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Beatificação ou humilhação?

O SENHOR Deus diz: “Aqui está o meu servo, a quem eu fortaleço, o meu escolhido, que dá muita alegria ao meu coração. Pus nele o meu Espírito, e ele anunciará a minha vontade a todos os povos. Isaías 42.1
Cristo carregando a cruz, Giovan Battista Tiepolo em 1737
Alguém conhece algum São Isaías, Santo Amós ou São Jeremias? Alguém já se deparou na Bíblia com um processo de beatificação ou de santificação de qualquer dos profetas do Primeiro Testamento? Alguém já viu alguma representação de Elias, Eliseu ou mesmo Moisés com uma acentuada áurea sobre a sua cabeça identificando-o dos demais?Se você tem como resposta um não, acaso já teria se perguntado por quê?


Alguns bons motivos me ocorrem nessa hora. Seriam eles menos consagrados dos que os homens e mulheres que nasceram durante ou depois do nascimento de Jesus Cristo? Teriam estado sob a direção de Deus com menos rigor do que os apóstolos? Seus martírios e perseguições aconteceram em menor grau de intensidade do que o que foi imposto aos santos e santas venerados por grande parte da igreja cristã em todo o mundo? Teriam realizado a vontade de Deus pela metade?

A parábola do semeador também pode nos oferecer alternativas que corroboram com esta distinção. Os homens e mulheres do passado distante foram as sementes citadas por Jesus, que caíram na beira da estrada, entre os pedregulhos e as que foram sufocadas pelos espinhos. Somente dos cristãos autênticos se pode dizer que são sementes que caíram em terra fértil.

De uma coisa eu tenho certeza absoluta: nenhum desses santos ou santas reconhecidos pela igreja endossaria ou permitiria qualquer movimento em prol da sua beatificação. Tenho sérias razões para acreditar que todos esses que foram considerados santos após o início desse processo formal declaram, assim como fez o Papa João Paulo II, a reprovação incontestável da indicação do seu nome a esta consagração. Mesmo porque, aqueles que o fizessem já não seriam merecedores dessa distinção.

O Primeiro Testamento tinha também seus heróis. Consideravam em alta referência da mesma forma os homens e mulheres que foram grandemente usados por Deus no seu tempo. Reconheceram que era o Espírito de Deus quem os guiava e que era em seu nome que estas pessoas se pronunciavam. Mas nunca sentiram a necessidade de fazer deles pessoas diferenciadas ou que merecessem qualquer veneração ou superestima. Pelo contrário. Essas pessoas eram as mais vigiadas, foram as que tiveram as suas vidas mais expostas e as mazelas mais conhecidas. Parece que o Primeiro Testamento em vez de instaurar um processo de beatificação empenhava-se em fazer uma varredura na vida pregressa do pretenso enviado de Deus, para que uma vez atestada a sua humanidade, a sua atitude ou mensagem fosse reconhecida como autenticamente divina.

Hoje em dia se faz diferente. Quando morre uma pessoa que se destacou na vida cristã investiga-se o que ela contribuiu positivamente com o evangelho, para que seu nome seja exaltado acima dos demais mortais.

Não quer opinar sobre as leis canônicas de um segmento do Cristianismo ao qual não faço parte, mas não posso me deixar de observar essa mudança brusca no comportamento daqueles que foram chamados por Deus ao longo da história da humanidade. O próprio Isaías, um dos grandes nomes da História da Salvação, não omitiu o fato de que reconheceu dentre os seus contemporâneos alguém em quem notoriamente o Espírito de Deus agia mais livremente. Contrariando tudo o que se diz e o que se faz hoje em dia, ele não chamou esse indivíduo de santo ou o tratou como um superconsagrado. Chamou-o simples e devidamente de servo de Deus. Não um belo servo para ser admirado, mas um servo humilhado, afligido e cuja aparência era repugnante. Foi justamente esse que muito mais do que a exaltação doa homens, recebeu a exaltação do próprio Deus.

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Implicações do sofrimento II

Tapeçaria com a Paixão de Cristo, entre 1470 e 1490
O escritor de Hebreus em 2.28, 9.26 e 13.12, como também em l Pedro 2.21 e 4.1 se servem do verbo náoxsiv quando fazem referência ao fim da vida de Jesus, em oposição a João que usa o verbo ànoOvrioxeiv. Contudo, ambos os verbos referem-se mais à morte de Jesus do que propriamente à paixão que a precedeu, a qual, no restante da Bíblia nunca é isolada da morte do Senhor, como vemos em Mk 8.31, que diz: Então, começou ele a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do Homem sofresse muitas coisas, fosse rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas, fosse morto e que, depois de três dias, ressuscitasse. Vemos também que os Pais Apostólicos continuaram fiéis a esse modo de falar: Crucifixus etiam pro nobis sub Pontio Pilato, passus et sepultus est (foi crucificado sob Pôncio Pilatos, morto e sepultado).
O sofrimento na vida do cristão deve ser sempre olhado através desse prisma. Na perspectiva de Jesus, particularmente nas narrativas sobre a vida dos discípulos há como um caminho cheio de sofrimentos: John 15.20 - Lembrai-vos da palavra que eu vos disse: não é o servo maior do que seu senhor. Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa. Jesus, porém, nunca usa o verbo náauy, como faz o Segundo Testamento em outros textos, como em Ap 2.10: Não temas as coisas que tens de sofrer. Eis que o diabo está para lançar em prisão alguns dentre vós, para serdes postos à prova, e tereis tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida.

Segundo Paulo, a vida do cristão é uma tensão entre dois polos: morrer e viver com Cristo. O sofrimento não é privilégio do apóstolo ou de determinados cristãos, mas pertence à própria essência da vida cristã; é uma grande graça, superior até mesmo à própria graça da fé: Porque vos foi concedida a graça de padecerdes por Cristo e não somente de crerdes nele. Por isso que Paulo, sem medo de se enganar, ousa predizer provações às suas comunidades cristãs. Para ele o sofrimento não é uma coisa que o cristão sofre passivamente, mas antes uma luta ativa, viril, pela causa de Cristo. Por isso este apóstolo não se envergonha dos seus sofrimentos e, longe de ver seu ministério desanimar, ele vê nas suas muitas privações e provações e nas perseguições contra os cristãos, um motivo de alegria, uma fonte de consolação, um autêntico sinal de salvação e um penhor no juízo de Deus: E que em nada estais intimidados pelos adversários. Pois o que é para eles prova evidente de perdição é, para vós outros, de salvação, e isto da parte de Deus.

Tudo o que o cristão tiver de sofrer neste mundo, não é nada em comparação com a glória vindoura, pois o próprio Cristo entrou na sua glória através de seu sofrimento. Ideias análogas são elaboradas mais profundamente na primeira carta de Pedro, cujo autor se apresenta como “testemunha da paixão de Cristo”: Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu, presbítero como eles, e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e ainda coparticipante da glória que há de ser revelada.

A carta aos Hebreus diz textualmente que o maior auxilio para o cristão nos seus sofrimentos é o exemplo de Cristo. Jesus é nosso modelo, e é assim que os cristãos participam do sofrimento de Cristo: 3.14 - Porque nos temos tornado participantes de Cristo, se, de fato, guardarmos firme, até ao fim, a confiança que, desde o princípio, tivemos. Paulo relaciona a sua doutrina sobre o sofrimento do cristão, mais particularmente dos apóstolos, diretamente com a sua doutrina sobre o corpo místico. Ensina que o seu sofrimento e o dos demais apóstolos, por causa da sua união com o sofrimento de Cristo, é uma bênção para os membros do corpo místico. Em alguns textos, porém, ele exprime esse pensamento de forma vaga e sucinta demais para mostrar de modo absolutamente inequívoco todo o alcance da sua doutrina. Mas ele abre a segunda carta aos Coríntios com o firme propósito de incutir na mente daqueles que foram por ele evangelizados que o caminho estreito que Jesus anunciara, mais do que por privação de alimentos ou por regras de conduta moral passa pelo sofrimento: Porque, assim como os sofrimentos de Cristo se manifestam em grande medida a nosso favor, assim também a nossa consolação transborda por meio de Cristo. Mas, se somos atribulados, é para o vosso conforto e salvação; se somos confortados, é também para o vosso conforto, o qual se torna eficaz, suportando vós com paciência os mesmos sofrimentos que nós também padecemos. 

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Implicações do sofrimento I

Jó e seus amigos, Ilya Repin em 1869
Desde as primeiras páginas do Gênesis o sofrimento entra no Primeiro Testamento: o homem, que no princípio vivia em comunhão com Deus no jardim de Éden, é expulso por causa de sua desobediência, para o solo sobre o qual veio a maldição de Deus; sofrimento, doença e morte pertencem aos castigos pelo primeiro pecado. Nos tempos primordiais, paradisíacos, o homem não conhecia o sofrimento, na bem-aventurança final também não haverá mais sofrimento.

