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S. Sebastião enganou a morte

S. Sebastião denuncia a peste, Josse Lieferinxe
Se existe um personagem na história da Igreja Cristã cuja vida pode ser chamada de curiosa e a morte de mais curiosa ainda, este deve ter o nome de Sebastião de Narbonne, conhecido pelos cariocas pelo nome de São Sebastião, o santo que emprestou o nome à cidade do Rio de Janeiro e a mais de uma dezena de cidades pelo mundo. Muito embora existam algumas versões que possuem divergências entre si, principalmente no que diz respeito à sua morte ao ser alvejado por várias flechadas, os fatos que se têm consenso já são suficientes para colocá-lo na honrosa galeria dos cristãos heróis da fé.

Nascido nos anos de 260, na Gália, assim como seus pais era reconhecido como natural de Milão, pois foi esta a cidade onde passou a maior parte da sua infância e juventude. Cidadão romano com todos os direitos de nascimento, desde muito cedo se tornou um cristão fervoroso e fiel. Era reconhecidamente avesso ao serviço e as práticas militares, muito disso por conta de sua fé em Cristo. Em 283 alistou-se no exército romano do imperador Marcus Aurelius Carino, para que pudesse prestar socorro e consolar os cristãos confessos e condenados em seu martírio de modo a não levantar suspeitas.

Sua camuflagem foi descoberta quando o insistentemente clamor pelos irmãos gêmeos diáconos Marcus e Marcelino, que ameaçavam apostatar da fé, não pôde mais ser mantido em segredo. O então imperador Diocleciano, famoso por sua perseguição cruel e sangrenta aos cristãos, por essa suposta traição ordenou que ele fosse flechado pelos arqueiros mauritanos com quantas flechas fossem necessárias, até que sua morte fosse consumada. Dado finalmente como morto, com seu corpo praticamente coberto de flechas, e esta é a imagem que até hoje se guardou dele. Foi recolhido para o sepultamento pela viúva de Castullus, a venerada santa católica Irene de Roma. Quando Irene descobriu que milagrosamente São Sebastião sobrevivera ao horrendo martírio, tratou dele até que recobrasse plenamente a sua saúde, como o risco de ser também condenada por ocultar e favorecer um criminoso.

Seu ministério não terminou aí. A partir de então como civil empenhou-se de corpo e alma em uma campanha denunciatória contra o descaso com que as autoridades romanas trataram o problema da peste que afligiu os lombardos na província de Paiva. Este seus atos foram relatados ao imperador Diocleciano, que mesmo estupefato ordenou que fosse morto a golpes de porrete, decapitado e seu corpo jogado em uma sarjeta.

Seu martírio foi detalhadamente descrito no sermão de número 22 do inquestionável bispo Ambrósio, pregado no século IV, em que, numa reflexão profunda sobre o salmo 118 evidencia este e outros atos heroicos de São Sebastião.

Sebastião também foi justamente homenageado na Legenda Áurea, conhecida também como Legenda Sanctorum. Uma obra de grafismos e hagiógrafos de Jacobus de Voragine, que nos anos de 1260 transcreveu em figuras os atos dos grandes santos da igreja. Este bestseller medieval foi compilado e alterado ao logo dos séculos. Nos primeiros anos seguintes à descoberta da imprensa, foi mais editado que a própria Bíblia.

São Sebastião é reconhecido pelos católicos de hoje como o santo padroeiro dos atletas, dos soldados arqueiros e o mais lembrado quando há disseminação de epidemias ou de doenças contagiosas. A intolerância religiosa contra São Sebastião, no entanto, não se extinguiu com Diocleciano. Quando os calvinistas saquearam o seu santuário em 1564, espalharam seus ossos pelas ruas e valas da cidade. Talvez fosse justamente por essa sequência absurda de perseguições que São Sebastião tivesse se tornado um dos mais venerados santos das Igrejas Católicas e Ortodoxas no mundo inteiro.

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A pretensão masculina

Um dia o seu marido Elcana lhe perguntou: - Ana, por que você está chorando? Por que não come? Por que está sempre triste? Por acaso, eu não sou melhor para você do que dez filhos? I Sm 1.8
Ana e Elcana, Jose Peréz Montero
Apesar de todo o histórico detalhando o conturbado triângulo amoroso estabelecido entre Elcana e Ana, pais de Samuel, e Penina, a segunda esposa, e apesar também da indisfarçável preferência do escritor bíblico por Ana, o que realmente transparece nesse texto é o superestimado conceito que o homem faz de si e da sua importância nas relações humanas, sejam elas familiares ou não.


Por mais que seja sabido que as verdadeiras mães sempre irão tender para o lado dos filhos quando tiverem que fazer qualquer escolha entre eles e o pai, a pretensão masculina neste se mostra multiplicada por dez. Isso deveria nos fazer pensar em toda a série de implicações que alguns textos bíblicos vêm causando ao longo da história, principalmente no que diz respeito à discriminação da mulher em todos os segmentos de todas as sociedades.

Não basta que dos quase mil e quinhentos personagens citados na Bíblia, menos de dez por cento deles sejam mulheres. Não basta também que elas sejam flagrantemente as figuras mais execradas da Bíblia. Há de se notar que no quesito iniquidade, nem mesmo Judas Iscariotes conseguiu superar as transgressões de Jezabel, Dalila, Salomé ou mesmo de Eva. Se alguém ainda tiver dúvidas que consulte Juízes 4 e veja se o assassinato mais bárbaro narrado nas Escrituras não é o cometido por uma mulher, Jael, que crava impiedosamente um prego na cabeça de Sísera, um homem que dormia tranquilamente em sua tenda. Nem precisamos nos lembrar de que dos cinquenta mil processos inquisitórios registrados pela igreja, quase oitenta por cento eram contra mulheres.

Parece que desde sempre este é um conceito que existiu entre nós, porque até mesmo as mulheres que grandemente foram usadas por Deus, a história se incumbiu de criminalizá-las de alguma forma. Por um simples decreto papal, o santificado Gregório Magno, fez com que Maria Madalena fosse transformada de discípula número um de Jesus na prostituta que lavara os seus pés com lágrimas, quando na verdade os evangelhos não faz a menor associação entre elas, e não dão a menor margem para essa interpretação.

Se hoje em dia não temos mais as mulheres como as supervilãs do evangelho, e nem como a tentação máxima personificada, como eram as mulheres para santo Agostinho, em contrapartida temos muitas igrejas que mantêm aceso o preconceito quanto à sua ordenação ao ministério pastoral. O mais curioso de tudo é que em todos os seminários renomados podemos ter mulheres influenciando diretamente na formação, na graduação e na pós-graduação de pastores, teólogas iminentes que nada mais precisam provar. Podemos ter mulheres nas bancas examinando teses teológicas de profunda complexidade, nós aceitamos, mas para pregar dominicalmente para um grupo de leigos mal informados, só aceitamos homens.

O pai de Samuel consolidou bem uma escola quando se pronunciou com arrogância ser mais importante, mais agradável e mais valioso, não do que dez pessoas simplesmente, porém, mais importante, mais agradável e mais valioso do que dez filhos. A tristeza, a apatia e o choro de Ana estavam aí justificados. Talvez a sua esterilidade não a incomodasse tanto quanto a presença de um marido prepotente dentro de casa.

Por que isso não incomoda a igreja de hoje? Melhor perguntando: por que esta mesma relação de ainda persiste em uma igreja onde a esmagadora maioria dos membros é composta por mulheres, onde elas são os membros mais participantes e mais presentes, onde são os contribuintes mais voluntários, e a mão de obra mais confiável?

No evangelho existe um cargo na igreja outorgado por Jesus que está muito acima de todas as atuais invencionices clericais, tais como: apóstolo, missionário, bispo primaz ou mesmo Papa. A comissão de pregar a sua ressurreição, o fator mais decisivo de toda a história da salvação, pela primeira vez foi designada a uma mulher: Maria Madalena. Não nos enganemos, para dar boas novas desse quilate Deus não escolhe nem mesmo os ministros mais consagrados. Escolhe apenas anjos.

