro deixasse Jesus amá-lo. Pedro viveu amargurado aqueles dias por que não podia dizer a Jesus o que sentia. Porque não podia pedir perdão e começar de novo.

Tudo o que Pedro conhecia era o que havia aprendido do Primeiro Testamento: amarás o Senhor teu Deus, com todas as tuas forças, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento, e a teu próximo como a ti mesmo. E ele viu que se encontrava em falta com esses mandamentos. Ele assumiu a culpa básica. Pedro conhecia bem esses mandamentos, mas não sabia como vivê-los. Ele não havia entendido ainda que Jesus viera para prover a motivação necessária para se viver integralmente esses mandamentos. O ministério de Jesus, a sua vida, a sua mensagem, os seus milagres, a sua paixão, a sua morte e a sua ressurreição demonstravam um Deus amando o mundo de tal maneira, que as pessoas, como resultado desse amor, poderiam amar as outras como amam a si, e amar a Deus com todas as forças. Assim poderiam amar a Deus como resposta e não como uma tentativa de qualificação. (continua)

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Pedro, tu me amas? I

E perguntou pela terceira vez: — Simão, filho de João, você me ama? Então Pedro ficou triste por Jesus ter perguntado três vezes: “Você me ama?” E respondeu: — O senhor sabe tudo e sabe que eu o amo, Senhor! E Jesus ordenou: — Tome conta das minhas ovelhas. Leia João 21.1-17
A pesca maravilhosa, Raffaello em 1515
Simão Pedro precisava entrar em contato com os seus sentimentos. Sentado à beira da fogueira à margem do mar da Galileia, não estava participando, como os outros, da alegria de ter Jesus de novo entre eles. Os outros discípulos estavam rindo, brincando, comendo e bebendo. Provavelmente também relembrando os bons momentos que tiveram com o seu Mestre. Mas não era desse jeito com Pedro. Ele mal podia olhar Jesus nos olhos. Uma dor profunda bloqueava a sua alegria. Uma depressão mental que vinha crescendo há semanas, e agora estava pronta para derrubá-lo de vez. Qual era a causa? Esgotamento físico, medo de ser preso, incerteza quanto ao futuro, ou a memória vergonhosa do que ele fez naquela noite em que Jesus foi preso e torturado?


Pedro não podia lidar com o fato da sua negação covarde, e como poderia? Como ele iria viver com o que ele fez? Ele tinha que esquecer, ele tinha que bloquear, mas seus esforços eram em vão. Ele jamais iria apagar aquilo da sua mente. Aquele lugar não o deixaria esquecer. Foi lá que fez a melhor pesca da sua vida, foi lá que recebeu o glorioso chamado para acompanhar Jesus, foi lá que deixou tudo para trás e abraçou a verdade do Reino. Lembrou-se também de quando foi o primeiro a identificar Jesus como o Filho de Deus, e, por isso, recebeu as chaves do céu. Pedro logicamente se lembrou também do juramento que fez na última ceia de jamais negar o Mestre. Realmente ele cumpriu com o que disse, não negou Jesus uma vez, o negou três vezes. Não teria sido por isso que ele tentou voltar à sua vida antiga? Ele já sabia que Jesus estava vivo quando isso aconteceu. O problema é que ele não se sentia mais digno de segui-lo, por isso voltou para a Galileia. Voltou para tentar se esquecer de Jesus, mas Jesus não se esqueceu dele. Voltou ao lugar que o tinha encontrado para chamá-lo de novo.

Jesus foi bastante amistoso quando saldou os discípulos, mas Pedro não podia responder porque era um prisioneiro da sua mente perturbada. Havia uma distância entre eles, e essa distância estava no coração não perdoado de Pedro. Ela se manifestou mais claramente no silêncio que se fez após a refeição. Mas Jesus quebrou o silêncio, eliminou a distância e perguntou: Você ainda me ama mais do que estes outros? Eu imagino o quanto essas palavras devem tem dilacerado o  já ferido coração de Pedro. Elas eram a reedição do seu juramento na ceia quando disse: Os outros podem abandoná-lo, mas eu não. Jesus rememorando o que ele havia dito, pergunta-lhe: Você ainda me ama desse jeito? Esse foi o tratamento de choque que Jesus usou para quebrar a barreira de remorso que bloqueava o relacionamento. Nada poderia ter tocado na ferida aberta de Pedro mais do que esta pergunta: Você ainda me ama desse jeito? Você ainda me ama mais do que os outros?