O sofrimento, portanto, não é visto como uma espécie de fado, ao qual o homem nunca conseguiu subtrair-se, mas como uma situação de desordem originada pelo pecado. Por causa desta relação entre o sofrimento e o pecado constata-se no Primeiro Testamento uma tendência para interpretar todo o sofrimento, inclusive o do justo, como um castigo pelo pecado dos pais ou dos antepassados. O princípio da retribuição nesta terra e da sanção coletiva, o que chamamos de Pecado original, ou de faltas pessoais, mesmo escondidas. O caráter incompleto e unilateral deste modo de ver foi compreendido aos poucos, mas, em consequência das imperfeições da escatologia, o Primeiro Testamento nunca chegou a uma solução satisfatória.

Durante longos séculos Israel teve que lutar contra este problema; não se esquivou diante da questão, mas aceitou não saber dar uma solução racionalmente satisfatória e, fortificado pela fé, inclinou a cabeça ante a sabedoria imperscrutável e o poder de Deus. A pregação profética, que salientou os elementos éticos na doutrina do Primeiro Testamento sobre a expiação, deu aos fiéis em Israel também alguma compreensão da obra de Deus na história e o fez aceitar as calamidades, que vinham sobre o povo, como um juízo de Deus, um juízo que os conservava, purificava e renovava. 

Assim o sofrimento que o justo partilhava como membro do povo de Deus podia ser sentido como uma penitência imposta por Deus, e necessária para que não perecesse o povo todo. Essas ideias formam também a base da historiografia dos autores deuteronomistas. Elas estão relacionadas com a esfera jurídica e com concepções pedagógicas: a dor é um elemento necessário na educação. Manifestam-se também na visão nova de Is 53 que aponta o sofrimento inocente do Servo de Javé como o único meio de expiação para a culpa do mundo. Na teologia judaica posterior a doutrina que interpreta o sofrimento como expiação ou penitência, exprime-se de muitas maneiras, sendo aplicada também ao cativeiro do próprio povo judaico.

No Segundo Testamento, o sofrimento de Jesus foi necessário que Cristo, o Filho do Homem e Servo de Deus, sofresse e morresse. Este pensamento é um dos elementos mais essenciais da prega­ção evangélica sobre Cristo. João usa a expressão “ser elevado” ou “exaltado”, como um resumo de toda a sua vida. Conforme os sinóticos, uma parte importante da tarefa de Jesus como Messias consiste no seu sofrimento e na sua morte, de acordo com a vontade de Deus. Veja-se também o modo como Jesus guardava o segredo de ser ele o Messias. A semelhança, sugerida na tradição sinótica, entre a vida de Jesus como a sorte do Servo de Javé em Is 53.

A primitiva pregação cristã, tanto para os judeus como para os gentios tratou muitas vezes da paixão do Senhor. Verdade é que a considerava mais como uma provação que Deus lhe impôs, a qual superou de modo triunfante, mas afirmou também, pelo menos implicitamente, o seu valor soteriológico.

Foram sobretudo Paulo e depois o escritor de Hebreus e  Pedro que desenvolveram plenamente a teologia do sofrimento. Paulo fez coincidir sua doutrina sobre o sofrimento com a sua teologia da cruz. Para ele a cruz, com o escândalo que causa, está no centro da pregação cristã. A teologia de Paulo sobre a cruz forma a base do culto cristão e de sua doutrina sobre os sacramentos: a eucaristia e o batismo. Na paixão e morte, o apóstolo vê a grande prova do amor de Jesus. Pela paixão e morte de Cristo, o sacrifício expiatório de sua vida, todos foram resgatados, reconciliados com Deus, livrados do pecado, da lei, da morte, de todos os poderes cósmicos; pela sua paixão e morte Cristo conquistou para nós todos os bens da salvação e pôs o fundamento da Igreja. Assim a mensagem da cruz, que não esconde nada das humilhações do Messias padecente, é ao mesmo tempo uma mensagem de ressurreição e vida. 

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Nem tudo é como parece

Mas ele lhes respondeu: Nunca lestes o que fez Davi, quando se viu em necessidade e teve fome, ele e os seus companheiros? Como entrou na Casa de Deus, no tempo do sumo sacerdote Abiatar, e comeu os pães da proposição, os quais não é lícito comer, senão aos sacerdotes, e deu também aos que estavam com ele? Marcos 2.25s
Jesus comendo com os discípulos, Paolo Veronese em 1580
Machado de Assis contrariando um ditado popular que até hoje é muito repetido, e que, por conta dos muitos escândalos políticos e financeiros está sempre em evidência, disse: A ocasião não faz o ladrão, propicia o roubo. O ladrão já nasce feito. Se tentarmos trazer isso para o contexto do pensamento cristão teríamos que concluir que não é a ocasião que faz o pecador, pois já nascemos pecadores. A ocasião propicia a vitória do pecado sobre nós. Por mais lógico que possa parecer, isso ainda não explicaria a realidade do evangelho diante das circunstâncias da vida, pois este é um preceito do direito legal, e o evangelho não se pauta por ele e sim pela lei do amor.

No episódio narrado por Jesus que ilustra esse diálogo de ânimos alterados que ele manteve com os escribas e fariseus, qualquer um de nós intuiria que os homens de Davi ao comerem, sem permissão, as espigas de milho da plantação de outra pessoa. Com a visão atualizada dos fatos diríamos que eles saquearam um supermercado local, simplesmente porque estavam com fome, e isso não é atenuante suficiente para esse crime previsto na lei. Sob todos os aspectos, o consenso nos faria concluir também que eles cometeram pecado contra o oitavo Mandamento, que diz fria e literalmente: Não furtarás.

Na realidade, Jesus evoca um fato de extrema gravidade para confrontar uma atitude, que embora fosse relevante, constituía-se em uma falta muito menos grave, mas que lhe estava sendo proposta por aqueles ilustres cidadãos de Israel: os seus discípulos não jejuam? Em outra ocasião, o gerador da contenda era um fato menos relevante ainda: Mt 15.2 - Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? Pois não lavam as mãos, quando comem. Na tradição contemporânea equivaleria perguntar: Você não faz oração antes de comer?

Penso que podemos resumir tudo isso em uma denúncia feita por Jesus a esse tipo de pessoas que costumam cobrar essas coisas: Vocês coam um mosquito, mas engolem um camelo. E eu imagino que ele tenha dito isso para denunciar várias situações, tais como:

O excessivo zelo pela tradição, que não leva em conta cultura, economia, região e muito menos circunstâncias.

Pessoas que na incapacidade de realizar a vontade de Deus, tentam a todo custo fazer com que se priorizem os valores humanos acima dela.

A relevância dos atos exteriores sobre as atitudes sinceras, que muitas vezes são as únicas possíveis naquele justo momento.

A supervalorização de determinados atalhos, que na ânsia de obtenção de resultados imediatos, traçamos sem nos precavermos conta os efeitos colaterais.

A necessidade de autoafirmação que faz com que minimizemos os argumentos dos outros lançando mão de recursos irrelevantes ou mesmo com injúrias.

Não sei quanto a vocês, mas eu me vejo por inteiro em todos esses itens e em mais alguns que não foram aqui mencionados. Na realidade, eu sou mesmo essa pessoa que os versos do poeta supracitado revelaram tão detalhadamente:

Para que queres tu mais alguns instantes de vida?
Para de­vorares e seres devorado depois?
Não estás farto do espetáculo e da luta?
Conheces de sobejo tudo o que eu te dei
de menos torpe ou menos aflitivo: o alvo do dia,
a melancolia da tarde, a quietação da noite,
os aspectos da terra, o sono, enfim,
o maior benefício de minhas mãos.
Que mais queres tu, sublime idiota?



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O leva e traz da terra distante?

Passados não muitos dias, o filho mais moço, ajuntando tudo o que era seu, partiu para uma terra distante e lá dissipou todos os seus bens, vivendo dissolutamente. Lucas 15.13
O Filho Pródigo, Gerard van Honthorst em 1623
Já nos referimos nesse blog à fuga do filho pródigo para a terra distante, e falamos também dos motivos que, presumivelmente, o levaram a fazê-lo. Contudo, não fizemos qualquer esforço para identificar, mapear ou mesmo analisar essa terra e tampouco os seus moradores. Diante de uma omissão com esse grau de gravidade, podemos pensar que essa terra era um lugar que muito mal fez ao pobre-rico herói da parábola de Jesus. E pensado assim vamos pensar errado.

