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Almas derramadas no lugar certo

E sucedeu que, perseverando ela em orar perante o SENHOR, Eli fez atenção à sua boca, porquanto Ana, no seu coração, falava, e só se moviam os seus lábios, porém não se ouvia a sua voz; pelo que Eli a teve por embriagada. E disse-lhe Eli: Até quando estarás tu embriagada? Aparta de ti o teu vinho. Porém Ana respondeu e disse: Não, senhor meu, eu sou uma mulher atribulada de espírito; nem vinho nem bebida forte tenho bebido; porém tenho derramado a minha alma perante o SENHOR. I Sm 12ss
Oração de Ana, Frederic Leighton (1830-1896)
Existem diferenças profundas entre a queda de uma pessoa, quando essa pessoa cai sozinha, e quando ela entrega a sua queda a uma consciência maior do que a sua. Não importa aqui o motivo da queda. Seja esta queda causada por um tropeço moral, dificuldades financeiras, por problemas de saúde, por alguma perda afetiva ou mesmo pelo fato do seu estado de espírito estar abatido sem um motivo aparente. Estou tentando dizer que não é o motivo não faz a diferença, e sim para onde nos direcionamos ao cairmos.

Desde muito cedo na igreja tentaram me fazer crer que a decisão entre essas duas alternativas é de cunho estritamente pessoal, e que oscilava entre os sentimentos do remorso e do arrependimento. Onde o remorso faria apenas com que o caído maldissesse as circunstâncias, as pessoas à sua volta ou o próprio destino. O arrependimento não, este sempre levaria em conta um firme propósito de mudança. Eles até tinham alguns exemplos para me dar, como a diferença que detectaram entre Judas e Pedro. Pedro se arrependeu, foi perdoado e viveu. Já Judas teve apenas remorso, não foi capaz de encontrar o perdão e por isso se enforcou. Não é muito coerente esse raciocínio, pois se o tivesse seguido à risca, Judas não teria enforcado a si e sim a outra pessoa, quem sabe a Pedro?

Penso que a diferença no direcionamento da queda pode fazer com a pessoa caia em si ou caia fora de si. Aquele que cai em si busca alternativas viáveis, tem esperanças concretas e vive antecipadamente situações melhores, sem a ilusão de que do nada surgirá de repente seu resgate. Tomemos como base as decisões do filho pródigo na terra distante quando caiu em si e de Jó em meio a sua aflição. O filho pródigo diz: Levantar-me-ei, e irei ter com o meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores. Jó por sua vez pensa completamente diferente: Eu sei que o meu “vingador” vive e por fim se levantara sobre a terra. Vingador é a tradução correta para o termo hebraico Go-el, e não redentor como imaginou São Jerônimo.

Até mesmo na vida de Jó podemos notar essa diferença acontecendo em dois momentos isolados. A primeira reação, já citada, se deu quando ele ainda conhecia Deus só de ouvir falar. Mais tarde, quando conseguiu ter uma visão mais acurada de Deus, ele confessou: Tu me perguntaste como me atrevi a pôr em dúvida a tua sabedoria, visto que sou tão ignorante. É que falei de coisas que eu não compreendia, coisas que eram maravilhosas demais para mim e que eu não podia entender.

Mas onde entra a oração e o choro de Ana na nossa meditação?Agora, porque o caso de Ana é mais típico ainda, pois além da amargura que sentia pelo seu estado, ainda tinha o marido e a outra esposa do marido a fustigá-la impiedosamente com injúrias. É justamente essa a situação em que uma consciência superior pode fazer toda a diferença. Na sua entrega submissa Ana não estava contabilizando as suas perdas, de modo a que pudesse ser influenciada negativamente por alguém.

Ana estava totalmente mergulhada na esperança que vislumbrava algo que nem Alcana e nem Penina com os olhos da mais pura razão poderiam ver. Diante dessa visão o seu coração era um misto de choro e de riso, um estado em que parecia estar fora de si. Bêbada, como intuiu seu marido.

Ana reconheceu a sua própria miserabilidade, mas não saiu por aí atirando farpas em todas as direções. Ela permaneceu firme no propósito de confiar unicamente naquele que podia fazer algo por ela. Se a esperança se concretizasse, muito bem. Caso contrário ela morreria nessa esperança, contudo, sem ter que passar um dia sequer pelo ridículo de ser flagrada andando atrás de ilusões frustrantes.

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A caverna de Adulão

Davi retirou-se dali e se refugiou na caverna de Adulão. I Sm 22:01a
Caverna de Adulão, Tissot
Como pode ser que coisas como essas aconteçam? Davi não tinha prestigiado Saul? Não tinha glorificado a Deus? Não foi ungido para ser rei? Meu Deus!Como pode ser que coisas como essas aconteçam? Isso é o mínimo que Davi deveria ter pensado enquanto olhava para fora da caverna e via os penhascos rochosos abaixo.

Rejeitado, fugitivo, um homem sem país e agora sem exército e sem recursos. Ele havia acabado de se fingir de louco para se manter vivo. Quando tudo parecia que ia bem, acontece o inimaginável. Como a vida pode chegar a este beco sem saída? Todos sabemos que a esperança adiada entristece o coração. Não foi a toa que Davi se identificou com Jó, quando este viu que as calamidades que o abateram não faziam qualquer sentido: Jó 30.19-20 e 23 - Deus jogou-me no lodo. Tenho aspecto de poeira e cinza. Clamo a ti, mas não me respondes; estou em pé, mas para mim não atentas. Bem sei que me levas à morte, à casa do ajuntamento destinada a todos os viventes.

Deus havia escolhido Davi a dedo Davi para ser o herdeiro do trono do rei Saul sobre Israel. Deus desistiu de Saul devido à sua idiotice. Deus instruiu o profeta Samuel para fazer uma chamada de casa de família de Jessé. Davi era o menor da ninhada e nem mesmo seu pai o considerava um candidato ao trono. Jessé falha em não ver o potencial do filho, mas Deus não.

Contudo, após se sentir praticamente rei de Israel, depois de triunfar sobre Golias, depois de ter a confirmação pela unção do profeta, Davi conheceu os porões do submundo. O ponto mais baixo ponto da sua vida foi quando ele precisou fugir da fúria de Saul se refugiando em Gate, e de lá, com medo de ser morto pelo rei desta cidade, afinal Davi matara o seu maior guerreiro, foi se esconder na caverna de Adulão. Davi fugiu para essa caverna como último recurso, onde ficou sozinho e totalmente perturbado. Ao se sentir abandonado por Deus, não tenho dúvida de que ele se fez a seguinte pergunta: É assim que Deus treina o próximo rei de Israel?

Tais são os caminhos de Deus. Os caminhos pelos quais conhecemos a injustiça, vivemos a crise, passamos por isolamentos e as dúvidas crescem exponencialmente. Davi escreveu o salmo 142 para definir exatamente o que sentia nesse momento de sua vida. Derramo perante ele a minha queixa, à sua presença exponho a minha tribulação. Quando dentro de mim me esmorece o espírito, conheces a minha vereda. No caminho em que ando, me ocultam armadilha. Olha à minha direita e vê, pois não há quem me reconheça, nenhum lugar de refúgio, ninguém que por mim se interesse.

Vamos todos entrar na Caverna de Adulão em algum momento da nossa vida. A dúvida pode ser a tal caverna. A perseguição pode ser a tal caverna. A doença pode ser a tal caverna. Luto pode ser a tal caverna. Conflitos nos relacionamentos pode ser a tal caverna. No entanto, não há nenhuma caverna escura o suficiente para nos escondermos de Deus. Charles Swindoll descreve o papel que o isolamento da caverna fez na formação de um líder: Davi foi levado para o lugar onde Deus pode realmente começar a moldá-lo e a usá-lo. Quando o Deus Soberano nos leva ao nada, é para redirecionar as nossas vidas, e não para acabar definitivamente com elas.

É bem certo que alguns de nós vão entrar na caverna de isolamento pelos nossos próprios pecados. Alguns de nós vão entrar por causa do orgulho, da arrogância e da presunção. Mas ainda assim, Deus vai usar a caverna de isolamento para nos livrar da índole que nos levou a tomar decisões que nos levaram para a caverna de isolamento. Deus vai usar esse tempo para moldar as nossas vidas para que elas, nesse processo, tenham o efeito do chamado que ele tem para nós.

A caverna também é o lugar para processar a nossa dor e receber consolo de Deus para as nossas vidas e para o benefício de outros. Os resultados das experiências dos muitos dos servos de Deus que foram colocados na caverna são pérolas do pensamento cristão, como essas: Dn 2.22 - Ele revela o profundo e o escondido. Ele sabe o que está em trevas, e a luz habita com ele. Is 45.3 - Eu te darei os tesouros das trevas e as riquezas escondidas em lugares secretos, para que saibais que eu, o Senhor, que te chama pelo nome. Eu sou o Deus de Israel . Jó 12.22 - Ele descobre coisas profundas das trevas, e traz à sombra da morte a luz.

Não foi a toa que Nelson Mandella esteve isolado numa caverna por vinte e sete anos antes de se tornar o Davi de sua nação e o nosso maior exemplo do quanto de bem a caverna pode nos fazer.