Pedro estava sofrendo demais para responder com um simples sim ou não. Ele sabia como ninguém o que era ser indigno do Senhor, indigno do seu amor, indigno de ser seu apóstolo. Por isso ele imagina: se Jesus não pode mais amá-lo, quem sabe, então, poderia ser seu amigo? Quem sabe a amizade não poderia dar certo? Por isso ele respondeu: Tu sabes que eu sou teu amigo. Novamente o silêncio se fez presente. Jesus voltou à carga: Tu me amas realmente? Aí a situação se complicou mais ainda para Pedro. Amar mais do que alguém que não ama muito é fácil, mas amar de verdade é bem mais complicado. O que Jesus está tentando fazer com ele? Parece uma crueldade. Desta vez a pergunta mexeu com emoções ainda mais profundas. Isso trouxe à tona um sentimento ainda mais forte do que a amizade que ele estava propondo a Jesus, e a lembrança das boas experiências que tivera com Jesus fez com que ele respondesse com mais confiança: Tu sabes que eu sou teu amigo. Silêncio de novo.

Como nas duas vezes anteriores a pergunta de Jesus era sobre amor, e Pedro cautelosamente evita essa palavra respondendo sobre a amizade. Ele não podia mais admitir a palavra amor, ele não podia mais admitir ser amado neste relacionamento, e o que ele tinha de melhor a oferecer era a amizade. O grego permite esse recurso. Há pelo menos três palavras que são traduzidas por amor. Jesus, então, muda o sentido da terceira pergunta: Pedro, tu és mesmo meu amigo?  É aí que Pedro fica sem o mínimo que ainda achava que possuía, e nada mais lhe resta senão apelar para aquele feeling que ele sabia que era forte em Jesus: Tu sabes todas as coisas! Tu sabes que eu te amo!

Isso quebrou todas as barreiras, aniquilou todos os remorsos, anulou todas as fronteiras. Lágrimas caíram de seus olhos. Ele soluçava incontrolavelmente. Jesus havia finalmente rompido o selo de autocondenação que lacrava o seu coração. Finalmente ele podia levantar seus olhos e encarar o seu Senhor. Amor e perdão fluíram de onde antes só havia culpa e ressentimento. Jesus sabia que podia confiar naquele coração, pois agora o havia conquistado para sempre, por conta dessa certeza confiou a Pedro o seu bem mais precioso: Apascenta as minhas ovelhas. (continua)

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As 4 perguntas essenciais II

Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Paul Gauguin em 1897
Normalmente resistimos à fé dizendo: eu não posso crer nisso. Eu não posso aceitar esse tipo de coisa. Não posso aceitar que algo que é totalmente gratuito funcione. Ter fé é simplesmente aceitar que somos aceitos por Deus. Se entregar a voz que diz: você é aceito por aquele que é maior do que você. Simplesmente aceitar a oferta da sua graça.

Para uns é uma grande liberação da culpa que o perseguia durante toda a sua vida. Para outros é a sensação de um perdão total e irrestrito, que esquadrinha todo o ser em busca do ressentimento mais escondido. Para outros é uma sensação de amor envolvente que supera todas as rejeições que sofremos ao longo da nossa existência. Para outros ainda é completude da segurança que vem da certeza de que somos queridos e estimados. Para outros é um poder que os capacita a ser o que, na realidade, sempre desejaram ser. Pessoas não mais amarradas às superstições, aos medos ou às frustrações, mas pessoas livres para viver uma vida sem culpa e sem complexos.

Cada um recebe de uma maneira inexplicável a realização de tudo o que tinha buscado tão alucinadamente. Vemos o mundo e as pessoas de forma diferente. Uma onda de amor nos envolve, o amor de Jesus Cristo, que nos constrange a um novo senso de lealdade a ele. A graça de Deus é a bondade loucamente generosa. Jamais alguém pensou que pudesse haver um Deus assim.

Vamos fazer de novo as quatro perguntas da nossa existência.
A vida é sem significado ou ela tem um propósito?
A resposta não é uma religião ou uma filosofia, mas uma pessoa. Não somente vida tem propósito, como Deus em pessoa interveio na história humana para garantir que esse propósito é significativo e vital para nós e para os outros.

Qual é a natureza da realidade?
A resposta da graça é que ela é generosa, ela é perdoadora, ela é restauradora e ela é redentora. A natureza da realidade vista através dos olhos que quem recebe a graça de Deus é a realização de tudo o que se achava definitivamente perdido e fora do alcance.

No fim tudo dará certo para mim, e a vida triunfará sobre a morte, ou não?
No Reino de Deus a certeza da vitória da vida é completa. O Reino de Deus triunfará sobre a morte de modo incontestável, e lá não haverá pranto nem dor, porque a morte e os seus efeitos danosos terão passado e não farão mais parte das nossas lembranças.

