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O que é BEM-AVENTURADO?

Sermão da Montanha, Ferenczy Károly em 1896
Para os gregos da antiguidade ser bem-aventurado, naxáçioç, significava estar livre de sofrimentos e preocupações; bem-aventurado era por excelência o predicado dos deuses. Também para o judeu ser bem-aventurado consistia em bem-estar material, mas como recompensa da fiel observância da Lei.

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O que é PRÓXIMO?

Bom samaritano, Giacomo Conte
No Primeiro Testamento, o termo próximo, que traduz com bastante exatidão o termo grego plesion, corresponde imperfeitamente ao termo hebraico rea‘ que lhe está subjacente. Não deve ser confundido com o termo irmão, embora muitas vezes lhe corresponda. Etimologicamente ele exprime a ideia de se associar a alguém, de entrar em sua companhia. Contrariamente ao irmão, ao qual se está ligado por relação natural, o próximo não pertence à casa paterna; se meu irmão é um outro eu mesmo, meu próximo é um outro que não eu, um outro que para mim pode continuar a ser outrem, mas que pode também se tornar um irmão.

Pode assim criar-se um vínculo entre dois seres, seja de modo passageiro: Lv 19.18 - Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o SENHOR. Seja de modo durável e pessoal, em virtude da amizade, do amor, da camaradagem ou até devido à falta de todos esses: Jó 30,28s - Ando de luto, sem a luz do sol; levanto-me na congregação e clamo por socorro. Sou irmão dos chacais e companheiro de avestruzes.

Nos mais antigos códigos não se falava de irmão, mas de outrem, apesar dessa virtual abertura para o universalismo, o horizonte da Lei mal transcende o povo de Israel. Depois, com a consciência mais viva da eleição, a Lei de santidade confunde outrem e irmão visando com isto só os israelitas: Lv17.3 - Qualquer homem da casa de Israel que imolar boi, ou cordeiro, ou cabra, no arraial ou fora dele. Não que tenhamos nisso um estreitamento do amor ao próximo para amor só dos irmãos pelo contrário, esses textos querem estender o mandamento do amor equiparando ao israelita o estrangeiro residente.

Depois do exílio, aparece uma dupla tendência. De um lado, o círculo dos próximos se restringe: o dever de amar visa somente o israelita ou o prosélito circunciso. Mas, de outro lado, quando os Setenta traduzem o hebraico rea' pelo grego plesion, eles separam outrem de irmão. O próximo que deve ser amado é outrem, quer seja ou não um irmão. Desde que dois homens se encontram, são o próximo um para o outro, independentemente de suas relações de parentesco ou do que pensam um do outro.

No Segundo Testamento, quando o escriba perguntou a Jesus: Quem é meu próximo?, provavelmente ele ainda equiparava tal próximo a seu irmão, membro do povo de Israel. Jesus, porém, irá transformar definitivamente a noção de próximo.

Primeiramente, ele consagra o mandamento do amor: Amarás o próximo como a ti mesmo. Ele não só concentra os outros mandamentos neste, senão que o liga indissoluvelmente ao mandamento do amor de Deus: Mt 22.39s - O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas. Na trilha de Jesus, Paulo declara solenemente que esse mandamento cumpre toda a Lei: G1 5.14 - Porque toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo como a ti mesmo, por que ele é o resumo dos demais. Tiago, contudo, já o qualifica de lei régia: Tg 2.8 - Se vós, contudo, observais a lei régia segundo a Escritura: Amarás o teu próximo como a ti mesmo, fazeis bem.

Em seguida, Jesus universaliza esse  mandamento: deve-se amar aos adversários, e não só aos próprios amigos: Mt 5,43 - Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; isto supõe que o indivíduo derrubou em seu coração todas as barreiras, tanto que o amor pode atingir o próprio inimigo.

Enfim, na parábola do bom samaritano chega Jesus às aplicações práticas. Não compete a mim decidir quem é meu próximo. O homem em dificuldades, fosse embora meu inimigo, me convida a tornar-me seu próximo. O amor universal guarda assim um caráter concreto: é certo que irá se manifestar à frente a todo homem que Deus põe no meu caminho.

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O que é DIREITO?

Abraão e os três anjos, Arente de Gelder
No direito existem dois polos: um coletivo e outro individual. Ele é ao mesmo tempo ordem que rege o conjunto das relações humanas numa comunidade e o reconhecimento de algumas garantias de cada indivíduo. Toda comunidade possui o seu direito próprio, caracterizado pela maneira que ela define e assegura os direitos pessoais de seus membros. A comunidade de Israel não somente tinha o seu, mas o considerava um dos favores mais preciosos que recebera de Deus.

Embora sem cobrir em todos os sentidos o que consideramos hoje como direito, o mispat hebraico corresponde bem aos seus elementos fundamentais. O mispat é a decisão promulgada de quem tem o poder o poder de pronunciar um julgamento, isto é, pelo detentor reconhecido da autoridade. No plural esta palavra é frequentemente associada a todas que designam as ordens, os mandamentos, as prescrições e os decretos. Em linguagem jurídica, ela define as diversas formas do poder. Muito naturalmente ela foi se tornando Lei de Deus, já que, em virtude da Aliança, ela passa a ser confundida com a própria vontade de Deus, daí a ter se tornado sagrado, embora ultrapasse os limites religiosos e englobe a existência inteira.

A Onipresença da vontade divina no direito de Israel nunca pareceu excepcional aos olhos do Primeiro Testamento, pois era o fator que distinguia seu povo dos demais. Nenhuma das grandes nações que dominaram o mundo tinha recebido de seus deuses um direito tão justo como o de Iahweh. Através da Bíblia, a associação de direito e justiça assinala a presença constante de uma consciência superior. É essa a pregação dos profetas: Jr 9.23s - Assim diz o SENHOR: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem o forte, na sua força, nem o rico, nas suas riquezas; mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o SENHOR e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o SENHOR. Quem fixa o direito sobre toda a terra não será jamais capaz de violá-lo: Ex 18.25 - Longe de ti o fazeres tal coisa, matares o justo com o ímpio, como se o justo fosse igual ao ímpio; longe de ti. Não fará justiça o Juiz de toda a terra?

Um capítulo à parte define o direito do pobre. A conexão direito-justiça parece natural, então, o que seria um direito que menosprezasse a justiça? Ou uma justiça que não garantisse o direito? Neste caso específico, a justiça não consiste em repeitar uma norma, por mais perfeita que seja, nem mesmo garantir a igualdade de chances. Esse direito precisa descobrir antes as precisões verdadeiras de cada um, e a exata atenção que lhe deve ser dispensada. Esta parte da necessidade do pão, e só é levada adiante quando tiver respondido a esse desafio. Esse direito concede, em primeiro lugar, o benefício a quem nãom está em condição de se socorrer, os pobres e os flagelados pela infelicidade: Isaías 10.1s - Ai dos que decretam leis injustas, dos que escrevem leis de opressão, para negarem justiça aos pobres, para arrebatarem o direito aos aflitos do meu povo, a fim de despojarem as viúvas e roubarem os órfãos!

O horizonte do Segundo Testamento é muito diferente. Mesmo que a justiça tenha um lugar importante, o direito se esquiva dela, pois o povo de Deus não é mais um povo política e socialmente estruturado como nação. A epístola de Tiago é a que mais se aproxima da pregação profética com relação ao direito dos pobres. O único texto que se baseia no mispat é uma fórmula que em Jesus se define com três palavras: krisis = direito, eleos = bondade e pistis = fidelidade. Isso prova que Jesus dá valor à insistência do Primeiro Testamento no direito.

A determinação do direito não cabia mais às autoridades constituídas pelo povo, e sim pelos povos que dominavam Israel. Ainda assim, esse direito se manifestava em termos práticos: Mt 7.12 - Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a Lei e os Profetas.

O que direito que tipifica a nossa situação atual de nação livre, está mais afeito às antigas prescrições, e com ele também as suas obrigações e responsabilidades. Isso nos inspira a um apelo de identificação com o outro, uma preocupação com a partilha, e uma comunhão que pode exigir sacrifícios. Tudo em nome do amor, que em última análise fundamenta todo o direito.