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O Natal de todo dia

E exclamou em alta voz: Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto do teu ventre! Lucas 1:42
Maria e Isabel se alegram, www.worshipsounds.wordpress.com
A impressão que se tem é que os protestantes históricos enfatizam as comemorações do Natal bem mais do que o fazem os seus irmãos católicos. Não se pode observar na maioria das igrejas católicas no Brasil um reboliço tão grande quanto o que acontece nas igrejas protestantes, principalmente nas mais tradicionais. Templos são ornamentados a caráter, autos e cantatas natalinas são exaustivamente ensaiados, crianças são vestidas para representar as passagens bíblicas alusivas ao Natal, tudo isso num clima que se intensifica com a expectativa da ignição das quatro velas que anunciam os quatro domingos do Advento. Realmente não há parâmetros para comparar a comemoração do Natal entre esses dois segmentos do Cristianismo, o que leva muita gente a crer que o Natal tem mais importância para o protestante que para o católico.

Contudo, o que parece ser um ponto a favor das nossas igrejas é, na verdade, um espetacular gol contra. Principalmente porque, diferentemente dos católicos, nos lembramos do Natal somente em uma época específica do calendário, enquanto eles o fazem em várias oportunidades ao longo do ano litúrgico. Basta olharmos com a devida atenção para vermos que uma quantidade grande de festejos, muito deles oriundos do sincretismo com outros credos, trazem a lembrança do Natal para o nosso povo. Não quero aqui discutir os absurdos argumentos dos reformadores atuais da igreja que alegam que não devemos comemorar o Natal por conta de ser originário de uma festa pagã da antiguidade, ou ainda pelo fato da improbabilidade de Jesus ter nascido nessa data. Esses nunca entenderão a importância do simbolismo que há por trás dessa comemoração em todo o mundo. Para estes o verdadeiro sentido da fé deu um salto do último escrito bíblico, até o surgimento da sua denominação. Tudo mais é heresia. Quero falar apenas àqueles para quem a lembrança do Natal ainda reserva algum significado.

Embora aprecie bastante, não vejo a necessidade e nem me sinto capaz de fazer qualquer outra coisa, além de citar as festas do folclore brasileiro, cujo Natal é a grande fonte de inspiração. Festas como: a Folia de Reis, Festa do Divino, as Pastorinhas, Bumba meu Boi e outras se somam a outras tantas oficialmente celebradas por esta igreja, tais como: Epifania, Apresentação do Senhor, Visitação de Maria etc.

Mas eu vim até aqui só para comentar sobre duas celebrações do Natal que independentemente de data ou época são frequentes na boca e no coração dos fiéis católicos. Elas estão representadas na primeira parte da oração da Ave Maria, e no belíssimo cântico Magificat, que embora possuam profundas e inspiradas raízes bíblicas foram banidas de vez das nossas celebrações. A simples menção de qualquer uma delas entre nós se constitui um pecado de alta gravidade.

Talvez seja unicamente pelo fato dessas fantásticas manifestações de fé contidas nas orações de Maria e Isabel estarem na boca de mulheres, o odioso orgulho masculino do cristão tem maquinado, ao longo do tempo, fazendo com que elas fiquem de fora do nosso repertório festivo, tentando apagar de vez a sua lembrança entre nós. Penso que nunca consideraram o quanto elas poderiam representar para o povo simples de nossas igrejas a lembrança permanente do espírito natalino. Não dá para entender como estes símbolos, que na mais pura verdade são os mais verdadeiros, mais contextuais e mais específicos anúncios do Natal fiquem de fora das nossas celebrações.


Não quero agora inventar moda, já estou muito velho para isso, mas pelo pensem na possibilidade de um dia enxergarmos o sentido menos festivo e mais libertador do Natal, e os nossos corações exultarem de alegria ao ouvirmos nas nossas cantatas, juntamente com Noite Feliz e o Aleluia de Handel, o glorioso cântico de Maria, conhecido e reverenciado pelos católicos como o Magnificat.
A minh'alma engrandece o Senhor e o meu espírito se alegrou em Deus meu Salvador
A minh'alma engrandece o Senhor e o meu espírito se alegrou em Deus meu Salvador
Pois Ele me contemplou na humildade da sua serva
Pois desde agora e para sempre me considerarão bem-aventurada
Pois o Poderoso me fez grandes coisas

Santo é Seu nome!

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O fim do mundo I

Jesus respondeu: — Tomem cuidado para que ninguém engane vocês. Porque muitos vão aparecer fingindo ser eu, dizendo: “Eu sou o Messias” ou “Já chegou o tempo”. Porém não sigam essa gente. Não tenham medo quando ouvirem falar de guerras e de revoluções. Pois é preciso que essas coisas aconteçam primeiro. Mas isso não quer dizer que o fim esteja perto. Leia Lucas 21.5-19

A destruição do Templo, Nicolas Poussin em 1637
O mundo de hoje é um barril de pólvora. A tensão entre Israel e Irã parece nunca ter fim. O número de mortos na Síria já se compara ao das vítimas do tsunami. A África nunca conheceu um dia sequer de paz. Será que, como muitos dizem, estes são os sinais de que o fim do mundo está mesmo chegando? Muitos planejam as suas vidas com base neste evento cósmico. Sobre muitos paira este desespero pelo fim do tempo presente. A escalada do mal está frustrando as expectativas de muita gente e causando um enorme e contagiante desânimo. Perguntas que não faríamos anteriormente somos obrigados a fazer hoje: Por que a maldade cresce tanto? Por que as guerras nunca tem fim? Será que este mundo tem importância para Deus? Até quando teremos que esperar a intervenção dele com um julgamento justo sobre o pecado humano?


A situação internacional não nos ajuda em nada, pelo contrário, atrapalha em tudo, pois o começo de uma nova guerra e até de uma guerra mundial é sempre iminente. Isso tudo se torna uma luta pessoal na intenção sermos cristãos autênticos numa cultura secular. Sentimos a angústia daqueles que nos circundam e os nossos problemas cotidianos parecem insuperáveis. O que diríamos, então, se vivêssemos em um país em guerra? Não é de estranhar que muitos pensem que estamos no fim dos tempos. Há momentos em que nós mesmos gostaríamos de ver a volta de Cristo para realizar o último ato do drama da humanidade. Verificamos que o texto de Lucas foi escrito para tempos como o nosso, e para pessoas como nós, mesmo assim não é nada fácil entendê-lo.

Temos que considerar quem era o povo para quem Lucas escreveu seu evangelho. O significado que as suas palavras tiveram para eles e o que elas dizem para nós hoje. Ele escreveu para os cristãos gentios que, por volta do ano 80, estavam sofrendo perseguições terríveis. Também estavam assediados por todos os lados por falsos profetas marcando a data para o fim do mundo. Era essencial que eles compreendessem o que Jesus havia dito sobre o fim dos tempos na sua última semana aqui na terra, pois eram essas as palavras que continham a única fonte de águas limpas para as suas esperanças. Nesse texto de Lucas Jesus nos dá uma palavra clara sobre o fim e nos diz como devemos viver até lá.

Vamos examinar duas facetas dessas palavras, e a primeira é a seguinte: Muitas das coisas que consideramos como o fim de tudo, se vivêssemos nos Líbano ou na Síria teríamos a certeza de que é o fim mesmo, foram apenas um novo começo de Deus. Aquilo que definimos como e espasmo da morte pode ser tão somente o choro de uma nova criança nascendo. Então, mesmo atravessando tragédias pessoais e tragédias globais nós não devemos considerar como o fim. Pelo contrário, nos devemos antecipar, nós devemos estar preparados para o que Deus está pronto a fazer, apesar do pior que a humanidade pode fazer. Este é o impulso da mensagem de Jesus. Ela não traz um otimismo inconsequente e nem um desespero fatalístico.

O otimismo do texto está apenas naqueles que admiravam a beleza do templo: Lc 21.5 - Algumas pessoas estavam falando de como o Templo era enfeitado com bonitas pedras e com as coisas que tinham sido dadas como ofertas.  Jesus nunca deu atenção ao espalhafato daquela que foi considerada a maior das realizações humanas, pelo contrário, ele apontou a sua precariedade: Lc 21.6 - Chegará o dia em que tudo isso que vocês estão vendo será destruído. E não ficará uma pedra em cima da outra. Que profecia é essa? Algumas daquelas pedras pesavam mais de seiscentas toneladas, enquanto que a maior pedra das pirâmides pesa apenas onze toneladas. Não foi a toa que isso desanimou os seus discípulos tanto que eles lhe perguntaram: Lc 21.7 - Mestre, quando será isso? Que sinal haverá para mostrar quando isso irá acontecer? A resposta de Jesus é realista e honesta e no meio dela rompe a esperança: Lc 21.9 - Não tenham medo quando ouvirem falar de guerras e de revoluções. Pois é preciso que essas coisas aconteçam primeiro. Mas isso não quer dizer que o fim esteja perto.