A realidade é má, guiando-nos à morte ou a realidade é boa, guiando-nos à esperança?
Jesus está nos dizendo através do seu ministério do bem, da sua paixão, da sua morte e da sua ressurreição que a realidade pode ser mudada, que até mesmo os sinais da morte podem ser revertidos, e que o caminho que leva a esperança será o único caminho que nos será apresentado.

Quando a graça de Deus nos atinge, passamos a perceber que nada pode nos ferir permanentemente, que nenhum sofrimento é irrevogável, nenhuma derrota é definitiva e que nenhum desapontamento é derradeiro. Quando a graça de Deus nos atinge, acreditamos que essas coisas são certas. Quando a graça de Deus nos atinge, conseguimos as respostas às perguntas essenciais da vida.


Não é para sairmos dessa experiência orgulhosos de termos todas as repostas, mas com a humildade e gratidão, creditando a Deus o sentido da vida, creditando a ação do seu Espírito que tem, desde a fundação dos séculos, trabalhado para que a vida seja maravilhosa. É para sairmos da escuridão e gozarmos da vitória daquele que nos amou quando ainda estávamos oprimidos, frustrados, derrotados, sem esperança e mergulhados em nosso egoísmo e insensatez. É para dizermos: agora estou bem certo de que nem a morte nem a vida, nem os anjos ou poderes celestiais, nem o presente nem o futuro, nem o mundo que está acima de nós nem o que está embaixo, nem todo o universo pode nos separar do amor de Deus revelado em Jesus Cristo, seu Filho.

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As 4 perguntas essenciais I

Jonas, Michelangelo Buonarroti, em 1480
No domingo próximo passado falamos sobre as perguntas essenciais que todos, mais dia menos dia, teríamos obrigatoriamente que responder. Volto, portanto, a citá-las:
1ª - A realidade é má, guiando-nos à morte ou a realidade é boa, guiando-nos à esperança?
2ª - A vida tem significado e propósito ou não passa de um conto narrado por um idiota?
3ª - Qual é a natureza da realidade?
4ª - E mais importante: No fim tudo dará certo para mim, e a vida triunfará sobre a morte, ou não?

Gostaria novamente de abordar este mesmo tema, porém, por um outro ângulo, observado também a partir do frenesi incessante que é a existência humana. Porque parece que no tipo de vida que levamos, estamos sempre respondendo a última pergunta de modo pessimista: no fim nada dará certo. E nessa competitividade que sobrepõe à razão criamos um abismo à nossa volta que evita a aproximação de quem quer que seja. A essência do pecado, que é a separação, nós mesmos criamos. Ficamos isolados de nós mesmos e dos outros, justamente porque nos afastamos do propósito real de nossas vidas.

Embora, numa escala exagerada seja prejudicial, é essa tensão o que nos mantém em movimento constante. Ela nos motiva a procurar algo mais do que as necessidades essenciais, e algo mais do que o simples conforto físico. Uma característica que os outros animais não tem. Todo mundo sente essa ansiedade vaga, todo mundo se sente incompleto. O problema que daí resulta, vem do fato da grande maioria não perceber que essa insatisfação vem da nossa separação de Deus. Preferem procurar o sentido da vida nas visões alucinatórias daqueles que se autoproclamam divinamente iluminados. Fomentam a superstição apenas para tirar vantagens dos que assim acreditam.

Normalmente pensamos que se fôssemos mais bem remunerados, se tivéssemos uma residência maior e mais bem localizada, e se tivéssemos na garagem um carro mais sofisticado, essa inquietação acabaria, mas não é assim. No fim vamos perceber que é totalmente impossível levarmos a vida de modo a conseguirmos tudo o que desejamos. Vamos perceber também que nunca o sucesso pessoal será suficiente para mitigar essa nossa ansiedade. A grande falta na nossa vida não é o sucesso que não conseguimos ou os bens que não adquirimos, mas a falta de comunhão conosco mesmos, que possibilitaria a nossa comunhão com os outros, como também a nossa comunhão com Deus.

Curiosamente, é nas horas em que alcançamos o apogeu que nos sentimos mais sozinhos e deprimidos. Na hora em que tomamos posse do bem mais desejado, percebemos de imediato a nossa pobreza interior. Sentimos que interpretamos mal a realidade. O problema maior disso tudo é que não temos a coragem de confessar o nosso erro, de não aceitar que precisamos dos outros, de declarar a nossa dependência de Deus. Nas nossas lutas pessoais não temos coragem de pedir ajuda nem mesmo das pessoas que estão mais próximas, isso nos descredenciaria por completo, fazendo com que a máscara que ostentamos caia, revelando-nos como realmente somos.