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O que é ANO NOVO?

Símbolos do Rosh Hashanah
Por volta de 3000 a.C. os egípcios já calculavam a duração do ano tendo como base a volta completa do sol e o dividiam em 12 meses de 30 dias, aos quais acrescentavam mais 5 dias. Para os povos semitas os movimentos da lua é que eram fundamentais. A lua nova determinava o início do mês, e, por conseguinte, a sua duração e as datas das suas festividades. Portanto, 12 meses lunares formavam o ano. A volta do sol era importante para definir as estações climáticas.

A expressão Rosh Hashanah, ou Ano Novo Judaico, na Bíblia é encontrada somente em: Ez 40.1 - No ano vigésimo quinto do nosso exílio, no princípio do ano, no décimo dia do mês, catorze anos após ter caído a cidade, nesse mesmo dia, veio sobre mim a mão do SENHOR, e ele me levou para lá. Sua data é incerta, pois segundo alguns textos do Primeiro Testamento caía no outono, e segundo outros, na primavera. Por isso que alguns autores afirmam que em Israel havia um ano civil começando no outono, e um ano eclesiástico começando na primavera. Porém, este modo de apresentar o calendário judaico é um pouco simplista, porque a cronologia desse povo variava de acordo com a finalidade, com o seu ambiente histórico e com a sua situação política.

O Ano Novo em tisri, no equinócio do outono, sempre foi considerado o início do ano na Mesopotâmia, pois daí deriva o nome do mês. tisritu é a palavra para começo. Além disso, em uma civilização em que a agricultura é a base da sobrevivência, nada mais natural do que o inicio do ano coincidir com o início de um novo ciclo que vai do plantio à colheita.

Em Israel, isso pode ser em parte confirmado pelo estabelecimento da data da festa da colheita, ou Festa dos Tabernáculos. Contudo, esta data dava mais ênfase ao fato de sair do ano, ou seja, mas parecia a celebração do fim do que propriamente do início do ano. Ex 23.16 - Guardarás a Festa da Sega, dos primeiros frutos do teu trabalho, que houveres semeado no campo, e a Festa da Colheita, à saída do ano, quando recolheres do campo o fruto do teu trabalho. Também em Israel a colheita determinava o início do novo ano e o fim do ano velho.

Um outro indício sobre o modo do estabelecimento do período anual vem do modo como eles calculavam a duração dos governos dos seus reis. I Rs 6.1 - No ano quatrocentos e oitenta, depois de saírem os filhos de Israel do Egito, Salomão, no ano quarto do seu reinado sobre Israel, no mês de zive (este é o mês segundo), começou a edificar a Casa do SENHOR.

O Ano Novo em nisã. Os círculos sacerdotais queriam que esse mês que assinala o equinócio da primavera fosse o início do ano em Israel: Et 3.7 - No primeiro mês, que é o mês de nisã, no ano duodécimo do rei Assuero, se lançou o Pur, isto é, sortes, perante Hamã, dia a dia, mês a mês, até ao duodécimo, que é o mês de adar.  Os deuteronomistas também contavam o ano a partir de nisã. Esse modo de marcar o início do ano é mais comum depois da morte do rei Josias, em 609 a.C.: Jr 36.9 - No quinto ano de Jeoaquim, filho de Josias, rei de Judá, no mês nono, apregoaram jejum diante do SENHOR a todo o povo em Jerusalém, como também a todo o povo que vinha das cidades de Judá a Jerusalém. Nada contraria a ideia de ser também fruto da influência babilônica em Israel.

Os macabeus, classe iminentemente sacerdotal, também calculavam o ano desse jeito, de primavera a primavera: I Mc 10.21 – Assim, no sétimo mês do ano cento e setenta, na Festa dos Tabernáculos, Jônatas começou a se apresentar com as vestes sagradas.

Ainda que o início do ano tivesse um caráter militar em que Deus era mais celebrado como Senhor dos Exércitos, esse elemento perdeu força pelo entusiasmo da liturgia pós-exílica. Mesmo que na Bíblia seja encontrado somente em Ez 40.1, o Rosh Hashanah sempre foi uma festa das três festas mais importantes do povo judeu. A festa que celebrava a vitória, fosse sobre os inimigos, fosse sobre as intempéries, marcava a presença de Deus por mais um ano no meio do povo, de um lado protegendo e de outro sustentando Israel com braço firme e propósito fiel.



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O que é SONHO?

Sonho de Pedro, Domenico Fetti em 1619
Texto baseado em um diálogo com o rev. Jonas Rezende.
Na concepção dos antigos o sonho punha a pessoa em contato com o mundo dos deuses, dos espíritos e do sobrenatural, sendo que muitas vezes eram considerados como revelação do futuro ou de coisas ocultas. Também em Israel os sonhos eram muitas vezes considerados como presságios, e outras vezes como exortação ou aviso da parte de Deus.

A Bíblia poucas vezes tenta explicar o seu aspecto psicológico, como fez o Eclesiastes 5.2s: Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus; porque Deus está nos céus, e tu, na terra; portanto, sejam poucas as tuas palavras. Porque dos muitos trabalhos vêm os sonhos, e do muito falar, palavras néscias. Por motivos diferentes a antiguidade vê neles também a possibilidade de uma manifestação da personalidade profunda. Essas duas perspectivas não são incompatíveis, pois se Deus age, através do íntimo do ser humano que age.

Os povos anteriores a Israel e seus vizinhos contemporâneos viam nos sonhos possibilidades múltiplas, daí a terem muitos intérpretes a serviço dos seus reis. A lei de Moisés era severa no combate aos profetas sonhadores que seduziam o povo a apostatar. Por conta disso, em Israel, não parece ter havido intérpretes oficiais de sonhos. Mas Jeremias denunciava os profetas que falavam dos sonhos dos seus corações como se fossem Palavra de Deus. Por outro lado, Deus também se revela aos profetas em sonhos e em outros textos os sonhos são considerados como enviados por Deus. Mas como os sonhos eram obscuros só podiam ser interpretados por sábios, magos e adivinhos. Em Israel tudo isso era abominação, portanto, explicar sonhos era uma prerrogativa divina que alcançava a pessoa como um dom, ou como uma manifestação do Espírito de Deus.

Como o plano original de Deus para o seu povo já havia sido dado a conhecer previamente aos patriarcas, uns poucos acertos pontuais se faziam necessários. Os sonhos de Daniel, Zacarias e Joel apenas vêm confirmar o que já havia sido prometido: Jl 2.28 - E acontecerá, depois, que derramarei o meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos velhos sonharão, e vossos jovens terão visões.

A reflexão mais profunda sobre a profecia fazia com que os profetas verdadeiros fossem distintos dos falsos. Com os sonhos acontecia a mesma coisa. Ainda assim, em tempos mais próximos o sonho deixou de ter relevância. A Bíblia não faz citação de sonhos durante a fase madura do profetismo. Apenas a palavra profética tinha peso, pois era a forma mais objetiva com que Deus se revelava ao seu povo.

O Segundo Testamento não fala de qualquer sonho de Jesus, mesmo porque nele o Pai é revelado sem intermediários. Mas ainda assim eles estão presentes. No Pentecostes, Pedro anuncia a realização da profecia sonhada por Joel, de como o Espírito se revelará nos últimos dias. Este apóstolo tomou ciência da necessidade de pregar o evangelho aos gentios através do conhecido sonho do lençol que desce dos céus repleto de alimentos considerados impuros.

O Livro dos Atos dos Apóstolos fala detalhadamente das visões noturnas de Paulo e de como essas manifestações o confortaram, o reanimaram e o guiaram no seu ministério. Mas estranhamente não lhe transmite qualquer ensinamento ou doutrina. Até mesmo a sua grande experiência sobrenatural narrada em II Co 12, após quatorze anos ainda lhe era um mistério. Mateus também se vale dos sonhos para relatar algumas revelações, tais como: a maternidade de Maria, a prevenção aos magos contra Herodes e o inquietante sonho da mulher de Pilatos: Mt 27.19 - E, estando ele no tribunal, sua mulher mandou dizer-lhe: Não te envolvas com esse justo; porque hoje, em sonho, muito sofri por seu respeito.  