Haverá guerras? Sim! Um país atacará o outro? Sim! Haverá tremores de terra? Sim? Haverá fome? Sim! Haverá epidemias? Sim! E este é o versículo chave para o nosso entendimento: Não tenham medo. Pois é preciso que essas coisas aconteçam primeiro. Marcos, falando sobre o mesmo assunto, disse: Essas coisas são como as primeiras dores de parto. Coisas piores possíveis acontecerão, a destruição do templo é apenas uma delas, e se repetirão várias vezes por muito tempo. Apesar disso não será o fim, por isso não sigam os falsos profetas que dizem que é o fim. Deus nunca estará concluído. 

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Sentar e chorar

Às margens dos rios da Babilônia, nós nos assentávamos e chorávamos, lembrando-nos de Sião. Nos salgueiros que lá havia, pendurávamos as nossas harpas, pois aqueles que nos levaram cativos nos pediam canções, e os nossos opressores, que fôssemos alegres, dizendo: Entoai-nos algum dos cânticos de Sião. Como, porém, haveríamos de entoar o canto do SENHOR em terra estranha? Salmo 137.1-4

Nas águas da Babilônia, Tissot
Frequentemente somos assaltados pelos nossos fantasmas que nos trazem as mais terríveis lembranças do nosso passado. Nós voltamos momentaneamente a sofrer as angústias dos momentos em que estivemos à beira de uma tragédia, com maior intensidade do que as situações trágicas que realmente ocorreram, e tentamos imaginar o que seria de nós se aquele fato se consumasse. Mas a nossa consciência vem em nosso socorro, e faz com que nos sintamos gratos por este livramento novamente. Contudo, a nossa memória não é sempre tão bandida assim. Ela também nos traz lembranças boas, de situações de extrema alegria, nos transporta aos lugares maravilhosos que estivemos no passado, e nos coloca de novo diante das pessoas mais fantásticas que cruzaram a nossa vida. Nessa hora, quem age contra nós e a consciência, fazendo com que mergulhemos numa profunda e amarga saudade. E o que nos resta senão sentar e chorar?

Isso não coisa de velho, pois crianças de dois anos de idade também se sentem assim; não é coisa de gente, porque alguns animais também tem esse sentimento; não é coisa de fracassados, porque mesmo nas grandes vitórias contabilizamos inúmeras perdas e derrotas; também não é coisa da modernidade, porque o salmista há mais de dois mil e setecentos anos já passava por esta experiência e manifesta toda a sua indignação, neste salmo que é a mais exata narrativa de uma tragédia. Isso é a história de cada um de nós que ainda guarda dentro de si um pouco de humanidade.

Como a psicologia chama esta tentativa universal de retorno ao ventre materno? Que nome vamos dar a isso? Melhor dizendo, será que vamos mesmo querer chamar dar um nome a este bem maligno, ou mal benigno, não sei mais? Talvez, quem sabe, alguns se atrevam a fazê-lo na tentativa inútil de dominá-lo mais do que propriamente denominá-lo. Mas como dominar um bandido que nos assalta à noite, no despertar sobressaltado de um sonho. Ou, às vezes, à luz do dia, num acontecimento corriqueiro ou lembrança paralela?

O compositor Billy Blanco era oriundo de uma rica ascendência de judeus poloneses, e como todo bom judeu, desde muito pequeno ouviu e recitou por várias vezes este pequeno e triste salmo da Bíblia Sagrada. Baseados nisso, podemos afirmar com razoável certeza que, inspirado por este salmista, ou de alguma forma influenciado pelo salmo, Billy compôs a célebre música a qual deu o nome apropriado de Canto Chorado, onde ele diz:
O que dá pra rir dá pra chorar.
Questão só de peso e medida.
Problema de hora e lugar
Mas tudo são coisas da vida

Como se pode ver, esse salmo é uma herança da humanidade, e por mais que nos agrida os seus dois versos finais, ele é assustadoramente real. O rev. Jonas Rezende, colaborador fiel e assíduo das minhas incertezas, faz o seguinte comentário: Por essa razão o salmista se encoleriza e pensa na destruição do inimigo. Talvez com outra mentalidade, suplicasse o extermínio da inimizade, do exílio e da guerra. Todos nós participamos, como seres humanos, dessa valsa dos adeuses que desafia a nossa fé.

Vocês me desculpem, mas talvez este blog não fosse o local mais acertado para que eu escrevesse esse meu desabafo. Como adverte a música do Billy, eu sei muito bem que estou acabando com a paciência de vocês, mas é que estou com uma saudade danada do meu neto que se mudou para a Bahia, e não consigo pensar em outra coisa alguma agora a não ser nele. Por isso eu vou dizer a quem me cobrar alguma coisa: Como posso escrever algo minimamente razoável numa hora em que a saudade de meu neto está me matando? Só me resta sentar e chorar.


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Não por quê?, mas como?

E ouvi uma voz do céu, que me dizia: Escreve: Bem-aventurados os mortos que, desde agora, morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, para que descansem dos seus trabalhos, e as suas obras os sigam. Apocalipse 14.13
A morte de José do Egito, Giuseppe Crespi (1665-1747)
Compareci ontem à cerimônia pré crematória do avô de um companheiro de torcida. Fiquei admirado ao testemunhar o clima de tranquilidade, paz e confiança que pairava na capela onde se encontrava o corpo. Pessoas falando com carinho do falecido davam provas da grande admiração que ele conquistou entre todos. Nenhuma lágrima, nenhum sentimento de culpa, nenhum remorso. Apenas a sensação de dever cumprido para com aquele que os deixava. Pesarosos, mas não abatidos; sentidos, mas não desesperados. Um clima que pouco se pode verificar em cerimônias semelhantes. Um clima que pouco se encontra até mesmo entre pessoas de fé em despedidas fúnebres. Diante de tanta solenidade e esperança, confesso que não tive coragem de perguntar se aquela família fazia parte de alguma igreja.


Já fora da capela, o neto nos contava do quanto gostava de assistir aos jogos de futebol sentado ao lado do avô, e do quanto o velhinho torcia pelo Vasco da Gama. O rapaz também nos contou que o avô há quatorze anos convalescia das sequelas de um AVC que havia deixado o seu querido avô tetraplégico e sem fala. Do quanto era ativo antes da doença, e do quanto passou por este longo e traumático período sem revolta ou pessimismo. Falava também do trabalho incansável da sua avó, que praticamente sozinha, dedicava ao convalescente todo o amor, dedicação e cuidado que ele necessitava.

Isso me fez voltar à realidade e pensar novamente no velho dilema da natureza humana, que está expresso em toda a sua extensão na beleza poética e dramática do livro de Jó, na Bíblia Sagrada: a antiga pergunta do por que pessoas boas e inocentes sofrem? Uma pergunta que vem acompanhando a humanidade desde os seus primórdios. A inquietante dúvida que até hoje nem a ciência, em toda a sua progressão, tampouco a religião em toda a sua profundidade, puderam nos apresentar qualquer resposta minimamente aceitável, ou que pelo menos nos deixe esperançosos de que um dia saberemos.

Imediatamente voltei meu pensamento para a capela, para as pessoas que ali estavam e para a situação que se apresentava naquela hora. Num raro momento de lucidez, assim como que atingido por um raio de luz edificante, pude compreender que esta é uma pergunta para a qual a resposta jamais será encontrada no “por quê” ou nas indignações e revoltas que a ele se seguem, e sim no na expectativa contagiante do “como”.

Do como alguém que vive nesse mundo egoísta e insensível, que só se permite contabilizar o lucro imediato, conseguiu exercer por incansáveis e longos quatorze anos, ainda que permanecendo imóvel e mudo, o carisma de granjear carinho, respeito e admiração entre todos os familiares e pessoas à sua volta?

Do como uma família inteira conseguiu, não somente preservar viva e exemplar a memória das realizações e conquistas do seu patriarca, fazer com que as novas gerações, que não presenciaram esta caminhada, o tivessem em tão alto grau de estima e consideração?

Do como é que uma pessoa, também idosa, deixa de lado as suas fadigas, os problemas inerentes à sua idade avançada e abre mão da própria vida e favor de preservar feliz e confortável uma outra vida, que tão somente pode se fazer presente, sem manifestar uma participação ativa ou produtiva pelos conceitos vigentes na sociedade atual.

Bem-aventurado o avô do meu amigo, porque agora descansa em paz. Bem-aventurada essa família que soube tão bem abençoar o estimado ancião com a sua assistência contínua, e que, conta disso, por quatorze anos pode gozar da bênção da sua gloriosa presença.

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Perseguição pode ser um elogio

Quando dentro de mim me esmorece o espírito, conheces a minha vereda. No caminho em que ando, me ocultam armadilha... Livra-me dos meus perseguidores, porque são mais fortes do que eu. Salmo 142
Davi e Urias, II Guercino
Texto do Rev. Jonas Rezende.
Li o episódio de uma crônica de Luiz Fernando Veríssimo. Henry David Thoreau se encontrava preso por tem cometido um ato de desobediência civil contra alguma injustiça do governo norte-americano. Um amigo que foi visitá-lo condoeu-se da sua situação e foi logo dizendo, assim que o avistou: - Henry, o que você está fazendo aí dentro? Thoreau respondeu serenamente e no mesmo tom: - Meu amigo, o que você está fazendo aí fora?