Esse é o paradoxo da natureza humana: a busca incansável de Deus que corre paralela ao nosso afastamento voluntário dele. A hora que mais precisamos da presença de Deus é justamente a hora que mais resistimos à mudança que ele nos propõe. Passamos a vida sem entender que é na hora em que o nosso mundo é ameaçado, quando sentimos a inutilidade de tudo e a nulidade de nós mesmos, na hora em que estamos oprimidos e frustrados é quando estamos abertos à graça de Deus. A hora em que perdemos todas as referências é a hora propícia para Deus tomar o lugar no centro das nossas vidas. Vamos descobrir também que isso não tem preço, custou caro, mas é de graça.

Pode acontecer num instante, pode levar anos, não importa. A fé não é o que cremos a respeito de Deus. A fé atender ao chamado da voz que diz: venham a mim todos os que estão cansados de buscar sentido na vida e sobrecarregados de ansiedade, que eu vou aliviar vocês. (continua)

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A salvação entrou nesta casa

Entrementes, Zaqueu se levantou e disse ao Senhor: Senhor, resolvo dar aos pobres a metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, restituo quatro vezes mais. Então, Jesus lhe disse: Hoje, houve salvação nesta casa, pois que também este é filho de Abraão. Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido. Ler Marcos 10.32-44 e Lucas 19.1-10
Jesus e Zaqueu, Basílica de São Marcos, Veneza
Os que andavam com Jesus tinham o pressentimento de que algo muito ruim estava para acontecer. Jesus, por sua vez, não escamoteia o perigo iminente, antecipa com detalhes a sua paixão e morte. Com isso ele está dizendo que não está ali a passeio e sim com o propósito firme de seguir seu caminho, mesmo que isso o leve à morte. Completamente alheios a este clima tenso, Tiago e João tentam obter privilégios através da bajulação, o que despertou a ira dos demais discípulos. Jesus, ignorando a imbecilidade de todos, insiste no tema principal, e diz: Esqueçam de vez esta bobagem de querer ocupar altas posições,não foi para isso que eu chamei vocês. Se alguém entre vocês quiser importante, deixe esse seu desejo e sirva os outros. Se alguém entre vocês quiser ser o primeiro, que este seja o escravo de todos. Porque nem mesmo o Filho do Homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para salvar muita gente. Ou seja, nada, absolutamente nada, nem mesmo a incompreensão dos seus amigos mais chegados iria tirar Jesus da preocupação com a sua morte.

Após este mal estar, Jesus entra em Jericó e no encontro com Zaqueu revela algo importante sobre o julgamento de Deus. Zaqueu, apesar de ser um homem riquíssimo, tem dois problemas. O primeiro é que todos na sua cidade o odeiam. Ele era um traidor do povo judeu. E segundo, o povo o desconsiderava por ser de baixa estatura. Talvez fossem esses dois motivos que o impediam de chegar perto de Jesus, por isso ele teve que subir numa árvore. Mas Jesus o descobriu lá cima e disse que queria ficar na casa dele. Este convite deixou Zaqueu eufórico, mas também deixou o povo ressabiado. Porque motivo Jesus iria se hospedar na casa de um pecador confesso?

Existe um paradoxo aqui, e para entendê-lo vamos recorrer à parábola do fariseu e o publicano. Na nossa vida cristã nós nos espelhamos sempre no bom fariseu e rejeitamos sempre o mau publicano. Mas nesta parábola foi o mau que voltou em paz para casa. Como pode isso? Se quisermos ser honestos, vamos ter que detestar esta parábola. Para aceitá-la, teríamos que acrescentar algo e imaginar que o publicano volte ao templo demonstrando alguma melhora no seu caráter, e com o discurso do fariseu na ponta da língua: Eu te agradeço, ó Deus, porque não sou como os outros agora.

A parábola viva de Zaqueu é justamente isso: um publicano fazendo o discurso de um fariseu. Depois do belo e arrependido discurso, era de se esperar que Jesus dissesse para Zaqueu: Hoje a salvação entrou na sua casa porque você se arrependeu, fez o bem aos pobres, devolveu tudo o que havia roubado e agora é um homem reto. Quem não pensaria assim? Era isso que gostaríamos de ouvir, pois é bem provável que isso o tornasse grande entre os seus vizinhos, o fizesse patriota ante a sua comunidade, mas para Jesus isso não acrescentou nada. Contrariando a toda nossa lógica de bons cristãos, Jesus reedita o resultado da parábola do fariseu e do publicano e diz: Hoje a salvação entrou nesta casa, porque o Filho do Homem veio buscar quem está perdido. Porque este também é um descendente de Abraão. Assim como Deus rejeitara a oração do fariseu, Jesus rejeita o discurso de Zaqueu para colocá-lo no único lugar onde ele poderia receber um julgamento favorável, e esse lugar é o último, não é o primeiro. Esse lugar é o menor, não o mais importante. 