À primeira análise, ela nos parece uma terra de prostitutas e de bêbados. Se tivéssemos que escolher um nome para dar a terra distante dentre as cidades citadas pela Bíblia hesitaríamos entre duas apenas: Sodoma ou Gomorra, mesmo que elas já não existissem mais, porque essa é a impressão que temos das cidades da campina, como são chamadas. Para nós Sodoma, Gomorra, Admá, Zeboim, Bela e a cidade para onde o filho pródigo fugiu são cidades inexoravelmente condenadas, e para as quais não haverá qualquer perdão no Dia do Juízo Final.

Não podemos detalhar muito da terra distante, mas sabemos com certeza que as dificuldades de se viver na campina ao sul do Mar Morto eram enormes. Qualquer povo que quisesse sobreviver naquela região teria que ser muito ativo e muito criativo, pois as condições do terreno são tremendamente inóspitas. Para os seus habitantes não deveria sobrar muito tempo para a prática da devassidão e da luxúria. Até mesmo as Cracolândias brasileiras não sobrevivem isoladamente, precisam de um apoio de fora para sobreviver. Mas também não podemos ser inocentes ao ponto de descartar a ideia de que algum atrativo havia nelas, caso contrário Ló, sua família e o filho pródigo não teriam sido atraídos por elas.

Bem, entre os prós e contras o que podemos deduzir da terra distante? Vamos começar pelos contras, pelo mal que a terra distante causou ao pródigo. Parece que não havia nela leis rígidas que disciplinasses um estrangeiro mal intencionado. Parece ser um lugar onde quem tem grana pode tudo. Alguns dos nossos deputados, senadores governadores e presidentes conhecem bem terras assim que não são nada distantes. Eles os têm tanto is seus tesouros quanto os seus corações lá. Eles até os chamam de paraísos fiscais.

Parece também que havia muita gente disposta e pronta para oprimir, escravizar e explorar qualquer um ao sinal do primeiro deslize. Quem sabe a economia da região não se baseasse justamente nisso: na captação de recursos externos sem o compromisso de retorno, e na exploração de mão de obra de imigrantes?

Temos que ver agora os prós, ou seja, o mal que o pródigo causou às pessoas da terra distante. Com quase que certeza absoluta podemos afirmar que ele lá deixou filhos que nunca o reconhecerão como pai. Podemos concluir também que algumas mocinhas foram expulsas de suas casas e que alguns rapazes foram atraídos à devassidão pela sua influência negativa. Isso tudo se contar os negociantes que não receberão jamais as dívidas deixadas por ele.

Para encerrar a conta vamos fazer o balanço, mas para isso precisamos fazer duas perguntas: haveria uma terra distante sem um filho pródigo? Haveria um filho pródigo sem uma terra distante? A primeira pergunta não colabora muito com a nossa meditação, mas a segunda é fundamental. Independentemente de existir ou não terras distantes, paraísos ficais ou outros atrativos e facilidades, existe dentro de nós a tentação pelo uso até a exaustão dos recursos. Nós não temos que nos perguntar, como o pródigo, o que fazer quando o dinheiro acabar, e sim o que vamos fazer quando os recursos das terras próximas e das terras distantes acabarem? Para onde iremos fugir da nossa devassidão com os recursos naturais?

Santo Agostinho depois de analisar todas as rotas de fuga possíveis nos alertou dizendo o seguinte: Ainda que fujas do campo para a cidade, ou da rua para a tua casa, a tua consciência vai sempre contigo. Da tua casa só podes fugir para o teu coração. Porém, para onde fugirás de ti mesmo?

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O Ano Novo II

Exodus, minisérie de 2013
Eu não tenho tempo. Eu não posso agora. Estou com pressa.Todas essas frases são comuns e todos nós as repetimos a toda hora. Estamos dizendo com isso que não vamos viver para sempre. Estamos dizendo que precisamos que dividir o tempo limitado que temos. Posso usar o tempo que tenho da melhor maneira possível, mas não posso de forma alguma prolongar esse tempo. Nós podemos reduzir o nosso tempo de vida, mas aumentá-lo, nunca. Quando realmente descobrimos isso é um choque terrível.

Não quero colocar água no champanhe de ninguém, mas muitas dessas festas de réveillon que acontecem por aí têm a sua origem na nossa necessidade de afugentar a preocupação com o tempo, que de repente aumenta no final do ano. Nem quero também derramar o chopp, mas muito do uso de bebidas alcoólicas para embotar a consciência nessa hora tem a sua origem no desejo de fugir dos sinais citados nessa meditação. Essa festa é uma espécie de brincadeira para tentar cobrir a ansiedade profunda que nós temos. Não passa de um divertimento que visa mascarar o problema não solucionado de nossas vidas. Então, onde vamos achar as respostas para as perguntas que perturbam a nossa existência? Por que estamos vivos? Para onde caminhamos? De onde viemos? Por que estamos nesse lugar nessa hora? O que é a realidade? A realidade é má e nos guia para a morte ou ela é boa e nos induz à esperança? E as perguntas mais cruciais de todas: tudo terminará bem no fim para os meus queridos e para mim? A vida triunfará sobre a morte ou não?

Em nosso medo de que tudo não termine bem, nós tentamos de todas as formas um caminho de fuga para não sermos derrotados pela morte. É estranho, mas cada um de nós acha que essa sensação de ser incompleto, essa sensação de ser insatisfeito é somente sua, mas não é não! Todas as pessoas sentem isso. Esse estado de tensão inquietante, de ansiedade constante, de incerteza e insegurança é a condição de quase todo mundo em quase toda hora. Só não percebemos e não queremos enfrentá-lo. Por isso é que é tão difícil reconhecermos que essa falta de satisfação é o resultado da nossa separação de Deus, e o fim do ano serve para aumentar bem esse problema.

Um pensamento muito errado e que deveria ser erradicado de vez das igrejas é o que nos leva a pensar que a alegria e o otimismo estão lá fora na queima de fogos e na confraternização com pessoas estranhas, enquanto que os que se reúnem em culto de vigília ou mesmo nas suas casas devem buscar antes a contrição e o recolhimento espiritual. Mais do que qualquer outra pessoa, o crente em Jesus Cristo que volta para ele o seu pensamento nesse exato momento e que coloca a sua vida nas mãos dele nessa hora deve fazer seu corpo vibrar intensamente de alegria, e por motivos muito mais concretos. Esses conhecem bem a sua mortalidade, conhecem melhor ainda as suas limitações e não negam essa realidade, por isso não tentam fugir dela. Contudo, a ansiedade da morte cessa imediatamente quando nos sentimos seguros nas mãos de quem pode nos dar segurança, o Senhor de todo o tempo.

Nós estamos em paz com Deus porque ele tem nos aceitado e tem nos amado como nós somos. Estamos em paz por que nós temos aceitado também as nossas falhas, porque todo o nosso passado, todo o mal que fizemos e que gostaríamos de apagar da memória, toda a nossa culpa, toda a nossa vergonha, toda a repugnância que temos de nós mesmos, não podem mais nos separar do amor dele. Foi ele quem acertou tudo, porque foi ele quem nos amou quando não merecíamos. É ele quem estará à frente de todos esses trezentos e sessenta e cinco dias do ano que virá. Por tudo isso tenhamos a certeza de nada poderá nos atingir sem que antes tenha passado pela sua inspeção e pelo seu conhecimento. E quando tivermos percorrido todo o corredor de 2014, quando tivermos passado a última hora, quando estivermos respirando o último ar, a grande verdade é que ele estará nos esperando.

Paulo dizia que temos essa vitória por meio daquele que nos amou. Dizia mais ainda, que nem a morte, nem a vida; nem a coisa do mundo presente, nem as do futuro; nem os homens e nem os anjos; nem os governos e poderes; nem o mundo que está acima de nós, nem o que está abaixo de nós; nada, absolutamente nada pode nos separar do amor de Deus em Cristo Jesus. Nessa confiança entremos com alegria nesse Ano Novo.

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O Ano Novo I

O tempo indeterminado, Seth Siro Anton (1973-)
Antes do relógio bater a meia-noite hoje, todos vamos prestar atenção nele. E desta vez vamos vê-lo de maneira bem diferente do que normalmente o vemos. Diferente de quando olhamos para ele quando acordamos, quando temos que pegar a condução, na hora do almoço, ou indor a um compromisso. Porque na última noite do ano, aquele relógio que usamos sempre vai marcar uma hora diferente, uma hora que tem um sentido bem especial.