É em situações como essa que eu chamo a perseguição de elogio. Porque significa que não compactuamos com a injustiça, denunciamos o erro, resistimos, pacificamente, ou não; corremos, enfim, o risco e pagamos o preço, às vezes muito alto. Assim, as perseguições e a morte de Sócrates, Jesus Cristo, Thomas More, Gandhi, Luther King e tantos outros, que somam seus nomes àquela galeria de mártires de que nos fala o escritor da carta aos hebreus, terminam por ficar para os torturados, como um involuntário elogio de seus torturadores. Ironias da História.

Essa era a situação que Davi se encontra, quando escreve o presente salmo. Abandonado por todos, escondido em uma caverna, como um bicho, caçado pelos homens que só respiram crueldade. O salmista vive uma aflição tão grande, que argumenta com Deus, como se fosse uma criança: tu conheces o meu caminho, sabes que não fiz nenhuma coisa errada. Entretanto, o rei tem consciência de está só. Apenas Deus se encontra de seu lado e pode libertá-lo. A súplica de Davi é comovente: tira a minha alma do cárcere, para que eu dê graças ao teu nome. Depois de orar, ele se abandona nas mãos divinas. Boas mãos. E vive essa paz interior que é possível, ainda no tumulto da vida.

Mas o salmista em momento algum perde a consciência de que está sendo injustiçado. Sofre porque agiu com correção.

Você sabe? Esse poema me conforta, quando me sinto incompreendido, mal interpretado. Tanta gente já passou por isso antes de mim. E saiu vitoriosa. Davi, o autor dessa página, me dá seu testemunho e, de certa maneira, me faço irmão dele no sofrimento. Acredito que o mesmo pode acontecer com você ou com qualquer outra pessoa, ao receber uma crítica injusta ou quando, por pura maldade, buscam destruir-lhe a imagem e até a própria vida. É uma amarga experiência, mas que redunda, involuntariamente, em elogio.

Você certamente conhece o Sermão da Montanha. Pois bem. Quando Jesus enumera as bem-aventuranças, ele previne s seguidores: vocês serão bem-aventurados quando os perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vocês. Alegrem-se, porque assim perseguiram os profetas que viveram há tanto tempo.

Em outra oportunidade, o mestre preparou seus discípulos até para morrer: bem-aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor, porque descansam de seus trabalhos e suas obras o seguem.

A perseguição injusta é um elogio àquele que é fiel. Faça você também parte dessa comunidade. Não se trata de querer sofrer por masoquismo, mas do doloroso desdobramento de uma vida ética, digna e justa. Imagino o Cristo respondendo ao apóstolo Pedro, que desejava evitar-lhe a morte:

Se me tiram a cruz, não sou Jesus.





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Deus fez II

Bodas de Caná, Gerard Davi (1460-1523)
A resposta está em Deus, porque O que a lei de Moisés não pôde fazer porque a natureza humana era fraca, Deus fez. Ele nos perdoa quando nós confessamos nossas necessidades em vez ficarmos tentando justificar a nós mesmos. A mentalidade moralista, que conheço por experiência própria, uma vez que fui criado no rigor do puritanismo protestante americano, onde só existe o bem e o mal, o certo e o errado, o preto e o branco, é uma realidade que o brasileiro através do seu jeitinho, com toda a razão rejeita. Já nos perguntamos como o povo pode entender o que acontece num culto fundamentalista? Isso não seria um grande problema, caso a nossa mentalidade moralista não nos impulsionasse compulsivamente a mudar os outros. Caso o nosso o nosso julgamento dos outros não fosse sempre destrutivo e ameaçador. Caso a nossa melhor defesa não fosse a condenação de tudo o que não nos é familiar.

Todo mundo tem medo de ser julgado. Isso é um paradoxo. Quando nós queremos fazer o certo, nós nos tornamos juízes do bem e do mal. Óbvio que é assim. Se não fizermos esse julgamento, como escolheríamos entre o bem e o mal? Quando queremos condenar o mal ou louvar o bem, nos tornamos peritos julgadores. Quando temos a necessidade de desmascarar os maus e honrar os justos, tornamo-nos moralistas. Não existe outro jeito, é um paradoxo mesmo. Por conta disso, nós os protestantes tradicionais somos os bons moralistas, a reserva moral da nação, ou danação, não sei bem. Sabemos bem o quanto é bom se achar bom e o quanto faz bem imaginar que está fazendo o bem. O nosso viver no orgulho protestante é constantemente julgar o errado. É impossível para qualquer um de nós não fazer isso. O que não percebemos é que é essa atitude de julgamento que nos faz tão medrosos. É justamente essa atitude de julgamento que nos divide, na nossa vida secular, na nossa própria casa, e na nossa igreja.

Quantos casamentos são destruídos por causa do medo de ser julgado? Obsevem a noiva antes do casamento, o quanto está radiante. Mas por quê? Por causa do milagre do amor romântico? Pode ser, mas há também um milagre está acontecendo. Ela encontrou o homem que não a desaprova. A noiva tem a coragem de contar ao seu amado tudo que vem à sua mente. Ela se abre e conta os seus segredos mais íntimos, coisas que jamais contou a alguém. O seu amado, por sua vez, responde com sinceridade que ela é magnífica, inteligente e encantadora, e da mesma forma lhe expõe toda a sua vida, ou pelo menos quase toda. Isso acontece quando nos sentimos cercados de amor e confiança. Acontece quando não nos sentimos julgados pelos outros.

O problema é quando a Lua de Mel acaba. Quando a esposa nota que o seu marido é bastante egoísta, e ele é. Quando o marido se dá conta de que a esposa se mete em tudo o que ele faz e que fala demais sobre o que não conhece, e ela fala mesmo. Agora um começa a ver o outro como ele é e é aí que começam os julgamentos. Não há mais confissões, não há mais confiança. Cada um se fecha em si com medo do julgamento do outro. Ninguém revela mais as suas fraquezas com medo que isso se volte contra si. Cada um se esmera em reunir provas, se especializa em julgar e se acha pronto a condenar. É aí que o amor acaba.

Da mesma forma nos imaginamos diante de Deus. Imaginamos que ele está sempre pronto a nos julgar e a nos condenar. Para nós ele nunca deixou de ser aquele olho sem pálpebra que está sempre aberto e vigilante. Para nós ele nunca deixou de ser aquele Senhor severo e inflexível. Para nós ele nunca foi verdadeiramente Pai.

Pode ser que alguém interprete de outro modo, mas quando leio o que Jesus disse sobre o julgamento, não consigo entender que julgamos os outros com critérios mais rígidos do que os que usamos para nós. Entendo que os critérios que usamos para nos mesmos, os nossos critérios que entendemos ser os critérios de Deus é que são os mais inflexíveis. Por eles julgamos os outros. Mas quando o coração se abre totalmente para Deus, a sua graça incondicional, arbitrária, universal, eficiente e radical cancela e anula tanto os julgamentos que fazemos de nós quanto o que fazemos dos outros. O amor e a confiança voltam a reinar absolutas. Isso não vem de nós, não vem do que somos, do que fazemos ou do que deixamos de fazer. Vem da graça, vem de graça. O que a lei de Moisés não pôde fazer porque a natureza humana era fraca, Deus fez.

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Deus fez

O que a lei de Moisés não pôde fazer porque a natureza humana era fraca, Deus fez. Romanos 8.3a
Sermão do Monte, Fra Angelico
No livro Graça de Deus e saúde humana, Harold Hellens disse que a graça de Deus é incondicional, arbitrária, universal, eficiente e radical. Incondicional como na parábola do Filho Pródigo. Tão universal quanto à aliança que em Abraão abençoou todos os povos. Radical no sentido de atingir o ser humano quando este se encontra na sua maior indigência e separação. Arbitrária porque, assim como o Espírito de Deus, sopra onde quer e sobre quem lhe apraz. Eficiente porque todo aquele que foi alcançado por ela reivindicou de Deus outra providência.

Assim como a maldade humana, o abismo entre Deus e os homens parece crescer cada vez mais. Não seria leviano afirmar que cada fase da história humana tem conhecido e tem amargado as consequências do seu pecado. Contudo, cada um desses episódios conheceu um final. Um final que afirma sempre que apesar do pecado, Deus continua a cuidar do ser humano. O final é esse: apesar de tudo que temos feito contra Deus e contra o próximo, o final é que Deus continua a nos alcançar com a sua graça.

Até a iniciativa frustrada da Torre de Babel a Bíblia fala da humanidade em geral, mas a partir do capítulo 12 do Gênesis ela passa a focar apenas um homem, sua mulher e sua família. Abraão e Sara começam a viver debaixo da promessa de que a graça somente se consumaria no final da história da sua família. O final da promessa de Abraão anuncia o final da graça de Deus sobre a humanidade. Por esse motivo, Deus age em todo o Primeiro Testamento para restaurar o relacionamento com a descendência desse casal e para fazê-los entender que eles não eram um fim em si mesmos, mas um meio pelo qual a graça de Deus atinge a todas as pessoas.