Mas o que significa ser descendente de Abraão? Significa que a salvação não se deu pelas boas obras de Zaqueu, mas unicamente pela sua condição de ser um perdido. Ele era mais um perdido na longa história da preferência de Deus pelos perdedores. A predileção de Deus por fabricantes de ídolos, como Abraão e Sara. Por assassinos como Moisés. Por adúlteros como Davi. Por safados como Jacó. Por atrapalhados, como Jeremias. Por perseguidores cruéis como Paulo. Pelo que não presta, como Nazaré da Galileia. Por gente má e inconsequente como nós.

Jesus está declarando a única lei que impera no julgamento de Deus: Salvar o perdido. Nunca será julgado o que somos ou o que fazemos na nossa vida, porque assim todos estaríamos sumariamente condenados. Por causa disso que ele nos julgará apenas depois que nos restaurar na grande ressurreição. É o que ele diz para Zaqueu: Eu não tenho compromisso algum com a sua história triste. Estou caminhando para a morte justamente para negar e apagar todo esse seu passado. A salvação entrou na sua casa, mas não foi pelo que você fez, mas sim pelo que eu vou fazer em Jerusalém: dar a minha vida para salvar muita gente.

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Deus ilumina II

Pietá, Michelangelo em 1499
Por várias vezes neste blog eu falei da tradição como sendo algo ruim, mas não é essa a ideia que eu tenho dela. Talvez devesse usar a palavra convenção, para focar melhor o alvo da minha crítica. Mas quero deixar claro também que tradição boa é aquela que a igreja acumulou através dos séculos, e que a fez ter o seu papel importante na história secular, bem como na história da salvação. A tradição dos outros é boa para eles, e o que é novo, ainda precisa ser depurado para que vire tradição de fato. Sobre os malabarismos e coreografias neopentecostais que foram introduzidos nas igrejas históricas, eu ouvi uma anedota que ilustra bem o que isso é.

O presidente dos EUA convidou Bill, um amigo de infância para um jantar na Casa Branca. Mas este amigo pouco conhecia de etiqueta e protocolo. Para não passar vergonha, pediu conselhos a alguém que entendia um pouco mais do que ele. Faça tudo que o presidente fizer. Disse o conselheiro. Ainda que meio atabalhoado, conseguiu chegar ao fim do jantar ileso. Foi então que, na sala ao lado, foi servido um café com creme. O presidente pegou um pires e despejou café nele. O convidado fez igual. Colocou um pouco de chantilly em cima, Bill colocou também. Com uma colher o presidente fez uma rápida mistura, o que Bill imitou com precisão. Quando ia levar o pires à boca, Bill percebeu que o presidente havia se inclinado para dar o pires ao gato que estava debaixo da poltrona. Cada igreja tem a sua tradição e deve ater-se a ela, por que já provou ter dado certo. Assim fazendo corremos o risco de ter no rosto purpurinas brilhantes, que apenas refletem a luz que vem de fora.

Chegamos ao segundo e derradeiro ponto: o rosto de Moisés. Quem viu o rosto de Moisés, como fizeram aqueles que nos legaram a tradição oral do texto, poderia muito bem dizer que ele realmente tinha falado com Deus e que estivera mesmo na presença de Deus. Volto a perguntar: O que as outras pessoas podem entender a partir da leitura dos nossos rostos? O que eles refletem? Elas podem ver o cansaço, porque a vida do cristão é quase sempre estressante e problemática. Podem ver a indignação, porque estamos constantemente fazendo o que não queremos e não fazemos o que queremos, como disse Paulo. Podem ver o orgulho e a arrogância, porque invariavelmente nos sentimos melhores e mais justos do que todos em volta de nós. Mas, por outro lado, podem ver também a alegria inexplicável que carregamos secretamente conosco. Podem ver a ausência de medo das superstições que apavoram as demais pessoas. Podem ver um rosto que, apesar de passar pelas mesmas dificuldades que o mundo passa, reflete uma paz interior totalmente indizível. O que os outros veem quando olham para nós? Quando os israelitas viram o rosto de Moisés, não tiveram dúvidas de que Deus estava com ele. Como seria bom se os outros nos olhassem e pensassem: Uau! Esse tem um rosto diferente! Esse rosto tem a marca registrada de Deus!