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O melhor sermão

O que tem a noiva é o noivo; o amigo do noivo que está presente e o ouve muito se regozija por causa da voz do noivo. Pois esta alegria já se cumpriu em mim. Convém que ele cresça e que eu diminua. João 3.29s
A pregação de João Batista, Bartholomeus Breenbergh em 1634
A Bíblia nos passa uma imagem de João Batista bastante rude. Como agravante, qualquer artista que ousou pintar um quadro dele, nos fez conhecer também essa marcante característica: um homem estranho, de hábitos estranhos: Mc 1.6 - As vestes de João eram feitas de pelos de camelo; ele trazia um cinto de couro e se alimentava de gafanhotos e mel silvestre.  Um homem de pouca fala e muita agressividade nas palavras: Mt 3.7b - Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura? Em resumo: um tipo com quem não gostaríamos de cruzar numa rua escura e deserta.


Na hipótese extrema, os mais radicalmente avessos à sua imagem diriam que o ministério e a vida de João foram adequados à época, mas que não vingariam nos dias de hoje. Também, com Hollywood tentando a todo tempo nos fazer crer que o belo é quase que obrigatoriamente bom, confiável e justo, e que o mal sempre vem através daquilo que consideramos grotesco desconfia-se mesmo que João Batista jamais teria entre nós a credibilidade que angariou entre os seus contemporâneos.

Apesar de tudo isso, nós que conhecemos o evangelho diretamente da Bíblia, não conseguimos vê-lo como uma pessoa negativa ou desagradável. Pelo contrário, João Batista é para nós a reprodução mais fiel da tradição profética, seja nos costumes, nas palavras ou na indumentária. João também veio preencher aquele vazio que período intertestamentário deixou nas Escrituras. Sua missão parece que é a de ser uma ponte entre as últimas palavras do Primeiro Testamento e os primeiros escritos do Segundo. A ligação pouquíssimo compreendida entre lei e graça.

Mas eu queria me referir nessa hora ao seu magnífico sermão que mal conseguiu preencher quatro versículos da Bíblia. Diante de uma questão complicadíssima, na qual todo o seu ministério estava sendo avaliado, João se vê na difícil situação de ter que abaixar o volume da sua voz, conter o ímpeto das suas denúncias e guardar temporariamente o machado. Ele faz tudo isso porque enxerga a necessidade de apresentar uma outra pessoa, um outro pastor, um outro ministério, que embora fosse totalmente diferente do seu, era ainda maior e mais definitivo do que tudo que ele pregara até então. Eu queria falar dessa estupenda inspiração que o levou a proferir aquele que eu penso ser o mais belo, mais objetivo e mais necessário sermão não feito por Jesus.

Imagino que podemos transcrevê-lo da seguinte maneira:

Um grupo de fiéis a Deus já consolidado e estruturado vê nascer bem perto de si uma outra corrente de pensamento, que embora pregue a mesma mensagem que a que vem pregando, se porta de modo diametralmente oposto ao seu. Um grupo que sem deixar de lado a consciência do seu pecado, vive uma alegria espontânea e contagiante. Esse outro grupo tem também um pastor, que embora fosse parente próximo do seu pastor, nem de longe se assemelhava a ele, pois anda cercado de prostitutas, adúlteras, publicanos e gente da pior espécie. Não apenas isso. Comia de tudo que lhe era oferecido, bebia vinho, tinha uma belíssima túnica e, vez por outra, aceitava um presente caro, como um vidro grande de nardo puro.

Eles vão a João reportar tudo isso, na expectativa de que seu pastor condenasse com veemência e até usasse violência contra esse pastor moderninho e complacente. Nada disso! João consegue ver aí a oportunidade que tanto esperava: a de mostrar a todos os que o seguiam a real motivação de toda a sua vida e ministério. João aproveita para pregar talvez o seu último sermão. Não somente o mais belo, mas aquele que todos os pastores, de todas as denominações e de todas as épocas obrigatoriamente precisam ouvir:

– Vós mesmos sois testemunhas de que vos disse: eu não sou o Cristo, mas fui enviado como seu precursor.  Eu sou apenas a mão que aponta para ele. Eu sou apenas um servo inútil que tenta, quando muito, cumprir com a sua obrigação. Não pensem vocês que estou triste ou decepcionado com Deus por ser substituído. Foi para isso que eu vim, e quando essa hora chega, eu não posso fazer outra coisa senão pular de alegria.

– Mais uma coisinha só. Coisinha não, o mais importante: é importante que ele cresça na fé, no testemunho e na pré-disposição de vocês de servirem as pessoas e de amarem o próximo. Quanto a mim, conservem-me tão somente como uma vaga lembrança de alguém que nunca digno de sequer desatar as sandálias dos pés deles. Isso para mim já basta.

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Quando tudo diz o contrário

José, seu esposo, que era homem de bem, não querendo difamá-la, resolveu rejeitá-la secretamente. Enquanto assim pensava, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: “José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo. Mateus 1.19s
São José, Gerrit van Honthorst em 1620
Não há como perceber os sinais do Natal, mais particularmente da presença de Deus no mundo, senão através da fé. Esta é uma regra que se encaixa tanto para as expectativas do antes, quanto para a sensibilidade do durante, e vai atingir a sua vigência máxima na reflexão do depois da vinda do unigênito Filho de Deus. Basta que atentemos na imprecisão dos sinais que nos deixaram as vozes da profecia que anunciaram a sua chegada, assim como na precariedade de provas apresentadas por aqueles que foram suas testemunhas oculares.


Esta é uma realidade para a qual ninguém se preparou, por isso, enquanto Jesus esteve no pleno exercício do seu ministério, ninguém foi investigar o passado para comprovar se os fatos atuais correspondiam com as promessas, nem tampouco se preocupou em colher provas mais palpáveis da sua presença. Muito do que se especulou antes dele, e muito do que está sendo investigado hoje não se faria necessário, caso os discípulos que o seguiam de perto tivessem assim procedido.

Tudo se justifica pelo simples fato de Jesus estar ali no meio deles, disponível para quem quisesse vê-lo ou inquiri-lo, o que mais se faria preciso? Os sinais que o seguiam eram prova cabal da sua messianidade e confundiam até os mais céticos adversários. É bem provável que tenha sido este o principal motivo do desleixo dos historiadores cristãos que viveram intensamente este momento. Por outro lado, não há como negar o grande tumulto que foi gerado pela sua presença naquele específico período da história.

Desse enredo, uma coisa sempre instigou: a constatação de que o epicentro de todo esse indescritível e único evento da história, que foi capaz de estabelecer a união indissolúvel entre a mensagem que veio de um passado longínquo através dos profetas, com a expectativa dos cristãos que já dura dois mil anos recaiu exclusivamente sobre a cabeça de um homem. Ele passou a ser uma figura central e de capital importância, o que é, infelizmente, muito pouco reconhecido e menos ainda valorizado pela igreja protestante. Ele é o pai terreno de Jesus, que ficou conhecido por nós como José o carpinteiro.

Pouquíssimas informações temos a seu respeito, sendo que algumas bastante controversas e outras muito mal interpretadas. Quanto à sua linhagem, Mateus o coloca como descendente direto de Davi, enquanto Lucas faz com que essa linhagem chegue a Jesus através de Isabel, seu verdadeiro parente sanguíneo. Outras diferenças podem também ser observadas, inclusive nomes diferentes são dados ao seu pai. Quanto o título de carpinteiro que costumamos identificá-lo, também não lhe é apropriado, pois deriva de mais de uma intuição do que propriamente de uma averiguação. Em Mateus 13.55, José é chamado de tekton, e esta é uma designação dos trabalhadores que praticam atividades com pedras, e não com madeira.

Mas as minhas questões sobre José não se baseiam nestes detalhes, e sim no fato dele ser apenas mais uma vítima inocente do grande enigma proposto por Deus desde a fundação dos séculos. Tudo o que lhe foi dito e todas as informações de que dispunha vieram através de um sonho fugaz. Pelo menos com José, Deus teria que ter sido mais explícito. Pelo para José Deus teria que ter aberto uma janela que descortinasse um futuro imediato. Pelo menos a José deveria ser mostrado o seu papel neste plano salvífico. Mas é aqui justamente que está o grande valor desse gigante da história da salvação: José não precisou mais do que uma intervenção sutil de Deus para confiar definitivamente nas suas promessas. José não precisou de algo muito próximo de uma alucinação para se entregar de corpo e alma a um projeto para o qual a sua expectativa de vida não contemplaria.