O povo de Deus sempre teve dificuldade de sustentar em sua história uma teologia bíblica da graça. A percepção da graça foi perdida vez após vez na história. O judeus levaram aproximadamente mil anos para perdê-la; alguns cristãos, menos do que quinhentos anos; e os reformadores protestantes? Nós temos uma tendência natural, que já se tornou até compulsiva, de tentar reter em nossas mãos o controle da justificação. Para nós sempre foi uma questão de mérito. Se andamos dentro da lei, somos premiados, se escorregamos, somos punidos. Se pensamos assim, por que ainda continuamos pecando a despeito dessa equação tão simples? Mas isso está tão arraigado em nosso ser que não conseguimos pensar diferente. Somos assim porque para nós é extremamente assustador aceitarmos a graça gratuitamente. Para nós, religião se transformou em um código que determina aquilo que não podemos fazer. Usamos a Bíblia como se ela fosse um código inflexível de proibições e condenações, e aí, quando reconhecemos a nossa relação estreita como irmão mais velho do pródigo, quando aceitamos a realidade de que não conseguiremos jamais cumprir com todas as exigências da religião, fazemos as coisas se tornarem realmente impossíveis.

Ninguém conseguiu ser aceito por Deus obedecendo um código moral. Essa preocupação nossa de tentar controlar a justificação, de fazer com que a eleição de Deus seja meritória, de isentarmos a nós mesmos de toda a culpa é o que cria a mentalidade moralista. As prescrições de Jesus no Sermão do Monte parecem corroborar com a ideia de que ficaríamos livres de toda a culpa se obedecêssemos este código moral, mas o seu propósito é exatamente oposto. Ele é uma palavra devastadora que condena como homicida a pessoa que jamais assassinou alguém. É uma palavra duríssima que condena como adúltero aquele que diz não tem cometido um ato imoral sequer. É uma palavra perturbadora que revela o ódio da pessoa que tanto se orgulha do seu amor. O Sermão do Monte é uma palavra avassaladora que revela a hipocrisia da pessoa com a sua própria retidão. Ele é justamente oposto a qualquer código moral, porque nos mostra o que está faltando à nossa retidão. Ele diz com todas as letras que é totalmente impossível livramos das nossas culpas através de uma conduta perfeita.

Se a resposta não está em nós, não está naquilo que fazemos, não está naquilo que deixamos de fazer, não está nas boas ou nas ótimas intenções, onde estará então? (continua)


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Gritei e agradeci

Todos vós que a Deus temeis, vinde escutar: vou contar-vos todo bem que ele me fez! Quando a ele o meu grito se elevou, já havia gratidão em minha boca! Sl 66.16s
O poder da oração, Alex Levin (1975-)
Embora hoje em dia se tente de todas as formas, as possíveis e as inimagináveis, provar o contrário, toda a história do Cristianismo nos conta que ele nunca privilegiou uma fé que se baseia única e tão somente em resultados. Confesso a vocês que passo por certas situações em que fico tentado a pensar dessa forma, mas logo me vem à mente inúmeras razões para não fazê-lo. A principal delas é não conseguir imaginar que tipo de desculpa Deus teria que dar aos heróis da fé citados na Carta aos Hebreus, como também para todos aqueles que sofreram e até morreram por acreditarem em simples promessas, sem nunca terem vislumbrado o menor sinal da realidade que lhes foi prometida, assegurando assim, que os seus descendentes pudessem, no futuro, ter a oportunidade concreta de experimentá-la.

No seu sermão A Salvação pela Fé, John Wesley diz que a fé de resultados é a fé circunstancial, a fé que dura mais do que uns breves momentos. Com a visão de um homem do século XVII, ele dizia também ser esta fé a fé dos pagãos, pois assim considerava aqueles que acreditam na lógica da retribuição, pois criam que Deus apenas abençoa aqueles que o buscam. Um tipo de fé que está longe do ideal cristão, pois ainda consegue ser menor do que a fé dos demônios: que creem firmemente que Deus existe, que sabem do que Deus é capaz, tremem diante desta realidade e mesmo assim não se convertem.

No entanto, o salmo citado faz alusão a uma fé de resultados mais que imediatos, pois é assegurado que a resposta do salmista veio ainda antes que acabasse de fazer o seu pedido. Mais autoridade e peso adquirem as suas palavras, quando ele convoca Deus por testemunha, pois o seu salmo se fundamenta em fatos, e não somente em expectativas ou promessas: vou contar-vos todo bem que ele me fez!

Seria o salmo 66 o preferido de todos os que confessam a fé de resultados. Ele contempla não somente a eficácia como também a prontidão da resposta de Deus. Seria, caso as entrelinhas não nos levassem a concluir que a única coisa que realmente aconteceu de imediato foi a gratidão do salmista pela sua confiança em Deus, e não pela resposta ao seu grito de socorro. À medida que analisamos o conteúdo do salmo vamos descobrindo que a situação era de provação extrema, e que o ímpeto imediato do salmista mandava que ele desistisse e se entregasse às evidências: Ó Deus, tu nos puseste à prova. Como a prata é provada pelo fogo, assim nos provaste. Tu nos deixaste cair numa armadilha e colocaste cargas pesadas nas nossas costas. Deixaste que os nossos inimigos nos pisassem. Passamos pelo fogo e pela água,...

É justamente aqui que a fé em Deus tem que fazer toda a diferença. É principalmente na hora do sufoco que ela precisa se revelar ao mundo. É nessa hora que vamos ter que cantar com fé “as tuas mãos dirigem o meu destino e o acaso para mim não haverá”. Porque não é por mero acaso que caímos em armadilhas, que cargas pesadas são colocadas nas nossas costas, que os nossos inimigos tripudiam sobre as nossas fraquezas.

Muitas vezes não entendemos isso. Na grande maioria das vezes ficamos sem saber o por quê disso. Ainda bem que nossa fé não se baseia em resultados, se assim fosse nós já teríamos deixado de ser igreja há muito tempo, porque motivos não nos faltaram para isso. A única certeza que poderemos ter nesta hora não será a certeza da resposta positiva e imediata, mas a certeza com que o salmista encerra o seu salmo: ...ele não deixou de ouvir a minha oração e nunca me negou o seu amor.

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Vai e dize-lhes

Subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus. Leiam João 20,11-18
Jesus aparece a Madalena, William Etty (1787-1849)
A ressurreição de Jesus chamado Cristo assumiu uma dimensão de fé muito mais complexa do que um simples depósito de confiança total e irrestrita em Deus, porque, antes de tudo, ela se valeu exclusivamente do depoimento testemunhal de pessoas que a viram acontecer. Porém, mais do que de suas convincentes pregações, valemos-nos hoje dos resultados práticos apresentados por estas testemunhas: de como suas vidas foram transformadas pela ressurreição, e do quanto se dispuseram a arriscar as suas vidas para anunciá-la ao mundo. Este é um dado tão importante que alguns teólogos muito sérios chegam a afirmar que mais importante que a ressurreição em si é o fato de alguém ter acreditado nela.

O texto que narra o diálogo do ressuscitado com Maria Madalena pode nos dar um indício bastante forte de como é o processo e da dimensão desta mudança de vida. Jesus encontra uma mulher, e é este o termo que usa para chamar a sua atenção, completamente desalentada em meio a um grupo de desalentados. Podemos dizer que mulher, no grego guné, é o radical da palavra genérico, que expressa justamente a ideia de generalidade. Generalidade que foi muito bem traduzida por Milton Nascimento: Uma mulher que merece viver e amar como outra qualquer do planeta. O estado em que a ressurreição de Jesus a encontra reflete bem o vazio que se instala nos corações quando não se tem ou não se vê qualquer perspectiva de esperança. O grupo que andou com Jesus, mesmo os que lhe foram mais íntimos, aqueles que o ouviram falar por diversas vezes desta totalmente nova possibilidade do amor de Deus, estavam, como aquela mulher, completamente arrasados.

Mas Jesus provoca um segundo momento quando a chama pelo nome Maria. Este é um nome que poderia derivar do nome egípcio Mirian, que um dos significados é obstinada. E exatamente isso que Maria Madalena é, aquela que não desistiu, aquela que não abandonou, aquela que não se resignou. Quando Jesus a chama pelo nome o seu estado emocional muda radicalmente. De completamente desesperançada para totalmente assombrada por um milagre do qual não tinha qualquer explicação, mas cuja esperança, mostrada pela sua obstinação, ocultava em algum lugar do coração. Agora não mais uma mulher como outra qualquer do planeta, agora uma pessoa a quem Deus se manifestou dentre tantas. Da desilusão ao espanto, da generalidade à escolha, da morte à vida.

Mas Jesus não para por aí. Jesus faz dela a primeira anunciadora da sua ressurreição: Vai e dize-lhes. Convém lembrar que no hebraico o termo malakhi, usado para designar mensageiro, é a mesma palavra que traduzimos hoje por anjo. É disso mesmo que Jesus a chama: meu anjo, meu mensageiro. Maria Madalena não é mais uma genérica a vagar sem esperança. Não é mais uma assombrada pela ressurreição que decretou a morte da morte. Ela é agora uma anunciadora da vida. Maria está autorizada a falar em nome do ressuscitado, está totalmente capacitada a repetir as suas palavras. Ela mais que viu ou testemunhou a ressurreição. Ela teve a sua vida transformada por aquele breve e totalmente inesperado encontro de fé.