Quando li esta passagem na Bíblia, eu tive um encontro com irmãos e irmãs que já não estão mais entre nós. Aquelas pessoas que seguramente teriam mais de cem anos se fossem vivas. Aquelas pessoas que me ensinaram o pouco que sei das Escrituras. Posso me lembrar vagamente dos seus cabelos brancos, mas não me lembro se elas tinham rugas. Posso me lembrar das vozes embargadas, mas não me lembro de vê-las com passos vacilantes. Certa vez um “pastô” levou seu grupo de profetizas para que a igreja visse o que era ação do Espírito Santo. Na ocasião eu tive oportunidade de dizer-lhe: Nestes primeiros quatro bancos tem mais ação do Espírito Santo do que em toda a sua igreja.

Na basílica de São Pedro, no Vaticano, tem uma escultura de Michelangelo que foi muito questionada pelos religiosos da sua época. É chamada de Pietá ou Nossa Senhora das Dores, onde o artista representou Cristo morto no colo de sua mãe. Os críticos nada observaram sobre a genialidade do autor, nem da sua inspiração inusitada em captar aquele momento, muito menos da precisão das formas humanas da escultura. O que mais criticaram foi a juventude expressada no rosto de Maria, que não condizia com a de uma mãe que tinha um filho da idade de Jesus. Michelangelo disse rebatendo todas as críticas: A mãe de Jesus nunca envelhece.


O que as pessoas podem ver no nosso rosto? Deus iluminando ou algo mais?

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Deus ilumina I

Moisés desceu do monte Sinai, tendo nas mãos as duas tábuas da lei. Descendo do monte, Moisés não sabia que a pele de seu rosto se tornara brilhante, durante a sua conversa com o Senhor. Êxodo 34.29
Moisés quebrando as tábuas, Rembrandt-1659
Moisés estava na montanha, falou com Deus e recebeu dele os Dez Mandamentos. Quando eu li o texto dentro do contexto, fiz a seguinte pergunta: Por que Deus iluminou apenas o rosto de Moisés? Por que o seu rosto não se iluminou depois de Deus ter falado com ele na sarça ardente? Aquela também foi uma experiência em que a glória de Deus esteve próxima dele. Desta vez, ele estava há 40 dias na montanha e Deus lhe deu as tábuas de pedra com os Dez Mandamentos. Por que somente neste exato momento o seu rosto se iluminou? Por que não antes? A Bíblia não diz que nenhum homem pode ver o rosto de Deus e sobreviver? Se Moisés não viu Deus de fato, e eu acredito assim, algum outro tipo de experiência naquela montanha fez com que seu rosto resplandecesse.

Os israelitas estavam dançando ao redor do bezerro de ouro. Eles não queriam ouvir a voz de Deus. Como Moisés poderia passar os Mandamentos para eles? Isso fica evidente quando Moisés com raiva quebra tábuas de pedra. Depois disso, Deus não passou para Moisés apenas a sua mensagem, mas também a sua glória, porque diante da idolatria do povo, até mesmo Moisés duvidou. Agora o povo está pronto para ouvir, e o brilho no rosto de Moisés enfatiza esse momento.

A glória de Deus aí tem um efeito duplo: motiva Moisés a falar novamente com o povo e fortalece sua fé. É importante que se diga que é a glória de Deus que brilha através de Moisés. Moisés não é o portador da glória divina, apenas reflete no seu rosto a mensagem da luz de Deus contra as trevas da idolatria. Jesus disse a seus discípulos: Vós sois a luz do mundo. Os discípulos são formados à luz de Jesus, e por meio deles que Jesus deve brilhar na escuridão do mundo. A glória de Deus não se presta apenas para me iluminar pessoalmente, mas principalmente para eu passar a iluminar os outros. 

Caberiam então as várias perguntas a seguir: O que Moisés fez para que seu rosto resplandecesse? O que podemos fazer para que uma luz, através de nós, ilumine o mundo com a glória de Deus? Se olharmos o texto, fica claro que Moisés não poderia realizar ações especiais. Isso foi simplesmente dado a ele. Ele não chegou a fazer qualquer esforço, aliás, ele nem percebeu que seu rosto resplandecia. Ele poderia até ter dito: Agora eu vou para a montanha e vou orar muito a Deus, para que, em seguida, ele acenda o meu rosto. Então, este povo obstinado vai passar a me ouvir

Moisés estava olhando para a montanha da presença de Deus e quis tão somente ouvir a voz de Deus. Ele estava disposto a ouvir o que Deus tinha para dizer. Ele não atentou para o efeito e para o impacto de um encontro com Deus, mas para ele foi a esse encontro, o que é até hoje um grande mal entendido na nossa fé. Eu vou ao encontro de Jesus para que ele me abençoe, me dê satisfação e sucesso. Se eu seguir certas regras, Deus vai me recompensar por isso. Mas essa não é a fé bíblica, isto é superstição! Moisés não foi à montanha para que Deus melhorasse a sua vida, mas foi porque ele queria estar perto de Deus. 