A Bíblia conhece assim esse modo de revelação que Deus empregou nos velhos tempos. Neles, ela vê uma revelação destinada a esclarecer sua vontade ao indivíduo, que não por poucas vezes poderia ser um pagão. É essa revelação, que subordinada à sua Palavra, se dirige a igreja de hoje. Uma revelação que se manifesta por excelência na pessoa de Jesus, o Cristo.



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O que é MANJEDOURA?

Francisco preparando o presépio em Greccio, Giotto 1297
A despeito de todo romantismo que se criou a partir da narrativa bíblica de Lucas 2, seria bom que se observasse a ênfase que o evangelista dá a este capítulo em particular da história de Jesus: Lc 2.7 - e ela deu à luz o seu filho primogênito, enfaixou-o e o deitou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.

Lc 2 - E isto vos servirá de sinal: encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada em manjedoura. Lc 2.16 - Foram apressadamente e acharam Maria e José e a criança deitada na manjedoura. Esses são três argumentos que servem para nos dar a certeza de que Lucas acentua muito mais o fato de Jesus ao nascer ter sido colocado em um local exclusivamente destinado para uso animal como uma denúncia ao descaso vil e descabido para com a vida humana, do que propriamente, como avaliamos hoje, uma descrição de uma tranquila cena pastoril.

Mais tarde foi atribuída a Francisco de Assis a representação que se perpetuou ao longo dos séculos, onde se pode ver na mesma cena reis e pastores, pessoas e animais, homens e anjos, céus e terra. Um quadro vivo que atravessa gerações para mostrar que a verdadeira intenção deste santo era proclamar através desse seu belo e mudo sermão que a necessidade do diálogo entre as religiões, entre as classes sociais e a preocupação com os seres de outras espécies e com a própria natureza já era urgente desde o seu tempo.

A manjedoura tem permanecido como um dos símbolos mais fidedignos do Natal, ainda que na sua essência negue radicalmente os outros vários outros símbolos criados pela subversão que nós humanos criamos para este data. A manjedoura afronta as mesas fartas, os presentes caros, a sensibilidade momentânea e, se formos mais criteriosos colocaríamos o “bom velhinho” Papai Noel também nesse imbróglio.

Mas o que foi de fato a manjedoura de Jesus? Era o coxo onde comiam os animais que serviam os homens. A palavra podia significar um pequeno local da casa que era reservado para confinamento desses mesmos animais. Porém, quando não fazia referência às humildes casas dos camponeses, casas essas que possuíam apenas um cômodo, a palavra poderia significar também estábulo. Por mais que se façam definições, nunca se pode deixar de lado a ideia de um local infectado por restos de comida, excremento de animais e completamente impróprio para um ser humano, quanto mais um recém-nascido.

Além do evangelista Lucas e de Francisco de Assis, a história cristã registra também as denúncias proferidas através dos incansáveis sermões de um dos maiores conhecedores do texto bíblico da sua época, e o principal responsável pela sua tradução para o latim, na versão que é conhecida hoje com Vulgata, São Jerônimo. Este incontestável mestre da doutrina cristã denunciou com veemência a situação política e econômica do tempo em que viveu, a partir da mensagem simples do Natal: Trocamos a significação humilde que a manjedoura de madeira e barro veio trazer pela suntuosidade de manjedouras feitas com ouro e prata, dizia ele desta heresia contra a mensagem do Natal, ao qual chamou de luteum illud praesepium, ou amarelo presépio ilusório.

Em um dos seus sermões mais contundentes o meu mentor e co-escritor das mensagens deste blog, o rev. Jonas Rezende, disse: Somos totalmente tocados pela imagem de uma criança feita de barro numa cena fictícia de um passado distante e de um local desconhecido, porém, somos completamente insensíveis às crianças de carne e osso que dormem, mesmo nos dias mais frios, debaixo de nossas marquises.

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O que é DIA?

Tarde e manhã
Ainda bem no início da civilização, já era costume saudar aquele que se aproximava com a expressão que usamos hoje: bom dia. Em sânscrito, uma das línguas mais antigas do mundo, a palavra dia tem a sua origem na palavra Deus. Então, desejar um bom dia a uma pessoa era o mesmo que dizer que ela tivesse um Deus bom dentro dela.

Na mesopotâmia dividia-se a parte clara do dia, de sol a sol, em doze horas e trinta minutos, mas o seu minuto era quatro vezes maior que o nosso. Na Palestina não há provas de uma divisão do dia em horas antes do judaísmo superior. O século VIII a.C. marca o início dessa nova era em Israel: Is 38.8 - Eis que farei retroceder dez graus a sombra lançada pelo sol declinante no relógio de Acaz. Assim, retrocedeu o sol os dez graus que já havia declinado. Já existe um termo para hora, mas o autor do livro de Daniel, que foi escrito por volta de 90 a.C., não o conhecia ainda: Dn 4.16 - Mude-se-lhe o coração, para que não seja mais coração de homem, e lhe seja dado coração de animal; e passem sobre ela sete tempos.

Contudo, em todo caso, o dia era o espaço de tempo entre a aurora e o escurecer da tarde, é o tempo da luz, sendo a noite apenas o seu complemento. Algumas prescrições consideravam o período restrito de um dia para o seu cumprimento, como era o caso da refeição pascal, que deveria ser consumida no mesmo dia do sacrifício. Esse outro modo de ver deu origem a uma concepção mais larga e precisa, o período de vinte e quatro horas. Na criação, o primeiro dia termina quando a manhã do segundo dia começa.

Israel conheceu uma indicação bastante vaga das diversas partes do dia. Essa divisão não se baseava numa unidade abstrata do tempo dividido em partes iguais, o que chamamos de horas. Mas na diferença das situações meteorológicas que caracterizavam as determinadas fases do dia. Fala-se em: a manhã, o meio dia e a tarde. As primeiras horas depois do meio dia eram chamadas de meados do dia ou o calor do dia: Gn 18.1 - Apareceu o SENHOR a Abraão nos carvalhais de Manre, quando ele estava assentado à entrada da tenda, no maior calor do dia.  Depois disso, como é comum nas montanhas da Palestina, entre duas e três horas, segue-se o vento do dia, também chamada de brisa da tarde. O vento do dia opõe-se ao vento que durante a noite vem do mar, e que dura até a aurora.

Como alguns atos litúrgicos estavam ligados a um determinado momento do dia, podiam eles também servir como indicação do tempo, como por exemplo, o sacrifício vespertino, que era servido entre três e quatro horas da tarde: I Rs 9.21 - Falava eu, digo, falava ainda na oração, quando o homem Gabriel, que eu tinha observado na minha visão ao princípio, veio rapidamente, voando, e me tocou à hora do sacrifício da tarde.

Na prática, eles não dispunham de mecanismos para medir o tempo. Daí adotar-se a divisão do dia em quatro partes, assim denominadas: a hora inicial, das seis da manhã ate às nove; a hora terceira, das nove às doze; a hora sexta, das doze às quinze; a hora nona, das quinze às dezoito. A noite também era subdividida em três vigílias, assim como era na antiga Grécia e na Babilônia.

Nos evangelhos observa-se uma diferença de horários entre Marcos 15.25, que diz: Era a hora terceira quando o crucificaram, e João 19.14, que narra: E era a parasceve pascal, cerca da hora sexta; e disse aos judeus: Eis aqui o vosso rei. Nota-se claramente que foram usadas duas medidas de tempo diferentes. João, devido à influência que herdou da cultura grega, não dividia o tempo da forma hebraica, e sim pelo método criado pelos egípcios.

Para santo Agostinho era inconcebível que o dia começasse com luz e terminasse em trevas, daí o seu dia ter início juntamente com o por do sol. Um dia que começa na escuridão e termina na luz, começa imperfeito e termina perfeito. Mas isso se deve também à influência do calendário lunar, em que as celebrações começam geralmente na lua nova, que é mais visível à noite. Mas no seu pensamento, Deus não criaria algo que começasse na luz e terminasse em trevas. Não é este o modo do Criador.

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O que é LIBERDADE?