Quando tudo dizia o contrário. A lei quanto à gravidez suspeita da prometida ao casamento era passível de apedrejamento em punição semelhante a do adultério. Os soldados romanos não aquartelados a um longo tempo naquela região, não de furtavam em estuprar as adolescentes judias, independentemente delas terem sido prometidas em casamento ou não. As traquinices da juventude são coisas comuns a qualquer geração. Então? O que fez José superar todo esse preconceito e aceitar um filho que tinha certeza que era seu? Somente a submissão irrestrita à vontade de Deus, aliada a um amor incondicional pela pessoa que lhe era próxima, no caso Maria, pode nos dar um indício. Prova que bom mesmo, somente através da incerteza da fé.

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A parábola da caverna

Fela Moscovic, professora de Psicologia da Universidade de Chicago
Texto de Fela Moscovic, de 1993.
No pórtico do templo dedicado a Apoio, em Delfos, havia uma Inscrição: “Conhece-te a ti mesmo." Sócrates, cujo nome significa “mestre da vida”, acreditava que aquele dístico era a pedra fundamental no caminho da sabedoria e do conhecimento. Considerado o homem mais sábio da Grécia pela própria pitonisa de Delfos, enunciou sua célebre conclusão a respeito: “Sei que não sei”.

A afirmação paradoxal que ele era sábio porque “sabia que não sabia” contém implícita a tese de que o reconhecimento da ignorância é o começo da sabedoria.

Nos "Diálogos" de Platão aparece a figura de Sócrates como um hábil questionador que usa, principalmente, de ironia para transmitir dúvidas aos interlocutores, representados por homens tidos como cultos, entre sacerdotes, poetas, militares, políticos, em sua pretensiosa sabedoria. O teste final consistia em indagar se o dialogador "sabia a ignorância expressa em sua questão...".

Em outra obra clássica, “A República”, Platão também desenvolve muitas ideias de seu mestre Sócrates. No livro VII, a parábola da caverna tomou-se um marco filosófico no pensamento ocidental sobre processos de mudança social, educação e desenvolvimento.

A alegoria pode ser resumida como segue:
Havia seres humanos vivendo numa caverna subterrânea com uma abertura para o exterior e a luz. Eles estavam lá desde a infância; suas pernas e pescoços estavam acorrentados de tal nodo que não se podiam mover; só podiam olhar para a frente, para a parede do fundo da caverna, pois eram impedidos de virar a cabeça por causa das correntes. Havia um fogo ardente, à distância, que projetava sobre a parede do fundo as sombras de pessoas e objetos que passassem atrás.

Assim os prisioneiros da caverna, que só podiam olhar para aquela parede, acreditavam que as sombras que viam eram a realidade; e passaram a distingui-las e nomeá-las, associando-as às formas que viam e aos sons que ouviam. As sombras eram a sua verdade, a realidade do seu mundo.

Imaginando que um deles pudesse libertar-se das correntes, pôr-se de pé, virar a cabeça e olhar para o fogo, ele sofreria com a súbita e intensa luminosidade e não poderia ainda ver a nova realidade. Ele precisaria acostumar-se com a claridade do fogo e a visão do inundo superior, além da caverna. Veria primeiro as sombras, depois os reflexos de homens e objetos na água e então os veria diretamente; depois veria o céu, o sol e poderia raciocinar sobre ele. Esta é a sequência do conhecimento.

Imagine-se que este homem retomasse à caverna. Teria dificuldades para acostumar-se novamente à semiescuridão e para interpretar as sombras com habilidade, como seus antigos companheiros faziam. Estes diriam que ele voltara enxergando menos que antes e ridicularizariam suas ideias, não acreditando na estranha realidade que lhes era relatada.

Os prisioneiros concluiriam então que era melhor não sair da caverna, não rejeitar as sombras tão familiares, e que era extremamente perigoso aventurar-se lá. Fora. E se o regressado insistisse em suas ousadas e esquisitas opiniões, seria julgado um perturbador da ordem e condenado por tal conduta ultrajante.

A parábola da caverna, escrita no século IV a.C., discute as relações entre aparência, realidade e conhecimento, temas apaixonantes, atuais e ainda não esgotados no limiar do século XXI.

A caverna simboliza o mundo da visão aparente; a luz do fogo, o sol: a jornada_do exterior, a subida ao mundo intelectual do conhecimento e do bem. Q mundo inferior ou visível é composto de sombras, aparências disformes da realidade, e é habitado por homens que se tomam prisioneiros de suas crenças e opiniões baseadas simplesmente no que enxergam.  O mundo superior, o inteligível, é a verdade, a realidade na qual os homens são livres para ver a luz, o sol, o mundo, a existência.

Passar do mundo das aparências Para o mundo da realidade requer coragem para assumir riscos, motivação para mudança, mente aberta.

Na organização, em geral, a maioria das pessoas age como os prisioneiros da caverna, acomodados em suas crenças ortodoxas que bloqueiam novas ideias e visões, tal qual as correntes da alegoria de Platão.

Os poucos inovadores corajosos, que conseguem libertar-se das correntes e trazer visões originais, costumam ser objeto de escárnio, desconfiança, desagrado, hostilidade. Se insistem em seus argumentos, podem por vezes chegar a sofrer sanções, como isolamento, transferência, afastamento do cargo ou até exoneração; consumando-se sua execução simbólica, replica do julgamento, execração pública e condenação à morte de Sócrates, por estar pervertendo a juventude com suas ideias extravagantes, falsas e deletérias...



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Elias já veio

Mas os discípulos o interrogaram: Por que dizem, pois, os escribas ser necessário que Elias venha primeiro? Então, Jesus respondeu: De fato, Elias virá e restaurará todas as coisas. Eu, porém, vos declaro que Elias já veio, e não o reconheceram; antes, fizeram com ele tudo quanto quiseram. Assim também o Filho do Homem há de padecer nas mãos deles. Mateus 17.10-12
Decapitação de S. João Batista, Massimo Stanzione
Como ficou interessante o fato deste episódio da vida de Jesus ter sido colocado na Bíblia imediatamente após a transfiguração no monte, onde Elias e Moisés apareceram para o espanto aterrorizado de Pedro, Tiago e João. Justamente na hora em que uma das promessas da vinda do Messias havia acabado de ser cumprida. Isso impressionou tantos os discípulos que por um bom tempo não se falou em outra coisa. Basta ver que eles não pararam de comentá-lo, assim como também não pararam de assediar Jesus fazendo repetidas perguntas sobre esse assunto. É o versículo que inicia o nosso texto base de hoje: Mas os discípulos o interrogaram: Por que dizem, pois, os escribas ser necessário que Elias venha primeiro?


A expectativa da vinda do Messias crescia muito em períodos de opressão, e nessa hora não faltavam aqueles que vasculhavam os acontecimentos em busca dos sinais que, segundo um texto deuterocanônico bem conhecido na época de Jesus, anunciava que esta vinda estava próxima: Eclo 48.9s – Tu que foste arrebatado num turbilhão de fogo, num carro puxado por cavalos ardentes. Tu que foste escolhido pelos decretos dos tempos para amenizar a cólera do Senhor, reconciliar os corações dos pais com os filhos, e restabelecer as tribos de Jacó. Era esse o texto que Jesus menciona quando afirma: De fato, Elias virá e restaurará todas as coisas. Mas o que deveria ser motivo de esperança para todo o povo consolidava-se em mais uma ameaça de punição pelas suas iniquidades: Mas eu vos digo que Elias já veio, e eles não o reconheceram, mas fizeram com ele tudo o que quiseram.

Pela primeira vez os mestres da lei estavam absolutamente certos. Elias precisava realmente comparecer perante o Messias. Logicamente que não era o Elias real do Primeiro Testamento, mas o que Elias representou no sentido espiritual. Assim como Elias foi considerado um dos maiores profetas do Primeiro Testamento, João Batista é reconhecido por Jesus como o maior profeta entre todos: Mt 11.11 – Em verdade vos digo: entre os nascidos de mulher, ninguém apareceu maior do que João Batista; mas o menor no reino dos céus é maior do que ele.

O anjo que apareceu a Zacarias, pai de João Batista, já havia lançado uma luz sobre isso: Lc 1-16-17 – E converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus. E irá adiante do Senhor no espírito e poder de Elias, para converter o coração dos pais aos filhos, converter os desobedientes à prudência dos justos e habilitar para o Senhor um povo preparado.
Aqui não era mais um escritor obscuro da antiguidade que estava falando, mas é o próprio Deus quem está se referindo a João Batista como sendo o novo Elias. Por isso precisamos verificar detalhadamente o que esse Elias do Segundo Testamento tem a nos dizer.