Por que eu tenho fé? Por que eu sou um cristão? É focado em Deus que eu quero alcançar algo diferente com a minha fé? Por que muitas vezes eu sigo certas tradições e convenções da igreja cristã? Será porque eu quero só fazer parte dela? Por que leio a Bíblia? Por que oro? Por que vou à igreja? Porque todo esse conteúdo e dever de um cristão, ou porque eu realmente quero falar com Deus? (continua)

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Luz e sombra

Por aquele tempo, exclamou Jesus: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado. Mt 11.25s
Jesus e as crianças, jesusandkidz.com
Uma das investidas mais iradas que os ateus fazem contra o pensamento cristão recai sobre o famoso argumento de apologética levantado pelo filósofo, físico e matemático francês do século XVII Blaise Pascal, que ficou conhecida como a Aposta de Pascal. Em resumo ele diz o seguinte: Não se pode provar que Deus existe. Mas se Deus existe, o crente ganha tudo (céu) e o descrente perde tudo (inferno). Se Deus não existe, o crente nada perde e o descrente nada ganha. Portanto, há tudo a ganhar e nada a perder em acreditar em Deus. A despeito de reconhecer a genialidade de Pascal, não faço coro com ele neste pensamento, simplesmente porque penso que o crer não pertence a mim, eu, sim, pertenço a ele. Minha preocupação maior é se Deus, após tantas quedas, omissões e iniquidades, ainda acredita em mim.


Todavia, aproveitando-me de um viés deixado por essa lógica de Pascal, permito-me fazer a seguinte pergunta: Por que as pessoas humildes creem com mais facilidade em Deus do que as mais abastadas? Estaria apenas na falta do poder aquisitivo a inclinação do homem para a fé? Quem não poderia dizer nesta hora que uma melhor condição econômica tem o poder de elevar a mente humana a um patamar de onde ela enxergue mais motivos para não crer tão facilmente quanto os humildes? Ou seja, novamente insistimos em confinar as questões da fé unicamente na vontade e na razão humana. Nós decidimos crer ou não crer, e ponto final.

Não é bem isso que a Bíblia diz. Jesus, momentos antes do diálogo que travou com um dos baluartes da cultura em Israel, diálogo esse que o levou a contar a parábola do Bom Samaritano, faz a oração que é o nosso versículo base: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Ele estava querendo dizer que, mais do que uma conquista da qual a mente humana possa se orgulhar, a fé é uma questão de estar na luz da revelação ou estar numa sombra bem próximo a ela. Ao contrário do que pensam os ateus acerca dos cristãos viverem permanentemente na escuridão da fé, Jesus diz que os que não creem vivem em uma espécie de penumbra, de onde, apesar de toda a sua cultura, não conseguem enxergar a revelação de Deus.

Mas aqui se levanta uma outra questão: Por que Deus ora se revela e ora se esconde? Pelo menos é o que concluímos a partir da leitura do Primeiro Testamento, da qual o intérprete da lei que coloca Jesus à prova era perito. Ele entendia que Deus era um ser que necessitava ser buscado, perseguido, até mesmo, como fez Jacó, enfrentado em uma luta, para se obter dele uma breve revelação. Mas Jesus veio trazer justamente o oposto. Veio anunciar um Deus que está à espreita, não para castigar, mas para se revelar por inteiro na figura do Cristo, ao menor passo que o pecador der em sua direção.

Jesus diz também que Deus escolheu pela sua própria vontade se revelar através do evangelho. Esta é boa notícia que só está disponível aos que realmente são pequeninos, humildes e impotentes, porque somente na glória de Deus eles podem ver novamente a idoneidade que lhes faz tanta falta. É lá que ainda podem ter a esperança de que seus desejos sejam realizados. Onde podem olhar novamente para os seus rostos no espelho e sentirem que por trás da imagem luz e sombra, ainda existe uma alma. Somente aqueles que nada mais tem a perder, e aqui Pascal é questionado, creriam na aposta de um Deus que, no lugar de um poderoso guerreiro, envia uma criança indefesa para realizar o seu propósito maior.