Isso é bom! Porque em todas as outras horas do ano nós agimos de acordo com ele, para estarmos no tempo certo no lugar certo, para encontrarmos alguém, para fazermos algo na hora certa, e isso é ele quem determina. Mas na última noite do ano nós não agimos assim. Nós não vamos a lugar algum. Alguns de nós estaremos na igreja, outros em casa, outros ainda em algum lugar propício para esta ocasião, mas estaremos apenas esperando. O relógio não estará mais mandando em nós. Porque de repente é o tempo que nos move em vez do relógio.

Os últimos momentos do ano estão chegando, e esses momentos são diferentes, porque estaremos tentando ouvir o que normalmente se passa em silêncio. Logo mais nós ouviremos a voz do tempo falando. Nós estaremos ouvindo o barulho desta noite tão fora do comum. Nós estaremos ouvindo o barulho do Ano Novo chegando. E quem de nós não sente um frio na espinha quando a meia-noite chega? Seria pelo fato de termos uma percepção diferente desta noite da que temos nas outras noites do ano? Sim, mas há razões para isso, e eu gostaria de tentar sugerir algumas.

A primeira é porque os relógios são redondos, pelo menos a maioria deles. Mas o que vou dizer se aplica aos não redondos também. Os ponteiros, ou mesmo os dígitos, voltam sempre para o ponto inicial, nunca vão, além disso. Isso faz com que tenhamos a ilusão de que tudo nessa vida se repete. Ficamos com a falsa impressão de que podemos sempre começar de novo do zero amanhã. Se o relógio pode, por que nós não? Mas nessa noite nós experimentamos o tempo de uma maneira singular. Nessa noite o tempo se move, e não mais em um círculo, mas se move numa linha reta. Embora pessoas acreditem que em algum lugar há um relógio gigante que marque a passagem do ano, e que ele faz tudo começar de novo, esse relógio não existe. Por isso nós temos que visualizar a passagem do ano como uma linha reta. Uma linha que leva a marca de cada ano que passa. Assim, nós deixamos atrás de nós um trecho após outro. Nessa linha o ponteiro não se volta para onde estava antes.

Uma vez que as ações foram concretizadas nós não podemos neutralizá-las ou dizermos que vamos fazer tudo de novo amanhã. Em cada trecho dessa linha reta nós fizemos alguma coisa, nós escolhemos uma profissão, começamos uma amizade ou fizemos mal a alguém. Isso já se tornou parte do nosso passado. Gostaríamos de refazer muitas dessas coisas de outro jeito se pudéssemos voltar atrás, mas ninguém pode. É impossível. Nós só podemos ir para frente e levando conosco toda a bagagem do passado.

Deixem-me mudar de figura para explicar melhor porque vemos o tempo diferente. Vamos visualizar essa linha reta do tempo como um corredor comprido e cheio de portas. A cada Ano Novo nós abrimos uma porta nova daquele corredor. O problema é que não existe uma maçaneta do lado de dentro da porta. Não podemos voltar e abrir essa porta e entrar em outra porta qualquer e começar de novo como os ponteiros do relógio fazem. Mesmo que não queiramos admitir, todos sabemos que um dia aquele corredor terá um fim. No fim do corredor chegaremos à última porta, e então veremos que a linha circular do relógio não funciona nesse corredor, que o círculo do relógio não passa de uma ilusão ou de uma fantasia do ser humano.

O fim de cada um chega, o fim desse ano está chegando, e nós sentimos nessa hora o tempo de modo diferente. Sentimos que cada momento de nossa vida é precioso, cada momento é singular, e que cada momento nunca mais voltará. Sentimos que o tempo corre para frente e sentimos também que ele corre para um fim. Sentimos que somos finitos, mas carregamos sempre conosco esse conhecimento do fim sem percebermos. Sem estarmos conscientes do fato estamos sempre pensando na morte. E todos fazemos isso a toda hora através de frases curtas e corriqueiras, tais como: eu não tenho tempo, eu não posso agora, estou com pressa. (continua)



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Natal na Alemanha de 39 II

Cartão de Natal alemão
Maria e Jesus estão no centro de Natal, dando-lhe significado e santidade. Podemos pensar em algo maior do que honrar a maternidade? Nossos ancestrais chamam este feriado de "Noite de Santa Mãe", pois é a expressão de nossos sentimentos mais profundos. A cada ano, milhões de mães alemãs experimentam o milagre do nascimento. No Natal, honramos o amor, a maternidade, e a família.

No dia em que o sol renasce, acreditamos na vitória da verdade, bondade e beleza. Para nós, o Natal é verdadeiramente o festival do amor, o festival da comunidade do povo, e o festival da luz da alma alemã.

Cada família celebra o Natal da sua própria maneira. Nós não tentamos prescrever como deve ser feito. Para quem é possível tirar os filhos da paisagem rígida do inverno, na tarde de Natal, eles os levam para ver as sementes brotando sob a neve e as rosas de Natal que estão florescendo. Depois eles retornam para o calor de suas casas com os olhos brilhantes e felizes, bochechas rosadas, e ficam do lado de fora esperando o sino para tocar atrás da porta da sala. É o sinal de que podem entrar e ver a árvore de Natal. Novas surpresas são descobertas na árvore, e é difícil conseguir a atenção deles, pois ela centrou-se na cerimônia tranquila que é introduzido por uma canção. Não se pode negligenciar a canção "Oh árvore de Natal", nem a nova canção "Noite de claras estrelas." As crianças retribuem recitando um pequeno poema, para em seguida sentarem-se no colo de seus pais para ouvir a história do "pastor menino que se tornou rei", ou a história do "bebê no berço, nas montanhas”. Velhas e novas músicas soam se misturam mostrando os aspectos mais sensíveis da nossa natureza alemã.

Se os participantes forem todos adultos, um deles pode falar brevemente do ir e vir da Natureza, do ir e vir das luzes e das pessoas. Pode falar da batalha, do trabalho, da comunidade na construção de suas casas ou do silêncio da natureza. Ele pode falar dos pais, dos irmãos, ou ler uma carta de alguém que luta pela defesa da pátria. Eles devem sempre se lembrar daqueles que se sacrificaram pelo povo, e devem recordar também as mães deles, o quanto a sua dor serviu para preservar a vida de tantas pessoas. Nesse momento, todo mundo vai se orgulhar de grandes feitos do nosso povo, e graças à Providência por nos dar um Führer quando mais precisávamos dele. Ele foi aquele que nos ensinou a ver as leis que regem nossas vidas, que nos deu de volta a nossa honra e liberdade.

Em seguida, os presentes são trocados. Essa não é a parte mais importante dessa data, mas os presentes que são dados devem ser considerados com cuidado. Dar presentes nunca deve se tornar uma mera troca de mercadoria, mas se deve dar apenas presentes que são apropriados àquela pessoa, e que vão lhe trazer prazer e alegria. Manter o segredo sobre os presentes é uma tradição tão importante quanto as velas na árvore de Natal.

Quase toda família tem um membro convocado para o trabalho de apoio à guerra, ou mesmo para serviço militar que está distância de casa. Nesta noite, todos aqueles que podem retornar à sua casa o fazem, mesmo que demore um dia de viagem. Todo o esforço é válido para se comemorar o Natal em família. Se não for possível, vamos tentar fazer algo que minimize o problema. Em nossa literatura, temos lindas histórias de celebrações do Natal de alemães em terras estrangeiras ou em mares estrangeiros. Histórias que registram a saudade e o sacrifício daqueles que estão fazendo de um trabalho de vital importância na noite de Natal e, portanto, não podem se juntar às suas famílias.

Quando celebramos o Natal alemão, incluímos no círculo da família todos os que são de sangue alemão, e que afirmam sua etnia alemã, todos aqueles que vieram antes de nós e que virão depois de nós, todos aqueles a quem o destino não permitiu para viver dentro das fronteiras de nosso Reich, ou que estão fazendo o seu dever em terras estrangeiras, entre povos estrangeiros. Onde quer que os alemães vivam, seja na selva brasileira, sob o sol de África, nas alturas dos Cárpatos, ou em meio à confusão de Nova York, eles se voltam seus pensamentos para a terra natal na época do Natal. Seus olhos seguem as nuvens se movendo na direção do solo alemão. Seu desejo de voltar para a sua casa cresce, e suas memórias de infância voltar como eles recordam palavras alemãs de sua mãe. Assim, os laços entre os alemães de ambos os lados da fronteira vão crescer ainda mais fortes. Para encerrar a celebração da véspera do Natal, o ministro do Reich, Rudolf Hess, fala pelo rádio aos companheiros mais distantes, dizendo que a pátria nunca vai esquecê-los, que eles pertencem à grande família alemã, que ela voltou a aumentar e que tem um grande futuro.