Saída dos hebreus do Egito, de http://sombradoonipotente.blogspot.com.br
Ao termo liberdade podem corresponder três noções distintas: o estado do homem livre em oposição à escravidão, a liberdade moral do livre arbítrio e o evangelho como a lei perfeita da liberdade: Tg 1.25 – Mas aquele que considera, atentamente, na lei perfeita, lei da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte negligente, mas fala mais de uma vez em dar operoso praticante, esse será bem aventurado no que realizar.

Como noção jurídica e política distingue-se da escravidão. O Primeiro Testamento fala mais de uma vez em dar liberdade aos escravos. Tal gesto é motivado pelo fato de ter o próprio Israel sido escravo no Egito, e de Iahweh o ter libertado da casa da servidão. Toda a história do Êxodo é interpretada como uma libertação das garras do Egito. Dessa liberdade política toda a nação é testemunha ainda. Ao mesmo tempo que prepara o sentido ético e religioso da liberdade como salvação de Iahweh.

No Segundo Testamento o sentido ético é suposto pela prepotência dos fariseus: Jo 8.33 – Nunca fomos escravos de ninguém; como, então, podeis dizer: sereis livres? São Paulo aconselha aos escravos que tenham que tenda, à liberdade, embora do ponto de vista cristão a diferença entre escravos e livres praticamente não existia. Assim como a expressão “escravos e livres” continua a totalidade do gênero humano. São Paulo usa também a oposição entre os dois filhos de Abraão, um da escrava e outro da mulher livre, para construir a sua alegoria das duas aliança: GL 4.22 - Pois está escrito que Abraão teve dois filhos, um da mulher escrava e outro da livre.

A liberdade política e social dos gregos tem por fundamento a possibilidade da pessoa agir por conta própria, isto é, o livre arbítrio. Já os judeus tinham como regra que o homem livre é responsável pelos seus atos. Fala-se também sem obstinação voluntária, pela qual os pregadores do erro se tornam escravos da perdição. 2 Pe 2.19 -  Prometendo-lhes liberdade, quando eles mesmos são escravos da corrupção, pois aquele que é vencido fica escravo do vencedor. O pecado não significa  pecado, porém, não significa um fatalismo, pois o homem que peca entrega-se por uma ato livre,

No Segundo Testamento a noção de liberdade ganhou uma noção inteiramente nova. A liberdade que possuímos em Cristo Jesus significa uma liberdade redentora do espírito de escravidão e de medo. Assim mesmo, a noção cristã de liberdade forma o pleno desabrochamento de uma realidade que, em essência, já estava presente no Primeiro Testamento. Ex 13.14 - Quando teu filho amanhã te perguntar: Que é isso? Responder-lhe-ás: O SENHOR com mão forte nos tirou da casa da servidão.Trata-se de uma tríplice libertação: do pecado, da lei que aumenta a consciência do pecado, e da morte que é o salário do pecado.

Todo o mundo criado será libertado do cativeiro da corrupção para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Rm 8.21 - Na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Essa tríplice libertação apresenta ainda as seguintes qualidades: ela é operada por Jesus através do batismo: Rm 6.17 - Mas graças a Deus porque, outrora, escravos do pecado, contudo, viestes a obedecer de coração à forma de doutrina a que fostes entregues; ela consiste em renunciar completamente toda a justiça adquirida pelos próprios méritos: Rm 10.3 - Porquanto, desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à que vem de Deus; ela significa uma verdadeira vocação, um convite ativo a cada indivíduo: Gl 5.13 - Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor. Ela também determina que a vida cristã seja de acordo com a lei do Espírito, pois o Senhor é o Espírito, e onde há o Espírito do Senhor, aí há também a liberdade.

Por esta razão o cristão se distancia do mundo e das paixões da carne. Afinal ela culmina no paradoxo da escravidão voluntária por amor. Por esta liberdade o homem se torna servo de Deus em laços sagrados: I Pe 2.16 - Como livres que sois, não usando, todavia, a liberdade por pretexto da malícia, mas vivendo como servos de Deus, e escravo de todos por bondade e não por amor fingido: I Co 9.19 - Porque, sendo livre de todos, fiz-me escravo de todos, a fim de ganhar o maior número possível.

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O que é VER? II

João em Patmos,  Hans Baldung em 1511
Em Jesus, Deus faz ver as maravilhas prometidas a Abraão e confirmadas pelos profetas. Coisas que jamais foram vistas antes. Simeão e Ana viram e morreram em paz. Felizes são os olhos que viram o que reis e profetas desejavam ver e não viram. Abraão viu de longe apenas um dos dias de Jesus e se alegrou sobremaneira.

Mas os que viram e não se escandalizaram são ainda mais bem aventurados. O ato de ver praticamente inaugura o Reino de Deus: Mt 11.5 – Os cegos veem, os coxos andam...

Para os evangelhos sinóticos, que tem esse nome justamente porque podem ser vistos como uma unidade, ver o que Jesus fez é o caminho para crer em coisas maiores e alcançar a fé da verdade invisível da história. Os sinais feitos por Jesus são suficientes para se levar a essa fé. Outros sinais não serão dados, contudo, a fé perfeita deveria prescindir até mesmo destes sinais, pois realmente bem aventurados são os que não viram e creram.

Para muitos, a luz do mundo se torna em densas trevas. Estes, apesar dos sinais, não podem crer: Jo 12.37 - E, embora tivesse feito tantos sinais na sua presença, não creram nele.De certo modo também não podem ver, não por serem cegos, mas pela visão obcecada do mundo: Jo 9.41 - Se fôsseis cegos, não teríeis pecado algum; mas, porque agora dizeis: Nós vemos, subsiste o vosso pecado. Nos relatos da ressurreição encontram-se os mesmos temas. A vista do sepulcro vazio, as aparições em que Jesus se faz ver às mulheres e aos discípulos e às testemunhas oculares escolhidas.

Se há uma visão que antecede a fé, a própria fé desemboca numa revelação e numa visão. Os céus não se abrem apenas sobre o Filho de Deus. As pessoas presentes, inclusive João Batista, viram esse mistério de Deus revelado. Ver Jesus e ver o verbo de Deus, a vida que estava junto ao Pai e que nos foi revelada. Ver Jesus é ver Deus como ele é, mas não plenamente. Como ele mesmo disse à Maria Madalena: Ainda não voltei para o Pai. A glória que lhe cabe ainda não havia sido de todo revelada. Jesus tem que voltar ao mundo invisível do qual veio, o mundo das realidades que não se veem que é a fonte das coisas que vemos. Seria preciso Jesus deixar de ser visto para que a sua revelação se desse aos que o buscassem.

Quando seus discípulos o viram pela última vez, na Ascensão, começou o tempo em que os que não o viram irão amá-lo, alegrar-se nele e exultarem, ainda que se sem o ver. Mas crendo na firme esperança de que um dia verão o Filho do Homem voltando, sentado à direita de Deus, vindo sobre as nuvens do céu, cheio de poder e glória. Estevão, o primeiro mártir da fé cristã, viu esse dia, o Dia do Senhor anunciado em todo o Primeiro Testamento. Como uma realidade atual: At 7.55 Mas - Estevão, cheio do Espírito Santo, fitou os olhos no céu e viu a glória de Deus e Jesus, que estava à sua direita.

O Apocalipse sugere que esse dia já pode ser visto ao longo da história: AP 1.7 - Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até quantos o traspassaram. E todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Certamente. Amém! É uma realidade que ainda não vemos, a não ser pela fé. Agora não é mais o tempo de olhar para o céu na expectativa da sua vinda, como fazem alguns lendo as palavras de Jesus, segundo a sua visão fundamentalista. É tempo de testemunhar que o veremos voltar na mesma gloria com que subiu aos céus. É tempo de viver essa dupla expectativa: de estar sempre com o Senhor: Fp 1.23 - Ora, de um e outro lado, estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor. Mas firmados na esperança de que um dia o veremos face a face: Ap 22.3s - Os seus servos o servirão, contemplarão a sua face, e na sua fronte está o nome dele.

Ver como Deus é em seu mistério inacessível. Isto resume toda a expectativa dos seus filhos.