Ele irá adiante do Senhor, no espírito e poder de Elias. Uma coisa não faltou a João Batista: a ousadia de atrair a atenção de multidões para o Reino de Deus. Uma atitude de alta periculosidade e punida severamente pelas leis romanas.

Para converter o coração dos pais aos filhos, converter os desobedientes à prudência dos justos. João Batista se colocou como o divisor de águas da lei antiga. Israel nunca mais deveria ser um povo voltado para o rigor do legalismo, mas um povo com o coração voltado para Deus. Tal como Elias no Monte Carmelo, João Batista trouxe o coração do povo de volta para Deus.

Habilitar para o Senhor um povo preparado. Aqui não importou o preço a ser pago. Assim como foi, na realidade, rejeitada a pregação de João Batista, da mesma forma a pregação de Jesus foi desprezada pela multidão. Assim como o novo Elias pagou com a própria vida o preço do seu ministério, Jesus também foi sacrificado em nome de uma lei caduca.

Elias já veio. Completou o seu ministério. Tentou de todas as maneiras, mesmo as menos convencionais, incutir na sua geração a necessidade imediata de uma renovação completa de mente e de atitude. Através de exemplos simples nos deixou os elementos primários de um povo habilitado ao Reino de Deus:
Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento.
Não comeceis a dizer entre vós mesmos: Temos por pai a Abraão; porque eu vos afirmo que destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão.
Quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo.
Não cobreis mais do que o estipulado.
A ninguém maltrateis, não deis denúncia falsa e contentai-vos com o vosso soldo.

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O livro do Acopralipi II

...também esse beberá do vinho da cólera de Deus, preparado, sem mistura, do cálice da sua ira, e será atormentado com fogo e enxofre, diante dos santos anjos e na presença do Cordeiro. Apocalipse 14.10

Fogo eterno, © Thinkstoc
A literatura apocalíptica é um recurso usado unicamente em tempos de opressão extrema. Os apocalipses têm por obrigação ser uma mistura precisa e equilibrada de esperança e advertência. Uma mensagem que é velada aos olhos do opressor, mas facilmente inteligível ao leitor oprimido. Neles o autor se liberta das dimensões de espaço e de tempo para viver situações num passado distante e em locais remotos. 

Os apocalipses são fundamentamos na história viva e dela se vale para tirar os nomes, locais e situações. Situações que ainda são bem vivas na lembrança e que permanecem como um forte apelo na vida dos destinatários; locais que representam a angústia e o sofrimento; nomes cuja simples menção aterroriza a todos.

Não temos como precisar uma data precisa, mas, a grosso modo, num apocalipse o autor retroage mais ou menos duzentos anos para desse passado prognosticar os fatos que aconteceriam num futuro próximo. Futuro esse que ainda assim é passado, diante do seu presente real. Seria como se retroagíssemos aos anos de 1930, para criticar a ordem vigente e prever a Segunda Grande Guerra Mundial. Desse mesmo modo foi escrito o livro do profeta Daniel, assim como por vários outros apócrifos daquela época. Assim também foram escritos os vários apocalipses apócrifos no tempo de João.

Um outro dado importante sobre os apocalipses é que eles eram literatura comum, particularmente entre as seitas ascéticas, como a dos essênios, da qual João, o Batista, foi o seu mais proeminente representante. Por isso é que parece ser tão bizarro aos olhos do homem moderno. O objetivo era mesmo parecer loucura e desvario aos olhos do opressor. A loucura de assistir um doido lançar imprecações sobre uma Babilônia extinta e praguejar contra Nabucodonosor que já não havia morrido há séculos. Contudo, o que parecia ser desvario para os de fora, era palavra viva e lúcida no meio do Israel de Deus. Pois o que mais era presente na memória do povo do que a lembrança do exílio de Nabucodonosor, para denunciar as atrocidades dos imperadores romanos, que destruiu novamente o templo, e mais uma exilou o povo? Que cidade foi mais luxuriosa do que a Babilônia, sustentada que era pelo sacrifício de muitos, senão Roma?

O texto do Apocalipse, mais do que uma visão de uma realidade futura, era o desejo latente de vingança entre os cristãos no final do primeiro século. Um desejo em forma de invocação, para que Deus ponha um fim à opressão do povo e extermine de forma brutal os opressores romanos, a quem consideravam os únicos culpados pelo seu miserável estado. Uma segunda visão, esta mais acurada, vai mostrar que o apocalipse é o divisor de águas entre os verdadeiros cristãos e os que estão ali apenas por conveniência.  Lucas 12.6 diz que não se vendem cinco pardais por dois asses? Mas esse era o preço cobrado a todo aquele que se identificava como cristão. Tudo era mais caro para eles. Mas João determina que o preço seja pago. Esconder a identidade de cristão para se livrar das retaliações impostas era o mesmo que negar a fé. Sabemos bem que existiram extremos, mas foi através deles que o Cristianismo foi preservado de forma íntegra. João preservou a fé cristã mesmo distante da sua igreja, ainda que exilado em uma ilha presídio, ainda que parecesse um alucinado louco varrido.

Para finalizar, precisamos ver o que o antigo livro bíblico do apocalipse tem em comum com os fatos mais recentes? O perigo da apostasia na igreja é real e imediato. As ofertas para escamotear a fé somente se multiplicaram. Em muitos lugares os filhos de Deus estão sendo oprimidos por causa da religião que professam. Não falo da fé cristã somente, mas de todas as expressões que ainda sofrem discriminação. E o alerta final: a igreja de hoje não sofre perseguições, não temos mais os césares no nosso encalço. Pelo contrário, em muitos lugares as pessoas veem o mundo cristão como o opressor a ser combatido. Muitos apocalipses contra nós e a nossa conduta estão sendo escritos. De uma coisa podemos estar certos: Deus vai acatá-los como um clamor de justiça, exatamente como acatou o apocalipse de João.

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O livro do Acopralipi I

Escreves, pois, o que viste: tantos as coisas presentes como as que deverão acontecer depois destas. Apocalipse 1.19

Os que lavaram as suas vestes no sangue do Cordeiro, James42
Não faz muito tempo circulou no Youtube o vídeo do pastor da “briba”. Uma engraçada demonstração de como não se deve pregar o evangelho. Na sua pouca cultura bíblica, dentre outras batatadas, o pregador do vídeo se refere ao livro do Apocalipse chamando-o de acopralipi. Atualmente está circulando um outro vídeo cujo título é “Alguém quer me desafiar?” Mais um dos ilustre mestre do desconhecimento, que aparecem de tempos em tempos faturando alto com seus abalizados, porém, infundados comentários sobre a fé. Esse cidadão norteamericano fala especificamente das religiões monoteístas que fundamentam a sua mensagem no cataclismo escatológico. Em bom português, as religiões que pregam um fim dos tempos composto exclusivamente de salvação e perdição.

A princípio quero dizer que não vi muita diferença entre os dois preletores, posto que ambos tiraram as suas conclusões daquilo que apenas intuíram, sem um estudo sério e sistemático do assunto. O que antigamente se diria: ouviu o galo cantar, mas não sabe onde. Mas infelizmente nós os cristãos não podemos criticá-los veementemente por esta postura equivocada, porque ela realmente está presente no conceito que muitos de nós faz desse fantástico livro da Bíblia. Para muitos de nós o Apocalipse ainda é um almanaque completo e detalhado do fim dos tempos.

Na verdade, o que é um Apocalipse? É um estilo literário que vingou em Israel por aproximadamente quatrocentos anos: duzentos anos antes de Cristo até duzentos anos após. Traduzido simplesmente por revelação, é o herdeiro direto da profecia, e distingue-se dela em dois aspectos fundamentais: pela forma como a mensagem é recebida e como é retransmitida. Na apocalíptica a mensagem chega sob a forma de visões, cuja interpretação é encargo exclusivo do vidente, que ao retransmiti-la, o faz de modo codificado e desobrigado de qualquer coerência. Num apocalipse quase tudo é simbólico: nomes, números, situações e até personagens. Para entendê-lo é preciso, antes de tudo, entrar na mente do autor e decifrar seu código, que é particular e único. Não se vale da orientação de qualquer outro, assim como não se presta de parâmetro para outro qualquer. Por esta razão o leitor moderno deve fazer exatamente como faziam os antigos destinatários: nunca se prender às visões, que por si só são irrelevantes, e voltar sua atenção exclusivamente para a mensagem que Deus sugere através delas, evitando, com isso, incorrer no erro de adulterá-la.