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Natal na Alemanha de 39 I

Propaganda nazista durante a II Guerra
O solstício de inverno
A celebração comunitária de Natal real, que não pode realizar este ano, devido às exigências da guerra, é o solstício de inverno.

Por muitos tem sido uma parte de nossas celebrações de Natal que já não pode ser celebrado sem ele. Ele deve de modo algum substituir a celebração do Natal dentro da família. Este antigo costume de nossos antepassados deve aprofundá-lo e enriquecê-lo. A celebração do solstício de inverno não é uma questão para as organizações partidárias, mas sim uma questão de todo o povo. A comunidade deve participar na celebração do solstício de inverno, no entanto, os eventos serão diferentes de lugar para lugar. Em lugares menores, toda a comunidade da aldeia pode reunir em torno de um fogo. Nas grandes cidades, tem que ser feito por grupos locais, ou até mesmo por organizações específicas. A experiência da comunidade, em tais casos, é mantida por acender o fogo, ao mesmo tempo, e por voltar a um local de encontro central para uma reunião da comunidade. As tochas vêm isoladamente, mas devem ser jogadas no fogo comunitário. Esse fogo deverá ser mantido aceso até 24 de Dezembro. Em 24 de dezembro, as famílias devem acender uma vela nesse fogo e usá-la para acender as velas da árvore de Natal em casa. Este costume parece bem adequado, pois significa o crescimento da comunidade e da centelha da visão de mundo que o Führer acedeu em nossos corações.


O fogo solstício de inverno todos os anos leva milhões de alemães à floresta de inverno para forja-los fortemente juntos em uma unidade inabalável. E o fogo solstício sempre foi um proclamador de germanismo ao longo de nossas fronteiras. No passado, o fogo solstício nunca foi um fogo sacrificial a uma espécie de ser divino. Era sempre uma lembrança, um símbolo, uma afirmação do nosso povo às leis eternas da vida. Queimava em momentos de provação e em tempos de alegria. Ele foi aceso em 1813 durante as guerras de libertação, e pelo movimento da juventude antes da guerra. Afastou-se de vez do estábulo de Belém e das canções de Hosana ao Filho de Davi. Friedrich Ludwig Jahn descreveu com as seguintes palavras:
Enquanto nosso povo permanece fiel aos costumes de seus pais, enquanto as chamas queimam a partir do topo das montanhas no solstício do verão e do campo no solstício do inverno, tanto mais vai brilhar a chama do entusiasmo que vai explodir em chamas quando as pessoas mais precisarem dele, a chama em que os traidores, encrenqueiros e mentirosos que ameaçam o nosso povo vai reconhecer em seu fim merecido.

O costume se desenvolveu para lembrar os mortos da guerra quando eram jogadas as coroas no fogo. Durante vários anos, a SS organizou um festival de danças onde a força e a virilidade ressaltavam. A última parte da marcha para o local do incêndio é silenciosa. O discurso no local do incêndio deve ser breve e convincente. Ele deve ser um apelo à ação, e não simplesmente uma declaração de que os nossos antepassados. A experiência das chamas altas, das estrelas de inverno, e da paisagem alemã coberto de neve significam para nós bem mais do que as palavras.

O Natal na família alemã
Para nós alemães, o ponto alto da véspera de Natal são as velas acesas na árvore dentro do círculo de familiares e parentes. Quatro semanas antes, é acesa a guirlanda de Natal com suas quatro velas vermelhas. No dia de Ruprecht, 6 de dezembro, Papai Noel vem para as crianças. A partir de então não há ruído e nem música durante longos dias, as pessoas fazem pequenos presentes. As crianças pequenas assistem tudo o que acontece durante estes dias. Uma mãe dificilmente saberia responder a todas as suas perguntas, mas repetidamente ela fala sobre o Papai Noel e os seus ajudantes, os elfos e anões, de Frau Holle, a partir de contos de fadas de Grimm, Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, de Hansel e Gretel e todos os outros. O Natal é um momento para nossos filhos ouvirem contos de fadas. 

Quando raiar o dia, os filhos, com olhos brilhantes, serão mais agradecidos e mais amorosos com seus pais, e a mãe vê que todo o trabalho e amor que ela colocou na preparação da festa foram recompensados. Afinal, o que é o Natal sem as crianças, o que é a vida sem o sacrifício que uma geração faz para a outra? 
(Compilado de um texto da época)
(continua)

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De graça recebei, de graça dai

Podemos muito bem dizer que existem apenas duas religiões no mundo: a que o homem se move em direção a Deus, e aquela em que Deus se move em direção ao homem. Ambas são ao mesmo tempo correntes e influentes. Ambas podem ser encontradas em quase todos os credos, como também nas subdivisões desses credos. Ambas reivindicam para a exclusividade de ser a verdadeira e única religião.
O Jovem, Hans Holbein (1497-1543)
Ao ver essa acirrada disputa pela hegemonia, o homem que ainda não professa uma religião não tem, de forma alguma, como dar crédito a qualquer um dos lados. Indecisos, do mesmo modo, permanecem aqueles que estão dando os primeiros passos na fé, pois os argumentos de que se valem ambos os lados são complexos e inconclusivos. É aqui que entram as teses do Arminianismo, do Calvinismo, do Pelagianismo, entre outras, que são parte integrante das grandes discussões teológicas através dos séculos.

Temos que admitir que não são, como muitos pensam, completamente infrutíferas e inócuas. Foram essas questões que mantiveram a integridade da fé, principalmente da fé cristã, em situações de extremo perigo. Então, como decidir por uma ou por outra? Diante de uma pergunta fundamental como essa podemos pensar na possibilidade de existir uma realidade em que ambas possam ser estágios ou fases diferentes de uma mesma religião. Algo como Jesus definiu muito bem como porta e caminho. A primeira seria a festa para receber o filho pródigo que volta depois de muito tempo perdido. A segunda, o dia seguinte da festa, onde todas as coisas voltam ao seu cotidiano. Poderíamos muito bem dizer que a primeira fase é aquela em que Deus se move em direção ao homem.

Jesus por mais de uma vez afirmou, e o fez com todas as letras, que não veio para buscar os sãos, mas os doentes; que não veio para os justos, mas para os pecadores; que a sua busca era pelo perdido, e não pelo salvo. A porta de entrada sempre escancarada, os braços sempre abertos e a aceitação incondicional são as características principais desta fase. Paulo, o apóstolo reconhecia: I Tm 1.15 - Fiel é a palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal.

Contudo, fica a pergunta: em que momento da vida devemos ter a consciência de que atingimos o segundo estágio? Se no primeiro Deus se moveu em nossa direção, como e quando precisaremos ir em direção a ele? Primeiramente devemos saber que não há como determinar um tempo exato, pois ele se apresenta de forma diferente para cada um de nós. O famoso teólogo do século passado Paul Tillich sempre colocou esse tempo num futuro incerto. Não pergunte pelo seu nome agora; talvez você descubra mais tarde. Não tente fazer coisa alguma agora; talvez mais tarde você faça bastante. Não busque nada, não realize nada, não planeje nada. Simplesmente aceite o fato de que você é aceito. Dizia ele. Mas nunca negou o fato de que este é apenas o começo de um relacionamento sério e produtivo com Deus.

Isso é muito bom, mas nos deixa diante de um enorme problema, pois se a tônica do primeiro estágio é a alegria, a do segundo estágio é a negação, porque ninguém em sã consciência aprova ou gosta do plano que Deus tem para a sua vida. O dia seguinte, conhecido também como a caminhada da fé está repleto de negações e renúncias. Nele temos que fazer as escolhas mais difíceis das nossas vidas: e escolha entre o bem e o bem. A terrível escolha entre duas opções igualmente boas. A escolha que determina qual das duas bênçãos teremos que abrir mão.

A primeira fase da fé é o consolo e a aceitação irrestrita do pecador mais convicto: vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados, que eu vos aliviarei. A segunda fase, ou o outro lado da moeda é a pregação profética que, em nome de Deus, denuncia a iniquidade instalada em nosso mundo: à medida que seguirdes, pregai que está próximo o reino dos céus. Curai enfermos, ressuscitai mortos, purificai leprosos, expeli demônios; de graça recebestes, de graça dai. Essa é a ordem dada por Jesus, mas se quisermos responder positivamente todos os desafios mais cruciais do evangelho teremos que olhar com mais atenção a profecia de Elias, que diz: Até quando coxeareis entre dois pensamentos? Se o SENHOR é Deus, segui-o; se é Baal, segui-o. Porém o povo nada lhe respondeu.