Foi assim com Maria Madalena, com o apóstolo Paulo, com Santo Agostinho, com John Wesley e com tantos outros e outras. É por isso que a fé na ressurreição não é apenas um elemento que pode ou não nos ser dado. Ela é o fator principal da transformação de vidas, que do estado de total desalento foram transmutadas em ícones da esperança de que o mundo novo é totalmente viável. Quando eu era jovem a igreja cantava esta esperança assim:
Onde estou? eu não sei / e nem sei onde estive / e nem onde estarei / mas eu sei que Ele vive!
E como sei que vive / o meu Senhor e Rei, / sei que com Ele estive / e com Ele estarei!
Se há razão que motive / a paz, eis sua lei: / o meu Redentor vive / e eu também viverei! (Gióia Jr.)

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Quanto tempo esperaremos ainda? III

Pentecostes, Antoon van Dyck (1599-1641)
Eles precisavam tempo para confiar em suas próprias experiências com Deus. Jesus sempre foi um mestre criterioso. Ele nunca tentou fazer lavagem cerebral em qualquer dos seus discípulos. Também nunca fez com que os seus seguidores fossem dependentes demais da sua presença. Deu a eles tarefas importantes e as fez cumprir sozinhos, chamou-os de amigos e por várias vezes os fez saber que a sua confiança neles era grande. Mas a partir dali eles precisavam estabelecer outro tipo de relacionamento com o seu mestre.

Na população judaica da época de Jesus havia dois grupos: os não familiares com Deus e os familiares demais. As crianças, as mulheres, os necessitados e os doentes faziam parte do primeiro grupo. Já os anciãos, escribas, sacerdotes e fariseus faziam parte do segundo. Eu acredito que a maioria dos cristãos de hoje faça parte deste último grupo. Assim como os escribas e fariseus da época de Jesus, nós também sabemos tudo que precisamos saber sobre a nossa fé. Isso nos faz familiares demais com as coisas de Deus, e aí está o nosso problema. Assim como Jó no seu primeiro estágio, conhecemos Deus apenas de ouvir falar. Mas não foi assim com os primeiros cristãos. Eles não tinham ninguém mais experiente naquele grupo. Eles não tinham ainda um apóstolo como Paulo. Eles não tinham nem o Segundo Testamento para ler e meditar. Não tinham um livro sequer sobre a história da igreja, porque, de fato, a igreja ainda nem tinha história. A alternativa era confiar nas suas próprias experiências com Deus. Eles tinham que confiar plenamente no seu próprio discernimento de Deus. Eles tinham que firmar a sua fé em cima as respostas que receberam de Jesus sobre seus questionamentos.

Uma das causas, senão a maior, do marasmo em que vive a igreja hoje é a nossa tendência em começar com as respostas que os cristãos do passado nos deram. Ninguém mais quer experimentar, ninguém quer mais se lançar no inusitado. Nós já sabemos como são e como devem ser as coisas de Deus. Nós sabemos tudo sobre a vida cristã porque os mais experientes nas coisas de Deus já nos disseram como ela deveria ser.

Damos sempre graças a Deus pelos nossos heróis e heroínas na fé. Damos graças a Deus pela história da nossa igreja e pela história da Igreja Cristã. Damos graças a Deus pela sua tradição, pela sua participação. Damos mais graças a Deus pelos homens e mulheres que se dispõem a largar tudo e mergulhar numa nova experiência no ministério cristão, indo onde Deus os enviar. Tudo isso é muito válido. Mas deixa no ar uma pergunta: Onde estamos nós neste exato momento? Estamos aguardando na sala de espera? Estamos numa fila? Estamos irritados com Deus por causa disso? Estamos desesperados para começar a trabalhar, para dar início ao nosso ministério? Estamos aflitos para fazer qualquer coisa pelo evangelho? Wesley disse aquela frase quando foi proibido de pregar nas igrejas tradicionais. Subiu no túmulo do seu pai, naquela que era talvez a única propriedade da sua família para falar da universalidade do ministério cristão.

Para aqueles que esperavam que o final desta meditação lhes trouxesse uma resposta sobre o tempo que ainda temos que esperar pela plenitude do Reino Deus, peço meu perdão pelo desapontamento. A minha questão atual é saber quanto tempo ainda vou esperar para fazer o que Deus quer que eu faça.

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Quanto tempo esperaremos ainda? II

Espírito Santo,Conrado Guiaquinto(1703-1765)
Eles precisavam de tempo também para deixar que a fraternidade se consolidasse entre eles. Embora este termo esteja enfraquecido pelo mau uso em várias situações, ainda é o que pode expressar melhor o sentimento de união que deveria haver entre os discípulos. Aqueles judeus, que deram início à obra que hoje chamamos de igreja, precisavam de tempo para firmar a comunhão. Eles já eram conscientes da união que deveria existir entre o povo de Deus, não precisavam desenvolver este aspecto. Nesta nova experiência, eles tinham que viver como Cristo viveu entre eles, acolhendo a fraqueza do fraco, perdoando setenta vezes sete vezes, amando o inimigo e se colocando ao lado do pobre e do perseguido. Precisavam desenvolver laços de confiança irrestrita e de atenção, que seriam a base de todo relacionamento entre eles.

Quase toda religião é marcada por três elementos: o culto, o ensino e o estilo de vida. Isto é o que todo seguidor de um credo deve mostrar aos que não creem do seu modo. A fraternidade está relacionada ao terceiro elemento, o estilo de vida. Sempre existiram e existirão aqueles que vão atrás de qualquer novidade que aparece travestida de evangelho. Quando se fala em novidade religiosa parece que o Brasil se destaca como o maior dentre todos os países. Para um examinador criterioso parece que temos mais variedade de religiões que e Índia e a China juntas. A maioria dos cristãos faz isso porque é incapaz de discernir o ensino teológico e o culto cristãos. Cada um se acha no direito de fazer a seu modo. Por que, então, vamos atrás daquilo que nem entendemos? Por causa o estilo de vida, é claro. A maioria vai atraída pela fraternidade oferecida pelo grupo.

Outra coisa que detesto tanto quanto esperar é quando alguém tenta me convencer que o seu evangelho é o correto. Detesto também o ensino dos colecionadores de curiosidades bíblicas, principalmente quando se aclamam profundos conhecedores dela. Até hoje não consegui decorar a ordem dos livros da Bíblia, nem do Segundo Testamento, que é menor. Durante muito tempo eu me senti diminuído, porque todo mundo sabia esta ordem até de trás pra frente. Para orar, então, eu era um desastre. Diante tudo isso, nada me restava, senão me sentir fora, descrente e não cristão. Mas eu comecei a entender um pouco do que era evangelho a partir desta frase de John Wesley: O mundo é a minha paróquia. Ou seja, absolutamente ninguém está fora, nem que queira. Basta apenas estar no mundo para fazer parte dela. Pelo menos uma coisa eu aprecio neste pessoal que tenta converter os outros na marra, eles realmente incomodam quando tentam nos apresentar as suas convicções.

A fraternidade não é resultado de almoços e festas na igreja. Não é resultado de cafezinho após o culto. Não é resultado do futebol ou de fazer parte do grupo de louvor. Ela é resultado do amor que é cultivado entre os membros. E foi para aprofundar esta união entre os discípulos, as mulheres que acompanhavam Jesus, e até mesmo sua mãe, Maria, que eles receberam a ordem de esperar em Jerusalém. Eles, que estavam se sentindo individualmente inúteis, impotentes e abandonados, tiveram que esperar até que a sua fraternidade fosse fortalecida. A maior descoberta na valorização do deficiente foi integrá-lo à sociedade. O elemento principal que faltava para a auto aceitação destas pessoas eram as outras pessoas. Somente uma congregação, uma família ou um grupo podem ajudar a uma pessoa indecisa e perdida encontrar a sua própria identidade. A nossa responsabilidade como congregação cristã é receber e aceitar os outros como eles são, e talvez esteja aí a nossa maior obrigação. (continua)

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Quanto tempo esperaremos ainda? I

E, comendo com eles, determinou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, a qual, disse ele, de mim ouvistes. At 1.4
A última ceia, Tintotetto
A vida nos faz sentar na sala de espera nas horas mais inoportunas, e isso é algo que simplesmente detestamos. Talvez só exista uma coisa pior do que esperar, é esperar na fila. Por conta disso, qualquer um de nós pensa imediatamente em desistir, mas nem sempre podemos. Jesus numa hora crucial da vida dos seus discípulos mandou que eles fizessem justamente isso: esperar. Logicamente que isso não foi bem recebido e nem bem compreendido. Considerem a situação: Eles tinham estado numa boa com Jesus. Para o acompanharem durante três anos em seu ministério libertador, eles tinham dado a ele tudo que tinham e tudo o que podiam. Tinham deixado suas famílias, seus bens e os seus sustentos, convencidos intimamente de que a verdade estava nele e pelas vidas que haviam sido transformadas diante dos seus olhos.