Não se quer dizer com isso que a visão dada por Deus abra uma janela maior do que as utilizadas pelas religiões pagãs para descortinar o futuro.  A possibilidade de perscrutar no futuro ou "as coisas que o Pai guardou para si" é completamente nula na fé cristã. A visão abre-lhe sim o entendimento, para que perceba na leitura fria dos fatos e as consequências inevitáveis que advirão, caso a situação presente siga seu curso. Não é em vão que a literatura apocalíptica presta-se mais para exigir decisões imediatas do que para criar expectativas. Um estímulo eficaz para aqueles cuja fé escandalizada vacila entre apostatar diante das tribulações presentes ou manter a esperança nas promessas de vitoriosa salvação deixadas por Jesus, o Cristo.

João encontra inspiração nos antigos temas proféticos, quando Deus salvou o seu povo das mãos dos mais terríveis opressores, fossem eles egípcios, assírios, caldeus ou gregos. Deste passado retira a única e real previsão futurística. A única que serve tanto para os seus contemporâneos como para todas as gerações vindouras, inclusive a nossa: perseverem na fé, agarrem-se a ela, ainda que o limiar crítico da desolação há muito tenha sido ultrapassado, ainda que se mostre irreversível, Deus vai libertar seu povo, como sempre fizera. Esta é a grande mensagem que o Apocalipse de João revela. Qualquer outra diferente dela terá sido mera especulação. Bom, quem sabe se não é do livro do acopralipi que ambos estejam falando? (continua)


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Entre o temor e o amor

Havia certo homem já de idade avançada e de bela aparência, Eleazar, que se sentava no primeiro lugar entre os doutores da lei. Queriam coagi-lo a comer carne de porco, abrindo-lhe a boca à força. Mas ele, cuspindo e preferindo morrer com honra a viver na infâmia. II Macabeus 6.18s

Tormento de Eleazar, Doré
 O mais frequente, para não dizer único, comentarista das minhas postagens, o Dr. Nehemias Rubim, sempre que se depara com a expressão “o temor do Senhor”, após mostrar toda a sua indignação levanta uma questão bastante complexa. Pergunta ele: afinal Deus é amor ou temor?

Se formos responder de acordo com o que a Bíblia nos transmite teremos que dar pelo menos duas respostas: uma segundo cada um dos seus Testamentos. O Primeiro, também chamado de Antigo, é useiro e vezeiro em usá-la em quase todos os assuntos. O Segundo, o Novo, passa distante quase nunca lhe fazendo referência. Para resolvermos de vez a questão teríamos que verificar qual dos dois estaria mais em acordo com a mensagem de Jesus, que como Messias de Deus, é o verdadeiro e único intérprete da Lei. Atrevo-me a dizer que ambos estão certos, não se contradizem, e, pelo contrário, se complementam.

Sabemos bem que qualquer tipo de relacionamento nos leva sempre a fazer escolhas, nos leva sempre a tomar decisões, e o relacionamento com Deus não teria como ser diferente. A própria mensagem do evangelho tramita na mesma linha e sintonia da mensagem profética do Primeiro Testamento: ela é sempre uma negação da mensagem pregada pelos príncipes desse mundo. A pregação do evangelho nunca prometeu aos seus locutores e ouvintes a tão esperada utopia do mar de rosas. E é justamente nesse ponto que interação entre o amor e o temor se faz mais necessária. Isso me leva a ter que afirmar que qualquer decisão que tem como parâmetro a Palavra de Deus tem necessariamente que estar debaixo desses dois fatores de forma igualitária e não tendenciosa.

A decisão baseada unicamente no amor nos levaria a olhar apenas para as consequências, e nunca atacar as verdadeiras causas. Por outro lado, qualquer decisão fundamentada exclusivamente no temor nos jogaria inexoravelmente no fanatismo. Parece ser uma escolha simples, principalmente quando o ônus da decisão recai apenas sobre nós mesmos, e mais simples ainda quando recai sobre pessoas que não conhecemos. Porém, se torna profundamente causticante quando as nossas decisões envolvem entes queridos, e é mais dramática ainda quando não temos controle sobre as suas consequências.

Peço licença para mais uma vez tomar emprestado a sabedoria de um texto deuterocanônico. Um texto que foi escrito no intervalo de tempo entre os dois Testamentos da Bíblia. Poderia muito bem me servir da narrativa de Daniel 3, também dessa mesma época, que fala dos seus três amigos na fornalha de Nabucodonosor. Mas esse texto, a despeito de ser um texto riquíssimo, não contempla aquele que deveria ser o argumento mais decisivo nas nossas escolhas. Não fala precisamente em que situação o amor e o temor mais precisam andar lado a lado.

II Macabeus 6 narra a decisão e Eleazar, quando, pela imposição das leis do Império Selêucida, se viu coagido pela força bruta a comer carne de porco, contrariando o que prescrevia a lei judaica. A escolha era simples: comer ou morrer. Podemos ver que em tese a questão não tratava apenas disso. Estava em jogo algo muito maior e mais profundo: uma vida de dedicação e integridade aos desígnios de Deus. Com noventa anos, Eleazar tinha apreço pela própria vida no que diz respeito à preservá-la da morte, porém, mais ainda de como ela serviria de exemplo para outros. Ele mesmo diz: Não é próprio da nossa idade usar de tal fingimento, para não acontecer que muitos jovens suspeitem de que eu, aos noventa anos, tenha passado aos costumes estrangeiros. Eles mesmos, após o meu gesto hipócrita, e por um pouco de vida, se deixariam arrastar por causa de mim, e isso seria para a minha velhice a desonra e a vergonha. 

Eleazar, porém, vai além da ponderação por amor às próximas gerações. Ele evoca o que deveria ser o verdadeiro temor ao Senhor: E mesmo se eu me livrasse agora dos castigos dos homens, não poderia escapar, nem vivo nem morto, das mãos do Todo-Poderoso. Sendo assim, se eu morrer agora corajosamente, mostrar-me-ei digno de minha velhice, e terei deixado aos jovens um nobre exemplo de zelo generoso, segundo o qual é preciso dar a vida pelas santas e veneráveis leis.

Amor e temor. Duas palavras tão desassociadas no nosso vocabulário cotidiano. Duas palavras completamente distintas no nosso jeito comum de viver. Duas palavras que só encontram os seus verdadeiros sentidos em uma vida digna vivida segundo o que nos orienta a Palavra de Deus.

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Votos insensatos II

Quando a viu, rasgou as suas vestes e disse: Ah! Filha minha, tu me prostras por completo; tu passaste a ser a causa da minha calamidade, porquanto fiz voto ao SENHOR e não tornarei atrás. Juízes 11.35

A filha de Jefté, Bon Boullogne em 1770
A história de Jefté é bem complicada. Filho bastardo de uma prostituta foi expulso de casa pelos filhos da esposa legítima para que não herdasse posse alguma do pai. Tendo que viver praticamente como escravo em outro país. Cresceu junto a marginais e assaltantes. Por essas coisas, seu futuro não lhe trazia grandes perspectivas de sucesso. Mas ainda assim, devido ao seu espírito de liderança nato conseguiu o respeito e a admiração de todos.


Sua saga nos mostra que ele era um homem disposto a vencer, e isso chamou para si a atenção dos líderes de Israel, e foi por eles é convocado para ser juiz em durante uma grave crise nacional: Jz 11.8 - Volte para Gileade, venha ser conosco para combater contra os filhos de Amon, seja cabeça entre nós. Seu nome, Jefté, significa Deus abre, e é justamente essa a sua característica principal: abrir caminho para o sucesso em meio às adversidades.