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O que é VER? I

Moisés e a sarça ardente, Dieric Bouts (1415-1475)
Enquanto os ídolos têm olhos e não veem, Deus vê tudo que está no céu, na terra e embaixo da terra. De forma bem particular, Deus vê também os filhos de Adão, dos quais ele sonda os rins, o coração e perscruta até o mais íntimo desejo.

Mas esse Deus que tudo vê continua sendo para o homem um Deus escondido. Não obstante, de uma forma inexplicável, Deus escolheu para si um povo ao qual se revelou de uma forma muito especial, até se mostrar por inteiro na sua revelação na pessoa de Jesus, o Cristo.

Ver Deus face a face é um desejo antigo do homem do Primeiro Testamento. A saudade do Paraíso que domina a Bíblia é antes de tudo a consciência de haver perdido esse contato íntimo com Deus, que faria com que se sentisse novamente no Éden. Para ele, a esperança de ver o seu rosto superava até mesmo o medo da sua ira. As duas maiores experiências religiosas de Israel: a pregação da Palavra de Deus pelos profetas e a consciência da sua presença no culto, tendem exaltar este desejo de ver Deus.

As teofanias eram o ponto alto da missão profética. Moisés e Elias conheceram esta experiência em sua forma mais elevada, ainda assim Moisés lhe pede: Ex 33.18 – Fazei com que eu veja a vossa glória. Elias, na sua maior e mais dramática aproximação de Deus, se esconde numa caverna, cobre o rosto e ouve apenas uma voz que lhe é trazida pela brisa suave depois de vendaval, terremoto e fogo. Tão importante se torna este detalhe para os compiladores bíblicos mais recentes que os LXX preferiram traduzir assim: Ex 24.10 – Eles viram o lugar onde se encontrava Deus.

O culto era um desses lugares onde o povo tinha a consciência de que Deus esteve presente, por isso é que suscitava os melhores desejos do coração, tais como: ver Deus, contempla a sua santidade, exultar diante da sua glória, descansar na sua providência. A visão de Isaías narrada no capítulo 6, tão próxima das teofanias presenciadas por Moisés, veio para dar uma noção da distância que separa o nosso pecado da perfeição de Deus, declarar a dependência irrestrita do seu perdão, revelar o desafio da missão que esta presença encerra, como também mostrar que não será nada fácil executá-la.

Se o desejo de ver Deus só é parca e sutilmente satisfeito pela fé, conhecê-lo é algo que se faz visceralmente necessário. Para conhecê-lo é preciso ouvir a sua Palavra e ver a grandiosidade das suas obras, pois é nas maravilhas da sua criação que o que ele tem de invisível se torna visível. Paulo decretou esse ensino uma cláusula pétrea: Rm 1.20 - Porque os atributos invisíveis de Deus, assim como o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas.

Mas o Deus escondido se faz ver mais ainda na história. Nos grandes feitos que realizou no Egito, no Êxodo e em toda a história de Israel, através de sinais que nunca antes foram vistos, e que causou o espanto de todos os povos vizinhos. Conhecer Deus é, portanto, ver seus altos feitos e compreender o quem ele é, entender os seus reais e sublimes propósitos, mais do que se deter nos aparentes motivos que o mundo imagina que o levaram a fazer o que fez, para de uma forma consciente e sincera, crer nele.

Assim como os ídolos estúpidos, os homens são surdos e cegos. Têm olhos, mas não veem. Têm ouvidos, mas não ouvem. Os sinais e os dons de Deus destinados a iluminá-los nessa busca, podem ser obscurecidos pela sua obcecação. A pregação profética que deveria ser consoladora para Israel, se torna pesada ao seu coração, tapa-lhe os olhos para que não vejam e retarda-lhe o entendimento para que não compreendam. Contudo, Deus tem ainda uma forma de se tornar visível e compreendido. Se a palavra profética ainda não havia alcançado o objetivo pleno, a Palavra Viva veio para dizer tudo de novo, de forma a satisfazer definitivamente o desejo de ver, contemplar e se regozijar na sua presença. (continua)


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O que é ÊXODO?

Saída dos hebreus do Egito, David Roberts em 1828
A palavra exodos significa caminho de saída. Na Bíblia, ela designa especialmente a saída dos hebreus do Egito. A tradição judaica afirma ser a longa peregrinação de quarenta anos que os levou do Egito à Terra Prometida através do deserto, tendo suas diversas etapas narradas no Pentateuco.  Este acontecimento se tornou no pensamento judaicocristão posterior o penhor de todas as libertações efetuadas por Deus em favor de seu povo.

O nascimento do povo de Deus foi efetuado no sangue: Ez 16.6s - Ao passar junto a ti, eu te vi a estrebuchar no teu próprio sangue, eu te disse: “Vive”. Fiz com que crescesses como a erva do campo. Foi então que Deus gerou Israel, fazendo com que Abraão fosse seu pai. Sinal do amor divino, o Êxodo é também penhor da salvação prometida aos patriarcas. Contudo, a esta solicitude manifestada com prodígios, Israel respondeu com ingratidão e infidelidade.

Em razão da infidelidade, o povo se vê novamente cativo na Babilônia. Então é anunciado um novo Êxodo, e outra vez Deus irá libertar o seu povo. Que todos os estropiados recobrem o seu vigor e se preparem para uma nova saída por um caminho através do deserto: Is 43.19 – Eis que vou fazer uma coisa nova, ela já vem despontando: não a percebeis? Com efeito, estabelecerei um caminho no deserto, e rios em lugares ermos. Como outrora o mar Vermelho, o Eufrates irá dividir-se para deixar passar a caravana do Novo Êxodo.

Fazendo de João Batista a “voz que clama no deserto para preparar o caminho do Senhor” a tradição apostólica quis afirmar que a obra redentora efetuada por Cristo era a realização do mistério da salvação prefigurada no Êxodo. Dentro dessa mesma intenção, considerou Jesus como o “Novo Moisés” que já tinha sido anunciado em Deuteronômio 18.18: Vou suscitar para eles um profeta como tu, do meio dos seus irmãos. Colocarei as minhas palavras em sua boca e ele lhes comunicará tudo o que eu lhes ordenar.

O tema do êxodo é abordado por Paulo sob outro aspecto. Para ele, Jesus é o verdadeiro Cordeiro Pascal que foi imolado por nós. Os prodígios do Êxodo: passagem pelo mar, o maná, a água que brota da rocha etc, são figuras das realidades espirituais trazidas por Cristo: I Co 10.1-4  – Não quero que ignoreis, irmãos, que os nossos pais estiveram todos sob a nuvem, todos atravessaram o mar, e na nuvem e no mar todos foram batizados em Moisés. Todos comeram o mesmo alimento espiritual e todos beberam a mesma bebida espiritual, pois bebiam de uma rocha espiritual que os acompanhava, e essa rocha era Cristo.

Pedro desenvolve o tema numa perspectiva mais eclesial. Resgatados pelo sangue do Cordeiro, o cristão é levado das trevas à luz para ser o novo Israel de Deus.

João oferece uma teologia mais elaborada. Libertados da servidão do Diabo pelo sangue do Cordeiro, os cristãos estão no deserto a caminho do Reino dos Céus. São nutridos por Cristo, o pão vivo que desceu dos céus, e saciados pela água que jorrou do seu lado na cruz. Feridos, são curados olhando para Cristo suspenso no madeiro. O Êxodo se completará quando o mundo aqui de baixo se tornar o mundo lá do alto.

O Apocalipse tem uma perspectiva bastante parecida com as epístolas de Pedro. Pelo sangue do Cordeiro, os cristão foram resgatados do mundo mau submetido a Satanás, para formar o reino de sacerdotes anunciado por Deus no Êxodo: Ex 19.5s – Agora, se ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança sereis para mim uma propriedade peculiar entre todos os povos, porque toda a terra é minha. Vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa. Estas são as palavras que dirás aos filhos de Israel.

Escrito num tempo de opressão o Apocalipse soa como um canto de vitória. A recordação do mar Vermelho lembra que a derrota dos inimigos está próxima. Serão aniquilados pela Palavra de Deus tal como no Êxodo, foram aniquilados os primogênitos pela praga que se abateu sobre o Egito.