No espaço de uma semana esse mundo maravilhoso desmoronou. Quem antes vira seu mestre ser aclamado como Messias, o via agora pregado numa cruz entre dois ladrões. Eles estavam por baixo, desanimados, derrotados e quem sabe até desesperados. Aí aconteceu o inimaginável, Cristo estava vivo. Deus o tinha ressuscitado. Nada mais os impedia de sair pelo mundo e o transformarem radicalmente. Eles sabiam que esta era a boa nova que deveria ser anunciada, e também queriam correr para compensar as suas falhas durante a paixão e morte de Jesus, quando o abandonaram. Eles estavam prontos, mas Jesus os manda esperar. Isto é o que diz o nosso texto. Que ordem insuportável é essa? Será que não há cegos precisando enxergar, aleijados que precisem andar ou pobres que precisem conhecer o evangelho? Mas ordem era esperar em Jerusalém semana após semana até o dia de Pentecostes. Onde estava a sabedoria desta espera?

Primeiramente, eles precisavam refletir sobre a natureza do Reino de Deus, pois, como Jesus mesmo disse, ele é difícil de achar, ele é bastante evasivo. Ainda que Jesus falasse exclusiva e exaustivamente sobre ele, o Reino de Deus, até hoje, continua a ser muito difícil de ser compreendido, continua, do mesmo modo, evasivo. Eles tinham que compreender que o Reino de Deus é segundo o Espírito de Deus. O modelo de vida que eles tinham era o do Império Romano, que saía pelo mundo para conquistá-lo e dominá-lo pela força, é também o nosso modelo. Esse é o militarismo está presente até nos nossos hinos tradicionais: “Avante, avante ó crentes, soldados de Jesus”. Esse é o Vini, vide, vince (vim, vi e venci) da filosofia. Eles tinham que compreender que o Reino de Deus não exigia o domínio absoluto sobre outros credos e nem a conquista de desmesurada de adeptos, mas deveria fazer com que as pessoas passassem a sem guiadas pelo Espírito.

Outro fato que precisava ser compreendido é que o Reino de Deus possui força própria. Ele não pode ser possuído, conduzido e nem controlado por ninguém. Até gostaríamos de fazer, mas não podemos não. Gostaríamos de fazer todo joelho dobrar e toda língua confessar que Cristo é o Senhor. Mas o Reino de Deus não é moldado desta forma. Então o que podemos fazer? Somente deixá-lo acontecer. Somente descobrir os seus sinais onde e quando eles aparecem. Existe um abismo de diferença entre tentarmos expulsar os males do mundo, agindo como se fôssemos sozinhos e imprescindíveis e atacarmos esses mesmos males entendendo que estamos no conflito, mas que a luta é de Deus. A briga é dele, não é minha e nem sua. Agimos como se não soubéssemos disso, e os nossos estudos, nossas orações e nossas pregações caminham no propósito de tomarmos conta do Reino e fazê-lo acontecer em nosso tempo, segundo a nossa vontade. Mas o Reino de Deus tem o seu próprio tempo, a sua própria vontade. (continua)

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Ovelhas sem pastor

Ao desembarcar, viu Jesus uma grande multidão e compadeceu-se deles, porque eram como ovelhas que não têm pastor. E passou a ensinar-lhes muitas coisas. Marcos 6.34

Ovelha perdida, Bill Garrison (1924-2005)
Pode ser que estejamos dando a devida atenção à realidade com a qual Jesus se sensibilizou neste episódio; pode ser que a preocupação maior da igreja de hoje seja engendrar um meio para trazer estas ovelhas desgarradas de volta ao rebanho; pode ser também que se analise a fundo as causas que levaram as tais ovelhas a se desgarrarem; e pode ser ainda que certas práticas e doutrinas desgarrem mais do que propriamente agreguem, mas nada dissimula o fato de que a esmagadora maioria das ovelhas que a humanidade gerou até hoje, continua sem pastor.

Não é sem razão que um parente próximo, agnóstico convicto e extremamente culto, está promovendo uma campanha para desovelhização da humanidade. Sua proposta encontra respaldo na prática que é comumente realizada pelos pastores de ovelhas desde sempre. Diz ele: Um pastor leva suas ovelhas para onde quer: pasto bom ou ruim. Por vezes, nem sabe mesmo onde as está levando. O certo é que o interesse do pastor é tosquiar suas ovelhas (para enriquecer materialmente) e, quando não mais prestarem, um sacrifício cruel as espera. Nada a reparar ou a contestar, é isso mesmo que acontece com as ovelhas ou com qualquer outro animal domesticado que possa ser relacionado como bem material. Quer se diga ovelha, quer operário, a verdade é mais ampla, pois nem mesmo homem, por mais desovelhizado que seja, consegue escapar da realidade do custo benefício.

No entanto, não é bem deste assunto que estamos tratando agora e aqui neste blog. Vejo bem claramente que a proposta inicial do Cristianismo contempla satisfatoriamente as necessidades detectadas nas duas faces da questão. Tanto a condução segura e altruísta da ovelha, quanto à desconstrução da ideologia que formou este ser que docilmente é levado ao sabor dos interesses econômicos de terceiros. Tudo se baseia no fato de Jesus ter se compadecido desse grupo. Jesus não teve pena. Jesus não lamentou o fato. Jesus não responsabilizou o governo ou qualquer pastor presidente local. O segredo que leva à desovelhização e à reconstrução de um ser íntegro e dotado de capacidade e liberdade começa justamente pelo compadecimento.

Muito embora possua vários sinônimos, compadecer significa padecer com, sofrer junto, sentir na pele a mesma aflição e angústia que o desorientado está sentindo no limiar do seu infortúnio. Os muçulmanos estabeleceram o tempo do Ramadan justamente com o intuito de restabelecer vínculos familiares e sociais. Este povo não somente faz jejum de alimentos para conhecer o que é a realidade de quem tem fome, mas se abstêm também dos prazeres, para conhecerem de perto a realidade dos marginalizados. A proposta de Jesus segue nesta direção, pois aquele que é chamado para estar à frente de um rebanho, é chamado ao mesmo tempo para dar a vida pelas suas ovelhas. É chamado para ser o primeiro a sentir as consequências do mal que ameaça as ovelhas.

Paulo entendeu tão bem esta proposta de Jesus, que mais tarde vai estabelecer critérios rígidos sobre a prática pastoral: Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós. Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos. De modo que, em nós, opera a morte, mas, em vós, a vida. (II Co 4.7-9 e 12)

O Cristianismo condena severamente o caudilhismo. Não precisamos de mártires nem de salvadores da pátria. Já temos o nosso. Entendemos que Deus anda atrás de homens e mulheres que se disponham a dar as suas vidas pela causa maior da humanidade. Que Deus anda atrás de homens e mulheres que se coloquem à frente da muralha quando esta desaba pela força do inimigo. De pastores ovelhistas o mundo está cheio. Estão faltando aqueles que se dispõem a lutar a batalha inglória de tirar da boca lobos ainda que um sangrento pedaço de pele da ovelha destroçada. Aqueles que se compadecem daquelas que se perderam e foram devoradas.

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Quando a Tristeza Chega (final)


3. Lembre-se que Deus está fazendo com as tristezas dele exatamente o que pede que você faça com as suas.  Deus, sendo amor, tem que suportar o peso do amor. É da natureza do amor compartilhar os sofrimentos de tristezas das pessoas queridas.
O amor toma para si o fardo da pessoa amada. Dessa forma, Deus sofre com os nossos sofrimentos, padece com nossas mágoas e nossos pecados o ferem. E o que faz com suas tristezas? Deus as usa! Transforma-as em redenção. A cruz nos ensina essa verdade. Posso adorar, amar e seguir a Deus, cujas mãos foram pregadas na cruz. Não me pede que eu faça o que Ele não fez. Ele me mostra como transformar o pior no melhor, e como usar a própria calamidade. Se Ele redime o mundo por meio da cruz, assim também posso transformar as minhas tristezas em redenção - para mim e para os outros.

4. “Tome o que você tem e faça algo mais”.
 Esse pensamento é a síntese da filosofia de vida do Dr. George Washington Carver, santo, cientista e educador, que tomou a escravidão, a pobreza e a desilusão, e as transformou em uma das maiores contribuições para a vida americana. Não lamente aquilo que você não tem; tome o que você tem e faça alguma coisa a mais. José tomou a iniquidade que lhe fora feita e a transformou em alimento para o Egito e para os próprios irmãos que o venderam como escravo (Gênesis 43). Poderia ter-se consumido na tristeza da escravidão, remoendo seu ressentimento. Mas ele transformou o mal em um glorioso bem. Conheço uma jovem que, tendo ficado com o rosto desfigurado, transformou-se em uma das mais belas vidas que conheço. Decidiu viver “a despeito de”! É uma das pessoas mais capazes que trabalham junto à mocidade americana.

Há uma famosa estátua no México, esculpida por Jesus Garcia, com o título “A despeito de”. A obra ainda estava na metade, quando o escultor perdeu a mão direita. Determinou-se a terminá-la. Aprendeu a trabalhar com a mão esquerda, e a terminou - melhor talvez do que teria feito com a mão direita, porque um atributo essencial da vida transferira-se para a estátua. Por isso a chamaram e estátua “A despeito de”. Quando não se pode viver “De acordo com”, sempre é possível viver “A despeito de”.

Quando começou a Segunda Guerra Mundial, algumas pessoas me perguntaram: “Como pode o senhor ainda ser feliz? O senhor que se empenhou ao máximo em evitar a guerra e viu seus esforços frustrados”! Minha resposta foi: “Se não me é possível ser feliz ‘de acordo com’, sempre serei feliz ‘a despeito de’. Essa possibilidade sempre está aberta”.