Para tentarmos entender as motivações que o levaram a fazer tal voto precisaremos considerar algumas hipóteses, tais como: a insegurança após a vitória inesperada; uma gratidão incontrolável; complexo de invulnerabilidade; orgulho de ser vitorioso onde tantos fracassaram ou imaginar-se acima do bem e do mal. Existem, porém, alguns agravantes no seu ato. As leis de Israel permitiam que, sob certas circunstâncias, a pessoa abdicasse do seu voto. O sacrifício humano era proibido em Israel, qualquer outro seria aceito no lugar da moça. Como não havia conhecido homem algum, ela poderia servir no templo. Por que ele não lançou mão desses recursos? Por que, a despeito de toda a amargura que tinha em seu coração insistia em continuar afirmando: Jz 12.34 - Abri minha boca ao Senhor e não voltarei atrás, filha minha, o que votei, pagarei?

Seria uma insensatez declarar Jefté um fanático religioso. Nada no texto nos diz que ele um fiel seguidor da religião, um homem obstinado em cumprir a lei, muito menos que era um patriota zeloso. Em sua negociação com os anciãos de Israel estabeleceu condições que lhe eram extremamente favoráveis. Por outro lado tentou de todas as formas negociar um acordo com o rei inimigo, para que conquistasse o poder sem o ônus da guerra. O que muda a cabeça de uma pessoa comum que a transforma de uma hora para outra em um extremista radical?

Considerando apenas o voto que Jefté fez, podemos concluir que ele não possuía uma formação religiosa dentro dos princípios básicos da fé de Israel. Ele fez o que fez por pura ignorância dos mandamentos de Deus. Demonstrou total desconhecimento das doutrinas mais básicas que regiam a vida daquele povo. Sua escolha foi um erro que serviu para revelar o total desespero em que se encontrava a nação. Diríamos hoje que se juntou a fome com a vontade de comer. Esse é o grande problema das decisões tomadas nessas condições. Apelamos para tudo que nos acena com um fio de esperança.

Jefté prometeu o que não era dele. Prometeu o que não teria direito de prometer. Prometeu o que Deus jamais aceitaria como penhor. Prometeu para outro cumprir. Quando eu vejo os pastores televisivos convocarem suas igrejas a assumirem as dívidas que eles têm para com as emissoras, como se eles fossem seus fiadores cossignatários, lembro-me bem da passagem de Jefté. Daqueles que buscam a glória e o poder à custa do sacrifício de outros. Incomensuravelmente mais grave do que aqueles que na vida secular fazem o mesmo. Esses gigolôs da fé o fazem em nome de Deus. Caso algum deles tome Jefté como modelo de contribuinte fujam apressadamente, pois Jefté é o melhor exemplo de como não devemos nos relacionar com Deus.

Mas volto, como prometido, a falar de nós mesmos, da nossa ansiosa solicitude pela vida, como chamou um comentarista do evangelho. Volto a falar do Jefté que existe em nós, que não sabe se aquietar diante da soberania de Deus e esperar na sua misericórdia. Falo das vezes que tentamos subornar o Altíssimo com promessas inexequíveis e a mais descarada falácia. Falo das vezes que consideramos Deus um ídolo surdo e mudo, que não conhece a intenção dos nossos corações e não enxerga a medida das nossas limitações. Quando perceberemos que Deus não quer nada do que é nosso, mas que ele nos quer por inteiro? Como diz o salmo 100: Foi ele quem nos fez e dele somos. Somos o seu povo e rebanho do seu pastoreio. Diante dessa incontestável realidade, o salmista recomenda que façamos um único “sacrifício”: Entrai por suas portas com ações de graças e nos seus átrios, com hinos de louvor; rendei-lhe graças e bendizei-lhe o nome. Porque o SENHOR é bom, a sua misericórdia dura para sempre, e, de geração em geração, a sua fidelidade.


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Votos insensatos I

Fez Jefté um voto ao SENHOR e disse: Se, com efeito, me entregares os filhos de Amom nas minhas mãos, quem primeiro da porta da minha casa me sair ao encontro, voltando eu vitorioso dos filhos de Amom, esse será do SENHOR, e eu o oferecerei em holocausto. Juízes 11.30s

O retorno de Jefté, Bon Boullogne (1699-1779)
Por que algumas pessoas fazem promessas inexequíveis e juram sobre perdas irreparáveis? Sinto-me à vontade para falar desse assunto, porque, em outras ocasiões, mesmo sendo protestante nato e hereditário, me manifestei contrário ao abandono total da prática da penitência em nossa tradição. Tenho para mim que fizemos o que antigamente se condenava metaforicamente dizendo: jogamos fora a água suja da banheira com a criança dentro.


Mesmo porque, a penitência é algo que subliminarmente praticamos, se não através de obras, através de palavras: Sl 51.4 - Pequei contra ti, contra ti somente, e fiz o que é mau perante os teus olhos, de maneira que serás tido por justo no teu falar e puro no teu julgar. Ou alguém tem dúvida que essa oração tão lida e tão repetida por todos nós seja um salmo penitencial? John Wesley disse certa vez: A excelência da sociedade para a reforma dos costumes é... primeiro, mover campanha aberta contra toda a impiedade e injustiça que cobrem a terra como num dilúvio, e isto é um dos meios mais nobres de confessar a Cristo. Será que alguém consegue fazer isso sem renúncias e penitências?

Sei muito bem que os dignos frutos da penitência, na realidade, não são as obras, estas são consequências de uma conversão interna. Que sinais externos de tristeza e que a confissão de pecados não diminuem o valor nem a intensidade da obra redentora de Deus em seu Filho pregado na cruz do Calvário. Então, por que, volto a perguntar: algumas pessoas fazem promessas inexequíveis e juram sobre perdas irreparáveis? O voto de Jefté é um bom exemplo do que não se deve fazer, visto que, quem primeiro veio ao seu encontro foi sua filha, sua única filha, e que por este gesto inocente e afetuoso foi inexplicavelmente sacrificada e queimada no fogo.

Não faço a menor ideia do que, na empreitada vitoriosa de Jefté, poderia ter acontecido que minimamente compensasse essa hedionda atitude tomada de forma unilateral e levada a cabo sem hesitação. Falo isso porque, segundo a narrativa, a vitória de Israel sobre os amorreus naquela altura da batalha era um fato consumado: Jz 11.21ss - O SENHOR, Deus de Israel, entregou Seom e todo o seu povo nas mãos de Israel, que os feriu; e Israel desapossou os amorreus das terras que habitavam. Tomou posse de todo o território dos amorreus, desde o Arnom até ao Jaboque e desde o deserto até ao Jordão. Sem esse dado estarrecedor eu não me atreveria a entender uma mente assim tão inconsequente, mas por conta dele vou me permitir arriscar alguns palpites.

A primeira pergunta que é feita é essa: por que Deus permite que coisas horrendas sejam praticadas em seu nome? Muitos leem a Bíblia como se ela fosse a história de Deus, das suas façanhas, entraves e relacionamentos. Mas o que a Bíblia conta é a nossa própria história. De como erramos no passado e de quem herdamos essa herança maldita de atrocidades. Por outro lado, a Bíblia também não esconde, como faz a maioria dos textos épicos, as mazelas dos seus heróis e nem os momentos de fraqueza dos seus santos. Daí nós conhecermos com detalhes precisos todas essas chagas abertas e feridas incuradas da história da nossa fé.

Mais para frente pretendo detalhar este pensamento, mas esse Jefté que a Bíblia descreve somos nós, quando apostamos na loteria da vida, sem que haja qualquer avaliação prévia das consequências das nossas palavras e atitudes. Nós, os cristãos, simplesmente jogamos os dados, pedimos o absurdo e prometemos o inconsequente, confiados que a sorte nos vai ser favorável, porque presumimos que estamos sendo guiados por uma mão que nos guarda e nos livra em toda e qualquer circunstância. Recriamos o caos primitivo nas nossas ações na expectativa de que Deus vai lançar sobre nós uma nova luz que venha a restabelecer a ordem natural incondicionalmente.

Parecia um ser distante, mas esse tal de Jefté está mais perto de nós do que pensávamos ou gostaríamos. (continua)

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Devorador de pecados

 Ilustração do Livro dos Mortos, 1040 a.C.
Assistindo uma série da TV a cabo me deparei com a figura mitológica do devorador de pecados. Uma pessoa, tradicionalmente um mendigo, que até o início de século passado, através de rituais, muita comida e bebida, fazia com que pretensamente recaísse sobre si os pecados de uma outra que havia morrido de forma abrupta, sem que tivesse a oportunidade de se confessar a um sacerdote, receber dele a extrema unção para poder reconciliar-se com Deus, agora já sem pecados.