Bem melhor e mais propício ao evangelho do que se engalfinhar com os que não creem na tentativa de provar que Deus existe, podemos mostrar através de atos concretos de amor, a nossa gratidão por termos sido alcançados pela luz da revelação de Deus. Isso é suficiente para que eles tenham, ainda que envoltos pela sombra, a luz de um Deus os ama, a despeito de crerem ou não. 

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Seis passos da compaixão II

O Bom Samaritano, Delacroix em 1849
O cuidado entra nesta lista como o grande diferencial da compaixão. Cobrir as feridas com óleo era uma prática antiga e bem conhecida. Evitava que o ferimento ficasse exposto às infecções, dando ao organismo mais condição de se autorregenerar. Mas colocar vinho já é diferente. Qual seria a função do vinho neste caso? Eu sempre soube que vinho é bom pra curar outro tipo de ferida: dor de cotovelo, coração partido, reconhecimento póstumo etc. Mas aplicá-lo diretamente sobre uma ferida aberta, confesso a minha ignorância. Não deveria ser pelo teor alcoólico, pois o do vinho é muito baixo. Não é importante, o importante é que conscientemente ou não, o samaritano fez o que estava ao seu alcance. O que as suas entranhas o impulsionaram a fazer. Mais forte do que a consciência de não fazer o mal, ele é movido pela compaixão para fazer o bem.

No entanto, no momento em que coloca o ferido sobre o próprio animal ele se compromete bastante. Imaginem vocês se ele tivesse cruzado com um grupo de judeus naquela hora. Eles iriam bater nele primeiro e perguntar depois. Não poderia haver um motivo lógico para imaginar que o samaritano estava de boa intenção, só querendo ajudar. O comprometimento da compaixão traz consigo riscos. O simples fato de interagir com grupos marginalizados, já faz da pessoa um marginal também, e o samaritano mais do que ninguém sabia disso. Se alguém tem dúvida, que observe a expressão de surpresa da mulher samaritana quando Jesus se dirigiu a ela no poço de Jacó. Se o diálogo simples com um samaritano já era algo incomum, o que não dizer da sua presença numa cena de crime?

É somente nessa hora que eu posso entender as palavras de Jesus sobre o comportamento. Quando ele diz para cortar fora a mão que nos faz pecar ou tirar fora o olho que nos induz ao erro. É melhor ficar mutilado numa ação em favor do Reino, do que permanecer perfeitamente são, agindo contra ele. Dizia Paulo: o que é o sofrer para quem já foi considerado como ovelha para o matadouro?

Não sei também qual seria o procedimento correto de encaminhamento de uma pessoa ferida naquela época. Provavelmente seria levá-la a uma guarnição de Império Romano e registrar uma queixa. Hospital público, nem pensar. Se ainda hoje são raros e lotados, se é que existia algo semelhante, como seriam? Talvez algum bom coração levasse o ferido a um curandeiro e o deixasse lá, mas o samaritano o levou a lugar onde poderia tratar melhor dele. Nesse cuidado ele despende dinheiro. Um dinheiro que era fruto de um trabalho, que certamente o fazia correr o mesmo risco que o judeu assaltado correu. Um dinheiro que representava a sua própria vida.

Mas o sexto passo é que determina o sentido exato da compaixão. O samaritano, movido pela compaixão, não se satisfaz em atender apenas as necessidades imediatas do ferido, não se contém em fazer somente o necessário pelo necessitado, não se detém diante do bem simplesmente; ele quer o melhor. Ele quer ver a restauração completa e a cura realizada, por isso ele retorna depois de um tempo para certificar-se disso.

A Parábola do Bom Samaritano é largamente usada para mostrar a necessidade da Igreja em se engajar na ação social. Mas ele é mais do que isso, pois ela se refere a uma relação de iguais, de pessoas de níveis sociais equivalentes. Não fala exatamente de uma atitude de compaixão para com o pobre, mas de compaixão para com o próximo que está aflito.


É importante que se observe as duas perguntas que deram início ao diálogo que motivou Jesus a contar essa parábola: E eis que certo homem, intérprete da Lei, se levantou com o intuito de pôr Jesus à prova e disse-lhe: Mestre, que farei para herdar a vida eterna? (Lc 10.25), e a outra foi: Ele, porém, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: Quem é o meu próximo? (Lc 10.29) Jesus dá um resposta que servirá para todo o sempre. O que eu fazer para herdar a vida eterna? O que eu preciso fazer para salvar a minha alma? Todas as vezes que nos perguntarmos isso, vamos tentar ouvir o que Jesus nos ensinou na parábola do Bom Samaritano: Quer salvar a sua alma? Cuide do seu próximo, tenha compaixão dele.

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