 “Tome o que você tem e faça alguma coisa a mais”. Se o que você tem é tristeza, oferece-a a Deus e faça dela um cântico. Se forem contrariedades, faça então o que a ostra faz quando um grão de areia penetra em sua concha e a machuca: ela o torna o centro de uma pérola. Dê às aflições que o atormentam as cores alegres do arco-íris.

5. Se você proceder dessa forma, então aprenda a contar com os recursos de Deus. Aprenda a orar.
Talvez você esteja incapacitado pela tristeza de prosseguir sozinho. Está certo. Mas você não está sozinho: Você e Deus, juntos, poderão realizar a obra. Vá a um lugar à parte e, na serenidade do lugar, retire as barreiras, livre-se da ansiedade e deixe que o refrigério de Deus percorra todas as fibras de sua alma ferida. Ele o invade - Ele o ampara - Ele o reergue - Ele lhe dá asas. Ele o transforma em uma criatura vitoriosa. “Contanto que”- esse é o ponto - contanto que você entregue a tristeza e a desilusão em Suas mãos que tudo curam. Não a guarde. Se você a conservar dentro de si, a tristeza contaminará todo o seu ser. Deixe-a com Ele - para sempre!

Seu sofrimento agora é “uma dor que foi entregue a Deus para orientá-la”. Um padecimento com a orientação de Deus. Uma dor orientada por Deus já não é mais uma mera dor. É uma dor como a do nascimento de uma criança - ela traz consigo algo maior. É uma dor benéfica. Seu sofrimento se transforma em um hino triunfal. 

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Quando a Tristeza Chega III

Stanley Jones na Índia em 1973
(Trecho do livro do rev. Stanley Jones  (1884–1973), missionário metodista)
2. Suas dificuldades podem não resultar de seus próprios pecados e atitudes errôneas; podem ser inteiramente imerecidas. Jesus deixou claro que o sofrimento pode não ser prova de pecado. Ele disse que as pessoas sobre as quais a torre de Siloé caiu - acidente da natureza - e as pessoas cujo sangue Pilatos misturou com os seus sacrifícios - ação errada dos homens - não eram mais pecadoras do que todas as outras (Lucas 13.1-5). Jesus deixou lugar para o sofrimento imerecido. Mas parou aí? Absolutamente não. Disse que o sofrimento injustificado não deve ser meramente suportado, mas poderá ser aproveitado.

Decida fazer com que a sua tristeza o ajude - e também aos outros. Aqui está um modo positivo e atuante de se tratar com a tristeza. Assim agindo, você não foge dela, nem a “deixa como está para ver como fica” - mas a usa. O prof. William James, psicólogo americano, diz que  “essa maneira positiva e atuante de tratar com a tristeza dá nova dimensão à vida”. Quando a vida é dificultada e frustrada pelo sofrimento, há sempre uma saída, uma nova dimensão para a vida.

Qual é essa nova dimensão da vida?
Não é nada menos que o poder de aproveitar o sofrimento para alcançar a finalidade da existência, e transformá-lo em virtude e vitória. Isso não é mera filosofia de vida. É a própria essência da fé cristã - o modo autêntico de viver.

A ideia de que a fé cristã oferece uma fuga ao sofrimento é inteiramente estranha a essa fé. É verdade que o modo de vida cristão faz com que vivamos mais de acordo com a natureza da existência e, por conseguinte, nos livra da dor e da contrariedade que causamos a nós mesmos quando esfolamos a canela contra a realidade dos fatos.

Mas, enquanto nos livra dos resultados da loucura de uma vida desordenada, nos expõe a outro sofrimento de natureza diferente: a sociedade exige conformação. Se estivermos abaixo de seus padrões, ela nos pune. Se nos erguermos acima de seus padrões, ela nos persegue. A sociedade exige a conformidade média. Mas o cristão tem seu padrão mais elevado - ele é diferente. Por ser diferente é visado - é mal visto. Muitas vezes, perseguido. Isso causa sofrimento.

Há outra causa de sofrimento para o cristão. O contato com Cristo o torna sensível aos sofrimentos dos outros, e começa a perceber e a se preocupar em uma escala cada vez mais ampla. Participa dos sofrimentos dos outros, e realmente faz deles os seus próprios.
Além dessas duas circunstâncias do sofrimento, o cristão participa com o restante da humanidade dos males habituais da vida em um mundo como o que vivemos: morte de entes queridos, perda de saúde, perda de amizades, desapontamentos no amor, malogro de seus planos, frustrações que se originam do viver em um mundo incompleto.

Em um mundo incompleto ocorrem coisas que nos desiludem e, se deixarmos, nos destruirão. Esse é o ponto: - se deixarmos. Nossas reações a essas coisas determinam, em grande parte, o resultado. Não é o que nos acontece, mas como procedemos com o acontecido é que determina o resultado. Uma mesma coisa acontece a duas pessoas: uma fica de mau humor e a outra permanece serena. A atitude interior determina o resultado.

Estive em uma cidade onde a lembrança de um homem se espalha como uma suave fragrância, alcançando todas as coisas. Esse homem foi o Dr. James “Adorável” MacGiffert, um matemático cego. Por muitos anos lecionou em uma escola técnica, mas em seu magistério realmente ensinou a ciência do viver. Sempre que os bacharéis daquela escola perguntavam por sua “Alma Mater”, faculdade onde se formaram, a primeira pessoa por quem indagavam era do amigo cego e professor. Ele ensinara matemática, mas, antes de tudo, os ensinara a serem homens. Um de seus alunos havia perdido completamente a vontade de estudar e, já homem feito, era quase analfabeto. Esse mestre, cego, de tal forma o inspirou e o estimulou que agora também é professor.

A palavra “Adorável” foi afetuosamente acrescentada ao seu nome pelos amigos, pois todas as coisas para esse cego eram “adoráveis”. Ele sempre usava essa palavra e, por essa razão, a acrescentaram ao seu nome. A cegueira o atingiu, mas o encanto de sua personalidade o tornou, a ele e aos que estavam ao seu redor - “adoráveis”. Isso é ser vitorioso.

Um médico aplicou uma injeção contra tétano em seu filho, que havia caído sobre arame farpado. Posteriormente a criança veio a falecer em seus braços. Esse acontecimento poderia ter enchido de amargura o casal, mas, ao invés disso, levou-os à decisão de dedicarem suas vidas às crianças desamparadas. Essa escolha foi o ramo de árvore que, lançado às águas amargas de Mara, as tornou doces (Êxodo 15:25). Enfrentaram a calamidade com tal disposição de espírito que a transformou em devoção.

Um famoso cirurgião e seu filho estavam operando um paciente, quando o pai desfaleceu junto à mesa de operação, vitimado por um ataque cardíaco. O filho viu de relance que nada poderia fazer por seu pai; assim, sem um minuto de hesitação terminou com êxito a cirurgia que o pai começara, e depois fez o que era possível para o morto. Esse filho nunca demonstrou tanta grandeza como, quando na interrupção pela morte prosseguiu, dando atendimento seguro ao vivo. Não teve tempo para tristeza inútil e infrutífera. A melhor assistência que poderia prestar ao pai, vitimado pelo enfarte, era prosseguir de onde havia interrompido.

Um médico estava atendendo o nascimento de uma criança, quando lhe comunicaram que sua esposa estava à morte, devendo ir imediatamente, se desejasse encontrá-la com vida. Não podendo abandonar a situação encontrada, prosseguiu até que a criança foi trazida com segurança para o mundo. Depois retornou à sua casa para encontrar sua esposa morta. Estou certo que a esposa teria concordado que fizesse o que fez, e teria ficado extremamente orgulhosa com seu procedimento.

Em ambos os casos, o dedicar-se a algo além de si mesmos os fez vencer a agonia da perda e alcançar um proveito muito mais amplo.

David Livingstone, missionário escocês, sepultou a esposa na África e encontrou, ao servir os desvalidos daquela terra sofredora, um conforto para seu coração ferido. Isso é ser vencedor.
Há um ditado que diz: “Quando o destino nos joga um punhal, há duas maneiras de segurá-lo: pela lâmina ou pelo cabo”. O destino nos lança, inevitavelmente, um punhal - ninguém escapa. Se o segurarmos pela lâmina, nos feriremos, mas se o segurarmos pelo cabo, poderemos usá-lo como instrumento de defesa. Tudo depende de nossa mente. A reação determina o resultado.

Quando a vida colocou uma cruz diante de Jesus, Ele tomou o que de pior lhe podia acontecer e a transformou no que de melhor poderia ocorrer ao mundo. A cruz era pecado - exclusivamente pecado. Ele, porém, a transformou em instrumento de redenção do pecado. Era ódio, e Ele a transformou em revelação do amor. Representava a privação da vida, a palavra mais tétrica e cruel que podia ser proferida. Jesus a transformou na palavra mais nobre para a redenção proclamada por Deus.

Ele não apenas suportou a cruz - Ele a utilizou! Uma religião com uma cruz em seu centro não oferece mero consolo, nem simplesmente estanca lágrimas. Oferece poder moral e espiritual, que transforma tristeza em cântico, e o Calvário em manhã de Páscoa.

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