Algumas aldeias mantinham seus próprios devoradores de pecados permanentemente de plantão. Sobre ele Howlett escreveu: O cadáver sendo retirado da casa, e posicionado em um esquife, um pedaço de pão que fica sobre o cadáver é dado ao devorador de pecados, também uma tigela, cheia de cerveja. Estes consumidos, uma taxa de seis pences foi-lhe dado por consideração de ter tomando sobre si os pecados do falecido, que, assim, liberto, não queria vagar após a morte.

O mito pode ter sido criado na Idade Média, mas o seu conceito é bem mais antigo, remonta à era dos faraós. O profeta de Israel, Ezequiel, dedicou todo um capítulo de seu livro para denunciar este conceito que, contrariando a responsabilidade pessoal, segundo ele, estava bastante em voga no seu tempo. O capítulo 18 se inicia com uma advertência contra um ditado corrente que era corrente e estava sendo acolhido pelo povo como um provérbio: Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos é que embotaram? A respeito do ditado diz o profeta: Tão certo como eu vivo, diz o Senhor, jamais direis esse provérbio em Israel. E ele continua dizendo: Eis que todas as almas são minhas; como a alma do pai, também a alma do filho é minha; a alma que pecar, essa morrerá. Em seguida o profeta lista uma série de pecados de ordem pessoal: adorar ídolos, oprimir alguém, roubando, não atender a necessidade do próximo, desviar da justiça, não derramar sangue. Para finalmente declarar: Porque não tenho prazer na morte de ninguém, diz o Senhor Deus. Portanto, convertei-vos e vivereis.

Esse é o caminho que a Bíblia aponta. O único devorador de pecados é o amor incomensurável de Deus que nos constrange ao arrependimento. Ele é um devorador, que segundo Paulo, rasga o escrito da dívida, a nota promissória que nos liga intimamente ao pecado. Uma vez rasgada, ninguém poderá mais nos cobrar, nem o próprio Deus.

Mas me parece que algumas igrejas ressuscitaram o tal devorador. Se nem tanto, pelo menos o personificaram na figura de um pastor, bispo, apóstolo ou coisa semelhante, alguém que conserta o nosso relacionamento com Deus, apagando todo um passado de pecados e frustrações. Novamente temos entre nós alguém que está propenso a devorar os nossos pecados, de uma hora para outra, e sem qualquer restrição, em troca de uma boa quantia, que pode ser paga em dinheiro, bens, cheque predatado ou em cartões de crédito e débito.

O problema é que hoje a oferta já não se destina mais a saciar a fome de miseráveis, que, não tendo outros meios para saciá-la, se predispunham a comer, junto com o alimento que lhes era servido, o pecado do rico recém falecido. Hoje em dia, o devorador devora os bens da viúva, a poupança que estava destinada a pagar a faculdade do filho e o “trízimo”, ficando, ele sim, cada vez mais rico. Nessa sua nova versão, o devorador só ganha, e sem qualquer problema de consciência ganha muito, enquanto que os miseráveis pecadores só perdem. Perdem o dinheiro dos seus bolsos, seus bens e até seus salários; perdem o pouco de dignidade, porque vêm a necessitar da ajuda de outros até para pagar a passagem de volta para casa; perdem o juízo, porque quando não alcançam a bênção desejada, culpam a si mesmos pelo valor da sua oferta; perdem a sua fé.

Que falta que nos faz um Ezequiel, que mesmo no auge da sua loucura, ainda tinha mais lucidez que todos nós pastores juntos. Que falta que nos faz uma mente que mesmo inconformada com o pecado se seu povo, ainda possuía mais conhecimento de Deus que toda a teologia acumulada em nosso século. Que falta que nos faz um homem de Deus que desmistifique de vez toda essa baboseira que foi agregada ao evangelho. Que falta que nos faz um profeta que conseguia traduzir toda a vontade de Deus para as nossas vidas em uma simples frase de três palavras: Convertei-vos e vivereis.

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Três níveis de compromisso

Então, convocando a multidão e juntamente os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Marcos 8.34

Santos Simão e Judas, Federico Barocci (1528-1612)
O círculo de relacionamentos de Jesus era composto de três níveis distintos: aqueles a quem os evangelhos chamam de multidão, os discípulos que o acompanhavam mais de perto e os deixaram tudo para segui-lo, a estes últimos Jesus chamou de apóstolos, que é a palavra grega para enviado. Pode até parecer que estou tentando mostrar uma imagem forjada, mas consigo perceber que esta realidade, além de estar ainda presente na igreja hoje, pouco mudou a sua forma e conteúdo. Meu pai dizia que o mundo é uma carroça, uns puxam outros empurram, mas a maioria quer estar dentro da carroça e ser puxada ou empurrada.

Se quisermos estabelecer uma rápida comparação, diríamos que a multidão era composta por aqueles que estavam dentro da carroça. Um grupo que provocou em Jesus as mais complexas reações, que lhe causou os mais variados sentimentos e que o tratou de diversas e distintas maneiras. Se em uma ocasião a multidão foi rechaçada por Jesus pelo fato de segui-lo apenas por interesses pessoais, em outra, dela se compadeceu quando a viu como um rebanho que não tinha pastor. Por sua vez, a multidão devidamente motivada tentou fazer dele um rei, exaltou a sua entrada em Jerusalém, para logo em seguida vociferar pedindo a sua crucificação. Pode ser que igreja alguma se atreva a pedir a crucificação de Cristo novamente hoje. Todavia, o que se pode observar é que em poucos lugares o seu nome é aviltado em uma escala que nem os pagãos que não creem nele conseguem fazê-lo. A carroça é assim mesmo: é levada para onde a combinação de forças se propõe levá-la.

Mas há também aqueles que empurram a carroça, e para caracterizar melhor este grupo, diríamos que são aqueles que empurram com a barriga. Aqueles que levam o evangelho a toque de caixa. Aqueles para quem o evangelho é um estilo de vida, honestidade, mansidão, sobriedade, paciência e retidão pessoal. É tudo, menos a ação Deus radical que veio para transtornar este mundo. Estes são aqueles que seguiam Jesus de perto, mas não perto o suficiente para ser identificado como alguém quem realmente andava com ele. Testemunharam os milagres de Jesus que acontecerem na vida de muitos, mas não testemunharam com as próprias vidas o que Jesus fez por eles. Estes não foram perseguidos, não colocaram as suas vidas em risco, não perderam coisas valiosas em favor do evangelho. Tenho que confessar que me identifico bastante com este grupo.

Mas felizmente existem aqueles que largaram tudo para, com as mãos livres de ambições e desejos, puxar atrás de si o evangelho juntamente com todos os seus encargos. É justamente sobre estes que a igreja se estabelece. São estes raros seguidores de Jesus, que nem sempre necessariamente levam o seu nome, que alavancam o progresso do Reino de Deus na terra. São esses os que deixaram tudo para seguir o ideal proposto por Jesus, que rechaçaram todas as facilidades, que tomaram sobre si a pesada cruz e que tentam de todas as maneiras fazerem com que suas vidas tenham sentido além de uma simples existência.

Estes são aqueles que pareiam com os heróis da fé de Hebreus 11, a quem a Bíblia chama de homens e mulheres de quem o mundo não é digno. Neste dia em que a Igreja Católica homenageia os dois apóstolos Simão e Judas, figuras completamente apagadas da memória de outros cristãos, eu queria render esta homenagem a todos os apóstolos sem nome, aos exorcistas estrangeiros, aos anônimos da fé, que muito mais do que pretensas celebridades tem levado Deus a sério, que levaram os seus compromissos até as últimas consequências, e que tem assumido o evangelho não como uma opção, mas como a única forma de garantir um futuro viável às próximas gerações. 

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Pastor por excelência, amigo por vocação

Reverendo Ferdinando Pereira Coelho em 1980
Faleceu no último domingo o rev. Ferdinando Pereira Coelho, pastor metodista, homem de Deus, servo da igreja, líder dos jovens e paixão dos idosos. Transcrevo essas suas qualidades convicto de que não são suficientemente capazes de descrever o seu irretocável ministério pastoral, como tampouco confirmar a inequívoca vocação daquele que foi um apascentador de ovelhas, sem deixar de ser um pescador de homens.