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O que é GENTIO?

Dissensão entre Pedro e Paulo, Rembrandt em 1628
Este é um termo exclusivamente judaicocristão, com o qual são conhecidos todos aqueles que professam uma fé não monoteísta. O fundamento dessa acepção é unicamente a oposição entre o povo eleito e os demais povos, porém, as diferenças étnicas, sociológicas ou nacionais não são influentes, tanto no hebraico como no grego.

A evolução religiosa refletiu diretamente no modo como o termo era usado. No Primeiro Testamento a diferença linguística entre gentio, povo e nação é incerta. Em resumo, gentios são os não judeus. Algumas vezes o texto bíblico chama Israel de povo, em oposição aos gentios, a quem chama de não povo.

No Segundo Testamento os termos são usados da mesma maneira, mas referindo-se mais diretamente ao modo de pensar e o estilo de vida, onde o modo judaico contrasta com o grego. Quando o Cristianismo começou a ser pregado, formaram-se as primeiras comunidades cristãs, e estas, indistintamente de serem formadas por judeus e não judeus, foram também chamadas de povo de Deus. Isso fez com que os cristãos se considerarem o novo Israel. Assim o nome gentio passou a receber um significado religioso e moral, indicando todas as pessoas que, independentemente da sua nacionalidade, não receberam a revelação. No Judaísmo da era cristã mesmo as pessoas que confessam uma fé monoteísta, como cristãos e muçulmanos, são chamados de gentios. O latim do império romano inverteu os lados e aplicou aos cristãos o termo “gentes”, para designar todos os que não adoravam o imperador. Mais tarde, quando os adeptos do Judaísmo e do Cristianismo se viram obrigados a refugiarem-se nas aldeias, no latim pagus, foram chamados de pagãos.

Quando da conquista da Terra Prometida, os habitantes cananeus foram chamados de idólatras e a sua terra de impura. Tudo lá, fosse comida ou costume, era considerado impuro. Tudo o que era comum aos gentios, sobretudo comércio e casamentos, deveria ser evitado. Os profetas condenavam os gentios pela sua impiedade para com Israel e pela sua influência negativa aos costumes judaicos. Esta determinação trouxe mais tarde dificuldades enormes para o Cristianismo que pregava uma salvação supranacional, acessível a todos através da conversão. Os gentios convertidos ao Cristianismo, por sua vez, não eram cristãos pela metade, tal como eram considerados os prosélitos convertidos ao Judaísmo. Mesmo sabendo que seus patriarcas receberam uma bênção destinada a todas as famílias da terra, os judeus continuavam a acentuar a sua situação privilegiada. Os gentios podem prestar culto ao Deus de Israel, podem considerá-lo seu Deus, podem ser fiéis aos seus mandamentos, mas nunca serão autenticamente judeus.

Foi na época pós profética que nasceu a ideia de um Reino de Deus espiritual e universal, no qual os gentios teriam também o seu lugar. Mais ainda assim, a separação religiosa prevalecia, pois quem não aderiu a Israel nessa vida como prosélito ou temente a Deus, somente entraria no Reino caso lhe fosse revelado o papel preponderante do Judaísmo neste Reino.

No Segundo Testamento esta separação é abolida por completo. Jesus veio especialmente para por fim a ela. Ainda se fala em gentios, mas o termo é aplicado aos que insistem em continuar a praticar a idolatria, mesmo depois de terem conhecido a verdade do evangelho. São exatamente esses que o cristão não deve imitar, e, em certas circunstâncias evitar o contato. Durante o ministério ativo de Jesus, os discípulos pregavam o evangelho exclusivamente aos judeus. Somente depois da apostasia dos judeus o Reino de Deus se tornou acessível aos gentios. Antes da sua ascensão, porém, Jesus mandou fazer discípulos entre todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Santo Espírito, ensinado-os a guardar as Escrituras que podem fazê-los sábios.

Não era necessário passar pelo Judaísmo para se alcançar a salvação. Mas foi depois de Antioquia, onde os gentios passaram a se converter em grande número, que os cristãos formaram uma categoria de fiéis à parte do Judaísmo. Foi depois de Paulo, que o termo, antes pejorativo, “cristão”, passou a designar homens e mulheres, escravos e livres, judeus e gentios como cidadãos do Reino, Nação Santa e povo exclusivo de Deus.

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O que é o LIVRO DE JONAS?

Profeta Jonas, iluminura do XI século
Ao contrário dos outros livros proféticos da Bíblia, o livro de Jonas não deve seu nome ao autor, mas ao personagem principal da narrativa. Em resumo, ele conta a saga de um profeta que recebeu de Deus a ordem de pregar na cidade assíria de Nínive o arrependimento da injustiça e crueldade que eram cometidas pelos seus cidadãos contra os povos por eles dominados.



Para fugir da missão, Jonas foge para o Leste, o lado oposto de onde ficava a Assíria, embarcando em um navio que está prestes a passar por uma terrível tempestade no Mediterrâneo. Identificado pelos marinheiros pagãos como o responsável pela ira dos deuses que provocaram a tempestade, Jonas é jogado ao mar revolto com o intuito de abrandar a ira deles. Por uma ação de Deus o profeta é engolido por um enorme peixe que após três dias abrigado em seu ventre, o vomita na praia, onde ele recebe um novo chamado.

Contra todas as expectativas a mensagem do profeta é bem recebida e aceita pelos moradores de Nínive, eles se arrependem das suas más ações e recebem o perdão de seus pecados. O amor e o cuidado que Deus dedica à nação arqui-inimiga de Israel deixa Jonas tão frustrado que nada pede para si, a não ser a morte. O episódio final do livro em que uma mamoneira nasce, cresce a ponto de lhe oferecer uma sombra, e morre no espaço de um dia, é a confrontação definitiva entre os mais sublimes propósitos de Deus para o mundo e a prepotência judaica de insistir em querer para si a exclusividade do amor de Deus, bem como ser o único herdeiro das promessas que Deus fez a Abraão, quando o escolheu.

A origem desse livro permanece obscura, pois não faz alusão a um fato histórico concreto nem à realidade vivida pelo seu autor ou autores, visto que um anacronismo é visível de imediato. Na época em que ele foi escrito, Nínive há muito havia sido destruída pelos babilônicos, pois sua destruição data de 606 aC. Porém, muitos estudiosos concordam que sua datação é posterior ao cativeiro babilônico, colocando a sua redação no período pós profético, entre os anos 400 e 200 aC. Sua unidade é também contestada. O salmo transcrito no capítulo 2 não diz respeito à situação existente, tratando-se, provavelmente, de uma inserção.

Pelo seu estilo o livro não pode ser encaixado plenamente no gênero literário que chamamos de profetismo bíblico. Contudo, o livro de Jonas consta entre os livros proféticos pelas seguintes razões: pelo fato do seu personagem principal ser reconhecidamente um profeta chamado por Deus, por causa da sua tendência didática e pelas denúncias contra a injustiça, e por sua pregação sobre a inescapável salvação de Deus. Mas, por outro lado, difere-se deles pela falta de um contexto histórico cuja mensagem seja apropriada, porque, como já foi dito, a cidade de Nínive era apenas um monte de ruínas, criando, assim, a universalidade e a atemporalidade do seu texto. Um número considerado de exegetas vê o livro como uma parábola que, mesmo que respaldada por Mt 12.38ss, não apresenta um fato, mas a, até então, revolucionária doutrina da universalidade da salvação. A redação do autor imita, de certa forma, alguns textos do saltério, bem como textos da tradição, como o livro de Jó.

Sua doutrina é a universalidade da salvação, o que torna o livro um protesto contra o particularismo judaico representado por Jonas, que tenta eximir-se da sua missão entre os gentios. Por outro lado, da a entender que as decisões divinas que visam destruir os pagãos, tem, na realidade, por objetivo atingir a consciência do povo escolhido para este atente para o seu chamado.

A mensagem do livro é simples, direta e particular. Tanto serviu para Israel no passado, como é propícia a igreja de hoje. Se Nínive, a grande cidade do mal pôde ser convertida pela pregação profética, por que Israel não se converteu e por que a igreja não se converte ao chamado de Deus para a salvação do mundo?