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A fita de Moebius Blackfriday

Rogo-vos, irmãos, que noteis bem aqueles que provocam divisões e escândalos, em desacordo com a doutrina que aprendestes; afastai-vos deles, porque esses tais não servem a Cristo, nosso Senhor, e sim a seu próprio ventre; e, com suaves palavras e lisonjas, enganam o coração dos incautos. Romanos 16.17s
Fita de Moebius
A fita de Moebius foi uma descoberta independente dos matemáticos alemães August Ferdinand Möbius e Johann Benedict Listing que em 1858 a apresentaram como um enigma insolúvel. Basicamente ela é uma fita que quando as duas pontas se unem perde totalmente as suas características, e estranhamente passa a ter apenas um lado. Isso mesmo. Qualquer convicção de que se tenha visualmente da existência dos dois lados, é derrubada quando um dos supostos lados é percorrido continuamente e se verifica que de fato ela tem apenas um lado. Ou seja, podemos até ver os dois lados, mas a verdade é que só existe um.

Lembrei-me deste fenômeno matemático quando avaliava os efeitos do blackfriday tupiniquim que aconteceu na semana próxima passada em nosso país. Pude ver claramente, neste simples e glorioso evento, o quanto somos tentados e engodados pela enganação da mídia e dos grandes conglomerados. Pude perceber também o quão inocentemente nos sensibilizamos aos apelos de um fato histórico, sem que com ele tenhamos qualquer relação ou mesmo o mais sutil conhecimento.

Assim como nos EUA e no Canadá, o nosso blackfriday aconteceu no dia seguinte ao Dia Nacional de Ação de Graças, mas com impactos e propósitos totalmente diferentes. O blackfridey americano foi criado para ser uma resposta dos homens e mulheres de negócio à data festiva que relembra a vitória heroica dos peregrinos contra as intempéries da Nova Inglaterra, que nesse dia, não como indivíduos, mas como nação, agradeceram a uma consciência mais elevada que os inspirou e os amparou nessa luta. Lá as mercadorias têm seu preço, e, consequentemente, o lucro reduzido porque a consciência da quase necessidade de gratidão toma conta daquela nação. Convém lembrar que foi uma vitória obtida pela união de colonos e índios que professavam diferentes credos. Ou seja, lá é uma comemoração suprarreligiosa.

Bom, e aqui? Qual é o apelo? Qual é a motivação da data? O que estamos comemorando? A quem somos agradecidos? É triste notar que, na contramão de outras festividades importadas, como recentemente o Haloween, que a cada ano ganha mais vulto e adeptos, o nosso Dia Nacional de Ação de Graças ano após ano tem perdido mais significado e mais celebrantes, inclusive nas igrejas protestantes tradicionais.

Desse nosso relaxamento a mídia soube se aproveitar muito bem. Imediatamente percebeu a oportunidade de transformar essa data de reflexão e gratidão em mais boom para alavancar as suas vendas. Foi fácil demais nos enganar. Deixamos de ir às igrejas no Dia Nacional de Ação de Graças, para acordarmos cedo, e estarmos de prontidão antes das grandes lojas abrirem as suas portas.

Não vou nem entrar na questão dos falsos descontos, mesmo porque, como bem disse o apóstolo Paulo: esses tais não servem a Cristo, nosso Senhor, e sim a seu próprio ventre. Eles não têm qualquer motivo para reduzirem seus lucros, e a sua gratidão esta intrinsecamente ao aumento das vendas, visto que junto com o espantoso aumento de 95% nas vendas veio também um aumento exponencialmente maior das reclamações e denúncias. O que se podia esperar?

Paulo na Carta aos Coríntios diz: Assim, pois, importa que os homens nos considerem como ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus. Ora, além disso, o que se requer dos despenseiros é que cada um deles seja encontrado fiel. A fita de Moebius tem a muito a nos ensinar nessa hora. Por mais que a igreja se veja caminhando ao lado de Cristo, e sinta que caminha do lado oposto ao que o mundo caminha, a história insiste em nos fazer ver que caminhamos do mesmo lado que ele, o mundo. No frigir dos ovos vamos perceber com surpresa que seguimos exatamente os seus propósitos e somos totalmente sensíveis aos seus apelos. 

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Ação de graças II

Regozijai-vos sempre. Orai sem cessar. Em tudo, dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco. I Tessalonicenses 5.16-18
Guerra civil americana, George Caleb Bingham (1811-1879)
Quais são as alegrias dessa vida? Algumas pessoas que já chegaram à chamada idade da razão dizem que para alcançar a felicidade precisamos apreciar mais a vida. Mas qual seria o gozo de vida que nem o tempo pode tirar ou sequer diminuir? Esses idosos tem certa razão, porque passamos avisa ansiosos demais, preocupados com tudo. Não temos tempo nem para apreciar as coisas que nos fazem bem. Antes de ir à Flórida pela primeira vez, imaginava que lá era o Paraíso. Que decepção! A Flórida é a terra das viúvas ricas. Das viúvas cujos maridos morreram do coração pela preocupação única de acumularem riquezas.


A vida é preciosa demais para perdê-la para um ataque de coração. Vejam o que disse um homem que, depois de um infarto que quase o matou, descobriu uma nova dimensão de vida: Depois eu fui dominado completamente por um senso de vida vigorosa que eu não conhecia antes. Eu vi tudo de novo. No leito do hospital olhei para as minhas mãos e pela primeira vez reparei como elas eram magníficas. Daí para frente, cada objeto que eu via me jogava numa experiência nova e notável. Quando vi o vento aplainar o capim alto do jardim vi algo muito mais além do que o resultado lógico das leis da natureza. E eu que iria morrer de uma causa tão comum que quase ninguém mais hoje em dia se espanta. Mas agora eu vivo espantado com cada coisa mínima que meus olhos veem, pois elas se tornaram um dom especial de Deus que trazem lágrimas aos meus olhos.

A beleza desse mundo criado por Deus, seus sons, suas cores, os nossos relacionamentos e sentimentos são retornos extraordinários que jamais podemos tomar por comuns. Apesar disso, são poucos os que são realmente gratos a Deus por viverem nesse mundo. Como é conosco? Somos pessoas que simplesmente veem o mundo como uma sucessão natural de fatos ou como maravilhas da criação de Deus?

Em terceiro lugar. Damos graças a Deus não somente porque ele nos desafia a possuir novamente o espírito de surpresa e entusiasmo de uma criança, e não somente porque possuímos o gozo de vida nesse mundo. Mas damos graças a Deus porque temos recebido o dom da fé e um coração confiante. É isso que propicia as ações de graça anteriores. Mas só é possível a fé que possuímos e o coração confiante que temos porque temos sido amados por Deus e temos sido amados pelos outros. Esta é a boa notícia do evangelho: somos amados por Deus. Nós amamos uns aos outros como somos porque temos sido amados por Deus a despeito do que somos.

Certa vez uma mulher destruiu o carro do marido num acidente. Ao abrir o documento do veículo encontrou uma nota escrita por ele, que dizia: não importa, é você que eu amo. E é exatamente isso que Deus está nos dizendo: não importa o quanto você tem destruído a sua vida, não importa o quanto temos falhado, não importa o quanto o temos decepcionado, como também não importa o quanto temos acumulamos de sucessos e riquezas. Você está recebendo todo o amor, estamos todo recebendo toda a misericórdia, estamos recebendo todo o perdão daquele que entregou o seu próprio Filho, para que vocês tenham vida plena. Deus mandou seu Filho para salvar o mundo e não para julgá-lo. Que diferença isso faz. Ele não quer punir ninguém, ele não está bravo com ninguém, ele não quer excluir ninguém, ele não quer mandar ninguém para o inferno. Ele quer nos perdoar, aceitar e amar.

Por isso é que o Dia de Ação de Graças não pode ser assim tão especial para nós. Ele deve apenas coroar todos os dias que somos gratos a Deus por todas as coisas, inclusive pela oportunidade que temos de sermos gratos.

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Ação de graças I

Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos? Porque os gentios é que procuram todas estas coisas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas; buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Mateus 6;31ss

Olhai os lírios do campo, Tiffany Studio, 1910
A tragédia maior da vida não é a falta de saúde, de dinheiro ou de beleza. Não é a falta de grandes habilidades, o desapontamento com o casamento ou o emprego cansativo. Por mais dolorosas que essas coisas sejam, a tragédia maior da vida ainda é outra: é o desaparecimento gradual da visão que tínhamos na juventude. É a morte daquele espírito de surpresa e entusiasmo que possuíamos quando criança. A mágoa que toma conta da gente é a morte daquele gozo profundo no mundo e na vida. É a morte do coração puro, da fé confiante, da alegria divina que efervescia dentro de nós.”