Assim como me faltam adjetivos, me sobram lembranças deste que foi um amigo nem sempre por mim compreendido, mas sempre fiel e amoroso. Seu chamado para o ministério se deu numa das horas mais imprópria da sua vida na igreja. Justamente quando galgou o cargo de despachante aduaneiro, função que na época rendia e ainda rende excelentes salários. Ferdinando, que fora criado na Igreja Metodista de Cascadura, sempre foi um membro ativo, principalmente na Sociedade de Jovens, sendo seu presidente por vários e gloriosos anos. Não havia nada de errado na sua trajetória com membro leigo. Por isso creio firmemente que seu chamado se deu simplesmente por iluminação, e não por qualquer incidente traumático ou doloroso que o tenha marcado.

Sei que é bem que é difícil compreender hoje em dia, mas o rev. Ferdinando entrou no ministério pastoral para perder, e perdeu muito. Basta dizer que o seu primeiro provento como pastor foi bem inferior ao dízimo que havia dado no mês anterior como membro leigo. Até hoje me pergunto o que de tão extraordinário aconteceu nesse chamado que foi capaz de transtornar radicalmente a vida financeira de uma família e continuar sendo recebido, por longas décadas, como uma inominável bênção. O amigo comum, João Wesley, dizia sempre: Ferdinando foi fiel no muito.

Ferdinando foi um pastor metodista que nunca se rendeu às inovações neopentecostais que a liderança lhe impusera, embora fosse um místico que confiava plenamente no poder da oração. Nunca foi flagrado fazendo as mirabolantes coreografias da fé, e nem taxando a retribuição financeira como parâmetro para seguimento do evangelho. A firmeza o que mantinha na sã doutrina também lhe permitia ser flexível em muitos outros aspectos. Era bem capaz de sair de uma pelada com a garotada, e com o mesmo humor e o mesmo espírito dirigir uma reunião importante. Posso garantir que para minha mãe, foi o pastor por excelência. Mesmo longe, ela mantinha contato. Nem mudando para Aracaju, quando já aposentado e respondendo sim a mais um desafio do ministério, se viu livre dela, pois por mais de uma oportunidade foi visitá-lo.

Assim transcreveu no Facebook uma hoje senhora, que era bem jovem quando Ferdinando foi seu pastor: Esteve sempre disponível pra me ouvir. Foi com ele que desabafei sobre as minhas primeiras desilusões amorosas, aos 17 anos. Com ele, dividi muitos sonhos, medos e frustrações comuns, aos jovens daquela época. Saudades do seu bom humor, da sua sabedoria carregada de verdade e simplicidade. O meu querido pai/pastor sempre acreditou no potencial da juventude e não mediu esforços pra investir em cada um de nós! Homem corajoso!

Também tenho saudades do velho amigo. De como gostava de vê-lo cantar com entusiasmo e demonstrar com a própria vida que não era dos fortes a vitória e nem dos que correm melhor. De como sempre mostrou, a exemplo de seu Mestre, cuidado e amor sem igual. A sua ausência pode ser doída, pode trazer lembranças, me fazer vivenciar as minhas negligências. Mas tenho certeza absoluta que nada vai superar a carência daquilo que mais sinto falta e que não tenho mais qualquer esperança de um dia suprir.

Há mais ou menos dois anos, quando estive com o casal Ferdinando e sua fidelíssima escudeira e mentora, Acerilda, recebi deles um abraço que me fez chorar copiosamente. Eu não conseguia entender o motivo daquelas lágrimas. Não era tanto pela saudade, pela distância ou mesmo pelo tempo que não nos víamos. Não era também pela manifestação de alegria ao nos ver, o que poderia me causar, como causou, enorme comoção, mas não causaria tantas lágrimas. Foi quando me dei conta de que não recebia um abraço pastoral como aquele há muito tempo. Fazia anos que braços de amor sem interesse me envolviam. Que emoção foi aquela dominou meu consciente e meu inconsciente? Não sei. Só sei que depois do pastorado de Ferdinando nunca mais consegui confiar a um pastor as minhas carências sem que estas fossem usadas contra mim mais tarde. Nunca mais o fato de ser pastor foi para mim motivo de confiança irrestrita, amor sem medida e compreensão além da razão.

Ferdinando, eu chorei naquele dia, chorei ontem no seu sepultamento, e sei que vou continuar chorando até o dia da minha partida, porque pastor como você, jamais serei. Pastor como você, nunca mais terei.

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Maria

A Virgem, Sant'Ana e Jesus, Da Vince em 1513
A filha de Sião
Maria aparece nos evangelhos primeiramente como uma das numerosas Marias que existiam no seu tempo. Seu nome herdado da irmã de Moisés era frequente e no aramaico significava princesa ou senhora. Lucas mostra em Maria uma piedosa mulher judia, fielmente sujeita à Lei e que exprime nos próprios termos ao desafio da mensagem divina: Lc 1.38 - Então, disse Maria: Aqui está a serva do Senhor; que se cumpra em mim conforme a tua palavra.


Seu magnificat é uma bela composição inspirada nos salmos e no cântico de Ana: I Sm 2.1-10 Mas Maria rapidamente mostra que não é uma simples mulher judia. Nas cenas da Anunciação e da Visitação ela se apresenta como aquela que personifica a parte boa e honrosa do povo de Deus, a já costumeiramente exaltada Filha de Sião. O título de “Cheia de graça” é o fruto por excelência do amor de Deus, que relembra a “esposa” a quem o próprio Deus elege e glorifica.

Sozinha, diante de tantas incertezas, recebe o anúncio de que a salvação poderá vir através dela. Muito aquém de compreender os acontecimentos grandiosos nos quais se vê envolvida, ela mostra a sua gratidão pessoal por ser a escolhida para consumar as promessas feitas a Abraão: Lc 1.46ss - Então, disse Maria: A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador, porque contemplou na humildade da sua serva. 

A Virgem
O fato da virgindade de Maria na concepção de Jesus é afirmado por Mateus e Lucas. Segundo João, Jesus é aquele que nem sangue e nem carne engendrou. A virgindade no momento da anunciação também é posta em relevo na sua objeção à certeza do anjo: Lc 1.34 - Então, disse Maria ao anjo: Como será isto, pois não tenho relação com homem algum?

Lucas reafirma que Maria é virgem no momento da concepção. Teria ele pretendido dizer, assim como mais tarde disse Santo Agostinho, que Maria se guardou virgem por vontade própria. Alguns bons exegetas traduzem esse texto assim: uma vez que eu não quero conhecer homem algum. Assim, a concepção virginal aparece menos com uma exigência divina do que como uma decisão voluntária, que é tomada no ato da Anunciação.

A Mãe de Jesus
Em todos os níveis da tradição evangélica Maria é antes de tudo a mãe de Jesus. Vários são os textos que a designam com este título, que também define toda a sua função na obra da salvação. Sua tarefa de criar e cuidar do Salvador do mundo vai além das atribuições e atribulações de uma mãe comum. O cântico de Simeão confirma toda a sua apreensão quanto ao futuro de filho que lhe foi confiado: Lc 2.30ss - porque os meus olhos já viram a tua salvação, a qual preparaste diante de todos os povos: luz para revelação aos gentios, e para glória do teu povo de Israel.

Maria continua mãe de Jesus quando este chega à idade adulta. Seus relacionamentos se resumem a separações dolorosas. É aí que Maria toma sobre si uma nova função. Declarando a autoridade de Jesus aos servos das bodas de Caná, ela define seu papel como anunciadora daquele a quem todos devem obediência e submissão: Jo 2.5 - Então, ela falou aos serventes: Fazei tudo o que ele vos disser. Maria praticamente desaparece como mãe por trás do novo desafio de ser uma crente fiel.

Esse despojamento culmina na cruz. A consumação da missão do filho transpassa-lhe a alma. No Calvário se completa a sua maternidade. Em pé, junto à cruz, ouve de Jesus que suas obrigações de mãe para com ele chegaram ao termo da perfeição. O seu amor maternal, contudo, não deveria se esgotar, mas seria dedicado doravante a João que, por sua vez, assumiria integralmente as atribuições de filho. Um novo filho sobre quem repousa todo o cuidado que Jesus teve para com a sua igreja e para com todos aqueles a quem chamou de mãe, pai, irmão e irmã.

A atitude para com Maria de todo cristão que crê no evangelho deve ser determinada pela sua própria profecia: Lc 1.48b - Pois, desde agora, todas as gerações me considerarão bem-aventurada, porque o Poderoso me fez grandes coisas.

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