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O que é HIPOCRISIA?

O Senhor disse: Visto que este povo se aproxima de mim e com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim. Isaías 29.13a

Escribas e fariseus hipócritas, Richard Linford em 2013
A exemplo dos profetas, mas com uma contundência inigualável, Jesus pôs a descoberto as raízes e consequências da hipocrisia, visando especialmente os que constituíam a aristocracia intelectual dominante: os escribas, os fariseus e os doutores da Lei. Hipócritas são aqueles cuja conduta não exprime os desejos do coração; mas eles também são qualificados por Jesus como cegos: Mt 23.26 - Fariseu cego, limpa primeiro o interior do copo, para que também o seu exterior fique limpo! Há uma conexão que parece justificar a mudança de um sentido para o outro: no ímpeto de querer enganar os outros, engana-se o hipócrita a si mesmo e se torna cego em relação ao seu próprio estado, incapaz de ver a luz.

A hipocrisia religiosa não é simplesmente uma mentira; ela engana os outros para angariar sua estima na aparência dos gestos religiosos, mas intenção é bem outra. O hipócrita parece agir para Deus, mas, na realidade, age para si próprio. Nas práticas mais comuns à fé cristã, a oração, a pregação, o jejum e o serviço, são adulteradas pela preocupação de se fazer notar antes de tudo: Mt 23.5 - Praticam, porém, todas as suas obras com o fim de serem vistos dos homens; pois alargam os seus filactérios e alongam as suas franjas. Este hábito de manter uma distância entre o coração e os lábios, ensina a encobrir intenções maldosas sob uma aparência piedosa, como quando sob o pretexto de acionar uma questão jurídica contra Jesus, armou-se para ele uma cilada: Mt 22.17 - Dize-nos, pois: que te parece? É lícito pagar tributo a César ou não?Ansioso por salvar as aparências, no popular, livrar a sua cara, o hipócrita sabe fazer uma triagem dos preceitos ou acomodá-los segundo uma astuta casuística. Desta forma ele consegue coar um mosquito e engolir um camelo. (Mt. 23.24) Pode também torcer os preceitos divinos em proveito da sua rapinagem e intemperança: Mt 23.29 - Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque edificais os sepulcros dos profetas, adornais os túmulos dos justos.

O formalismo pode ser curado, mas a hipocrisia está próxima do endurecimento. Os sepulcros caiados acabam por aceitar como verdade o que eles querem fazer crer. Julgam-se justos e se tornam surdos a qualquer apelo à conversão. Como um ator de teatro, do grego hypocrites, ele continua a representar seu papel, quanto mais ocupa o lugar de destaque e vê a sua palavra ser obedecida e reverenciada: Mt 23.2 - Na cadeira de Moisés, se assentaram os escribas e os fariseus. Algumas de suas palavras são salutares. porém vazias, pois como poderia o hipócrita ponderar sobre a realidade se a trave no seu olho lhe tapa a vista?

Os guias espirituais são necessários nesse mundo, mas nunca poderão ocupar o lugar de Deus, o que normalmente fazem quando substituem a lei divina pelas tradições humanas. São cegos que pretendem guiar outros cegos. A sua doutrina não passa de fermento mau. Cegos como são, não podem reconhecer os sinais dos tempos, isto é, descobrir em Jesus o enviado de Deus, por isso estão sempre pedindo sinais do céu. Obcecados por sua malícia, não levam em conta o amor de Jesus e apelam para a lei do sábado para impedi-lo. Ousam afirmar que os milagres de Jesus tem origem em Belzebu. Também, como poderia de um coração mau sair palavras boas?

Para quebrar-lhes a tranca dos seus corações, Jesus faz com que as suas máscaras caiam diante de todos, denuncia o seu pecado fundamental e sua secreta podridão, na tentativa última de livrá-los da sorte dos ímpios. Para eles, Jesus emprega o termo hebraico hanefa, que significa perverso. O hipócrita é um ímpio em potencial. João exprime bem este pensamento quando diz: Jo 9.40 – O pecado dos judeus consiste em dizer: nós vemos, quando são cegos.

Seria ilusão pensar que a hipocrisia fosse própria dos fariseus apenas. Os sinóticos estendem à multidão este adjetivo. João assim chama os judeus incrédulos de todos os tempos. Pedro escapou desse perigo em Antioquia quando Paulo o confrontou. Talvez por isso, o próprio Pedro nos recomenda que sejamos simples como um recém nascido, sabendo que a hipocrisia nos espreita.

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O que é IRA?

A ira do homem geralmente é reprovada pelas Escrituras. No Primeiro Testamento, sobretudo nos livros sapienciais: Pv 15.18 - O homem iracundo suscita contendas, mas o longânimo apazigua a luta. O motivo indicado muitas vezes é utilitarista; a ira é perigosa porque causa prejuízo.
Caim fugindo da ira de Deus, William Blake em 1809
Também a tradição hebraica condena a ira, pois o homem perde o domínio de si mesmo, e se deixa levar pela má paixão. Assim ele pode chegar a toda espécie de pecado, inclusive a idolatria. O Segundo Testamento também proíbe a ira, baseado no fato de que o amor a exclui: Ef 4.31 - Longe de vós, toda amargura, e cólera, e ira, e gritaria, e blasfêmias, e bem assim toda malícia.

Existe, contudo, uma ira santa, da qual o próprio Jesus deu exemplo: no modo como fala dos fariseus e na sua conduta com os cambistas do templo, assim como dirige um olhar irado a todos os que com hipocrisia contestavam o seu ministério: Mc 3.5 - Olhando-os ao redor, indignado e condoído com a dureza do seu coração, disse ao homem: Estende a mão. Estendeu-a, e a mão lhe foi restaurada.

Existe também um sentimento de Deus que se manifesta no seu juízo que é, através de um antropomorfismo exagerado, chamado de ira. A ira de Deus é a sua reação contra tudo que atenta contra a sua santidade e justiça. Normalmente descrita como uma paixão veemente, precisa descarregar-se e voltar à calma: Ez 16.43 - Visto que não te lembraste dos dias da tua mocidade e me provocaste à ira com tudo isto, eis que também eu farei recair sobre a tua cabeça o castigo do teu procedimento, diz o SENHOR Deus; e a todas as tuas abominações não acrescentarás esta depravação.

Como todos os povos da antiguidade, os hebreus atribuíam à ira de Deus todas as calamidades que os sobrevinham, mas ainda assim reconheciam que a ira do Deus de Israel não era um rompante de mau humor ou ciúme, como era comum aos deuses pagãos que não se importavam com a conduta humana. Para eles a ira de Deus poderia ser incompreensível, mas nunca satânica, pois, em última análise, era a revelação da justiça divina que condenava o pecado: Naum 1.6 - Quem pode suportar a sua indignação? E quem subsistirá diante do furor da sua ira? A sua cólera se derrama como fogo, e as rochas são por ele demolidas. Mantiveram sempre consigo a esperança de que no Dia do Senhor, que também era chamado pelos profetas de Dia da Ira, Deus se voltasse apenas contra os povos opressores de Israel, e que convertesse a ira em perdão para o povo.

No Segundo Testamento, a ira é um aspecto essencial para a compreensão de Deus. A pregação da misericórdia se junta à pregação sobre a ira. Só quem conhece a grandeza da ira de Deus pode avaliar a grandeza do seu amor misericordioso. Inspirando-se nos profetas, os autores do Segundo Testamento usam o termo ira geralmente no sentido escatológico. A ira provocada pela pecaminosa conduta da humanidade está guardada para os tempos da consumação: I Ts 1.10 - e para aguardardes dos céus o seu Filho, a quem ele ressuscitou dentre os mortos, Jesus, que nos livra da ira vindoura. Exponencialmente aumentado pela lei, o pecado trona-se ainda mais culpado, não restando alternativa ao homem, senão na graça de Deus: Rm 5.20 - A lei veio para aumentar o mal. Mas, onde aumentou o pecado, a graça de Deus aumentou muito mais ainda.