Acabei de transcrever o que um autor desconhecido escreveu, e o que penso ser bastante negativo. Ainda sob o impacto da celebração do Dia Nacional de Ação de Graças, eu gostaria de usar o pessimismo dessa pessoa para confirmar o ato de gratidão que nós, os cristãos protestantes, celebraram no culto de ontem à noite. Primeiramente damos graças a Deus porque a fé cristã nos desafia a possuir o espírito de surpresa e entusiasmo que tínhamos quando criança.

A criança é um ser espetacular. Para ela a vida é um jogo, e um jogo interminável. Rapidamente o tapete vira um barco, a cadeira se transforma numa fortaleza, e tudo acontece numa viagem de fantasia e pretensão. Quem já teve a oportunidade de andar com uma criança na rua por um tempo sabe bem disso, mas sabe também que é preciso muita paciência e tempo. O caminho pode não ser longo, mas vai levar mais tempo que o normal, pois ela para para ver uma formiga, para pegar uma flor para nos mostrar, e se tiver uma poça d’água então, não sairemos dali enquanto ela não pular de um lado para o outro pelo menos umas 10 vezes. Crianças são naturais com suas professoras, com suas amigas e com todo mundo. Elas relatam para qualquer um a conversa mais íntima que a família jamais se pensou que seria revelada em público. Elas não aprenderam como escamotear os fatos nem a fingirem que eles não aconteceram.

Jesus disse que devemos aprender com elas, pois somos sérios demais. Estamos sendo consumidos pelas responsabilidades. Já nos esquecemos de como é bom dar uma boa gargalhada, de como assobiar uma música que gostamos, de rir de nós mesmos quando erramos. Um pastor que era muito criticado pela sua maneira de brincar com tudo. No meio da mensagem mais dura, quando falava sobre a teologia mais séria, ele fazia sempre uma piada. Igual a todos que são assim, criou inimigos ferrenhos. Se ele fosse levar a sério as críticas que recebi teria que abandonar de vez o seu ministério. Certa vez, um dos seus críticos lhe escreveu uma carta que estava escrito somente a palavra idiota. No domingo seguinte ele falou à igreja sobre a carta sem dizer o conteúdo dela. Disse apenas: recebi esta semana uma carta diferente de todas as outras. Já recebi cartas em que os autores escreveram o texto, mas se esqueceram de assinar seus nomes. Nessa, o autor se esqueceu de escrever o texto. Assinou apenas o seu nome. Vou deixá-la aqui para que ele a conserte. Esse é o espírito que de uma criança. Assim ela agiria nessa situação.

Em segundo lugar agradecemos a Deus por esse nosso mundo. Está certo que ele tem muita coisa nessa vida que eu não gosto. Existe muita coisa que eu detesto. Mas mesmo assim, após as várias tentativas frustradas de melhorá-lo, eu agradeço por estar vivo. É glorioso viver. É bom levantar todo dia e reconhecer que Deus está conosco. Eu estou cada vez mais convicto de que a marca maior do Cristianismo é a alegria da comunhão. Quando vocês me virem de cara feia e emburrada podem ter a certeza de que minha fé está em baixa. A prova de que eu estou bem com Deus e com os outros é a alegria.

A coluna aberta de um jornal apresentou a seguinte carta de uma adolescente: a felicidade está no conhecimento de que seus pais não vão lhe matar se você chegar em casa tarde. A felicidade está em ter o seu próprio quarto. A felicidade está na confiança que seus pais têm em você. A felicidade está em receber aquele telefonema que você estava esperando tanto. A felicidade está em ter pais que não brigam. A felicidade é algo que eu não tenho. E a assinou assim: quinze anos e infeliz. Mais interessante ainda foi a resposta que apareceu pouco tempo depois nesse mesmo jornal: a felicidade está na capacidade de andar, e está no poder de ver. A felicidade está na capacidade de falar e no poder de ouvir. A infelicidade está na carta de uma moça que pode fazer todas essas coisas e ainda diz que é infeliz. Eu posso falar, eu posso ver, eu posso ouvir, mas eu não posso andar. E a assinatura foi a seguinte: treze anos e feliz. (continua)

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Não colocarás Deus à prova

Respondeu-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor, teu Deus. Mateus 4.10
A tentação de Cristo, Botticelli em 1498
Através de uma leitura subliminar podemos considerar que a primeira tentação de Jesus não foi exatamente a de transformar pedras em pão para saciar a sua fome, mas sim a de colocar Deus a prova: Mt 4.3 - Então, o tentador, aproximando-se, lhe disse: Se és Filho de Deus... E não foi a única vez, pois essa foi uma tentação que o acompanhou até os seus últimos instantes. Em alguns momentos cruciais da sua vida ela esteve presente, assim como no desfecho das maldosas palavras do ladrão na cruz: Lc 23.39 - Um dos malfeitores crucificados blasfemava contra ele, dizendo: Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós também. A este podemos juntar os soldados romanos, os sacerdotes e fariseus e a população de Jerusalém.

O desejo velado de ter uma prova física é algo que está sempre presente na nossa relação com Deus. Quem não é aquele que gostaria de ver as suas orações respondidas de imediato? Esse desejo pode fazer com que interpretemos passagens do Primeiro Testamento, como a luta de Jacó com o anjo narrada em Gn 32, e a prova do chumaço de lã requerida por Gideão em Jz 6 como regras de conduta definitivas de Deus.  Contudo, esse desejo não correspondido pode levar muita gente a duvidar da existência ou da providência de Deus em um grau acentuado de vezes, quando não faz as pessoas trocarem de igreja por duvidarem que Deus esteja presente e atuante naquele local.

Outros tantos subvertem o verdadeiro sentido da profecia de Malaquias fazendo com que suas palavras especificamente dirigidas a um contexto sejam aplicadas em toda e qualquer situação: Ml 3.10 - Trazei todos os dízimos à casa do Tesouro, para que haja mantimento na minha casa; e provai-me nisto, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu e não derramar sobre vós bênção sem medida.

Também está escrito: Não tentarás o Senhor, teu Deus. Que foi Jesus quem disse, todos sabemos, mas onde está escrito isso? Em que contexto? A que situações se aplica? De onde ele desencavou tão controvertida afirmação?

Pelo que se pode conferir, a expressão foi retirada do episódio bíblico descrito em Gn 17 e que ficou conhecido como “as águas de Meribá”. Uma narrativa que mostra onde pecado coletivo do povo se junta ao pecado individual do seu líder, Moisés, causando consequências terríveis a todos. Um episódio que se estabeleceu como um alerta dessa transgressão para todas as gerações futuras.

Aqui temos um exemplo de como esse pecado pode atingir em cheio a igreja de hoje. Temos aqui um ensinamento claro de como um simples e aparentemente inocente pedido pode alavancar todo um processo de iniquidade. O povo no deserto pedia uma prova. Para isso não ousava dirigir-se diretamente a Deus, mas a Moisés, seu representante. Por um momento de aflição, o povo passou a questionar toda obra de Deus desde que saíram do Egito. O mesmo povo que foi tirado com mão poderosa da escravidão de Faraó, que viu o mar se abrir e se fechar diante dele, que foi sustentado pelo maná e guiado pela nuvem no deserto, estava sucumbindo à tentação de querer ver o seu desejo realizado de imediato. Transformaram um breve e fugaz momento de incerteza na prova decisiva da presença e da providência de Deus.

Na outra ponta temos o salvador da pátria. O líder religioso que se prontifica a ser a solução de toda a questão. Antes demais nada, ele se isenta da responsabilidade quanto ao resultado, para poder assim legislar soberano. Depois, toma sobre si o poder, fazendo crer que as águas brotaram da pedra pela sua própria capacidade de realizar milagres.

Quando deixamos de colocar o único e soberano Deus como o centro das nossas vidas sujeitando a ele todas as coisas, caímos fatalmente nesse pecado. O pecado de fazer valer mais uma situação do que toda uma existência. Esse mal nos enfraquece a ponto de nos deixar levar pelos oportunistas da fé, que estão sempre de plantão para se beneficiar de qualquer vacilo da nossa fé.

Não colocar Deus à prova não é somente uma atitude de reverência e respeito. É antes de tudo uma afirmação consistente de que a nossa fé atingiu a maturidade suficiente para sobreviver a muitos infortúnios. 

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Muitas são as aflições do justo

Muitas são as aflições do justo, mas o SENHOR de todas o livra. Salmo 34.19

Jesus chorou, Tissot em 1886
Todas as vezes que acontece uma calamidade neste nosso planeta a pergunta recorrente é: por que Deus permite que coisas assim aconteçam? Não poderia esperar que fosse diferente pelo resultado catastrófico que causou o furacão Haiyan nas Filipinas, em que somente numa cidade ceifou mais de dez mil vidas.

No que tange a nossa fé, esta é a hora que o mundo cristão precisa ter respostas suficientes para dar aos vários segmentos envolvidos, além de ter que responder íntima e honestamente esta mesma pergunta para si. Sem qualquer pretensão de formular um manual prático, gostaria de tentar entender o que se passa na mente e no coração das pessoas que, a partir de diferentes pontos de vista, analisam esta sucessão de mortes injustificáveis sob qualquer ponto de vista.

Primeiramente queria me referir aos ateus, a quem dedico um profundo respeito, pois no início da nossa história, como igreja, também fomos assim chamados, e devemos nos orgulhar muito disso. Estes podem se permitir ter sensações a partir de uma resposta mais imediata e definitiva. Assim me disse um ateu ainda ontem: não foi Deus quem fez isso, porque nunca é Deus. Neste caso, a nossa resposta não deve ser de forma alguma defensiva. Nós não fomos nomeados defensores de Deus, e muito menos guardiões da sua Palavra. Fomos escolhidos para sermos suas testemunhas, para testemunhar o que ele fez e continua fazendo em nossas vidas. Para isso, não precisamos fazê-los crer em Deus, e sim que creiam que estamos todos envolvidos de corpo e alma nessa tragédia, e que ela nos afeta profundamente. Precisamos fazê-los entender também que nossa fé não contempla permanentemente razões que expliquem situações como essa. A hora é de condolência e não de caçar culpados.

Em segundo lugar, me dirijo aos cristãos de modo geral, que agora se encontram atônitos se perguntando o que fazer. Este é o exato momento de fazer valer o que a fé nos ensina: quem tem alimento, divida com quem não tem; quem tem duas túnicas, dê uma a quem não tem nenhuma. A solidariedade expressa em termos práticos e eficazes. Mas nos compete também um segundo momento. A urgência de enfrentar um sistema que obriga a um terço da população mundial a viver em situações sub-humanas.

Precisamos deixar de lado, assim como fez o Papa do Aquecimento Global, a ideia de que temos capacidade de interferir na natureza, a ponto de sermos os causadores de tragédias como essa. Esses são fenômenos naturais que acontecem de tempos em tempos, e não temos como prevê-los e não podemos evitá-los. Mas podemos fazer com que pessoas não vivam em rota de colisão com eles. A nossa atitude, tanto nos púlpitos como nas relações pessoais, deve ser a mesma que Jesus teve quando viveu as calamidades do seu tempo: não sou culpado e nem inocente, mas tenho que arcar com as minhas responsabilidades.

Um terceiro grupo merece também consideração. Aqueles que entendem que foi realmente Deus o causador. Eu diria que este é o grupo mais difícil de se lidar. Este é o complexo de culpa mais subliminar que existe. Podem ter a certeza de que nesta hora eles estão procurando alguma culpa no povo filipino que justifique este castigo tão traumático. Essas pessoas agem dessa forma com as outras, porque agem assim consigo mesmas. Quando algo ruim as acontece, vasculham o mais sombrio recanto de sua alma para descobrir a ação ou a omissão que o arrastou ao mal. É muito difícil fazer ver a essas pessoas que coisas ruins podem acontecer a pessoas boas, da mesma forma que coisas boas acontecem a pessoas más. Esses precisam da conversão que foi oferecida por Jesus a Pedro, após esse o ter negado três vezes: você errou e errou muito, mas você é um erro, você é filho de Deus amado e aceito sob qualquer circunstância.

Finalmente, quero dar uma resposta a mim mesmo. Veio a memória uma situação pela qual passou o meu saudoso amigo João Wesley Dornellas. Em um momento crítico e desesperador da sua vida profissional, ele foi tomado por um fio de esperança. Uma esperança que lamentavelmente acabou não se cumprindo. Nessa exata hora ele se lembrou do versículo 19 do salmo 34, que diz: Muitas são as aflições do justo, mas o SENHOR de todas o livra. Na sua mente absolutamente privada de uma resposta minimamente satisfatória, ele pensou: Se eu não fui livrado da aflição, é porque elas ainda não chegaram ao fim. Quando elas chegarem ao fim, com certeza, Deus me livrará.

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Vinho novo III

Bodas de Caná, J.S. von Carolsfeld (1794-1872)
Outro motivo pelo qual a igreja tem a tendência de guardar o velho é que nós não temos o absoluto para capturar e guiar a nossa imaginação. Não temos o absoluto que concentre e objetive as nossas energias. O resultado disso é uma igreja que permanece século após século, geração após geração, caminhando cada vez mais longe da realidade, cada vez mais distante da sua vocação.

A nossa realidade é que hoje somos uma igreja sem propósito. Como Jesus observou em certa ocasião ao ver a multidão que o seguia pelos seus milagres, pelas suas curas e pela imensa misericórdia que demonstrava, principalmente com aqueles que se sentiam mais alijado do sistema. O seguiam cegamente sem ter sequer a convicção de quem ele realmente era: um imenso rebanho de ovelhas que não têm pastor.

Nas igrejas de governo episcopal, aquelas em que os pastores são nomeados por um bispo em um concílio segundo a necessidade da igreja e a aptidão do pastor, há pouco tempo atrás os pastores não sentiam tanto o problema de ter que agradar aqueles que contribuíam mais, porque a sua nomeação não dependia deles. Agora já não é bem assim. Outros fatores, como a conveniência dos bispos e a sua preservação no cargo tem falado mais alto do que a missão da igreja. Mas aquelas igrejas de governo congregacional, em que o pastor no fim de um período tem que negociar a sua permanência, esse problema se torna muito mais acentuado. Com que idoneidade um pastor iria proclamar a necessidade que a igreja tem de deixar de lado o vinho velho, amadurecido e elaborado, e comprovadamente mais gostoso, para ficar coma a acidez e a incerteza do vinho novo?

Por todas essas coisas nós ficamos perdidos sem termos a convicção de que o nosso trabalho está de acordo com o nosso chamado. Sem termos a certeza de que somos colaboradores efetivos do Reino de Deus. Qual é o absoluto que nós podemos afirmar, proclamar, dedicar, crer, sair da comodidade, deixar tudo e seguir? Isso deve ser a maior barreira impedindo a nossa emancipação espiritual. Na entrada de um acampamento usado para o retiro espiritual de jovens cristãos havia uma placa que dizia o seguinte: um quilômetro mais perto do céu. Certo jovem que saiu de lá e após ficar transtornado ao se deparar com a miséria e o descaso em que os pobres da vizinhança daquele acampamento viviam, voltou lá e reescreveu a placa da entrada com o seguinte texto: um quilômetro mais longe da terra.

Nenhum cristão pode dizer que foi enganado. Jesus Cristo nos preveniu bastante de como seria a vida daqueles decidissem segui-lo. Ele falou claramente que iríamos enfrentar com imensas desvantagens os atributos mais que apreciáveis do vinho velho. Ele falou abertamente que as pessoas iriam sempre optar pelas coisas antigas, pelo modos operandi da sociedade, pelo modosoperandi da igreja tal como elas sempre foram. Uma observação: se as pessoas da igreja e o mundo em geral estiverem aceitando passiva e alegremente o vinho novo que estamos servindo, com certeza não é porque somos melhores pregadores e pessoas mais consagradas do que os profetas,  apóstolos e mártires que sofreram as consequências da sua mensagem renovadora. Deve ser porque o nosso vinho já não está mais tão novo assim.

Isaac Newton nos deixou algumas leis da cinemática, a ciência que estuda o movimento. Dentre elas, essa: corpos inativos têm a tendência de permanecerem inativos. Corpos inativos eclesiásticos, como a igreja, tem essa tendência em uma escala muito maior.

Qual é o nosso assunto comum? Parece que algumas pessoas vão à igreja somente para nos encarar enquanto estamos pregando com essa pergunta estampada no rosto; não, não se fala mais desse jeito. Com esta pergunta tatuada na testa: qual é o assunto? Qual é a coisa única em que podemos afirmar: é este o assunto. Qual é o absoluto que tem que ser a nossa imagem, que tem que nos identificar independentemente da denominação, e que deve concentrar todas as nossas energias? É nada mais, nada menos do que o amor de Deus revelado na pessoa de Jesus Cristo. É este o vinho novo. Esta é nossa resposta ao evangelho e a nossa resposta às necessidades desse mundo. Ninguém põe vinho novo em odres velhos, pois o vinho novo romperá os odres; entornar-se-á o vinho, e os odres se estragarão. Pelo contrário, vinho novo deve ser posto em odres novos e ambos se conservam.

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