É pela reconciliação com Deus através de Cristo que escapamos à ira. O texto de João 3.18 - Aquele que crê no Filho não é julgado; mas quem não crê já está julgado porque não crê no Filho único de Deus, parece ser um simples jogo de palavras, é a explicação mais lógica do binômio ira-misericórdia. Na realidade, não é Deus quem está exercendo o julgamento, pelo contrário, através da entrega do seu Unigênito está colocando ao alcance de todos a sua misericórdia. Aquele que não a aceita, ou aquele que não leva é conta que é uma oferta gratuita, condena a si mesmo a viver em um mundo que desconhece a misericórdia, e onde a ira prevalece absoluta sobre todas as coisas.

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O que é MAGIA?

Feiticeira de En-Dor, Nikolay Ge em 1857
Diante de uma cultura que o esmaga e de manifestações que o atemorizam com o fim de dominá-lo, o homem procura de todas as formas adquirir um poder que ultrapasse as suas próprias forças, que o torne senhor da situação e do seu próprio destino. Se hoje os métodos mudaram, a tendência e o desejo de se assenhorear do desconhecido continuam enraizadas no coração do homem, o que o leva a realizar práticas ancestrais.

A divinização de adivinhos e a idolatração de feiticeiros, foram condenadas eficazmente pelos profetas: Dt 18.10ss - Não se achará entre ti quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro; nem encantador, nem necromante, nem mágico, nem quem consulte os mortos; pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao SENHOR. Juntamente à prática da magia estão conectados encantamentos, maus agouros e uso de símbolos de encarceramento ou de bloqueio. Magias que os hebreus aprenderam quando em contato com egípcios, caldeus e cananeus. Costumes abominados por Deus, pois em Israel ele só permitiria profetas: Is 44.24ss - Eu sou o SENHOR, que faço todas as coisas, que sozinho estendi os céus e sozinho espraiei a terra; que desfaço os sinais dos profetizadores de mentiras e enlouqueço os adivinhos; que faço tornar atrás os sábios, cujo saber converto em loucuras; mas que confirmo a palavra do meu servo e cumpro o conselho dos meus mensageiros. Contudo, essas não devem ser confundidas com a ciência astrológica dos magos.

Na luta contra a magia, editam-se leis e transmitem-se lembranças que fazem o povo recordar do julgamento da revelação divina sobre os que a praticam. Três códigos da lei mosaica punem a magia com pena de morte: Lv 19, Dt 18 e Ex 23, e códigos suplementares proíbem as práticas supersticiosas desses povos: Dt 14.21c – Não comerás o cabrito cozido no leite da própria mãe. Condena-se sumariamente o sacrifício de inocentes e ritos de fertilidade. A menor dessas práticas era tida como a maior das idolatrias.

Outra série se narrativas condenam os que pela sua magia se consideravam divinos. Assim José vence os magos do Egito e Daniel confunde os sábios caldeus. Narrativas como essas visam formar uma consciência histórica, ridicularizando, quando preciso, elementos lendários locais: como Moisés fez Janes e Jambres e também Paulo com Elimas; Pedro desmascarando o mago Simão; com a pitonisa de Filipos e os exorcistas judeus de Éfeso. Os milagres e as profecias não dependem dos elementos da magia, pois ambos procedem da providência e do cuidado de Deus, ao contrário da magia que afasta os seus adeptos dessa bênção.

A tentação à magia é grande, e Jesus também é submetido a ela. Satanás tenta convencer Jesus a usar o seus atributos divinos para beneficio próprio, mas Jesus não quis fundamentar o seu ministério no benefício imediato e transitório, mas na construção de um Reino de justiça. Mas é bem certo que o Primeiro Testamento usou algumas práticas originariamente mágicas. Maquiando-as e purificando-as fez com elas servissem ao Deus verdadeiro. Mesmo sendo proibido o uso de sangue, o sacerdote realiza com ele o rito de purificação. Mas todo rito que se tornava supersticiosa era abolido, como a serpente de bronze, não porque Deus temesse a concorrência da sua divinização, mas para que o povo não se sujeitasse à manipulação através deles, mesmo se tais ritos se realizassem em seu nome, daí a proibição de se utilizar o seu santo Nome em vão.

Criado livre e capaz de optar por Deus, o homem recebeu de Deus o domínio sobre si, e com isso a capacidade de influenciar o mundo e participar da sua história. O homem não nasceu sujeito à magia, a qualquer tipo de religião e dependente das ciências exatas ou exotéricas. Nenhuma delas substitui ou obscurece a mais simples e singela manifestação de fé.

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O que é PEREGRINAÇÃO? II

Peregrinação a Cythera, Antoine Watteau em 1718
Como foi dito, a reforma do rei Josias extinguiu os santuários locais e fixou em Jerusalém a celebração das três festas. Esta reforma tinha por objetivo congregar todo o povo em um só local, evitando assim as contaminações idolátricas. Contudo, não permaneceu vigente após a morte deste rei, e o Templo de Jerusalém só voltaria a ser novamente santuário único com a sua reconstrução, após a volta do exílio babilônico. E para lá que toda a Palestina, como também todos os judeus que viviam dispersos fora dela, passaram a afluir nas celebrações, principalmente na Páscoa.


Os salmos graduais ou de subida estão sempre presentes nas romarias. O 120 é o que melhor expressa a oração dos peregrinos que subiam a Jerusalém: Sl 120.5 - Ai de mim, que peregrino em Meseque e habito nas tendas de Quedar. Já o salmo 134, era o principal cântico da peregrinação: Bendizei ao SENHOR, vós todos, servos do SENHOR, que assistis na Casa do SENHOR, nas horas da noite; erguei as mãos para o santuário e bendizei ao SENHOR. De Sião te abençoe o SENHOR, criador do céu e da terra!

A experiência da fé e da adoração, além da alegria da comunhão, proporcionava a esperança escatológica do Dia do Senhor, agora concebido não mais como um dia de castigo, mas como dia de salvação, tanto para o povo quanto para os pagãos: Is 2.2 - Nos últimos dias, acontecerá que o monte da Casa do SENHOR será estabelecido no cimo dos montes e se elevará sobre os outeiros, e para ele afluirão todos os povos.

O Segundo Testamento não traz nenhuma novidade nesta matéria. Jesus sobe a Jerusalém com seus pais, aos doze anos para obedecer à lei e no decurso na sua missão sobe também várias vezes. O apóstolo Paulo, ausente por vinte e cinco anos, faz questão de fazer a peregrinação de Pentecostes: At 20.16 - Porque Paulo já havia determinado não aportar em Éfeso, não querendo demorar-se na Ásia, porquanto se apressava com o intuito de passar o dia de Pentecostes em Jerusalém, caso lhe fosse possível.

Mas Jesus anuncia o trágico fim do Templo. Na incredulidade de Israel se consuma a ruptura entre a Igreja e o Judaísmo. A ressurreição de Jesus passa a convergir o culto dos seus fiéis para uma pessoa e não mais para um local. Jo 4.23 – Nem neste monte, nem em Jerusalém... Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores.

O modo de vida do cristão se apresenta agora como a verdadeira peregrinação. Ela é também um Êxodo conduzido por Jesus, que é o novo Moisés, mas que sendo maior que este, tem em si mesmo a plenitude da Palavra de Deus e a realidade plena do seu Reino. Jesus é a montanha de Sião, o sacerdote por excelência, a Assembleia dos Primogênitos, o Cordeiro que tira o pecado do mundo e o verdadeiro e definitivo Templo: Ef 2.19s - Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular.

Salvaguardando-se do comércio absurdo e supersticioso que se faz das peregrinações nos dias de hoje, alguns segmentos da Igreja, principalmente na Igreja Católica, estão apegados demais à história para negar o valor das peregrinações aos lugares que supostamente simbolizam a vida e o ministério terreno de Jesus, ou aos lugares em que se acredita terem acontecido alguma manifestação na vida de alguns santos. A Igreja ainda pode ver nessas reuniões nos lugares de atração uma ocasião para os fiéis se congregarem na fé e na oração. Mas seria providencial que se lembrasse de sempre que a verdadeira peregrinação nesta terra se faz no caminho estreito traçado por Jesus, e em direção a ele, que é caminho, verdade e vida.

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